Calendário

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Faz-te sentir na antevéspera de uma manhã cálida que prenuncia o esgar de uma terça

Feira/Na vida de quem entrevê o descoser de uma bainha flácida e improvável

Faz-te ver no medo de quem desengatilha a arma banal e tépida, ainda que o cheiro de pólvora serpenteie pelo

Ar

Está na pele luzidia de uma maçã rotunda, que devolve em cortesia o sorriso de uma criança em sua superfície

Faz-te ouvir a quem está de prontidão, silêncio que equaliza o ruído do mundo, ainda que atropele vogais e zombe da prosódia urbana

Faz-te derretida, fogo pálido e rasteiro, quando represas todo pulsar entre teus dentes e implode o desejo de um gozo baldio

É quando, arredia, revida na boca de quem prova a tua dualidade o retorno modorrento ao vazio

Já é segunda-feira

PS

nevver:Fan Ho

F. é cerol no ouvido, veneno granulado esfoliante e adstringente.

A depender da situação, F. pode ser o líquido âmbar que se desprende de ostras amanhecidas.

Como se fosse obrigação, F. finge desembaraço apenas para implodir em seguida um sorriso rasteiro, a baba remendada gotejando na alça de seu sutiã carmim.

Não fosse tão inadequado, F. seria a luz neófita das oito da manhã, translúcida e ridiculamente opaca dali a duas horas.

Se avisada com antecedência, F. é o meio-certo na prova de matemática, coseno estéril de uma reta altiva como todas aquelas que nos fazem renunciar à curva.

Me constrange dizê-lo, mas F. por vezes é a fachada art déco de um centro cultural erguido pela lei rouanet.

F. ainda não sabe, mas será o ps jamais escrito em um bloco timbrado de um hotel marroquino.

Se tudo der errado, ela estará lendo estas linhas daqui a seis meses, mas aí já será tarde demais.

Coração vibra

Com uma lima exageradamente afiada, Renê raspa as bordas de um vidro fumê. A ferramenta cisma em escorregar de suas mãos, mas ele executa a tarefa com uma precisão notável para quem nunca havia empunhado um instrumento daqueles antes. Depois de cinco minutos, ele passeia o dedo indicador pelo grande raio circular para certificar-se da qualidade do serviço. Nenhuma ranhura, nenhuma lasca. Um sorriso quase lhe escapa, mas ele se recorda a tempo que está há três dias sem urinar. Desde segunda-feira, nada o proíbe de aliviar-se no banheiro mais próximo. Ocorre que Renê desenvolveu uma técnica própria depois que foi diagnosticado como persona fleumática por sua terapeuta, uma asiática rotunda a quem ele recorria sempre que se masturbava pela manhã – à noite, Dona Cecília lhe parecia aborrecida demais para algo tão descompromissado, mas fundamental, como uma punheta. 

Sempre que está prestes a tomar uma decisão importante, Renê para de urinar. Como explicou certa vez a um amigo, depois de um certo tempo a vontade fisiológica de ir ao banheiro – “o período varia de pessoa para pessoa”, sublinhou Renê – evolui para um descontrole emocional, dificuldade de concentração e, o mais importante, raiva. A urina represada despeja raiva suficiente em seu corpo para compensar a fleuma que costuma fazer de Renê um sujeito inofensivo. Mas o corpo tem limites, até mesmo o de um sujeito abnegado como ele – certa vez, depois de quatro dias, a urina espalhou-se pelas suas calças à sua revelia. Dali para frente, ele concebeu algo para evitar que o corpo o atrapalhe. A ponta de uma fina cânula é encaixada na sua uretra e serve como uma espécie de tampão para evitar futuros incidentes desagradáveis. 

blog

A partir do segundo dia sem urinar, os delírios costumam ser comuns, decorrentes talvez do estado febril em que o corpo começa a operar. 

