O beletrismo em afasia

Uma questão crucial foi levantada no Fórum Literário de Itabaiana, ocorrido na última semana de janeiro, quando, reunida, a nata da literatura popular brasileira se viu esmagada entre capa e contracapa de um só livro. Primeiro, a questão: “O que esperamos de um livro?”. Depois, o livro: “Tudo”, de Lampião Guarda-Beleza.

O meeting, que tinha tudo para não dar em nada, deu em “Tudo”. Foram quinze dias de reunião num pequeno casebre de taipa, no umbigo do agreste sergipano. Na primeira semana, alguns dos mais aclamados escritores da região empacaram entre falar sobre prefácios e posfácios ou silenciar. Cada mesa de debate parecia um programa de receitas do horário matutino da TV aberta. Ninguém anota nada, ninguém experimenta tutu algum, e o mediador é um guloso – das palavras, no caso –, egocentrado e cego aos bocejos. A malemolência durou até sábado, quando um senhor de botinas sujas e bermudão apareceu carregando quatro cópias de um número sigular da nossa literatura apequenada.

Enquanto todo mundo se perguntava, com discrição, qual era o sabor da bolinha de queijo, Lampião Guarda-Beleza, o senhor, deu a dica abarulhado: “Queijo”. O problema é que, para a grande maioria dos presentes, escrever um livro no Brasil atual que não seja um livro sobre o Brasil do passado virou trabalho de físico. Que livro seria esse? Daí a questão “O que esperamos de um livro?” ter sido levantada. Guarda-Beleza, talvez por ter chegado sutilmente atrasado, não se ateve a esta banalidade e pediu, por favor, me arrumem um microfone.

Com os quatro volumes sob os braços magros, levantou-se, virou-se para a platéia, pediu silêncio, ajeitou as vestes e avistou uma a uma as cadeiras com gente em cima: “Senhores”, começou, “vossa cruzada é vã, vossos escritos vãos, vossa reunião, porém, serve-me bem para apresentar-vos uma coisa útil.” Literalmente envergonhados, mas orgulhosos por terem reunido o pessoal, os presentes não ousaram roubar a palavra do distinto. Guarda-Beleza prosseguiu: “Há alguns anos que venho sentado numa escrivaninha velha, herdada de meu pai, o saudoso Sebastião Guarda, colando as páginas disso que carrego debaixo dos braços”. Uns e outros se olharam, olharam para os livros lacrados num plástico brilhante; sua curiosidade reluzia. “É um conto agigantado, do tamanho de um romance”, troçou. “Quero ter o prazer de distribuí-lo entre vocês”. O grupo de literatos atônitos assentiu engolindo saliva seca, com os olhos fixos nos volumes. Um douto virou-se para outro, disse: “Mas quem é esse sujeito?”.

Nascido no ano de 1951, em Formosa do Rio-Preto, um lugarejo no fim do sertão baiano, onde os moços não se importam de engatilhar sujeitos porque árvores frondosas ainda abrigam Matragas ao lado de corvos, Lampião Guarda-Beleza preferiu, desde pequeno, se esconder atrás de uma Olivetti DC-431 semi-automática. Nunca matou ninguém. Pelo menos não do jeito tradicional. Aos quatorze anos, com a ajuda de seu tio e editor, Pum Souza, foi mandado numa sege nordestina para Salvador.

Na capital baiana estudou no famoso Colégio Sapiência, onde surpreendeu professores e alunos ao recitar, decor-e-salteado, um clássico de Machado de Assis. Ninguém ousou, no entanto, chamá-lo de gênio. Nem de burro, anta ou mesmo maricas. Apesar da indiferença com que foi tratado desde que pisou na sotero(cosmo)politana cidade, letrado, porém mais matuto que uma peixeira, Guarda-beleza soube reconhecer seu talento no não-dito.

