Coração vibra
Com uma lima exageradamente afiada, Renê raspa as bordas de um vidro fumê. A ferramenta cisma em escorregar de suas mãos, mas ele executa a tarefa com uma precisão notável para quem nunca havia empunhado um instrumento daqueles antes. Depois de cinco minutos, ele passeia o dedo indicador pelo grande raio circular para certificar-se da qualidade do serviço. Nenhuma ranhura, nenhuma lasca. Um sorriso quase lhe escapa, mas ele se recorda a tempo que está há três dias sem urinar. Desde segunda-feira, nada o proíbe de aliviar-se no banheiro mais próximo. Ocorre que Renê desenvolveu uma técnica própria depois que foi diagnosticado como persona fleumática por sua terapeuta, uma asiática rotunda a quem ele recorria sempre que se masturbava pela manhã – à noite, Dona Cecília lhe parecia aborrecida demais para algo tão descompromissado, mas fundamental, como uma punheta.
Sempre que está prestes a tomar uma decisão importante, Renê para de urinar. Como explicou certa vez a um amigo, depois de um certo tempo a vontade fisiológica de ir ao banheiro – “o período varia de pessoa para pessoa”, sublinhou Renê – evolui para um descontrole emocional, dificuldade de concentração e, o mais importante, raiva. A urina represada despeja raiva suficiente em seu corpo para compensar a fleuma que costuma fazer de Renê um sujeito inofensivo. Mas o corpo tem limites, até mesmo o de um sujeito abnegado como ele – certa vez, depois de quatro dias, a urina espalhou-se pelas suas calças à sua revelia. Dali para frente, ele concebeu algo para evitar que o corpo o atrapalhe. A ponta de uma fina cânula é encaixada na sua uretra e serve como uma espécie de tampão para evitar futuros incidentes desagradáveis.

A partir do segundo dia sem urinar, os delírios costumam ser comuns, decorrentes talvez do estado febril em que o corpo começa a operar.
A campainha toca. É Paola, irritantemente pontual. Renê a recepciona sobressaltado, mas ela não percebe. Mastigam a mesma cantilena dos últimos quatro anos de namoro e, quinze minutos depois, estão transando. Paola envelheceu bastante nos últimos meses. Sua pele já não apresenta o mesmo viço exuberante de quando ambos se conheceram. E o seu corpo começa a acusar a proximidade dos 30 anos. Mas seria exagero dizer que ela não é uma mulher atraente. Possui aquele porte que caracterizam as mulheres inatingíveis, um sopro de arrogância equalizado a uma fragilidade descortinada apenas em algumas situações, e nunca por completo. “Uma diva”, repetia Renê no começo de namoro, para desespero de Paola, que considerava o elogio uma das coisas mais cafonas que já ouvira.
Correm para a cozinha, enrolados um ao outro, tropeçando nas cadeiras. Renê deita a namorada no chão, abre a gaveta do armário e balança no ar uma algema prateada. Ela ri e aponta seus dois punhos colados na direção dele. Ele puxa os braços dela para trás e a algema. Estão a dez centímetros do fogão. Paola acha estranho, e melhor não comentar, mas a tampa do forno está furada bem no centro. Renê empurra a cabeça da namorada para dentro do fogão, liga o gás na vazão máxima e começa a penetrá-la. Paola se debate, grita, esperneia, diz que está grávida dele, mas Renê a controla com firmeza. Dois minutos depois, seus movimentos começam a se espaçar e afinal ela desfalece. O namorado só sai de dentro dela para buscar uma caneta de ponta porosa em seu quarto. Será que ainda daria tempo de reanimá-la? Ele olha para a cabeça dentro do forno, os cabelos com estilhaços de vidro, o joelho direito apontando para cima, os dedos dos pés retesados. O apartamento flutua em silêncio. Ele se ajoelha, acaricia as costas da namorada e, com letras trêmulas, escreve em suas costas um poema de Verlaine, a tatuagem que ela sempre quis, mas nunca teve coragem de fazer. Levanta-se, vai até o banheiro, urina como se não houvesse amanhã (talvez não haja), repousa sobre o aparador da sala o dinheiro de Dona Valéria, a empregada gentil e cortês que Paola lhe arrumou para fazer faxina todas as sextas no apartamento – “uma vez por semana é o mínimo, Renê”, Paola o advertira.
Renê acende uma vela ao lado do corpo da namorada. Ajoelha-se, pela terceira vez naquele dia. Afunda seu rosto nos quadris de Paola, esquece seus dedos por entre os cabelos dela, beija-lhe os tornozelos e afinal sorri. Está verdadeiramente feliz. Por dez segundos nada no mundo pode te foder.