A campainha toca. É Paola, irritantemente pontual. Renê a recepciona sobressaltado, mas ela não percebe. Mastigam a mesma cantilena dos últimos quatro anos de namoro e, quinze minutos depois, estão transando. Paola envelheceu bastante nos últimos meses. Sua pele já não apresenta o mesmo viço exuberante de quando ambos se conheceram. E o seu corpo começa a acusar a proximidade dos 30 anos. Mas seria exagero dizer que ela não é uma mulher atraente. Possui aquele porte que caracterizam as mulheres inatingíveis, um sopro de arrogância equalizado a uma fragilidade descortinada apenas em algumas situações, e nunca por completo. “Uma diva”, repetia Renê no começo de namoro, para desespero de Paola, que considerava o elogio uma das coisas mais cafonas que já ouvira. 

Correm para a cozinha, enrolados um ao outro, tropeçando nas cadeiras. Renê deita a namorada no chão, abre a gaveta do armário e balança no ar uma algema prateada. Ela ri e aponta seus dois punhos colados na direção dele. Ele puxa os braços dela para trás e a algema. Estão a dez centímetros do fogão. Paola acha estranho, e melhor não comentar, mas a tampa do forno está furada bem no centro. Renê empurra a cabeça da namorada para dentro do fogão, liga o gás na vazão máxima e começa a penetrá-la. Paola se debate, grita, esperneia, diz que está grávida dele, mas Renê a controla com firmeza. Dois minutos depois, seus movimentos começam a se espaçar e afinal ela desfalece. O namorado só sai de dentro dela para buscar uma caneta de ponta porosa em seu quarto. Será que ainda daria tempo de reanimá-la? Ele olha para a cabeça dentro do forno, os cabelos com estilhaços de vidro, o joelho direito apontando para cima, os dedos dos pés retesados. O apartamento flutua em silêncio. Ele se ajoelha, acaricia as costas da namorada e, com letras trêmulas, escreve em suas costas um poema de Verlaine, a tatuagem que ela sempre quis, mas nunca teve coragem de fazer. Levanta-se, vai até o banheiro, urina como se não houvesse amanhã (talvez não haja), repousa sobre o aparador da sala o dinheiro de Dona Valéria, a empregada gentil e cortês que Paola lhe arrumou para fazer faxina todas as sextas no apartamento – “uma vez por semana é o mínimo, Renê”, Paola o advertira. 

Renê acende uma vela ao lado do corpo da namorada. Ajoelha-se, pela terceira vez naquele dia. Afunda seu rosto nos quadris de Paola, esquece seus dedos por entre os cabelos dela, beija-lhe os tornozelos e afinal sorri. Está verdadeiramente feliz. Por dez segundos nada no mundo pode te foder.

Coração sua

– Eu só queria que você estivesse mais disposto a…

A bateria do celular acaba. Renê pressiona com raiva o botão para ligar o aparelho. A foto da tela inicial se sustenta por dois segundos, esmaece e dá lugar à escuridão do touch screen, marcado por digitais de dedos engordurados. 

Parado na esquina da São João com a Conselheiro Botelho, Renê avista do seu lado direito duas garotas conversando. Pareciam putas, mas elas bebiam cerveja. Riam tão alto que até assustaram uma velha senhora, que olhava com aflição para o semáforo. Do outro lado da avenida, um senhor caça nos bolsos da jaqueta um trocado para dar a um moleque de rua e um mendigo ajeita pedaços de madeira, jornal e papelão para fazer uma fogueira dentro de uma lata de tinta. Nada fugia do habitual naquela fria noite no bairro da Santa Cecília.

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Renê encosta o carro na frente de uma loja de móveis antigos. Corre para o orelhão, diverte-se com os anúncios de prostitutas colados no telefone e disca o número de Paola. Não consegue completar a ligação. Põe a cabeça para fora, olha para os lados. Vê um senhor se aproximar. O rosto miúdo é tracejado na diagonal por um sulco profundo e avermelhado nas bordas. A boca esconde dentes desalinhados e sustenta um cigarro próximo do fim.

– Amigo, o carro é seu?

– Sim, por quê?

– Não é mais. Sobe.

– Leva o carro, mas me deixa aqui.

– Sobe. 

Já no banco do passageiro, o senhor desfaz o nó de uma sacola plástica amarela. Pede licença para pôr um CD. É um audiobook com lições de Francês, o volume três de uma dessas coleções sempre à venda nas bancas de jornal. Retira balas de gengibre de um envelope pardo. Oferece a Renê, que recusa e se exalta. Grita, exige explicações e ameaça bater com o carro em um poste.