Aos dezoito anos, resolveu largar os estudos e comprou uma velha oficina tipográfica inglesa, sucateada em 1889. Aprendeu a manejar um desengonçado aparelho, tornando-se um profissional talentoso, mesmo que anacrônico. Era janeiro de 1970, um verão odioso no nordeste do Brasil, quando o jovem typographo e aspirante a escritor – pois ele sempre o fora – recebeu uma proposta de seu tio para lançar, encadernado e encapado com papel vermelho, algumas edições de seu diário, que mantinha desde que chegara ao mundo.

“Olha o que eu fiz esse dia” foi um sucesso retumbante entre os mais chegados da família Guarda-Beleza. Jocajoca Terra e Mar Guarda-Beleza, patriarca do clã em Salvador, descobriu, por exemplo, que seu bisneto era afeito às poesias quando leu o comentário do dia 23 de março de 1962 e orgulhou-se: “Cada homem do mundo/Cada mania chata que só vendo/Seu Celestrino assovia andando/ Seu José chora chovendo”. Com Dona Teresinha de Assumpção Duna Beleza foi a mesma coisa. A simpática senhorita leu um breve adendo referente à manhã de 16 de outubro de 1959 e chorou apaixonada. Dizia, no pé da página: “Meu Senhor, só tenho oito anos e Teresinha não gosta de mim”.

Após o lançamento de seus diários, Guarda-Beleza conseguiu um emprego na Light baiana. Era carregador no almoxarifado e tinha acesso à centenária biblioteca da companhia. Foi nessa época que o jovem conheceu a literatura do mundo. Leu “Os cabritos”, do boliviano Guadalajara Nuñes, “Rei D’África na Terra do Brasil”, do consagrado escritor nigeriano islamizado Mazi Atutu e “Tenho sono”, do suíço-americano Donald Gunnpemntauer. As conseqüências do seu mergulho nos livros estrangeiros são facilmente apontadas em seu segundo livro, uma novela: “Pedro Vaz caminha só”, de 1974.

Conquistando espaços no mundo literário enquanto organizava pastas e arquivos na companhia de luz, Guarda-Beleza foi chamado no final de 1975 a integrar um grupo de raciocínio formado por cavalheiros nada recomendáveis da capital baiana. As reuniões do Cheiro de Pó ocorriam sempre às sextas-feiras, num prédio abandonado na parte baixa de Salvador. Alguns integrantes do grupelho levavam seus escritos semanais e os liam para os outros, em clima de sarau e confraternização. As leituras eram seguidas de uma breve discussão acerca do valor literário do texto e de seu potencial comercial e artístico. Todos brindavam quando a obra tinha valor e quando não tinha também, por que queriam mesmo era brindar. O contato com o fervoroso mundo do beletrismo inconseqüente e alternativo trouxe a Guarda-Beleza uma revelação. Sua obra não seria eco do que já havia sido feito e era considerado bom. Ele escreveria, sempre, a partir da pior idéia e do pior texto para chegar ao ruim perfeito.

O primeiro trabalho de Guarda-Beleza focado nessa filosofia foi “Amputaram o pé do moleque”, de 1979, e foi lançado assim que o escritor pediu demissão da Light para dedicar todo o seu tempo aos livros; para lê-los todos e escrevê-los todos, pensou, precisaria de tempo. De sobra ele teve, pois lançou menos de seis meses depois, em dezembro de 1979, “Levanta o braço e diz eu sei”, até então, seu maior sucesso comercial e artístico. “Esse livro me dá vontade de ir ao banheiro o dia todo, só para lê-lo enquanto cago”, disse informalmente, à época, o crítico Jurema Meuamor, do periódico “A Capital”. É uma antologia de contos nada convencional. São, ao todo, quinze textos, todos eles tratam do mesmo tema: a sabedoria; mas contam histórias de gente estúpida, ignorante e pusilânime.