– Não faça isso, meu querido. Fique calmo, por favor. Deixe eu me apresentar. Meu nome é Leonardo, sou professor aposentado e há três anos faço isso para ganhar a vida. Levo carros encomendados para um galpão em Moema. Se você colaborar, o procedimento vai durar uma hora e eu não vou te roubar mais nada. Você tem seguro, não tem? Então, relaxa e pega a saída pra 23 de Maio aí na frente.

Serge tenta pedir um refrigerante numa lanchonete parisiense. Enrola-se na hora de pronunciar a palavra, mas a garçonete rapidamente percebe o mal entendido e o corrige com cortesia. O narrador pede para que o ouvinte repita três vezes o diálogo. Leonardo obedece à risca. 

– Filhos, esposa, namorada…?

– Namorada. 

Renê reduz a velocidade e aponta para o marcador de temperatura. O carro está superaquecido. Antes de descer, Leonardo dá pausa no CD e aciona o pisca-alerta.

– Tem que fazer a manutenção, filhote. Ver o nível do óleo, pôr gasolina em posto de confiança. Agora a gente tem que arrumar água e esperar pelo menos meia hora até ele esfriar.

– Deixa eu ir embora, por favor. Eu preciso falar agora com minha namorada.

– Hum, problemas, é?

– Pois é.

– O importante é que ela te ame, o resto se ajeita com o tempo.

– Eu não sei se ela me ama…

– A gente descobre em uma ligação.

– Você é vidente agora também?

– Confia em mim.

– Olha… a gente não tem porra nenhuma pra fazer mesmo… 

Com esmalte fresco nas unhas, Paola segura o telefone com dificuldade. Ela sacode a cabeça para livrar-se dos fios de cabelo que caem nos olhos. Tomara que seja engano.

– Alô?

– Paola?

– Sim, quem é?

– O cara que vai mudar seu destino.

– Eu não tô a fim de palhaçada a essa hora, ok.

– Seu namorado fica lindo com uma arma dentro da boca.

– Quem tá falando, quem tá falando?!

– Call me Serge, mademoiselle.

– O que você quer? Pelo amor de Deus, não mate ele!

– É simples: basta que você responda corretamente a uma pergunta.  

Com a mão esquerda, Leonardo tapa o telefone. Executa o gesto com tamanha agilidade que parece repeti-lo várias vezes por dia. Enquanto despeja água no reservatório, pede para Renê dar a partida. Dentro do carro, ele pisa na embreagem e engata a primeira. Não havia dúvida de que uma acelerada brusca seria suficiente para arremessar Leonardo no meio-fio e voltar para a casa de Paola. Renê põe o carro em ponto morto. 

Leonardo fala com Paola, mas o barulho do motor ligado com o capô aberto impede Renê de ao menos distinguir algumas palavras. Sem hesitar, Leonardo retira uma pistola automática da cintura, aponta para cima e dispara duas vezes. Limpa as costas das mãos na calça marrom e pede para Renê seguir viagem. 

– Pare numa lojinha de conveniência, quero comer chocolate.

Coração acelera

O rádio-relógio marca 4h27. As mãos ossudas de Renê penetram o cone de luz âmbar do abajur. Ele derruba o cinzeiro. Aperta os olhos como se pudesse atenuar o barulho provocado pela queda. Ao lado, Paola dorme, mãos enfeixadas entre os joelhos, cabelos preguiçosamente esparramados pelo lençol. Ainda na cama, Renê conta com os dedos as bitucas espalhadas no carpete cinza-escuro. São dezessete, oito delas com a marca do batom rosa-chiclete que Paola usa para agradar o namorado. Ele se abaixa e pega uma delas. Beija-a com o canto da boca, enquanto escreve na contracapa de sua agenda telefônica com um desses modernos lápis triangulares. Uma sequência intrincada de números ganha agora a companhia da marca 12’

Há dois meses, Renê registra o tempo de duração de seus orgasmos. Ao gozar, ele retesa os músculos das costas. Esmigalha o trapézio contra a base da nuca e conta os segundos que levará para retornar daquele estado. Usa um método particular para aumentar a precisão de seu sistema. Em vez de computar “um, dois, três, quatro…”, Renê mentaliza “um Mississipi, dois Mississipis, três Mississipis, quatro Mississipis…”. Aprendeu a técnica no Discovery Channel e efetivamente a considera a mais prática e eficaz nesses casos. 