Guarda-Beleza chegou em São Paulo pela primeira vez em julho de 1980. Não se assustou com a cidade, desde pequeno temia o mato e o barulho da espingarda. Nascera urbano, e sabia disso. Mais do que violenta e feia, São Paulo significava para ele uma coisa organizada, com muitas ruas e avenidas, porém, com um só mapa. Na ocasião, ele fora convidado a conhecer um sebo no Jabaquara cujo orgulhoso proprietário jurava ser o único que vendia suas obras da Bahia pra baixo. Ele passou duas semanas na cidade e, quando voltou, já voltou com um livro coçando nas mãos.

Ele até tentou agilizar o processo de criação do romance, mas logo notou que esse livro não poderia ser escrito com a mesma inspiração dos outros de sua vasta obra (reunida, à época, na antologia “O verão é a estação mais quente do ano, o inverno a mais fria, tanto o outono quanto a primavera são os dois mais ou menos”). Esse novo livro demoraria, no mínimo, 25 anos para ser escrito e deveria conter, em menos de 365 páginas, o pensamento de um ano-universal. Um ano que representava, para Guarda-Beleza, todo o tempo do mundo. Era isso que ele carregava debaixo do braço em Itabaiana. (continua… claro)

Por Onde Anda Alessandro Taludo?

Talvez Alessandro Taludo não fosse Alessandro Taludo não fosse ele autor de músicas clássicas da chamada nova Música Popular da Brasileira, como Ultraje ao Sujismundo, Limpando a Geladeira Libidinosa ou Amando sobre as Saias da Vossa Mãe. Talvez Alessandro Taludo não fosse Alessandro Taludo se não tivesse escrito naqueles idos 1985 aquilo que foi considerado o grande dicionário da sonoridade nacional: A Flor da Puberdade. Talvez Alessandro Taludo não fosse Alessandro Taludo se não tivesse subido no palco com Raul Seixas para cantar O Diabo é o Pai do Rock e dedicá-lo a Robert Carlos. Talvez. Quem observa o jeito sereno, sem porte e sem dom desse mais nobre filho da pequena Thermas de Ibirá, interior de São Paulo, que nascera surdo-mudo e que adquiriu o gosto pela música ao ver o pai batucando lata nu sobre o telhado quando os sons lhe começavam a fazer sentido, imagina que o destino lhe concedeu mais de uma dúzia de oportunidades – fortuna, no jargão maquiavélico – para se tornar Alessandro Taludo. Enganam-se, pois. É fato que Alessandro Taludo só é Alessandro Taludo porque um dia resolveu escrever uma carta de repúdio a Ney Matogrosso, quando não somava oito anos. Foi na época em que o mais famoso membro dos Secos e Molhados andava enamorado com a cidade de Thermas de Ibirá, tomando banhos que lhe tomavam dias nas banheiras curandeiras do Balneário Adhemar de Barros. O garotinho, fã declarado de clássicos como O Vira e Sangue Latino, veio até o ídolo e entregou-lhe a carta, que continha um pedido eloqüente: que virasse macho. Considerando aquilo um insulto, Matogrosso não pensou duas vezes em mandar o menino correr e sumir da sua frente. O menino, criado entre bois e princesas, não arredou o pé. “Olha que te dou, hein!”, emendou, furioso, o cantor, erguendo a palma das mãos sobre o pequeno Taludinho. Foi encarado com a mesma firmeza: o guri disse que não era ofensa, mas sim uma dica. Era um bom cantor e intérprete, mas que deixasse a vozinha para Elis Regina. Que cantasse como Jerry Adriani ou Nelson Gonçalves e faria mais sucesso com as mulheres. Matogrosso, então, perdeu a estribeira e mostrou as partes para Taludinho, que no dia seguinte relatou tudo, nu e cru, sobre o ocorrido, na Folha de T. de Ibirá. Revoltada, a cidade caçou o direito de ir-e-vir de Ney Matogrosso no interior de São Paulo, sob as palavras de ordem: “Vira macho, vira macho!”. Sobrou para o prefeito, Zé da Carnaúba, o problema de arranjar alguém, então, para cantar no festival de aniversário da cidade. Sobrou para Taludinho. De lá para cá, o rapaz tornou-se um fenômeno de carisma e coragem. Nascia dali um gênero musical talhado em marketing até então desconhecidos nas esteiras do mercado fonográfico: a agressão a outrem. Não houve uma música feita pelas mais de Alessandro Taludo que não destruiu, sem deixar rastros, os mais indefectíveis ídolos dos concertos para a Juventude. Foi desse tempo, mais precisamente no ano do lançamento de “Eu digo é Proibido Parar de Proibir”, de 1991, que Taludo passou a ser conhecido como William Safire da MPB. O jargão veio-lhe de bom grado. Dali em diante, o cabritinho, como era chamado na chácara onde cresceu, não fez outra coisa na cidade grande senão bater nos ditos incontestáveis. Assim, por pouco não acabou com a carreira de Chico Buarque quando estourou a música “Eu enfio o dedo no cúmplice”, sobre as relações do hoje sexagenário compositor com Toquinho. Hoje, aos 30 anos, Taludo diz de boca cheia que já fez de tudo na vida. Músicas de amor, de construção e de destruição, ode ao burguês e ode a João Pedro Stédile. Lamenta, somente, não ter se reencontrado nunca mais com Ney Matogrosso, de quem jamais escondeu a admiração. “Ah, se fosse homem!”, resume. Bem diferente daquele Taludo que não perdoava nem mesmo o pai, Rodrigo Taludo, ex-deputado federal pelo Amapá, o compositor hoje diz que não quer saber de briga: quer saber, isso sim, de literatura de ficção cientifica. Para julho deste ano, ele promete o lançamento de Kirk, um intruso no país de meu avô, baseado em conto norueguês. É esperar para ver.

A onda da revolução

O ano de 1968 não foi particularmente feliz na então dividida capital alemã Berlim. Protestos marcados pelo líder estudantil Rudi Dutschke (1940-1979) sacudiam a cidade.

Organizações inspiradas no marxismo e consolidadas em ações terroristas floresciam ali e em toda a Europa. Barricadas e sangue abundavam em nome de uma revolução popular, liderada por setores da intelligentzia e da universidade. O Velho Continente eclodia em hormônios e em energia.

Ainda que o momento histórico fosse propício a tantas manifestações naquele interminável mês de maio, rondava na Alemanha desde muito antes um homem marcado pela humilhação do pós-guerra. Pela vontade de inovar e trazer novas ondas ao combalido, embora ativo, pensamento de esquerda.

Um homem de muito longe do Portal de Brandemburgo, ávido para rever as idéias de Karl Marx sem se render à coqueluche do maoísmo chinês, que trazia a Revolução Cultural. Um homem que nascera em 1946, na simpática cidade litorânea de Bremerhaven, ao noroeste do país. Seu nome era Andreas Stefan Waldner.

Também conhecido como Surfy Waldy, por seu amor às praias e ao surfe, ele abandonou a engenharia e a poesia para se dedicar a plantar a primeira semente de uma nova forma de luta pela igualdade socialista.

Um dos principais ideólogos teutônicos pós-nazi-fascismo, Waldner não se fez conhecer além das fronteiras alemãs e buscava a confluência do pensamento brianwilsoniano com o ideário marxista. Foi daí que floresceu uma concepção completamente nova de mundo.

Segundo ele, a revolução libertadora, ao contrário do que diziam os socialistas de então, não surgiria nem nas abarrotadas cidades e tampouco entre os famélicos dos campos de todos os países: ela tomaria o poder vinda do litoral.

A lógica de Waldner era simples. Para ele, as cidades costeiras reúnem condições melhores para se chegar ao centro do poder. Utilizando-se de uma intrincada cadeia lógica hegeliana, Surfy afirmava que campo e cidade se contrapõem de forma inexorável e que a síntese dos dois se encontra nas localidades costeiras, de população intermediária e material razoável para uma empreitada exitosa. Uma espécie de revolução das camadas médias, conforme disse ele em palestra aos alunos da Feuerneu, em agosto de 1970.