Nas manhãs seguintes, ele vai até a padaria da esquina e procura por uma senhora rotunda, com um buço tão evidente que Renê já pensou em sugerir-lhe uma visita à barbearia. Ela o cumprimenta com um meneio de cabeça e aponta para um canto no balcão de granito. 

– E aí, qual vai ser hoje?

– Burro. Doze é burro, né?

– Isso. Mas depende do sonho, meu filho. O número sozinho não diz nada.

– Não, nesse caso é burro mesmo, tenho certeza.

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No caminho de volta para o apartamento, Renê acende a bituca marcada com o batom de Paola. Traga violentamente até sentir um gosto amargo. Queimado pela metade, o filtro enegrecido libera um cheiro nauseante, mas ele fuma até que a chama atinja seus dedos e, depois, seus lábios. Quase escuta o barulho da brasa chamuscando sua boca, mas se distrai com as buzinas dos carros em uma avenida próxima. 

Sobe as escadas do prédio. Carrega um saco de pão branco. Não há mais sacos de pão bege, agora todos são brancos, imaculados. A mensagem “Servimos bem para servir sempre” também entrou em desuso, talvez seja considerada cafona pela nova geração que administra as padarias. Os pensamentos desconexos de Renê são interrompidos pelos acordes de “Human Highways”, que avançam pelas escadas. Ela acordou esotérica. 

Na cozinha, Paola enxágua o coador de pano. Desde os oito anos de idade, ela prepara sozinha seu café. Invariavelmente, dá oito batidas com o coador na borda do lixo antes de guardá-lo. Sorri ao se lembrar de uma discussão que teve no primeiro mês de namoro sobre a diferença entre os coadores de pano e papel. Renê defendia a viabilidade econômica da versão mais moderna e empilhava palavras empoladas e argumentações oblíquas na ânsia de impressioná-la. Ela achava graça na fala histriônica do rapaz. Como ele envelheceu em tão pouco tempo. Paola escuta o farfalhar dos chinelos de Renê no último nível das escadas. Ele se demora antes de abrir a porta. Respira fundo. Espera pelo final da música, a próxima faixa do playlist é mais barulhenta, a um só tempo preencheria prováveis silêncios constrangedores e desencorajaria uma briga. Parada atrás da porta, Paola olha para suas pantufas e balbucia os últimos versos da canção, algo sobre não deixar nada para trás. 

– Bom dia…

– Você trouxe o pão mais queimadinho, como eu pedi?

– Bom dia?

– Bom dia.

– Trouxe, trouxe. 

Renê repousa o saco de pão na mesa e observa sua agenda telefônica no reflexo da garrafa térmica prateada.

– Por que minha agenda tá em cima da mesa?

– Eu quero saber o que são esses números.

– Eu já te falei, porra. São os andares das varas que eu preciso visitar no fórum.

– São sempre andares próximos, você não consegue memorizar?

– Não!

– Renê, o que são esses números?

Enquanto passa uma margarina ordinária em um pão bem pálido, Renê esmiúça o seu sistema de contagem de orgasmo e sua consequente aplicação nos jogos de azar. Ele interrompe a explicação por poucos segundos ao perceber que as olheiras de Paola vão lhe custar o dia de trabalho na agência. Pensa em avisá-la, sugerir algum creme com ação instantânea, um saquinho de camomila nas órbitas oculares, amor, é tudo que você precisa, deite-se que eu vou prepará-lo para você, fique tranquila, você não perderá as fotos do trabalho que vem esperando há meses, eu te amo pra caralho, sabia? Me abraça, vamos ficar bem… Melhor contar sobre o sistema de cálculo do prazer.

– E você não anota quando transa com a Alessandra?

– Não.

– Por quê?

– Porque eu não esqueço os números quando transo com ela.

Coração corre

Enquanto espera por Fabrício, Renê rabisca o símbolo do São Paulo numa folha de papel reciclado. Surpreende-se com a facilidade que teve ao alinhar precisamente os três vértices do triângulo. Na infância, ele sofreu com as provas de Educação Artística. Aulas particulares com uma professora chilena serviram apenas para que ele ficasse com trauma de mulheres que usam toucas de crochê. 