A idéia de Waldy no campo prático era aproveitar a falta de engajamento das pessoas desses lugares e cooptá-las para a causa, estimulando um sentimento de não-pertencimento às categorias definidas pelo marxistas como lugares de onde uma revolta poderia sair e tomar o poder. Aí se percebe a influência da psicologia social de Erich Fromm no trabalho de Andreas.

A surpresa do pensamento de Waldner arrebatou algumas tribos germânicas no noroeste do país, muitas delas insatisfeitas com os visitantes hamburgueses que lhes consumiam as belas reservas naturais em troca de uns poucos marcos.

Waldner convenceu os locais sobre a necessidade de se organizarem para libertarem suas consciências dos vínculos com os burgueses, para depois estender os ganhos a todo o resto da sociedade, inda mantida cativa do poder econômico.

Um obstáculo, no entanto, se entrepunha. Depois de escrever “A Onda da Libertação”, Waldy foi convidado a iniciar uma guerrilha, como seu líder intelectual. A oratória arrebatadora era garantia de novos adeptos. O que lhe atrapalhava era a narcolepsia.

Aos 22 anos, na tomada da Ilha de Flugel, um território inabitado a dois 2kms de Bremerhaven, Waldner sofreu mais de meia hora no mar após um ataque dessa terrível doença. Decidira cruzar as águas como se fora uma ritual de amadurecimento, como se passasse a ser um homem também de ação a partir dali.

Três enfermeiras o resgataram nas proximidades da ilha. Uma delas se tornaria sua esposa por 15 anos, até Waldner não mais voltar de um ataque de sua terrível e fragilizadora condição.

Fato é que aquele dia de natação marcou o primeiro passo de Waldner à organização de uma Intifada Litorânea, como gostava de chamar seu movimento.

Seria esse o título de sua segunda obra, publicada em 1971, na qual o pensamento marxista se confronta com o álbum Pet Sounds, do grupo norte-americano Beach Boys. Marx e Wilson continuavam a ser as maiores referências do surfo-revolucionário. (continua)

Meias palavras, ações completas

“T pod deix tu orig, ma a orig nun pod deix a t”

(Didier Laframboise)

Não é recente a idéia de que meias palavras bastam aos bons entendedores. No entanto, foram poucos os homens que levaram a concepção às últimas consequências.

Um deles é o literato e monarquista franco-polinésio Didier Laframboise (1793-186?), pioneiro ao levar o “mei pala ba” a todos os cantos do arquipélago localizado no meio do Oceano Pacífico.

Depois de sair de Marselha se dizendo-se um dos representantes legítimos de Atua Fafine, o Deus criador polinésio, e percorrer os umbrais de toda a Europa, Laframboise aventurou-se a desbravar a Oceania. O Novíssimo Mundo se apresentava.

O auto-proclamado representante de Fafine o fez logo após a ascensão de Carlos X ao trono, com a restauração da dinastia dos Bourbon e a queda dos simpatizantes de Napoleão do poder. A monarquia francesa rapidamente se encantou com a fleuma arrebatadora que vinha do jovem poeta e redator dos editais do novo governo, o qual defendia com ardor. Desbravador. Magnânimo. Original, embora nem sempre compreensível.

Laframboise, naquele mesmo ano, viu-se no topo do mundo. Ou ao menos perto dele. Seu melhor amigo, o ultranacionalista Jules Armand de Polignac, foi indicado a ministro chefe do Rei. A Grande França que os monarquistas sonhavam estava perto. Faltava o além-mar.

E foi aí que Laframboise viu sua nova chance de se aproximar do poder. Mas não de forma torpe. Ele queria influência, onde quer que fosse. Por isso, escolheu desbravar o Novíssimo Continente. Sabia que a tarefa só podia ser sua.