Mas um desenho o acompanha desde os onze anos de idade. À época, Renê se apaixonou por Vera, a empregada da família. O menino se viu impressionado com os traços harmônicos que formavam a parte posterior dos seus joelhos. Os dois semiarcos criavam uma espécie de portal, com bordas espessas e delicadamente voltadas para dentro. Ele tentou reproduzi-los com lápis de cor, giz de cera, tinta guache e, mais tarde, no PaintBrush do computador. Nada. Não seria exagero dizer, no entanto, que a marca tornou-se uma parte do corpo feminino altamente atrativa para Renê, capaz de fazê-lo se interessar por moças insossas ou até mesmo desistir de belas mulheres. Tudo por causa das ferradurinhas, como ele costumava se referir às marcas. 

Naquela tarde, Renê quase tentou desenhá-las, mas Fabrício o interrompeu a tempo: 

– Fala, mano velho, tá precisando de mim?

– E aí, doutor, tudo certo? Olha só, você sabe onde a Alessandra senta, não?

– Sim, fica perto do Dr. Sebastião, não é?

– Isso, isso. Ó, vai na manha, sem ninguém te ver, e deixa isso em cima do teclado dela, tá?!

– Pode deixar, velho.

– Mas tem que ser em cima do teclado. Olha lá, hein! – disse, entregando ao contínuo da empresa um pequeno envelope pardo e uma nota de dez reais. – Esse é pra você.

corre

 Naquela tarde, ao voltar do seu horário de almoço, Alessandra esperava seguir à risca sua rotina de higiene bucal. Desde que leu em uma revista feminina que as bactérias se proliferam com mais intensidade na boca na primeira hora depois das refeições, ela se apressa em voltar do almoço e, assim que aterrissa em sua mesa, corre para o banheiro com a nécessaire na mão. Naquela tarde, ela adiou a escovação. Sentou-se à mesa e avistou um envelope embaixo do seu mouse. Estranhou. Abriu. Encontrou um colar de ouro velho, com um pingente em forma de bolsa. Uma bolsa Chanel, seu modelo preferido. Vasculhou o envelope à procura de mais alguma coisa, um bilhete, um recado. Nada. Ao mostrar o colar a uma amiga, descobriu que o pingente era uma imitação bastante fiel de uma bolsa. Ele abria e fechava. 

– Olha, tem um post-it aqui dentro! 

Alessandra desdobrou o papel amarelo com ansiedade. Letras exageradamente cursivas indicavam um endereço de email e uma senha. Já em seu computador, ela leu com um misto de felicidade e apreensão as seguintes linhas: 

alessandra, 

eu vou tentar te explicar como funciona. primeiro, eu sinto você chegar. é verdade, eu sinto. a palavra é exatamente esta. sabe quando você joga uma pedra no lago? e gera aquelas ondas que fazem movimentos em direção às bordas? é o que acontece quando você chega.  

a primeira onda bate no meu corpo de forma violenta – báft – e eu sou subitamente extirpado da minha rotina para desembocar em um mundo novo, maravilhoso, cheio de inquietações, mas repleto de paz e serenidade ao mesmo tempo. meu batimento cardíaco se acelera, sinto minhas mãos ficarem um pouco mais frias, meus olhos desenham órbitas lentas no ar. coço a cabeça, invariavelmente.   

a segunda onda bate no meu corpo de forma sutil – é quando eu sinto o seu cheiro. não seu perfume, mas seu cheiro. aí as pernas são puro espasmos, ansiosas. os pêlos se eriçam. sinto como que um zíper gelado de prata percorrendo toda as minhas costas. queria prolongar esse instante por uns dez minutos, queria que você pudesse compartilhá-lo comigo. que nome damos a isso, alessandra?  

a terceira onda bate no meu corpo de forma delicada – é quando eu te vejo. sinto meu cérebro trabalhando a todo vapor, lutando para decodificar a origem de sua beleza. qual a equação que resulta no seu charme e encanto? seriam os olhos misteriosos, mas que convidam a longas conversas? seria a boca, de um vermelho irritante, que deságua num sorriso de estremecer ditadores? seria o cabelo sessentista, abrigando uma rebeldia sexy e desleixada? seria a postura gentil e cortês, capaz de desgelar o mais truculento dos homens?  

não tenha medo. você é uma mulher corajosa, dá pra perceber isso até mesmo aqui, de longe.  

beijo

Coração manda

Com a ponta da unha, Paola tenta retirar o adesivo verde colado no pêssego. A fruta está excessivamente madura, o que torna arriscadíssima a estratégia habitual de pinçar o incômodo adesivo com os dedos. Paola ainda vasculha a geladeira, mas confirma o que já sabia: aquele é o último pêssego. Ela só tem uma chance. Aplicar uma força muito pequena poderá dilacerar o adesivo, criando aquela inoportuna pele quebradiça que caracteriza as etiquetas de preço retiradas às pressas de presentes, geralmente os natalinos. Adesivar frutas é das invenções mais imbecis que o homem já teve. Se os números da MegaSena fossem divulgados em etiquetas coladas em frutas, ninguém notaria. Paola aperta um dos olhos para mirar melhor a ponta da etiqueta. Ela celebra os 50 anos da empresa “FruParaná”, mas Paola está concentrada demais para perceber. A primeira tentativa é em vão. A unha passa longe da borda da etiqueta. As frutas são atemporais, pensa Paola. Os formatos e as cores de um mamão, um abacaxi, uma nectarina, uma banana, uma pêra vistos em 1997 são exatamente os mesmos dos observados em 1977 ou 1877. A ideia assusta Paola. Será que, na Idade Média, alguma mulher olhou para um pêssego e pensou em se matar? 

manda

Sentado no sofá, Renê confere seus emails no notebook. Seu chefe se desculpa pelo tom excessivamente agressivo adotado em uma reunião e credita o comportamento a “um dia ruim”. Ele pensa em seu chefe e quase sente compaixão. O sentimento de piedade é rapidamente tomado por uma abstração, mecanismo comum a Renê e que já rendeu várias discussões com Paola. “Você foge de suas emoções, criando metáforas ridículas e inoportunas”, disse-lhe certa vez a namorada. Ele ignorou o conselho, atribuindo-lhe à mania das mulheres de exigir parceiros mais passionais. Ele apaga o email do chefe. Sorri. Pensa que as pessoas que dizem ter tido um dia ruim são, no fundo, muito otimistas. Como elas podem saber se aquele dia ruim não é, na verdade, o início de uma semana ruim, de um mês ruim, de um ano ruim, de uma fase ruim? O começo de uma vida abjeta, nojenta e ordinária? Parece que verbalizar “um dia ruim” é um esforço para enquadrar a merda em um único dia, fechando-a em uma caixa, riscando-a na folhinha com um X, como se fosse uma pá de cal. 

– Puta que pariu, Paola grita da cozinha.

– Que foi?

– Não consigo tirar a etiqueta do pêssego, responde, não sem observar que Renê dispensou o “linda”, vocativo tão comum a seus finais de frases no começo do namoro.

– Puta que pariu, Renê pensa na sala. 

Ele se levanta, calça os chinelos, desliga o notebook. Retira o adesivo na primeira tentativa, cola-o na testa da namorada, beija sua bochecha com força, o que provoca um ruído constrangedor. Aperta seus braços. Na verdade, queria apertar aquele pêssego com toda sua força, esmagar a parte carnuda da fruta até chegar ao caroço, arremessá-lo na parede. Observa a tatuagem de Paola, uma fina linha vermelha que secciona seu braço em dois. Lembra de quantas vezes tentou demovê-la de fazer aquela tatuagem. Tarde demais. 

Paola ri só com os lábios. Há dias ela ri só com os lábios, como quem cumprimenta um vizinho no elevador do prédio. Sem saber o porquê, ela retira o adesivo da sua testa (ela não repara, mas o faz com um movimento de pinça). Desenruga-o em sua mão, ajoelha-se e abaixa a bermuda do namorado. Cola o adesivo na cabeça do pau de Renê. Ela tenta retirá-lo com a ponta da língua. A etiqueta umedece, suas bordas começam a se dissolver. Paola sente o gosto de tinta na boca. Ela engole os 50 anos de “FruParaná”, mas não percebe. Enquanto chupa o pau do namorado, Paola descobre que não o ama mais.

Coração grita

Tss. Tssrrih. Tssrrihsss.

Renê risca o fósforo e acende um cigarro imaginário. Leva-o à boca, traga delicadamente, deixa que a fumaça serpenteie pelos seus pulmões e então a libera com um movimento rijo, contínuo e controlado, como quem tenta assoprar um cílio do olho alheio. Demora três minutos para fumar. É a primeira coisa que faz quando chega a uma festa. Qualquer festa. Em casa, não fuma. Odeia o cheiro imaginário do cigarro tomando de assalto seu sofá, sua roupa, seus livros, seu controle remoto. Sua vida. 

A segunda coisa que faz quando chega a uma festa é procurar uma mulher com tiara. O acessório lhe fascina. Já tentou em vão explicar a Marcelo, seu melhor amigo, o motivo da tara: 

– Tiara é foda. Cabelo encaracolado também é foda. Mas tiara é apelação. Deixa a mulher com cara de esposa e vadia ao mesmo tempo. Todo homem sonha com uma mulher com cara de esposa e vadia. Seria capaz de comer qualquer mulher que usa tiara, por mais feia que fosse. 

A terceira coisa que faz quando chega a uma festa é abordar uma garota de tiara. Invariavelmente, usa a mesma técnica. Aproxima-se e diz, com firmeza: 

– Há no seu olhar uma tristeza que eu não consigo identificar se é ressentimento do passado ou medo do que está por vir. 

Por incrível que pareça, a blague funciona mais do que deveria.

grita

Com as costas apoiadas no bar, Renê escaneia a pista de dança. Três garotas usam tiara. Ele resolve inovar no seu método. Pega o celular, ativa o Bluetooth e procura os aparelhos disponíveis. Ao todo, são 18. Com nome de mulher, dois. Paola e um inadequado Silmara. Envia uma mensagem a ambas: “Há no seu olhar uma tristeza que eu não consigo identificar se é ressentimento do passado ou medo do que está por vir. Mas adorei a tiara”.  

Olhos fechados, Paola dança, equilibra o dry martini numa das mãos e cantarola o refrão de “Walking on a Dream”. Uma graça. Ninguém se atreveria a dizer que ela está há 10 meses sem transar. Brinca com as amigas, todas modelos, todas magras, todas vestidas com saias-lápis. Uma delas, qualquer uma, propõe uma foto. Paola pega seu celular. Vê uma mensagem de texto. Acha graça. Imagina ser algum conhecido. Procura um rosto familiar na pista de dança. Nada. Os dedos, finíssimos, teclam “who r u?”. 

Renê responde “the guy with a Beach Boys t-shirt”. Rapidamente, Paola identifica o sujeito magrelo, de camiseta verde e all star branco nos pés. Até hoje Paola não sabe explicar, mas as notáveis olheiras de Renê a atraíram de uma maneira única. Sentia-se umedecer à medida que olhava para os dois círculos enegrecidos pintados naquele rosto ossudo e desproporcional.

Vinte minutos depois, Paola, pela primeira vez na vida, fingia, com admirável habilidade, um orgasmo.

À guisa de introdução

Esta foi a primeira e será a última vez que você lê a locução “à guisa de” neste blog. Cá entre nós: só pus no título para ver se rolava um viralzinho, saca? É, gente, o Google Analytics está aí e é uma realidade para todos nós! 

Mas a parada é a seguinte: nego pensa que literatura é feita com texto agridoce, seleção criteriosa dos adjetivos mais badalados e set list das expressões mais cools do momento. Ah, e no Brasil o povo curte também entulhar palavrão de tudo que é jeito. “Aperta um advérbio aqui que sobra espaço para mais uma ‘Porra’ ali no fim, ó!” 

Literatura é algo muito maior que isso, vocês sabem. Dêem um ligo no que o bigodudo escritor americano Mark Twain respondeu ao repórter da The Atlantic quando questionado sobre a importância da literatura em sua vida:   

– É que a ficção faz mais sentido que a verdade. 

Em busca da ficção nossa de cada dia, decidi fazer um puxadinho no condomínio A Nível de, ladeado por amigos irritantemente talentosos. Se os textos serão bons? Magina!

Ó, seguinte: se você quiser ler coisa boa, eu posso sugerir alguns nomes, tá. Na moral, vá de Juan Carlos Onetti, Enrique Vila-Matas, Vladimir Nabokov, Philip Roth, Martin Amis. Só gente fina. Se quiser mais, mande um email para gfalcione@gmail que eu indico outra galera, belê?

 twain

O desafio aqui é escrever textos ficcionais e ver se a parada melhora com o tempo. Curva de aprendizado é um conceito interessante. Vale um Wikipédia, viu? Rende pelo menos cinco minutos de boa conversa no bar, garanto procê.

Proponho um rolê pela vida de personagens, enredos e narrativas que forem pintando com o tempo. Ah, tava quase me esquecendo: a ideia também é usar algum acontecimento da vida real como estopim para desenvolver a ficção. Por exemplo, a nova campanha de marketing da Topper (Coração manda) será usada como base para a primeira série. Dividida nos verbos da campanha – Coração catimba, Coração manda, Coração acelera, Coração sua, Coração grita, Coração vibra e Coração corre – os sete textos vão contar a história de Renê e Paola, um curioso casal. 

Curtiu? Ponha seu nome na lista e acompanhe nossa viagem vertical.

Coração catimba

Apoiada na janela de seu apartamento, Paola observa o movimento da São Luís. A cidade está tranquila. Taxistas encharcam os pneus de seus carros com um líquido preto, enquanto assistem ao noticiário das 7 na tevê do ponto, enclausurada numa grade metálica, fechada todas as noites com um grosso cadeado. 

A porta do apartamento range. O barulho da chave quádrupla antecipa o humor de Renê. Se ela desliza pelos mecanismos internos com um ritmo quase orgânico, ele está calmo, prestativo e espirituoso. Se as engrenagens da fechadura são rompidas com rapidez, e os três giros são executados em menos de dois segundos, Renê não teve um bom dia no escritório de advocacia. Tem sido assim há três meses, desde que Paola oficializou seu noivado e Renê veio morar com a modelo no apartamento do Centro.

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– Oi, Pê, tudo bem? – diz o noivo, enquanto chuta algumas correspondências para dentro do apartamento. 

Paola odeia o apelido, mas nunca disse nada a Renê. Tem medo de magoá-lo. E quem liga afinal para essa coisa de apelido, não é mesmo? O que importa é o amor, e isso Paola sente de sobra. Em seus devaneios, já pensou que seria capaz até de matar por causa dele, mas prontamente balançou a cabeça para os lados, com a intenção de afastar os pensamentos ruins, prática que repete desde criança. 

Da janela, ela sorriu, abrindo os braços em um movimento largo. Renê desviou-se da mesinha de centro e do sofá com admirável habilidade e recostou-se nos braços da noiva. Sentiu-se inteiramente seguro e por uns dois segundos pensou que sua vida enfim caminhava para um final feliz. Abriu os olhos e deparou-se com o rosto anguloso de Paola. Não pode deixar de observar que um maroto fio de cabelo branco nascera na cabeça dela. Achou por bem não avisá-la. Ela certamente o interromperia para sair à busca da pinça mais próxima e extirpar aquele maldito fio intruso de seus cabelos cacheados.

– Você me ama de verdade? – perguntou, em um tom quase agressivo.

– É claro, lindo! Mais que tudo nesse mundo… 

O certo mesmo era contar a verdade, pensou Renê. Mas estragar aquele momento e pôr tudo a perder de novo? Não, desta vez ele agiria corretamente. Já jogara fora muito tempo de sua vida sendo sincero. Agora ele queria apenas ser feliz. Mirou os olhos negros da noiva, aquosos como uma opala, e encheu-se de coragem: 

– Saíram os resultados do exame.

 Paola sentiu o chão se mover. Uma sensação estranha percorreu-lhe o corpo, algo parecido com uma náusea, o gosto acre na boca que antecipa um vômito.

– E…? – ela balbuciou. 

– Adivinha?! Eu sou fértil, linda! Mais fértil que um coelho! A gente vai poder ter quantos filhos quiser!