Assim foi. Financiado pela Coroa, Laframboise navegou 143 dias em uma barcaça de nome “Le Watterloo” e desembarcou em Ua Huka, ao noroeste do Taiti. Logo contou com a admiração dos locais, que o reverenciaram por compreenderem parcialmente o que ele dizia com suas meias palavras, semelhantes ao idioma da região. Sentiam-no como um guia, enviado pelos mares. Rapidamente se fez popular.

Sorte não parava por aí: Laframboise chegou ao destino em 9 de outubro de 1829, dia do aniversário do monarca. O rei demonstrou gran regozijar com a notícia, dois meses depois, quando a ouviu do mensageiro que trouxe “Le Watterloo” de volta. Quase pediu um decreto para homenagear o desbravador, mas o redator estava de folga, o que inviabilizou a empreitada.

Não se pode interceder, no entanto, pelo fato de que isso tenha mudado o destino de Laframboise na Polinésia. O combinado era um retorno em dois anos. A falta de coordenadas da região, no entanto, impediu o resgate do brilhante homem e de sua tripulação. Homens que não mais quiseram ser resgatados. Sabiam que tinham um papel histórico para com aquela gente simples, meio tosca talvez.

Ouviam o guru poeta, que respondia sempre: “Ten temp e ten pacie. On nã exis alm, dev exis u ling e u estim a am!”, escreveu ele na primeira de suas obras, chamada “Diar d Ua Huka, a Jorn Se Retor”. Com a persistência de Laframboise, o livro se tornou obra de referência para os habitantes da ilha, que também passaram a conhecer o papel, as escolhas e mesmo o próprio conceito de livro.

O esforço libertador por meio do conhecimento era o início de uma jornada desconhecida que mostrasse àquelas pessoas a noção de tradição moral sem corromper a originalidade libertária da qual eram dotados. (Continua)

Estoniana

Sob um céu de granito, com os olhos envoltos em bolsas de suor e cílios quase brancos, Mariano Brickcovits, 23 anos, sobe no fio de civilização que o separa do vazio em algum sentido imensurável a sua frente. Equilibra-se, primeiro com um pé. Logo, a despeito do vento quente que chega pelas costas, é um Cristo com uma estranha mochila, de cabelo escovinha, camisa branca enfiada na calça jeans manchada e sapato lustrado há pouco: braços abertos, rosto brevemente caído para a esquerda, pálpebras ágeis: uma estátua de pescoço avermelhado e rosto lívido perante o vão do Masp. Embaixo, à frente e aos lados o oceano das máquinas paulistana constrói novas correntes, entradas, condutores. Mariano parece entender todo o fluxo, ergue a cabeça ferozmente, ainda de olhos fechados. Então volta devagar, uma fera censurada, e abre a boca, como se algo fosse largar um débil vômito. Mas não. “O poeta-suicida” começa a declamar. O som sai baixo, grunhido, envolto propositalmente em saliva.

Sim,

eles vêem:

armados de laços

De aço e:

Nanquim

Salta. É observado por um office boy desgostoso com a namorada, por três estudantes do ensino básico que naquele dia tinham sentido pela primeira vez o gosto do cigarro, por um executivo júnior demitido 47 minutos antes, por um homem calvo capaz de fugir à primeira pergunta, por duas amigas que foram até ali para fofocar sobre o chefe de ouvidos estranhamente bem conservados e por uma aposentada que acudiu, na baixa velocidade que a osteoporose lhe permitia, o “moço bonitinho que queria se jogar lá de cima, veja só”. Mas não conseguiu chegar até Mariano. Foi interrompida por Estela Cinco, “musa, ajudante, bibliotecária e escrava sexual de gênio”, como diz a camiseta justa que vestia e marcava os seios flácidos. Estela, que segurava a câmera com a qual registrava em tons expressionistas o momento, pôs a mão na testa da aposentada, esbravejando:

-Isso é arte, velha. Leve suas tralhas sentimentais para outro celeiro.

Os outros riram e cutucaram-se e apontaram o pequeno rebuliço. Não sabiam quem é Mariano e sequer entendiam o que ele estava fazendo. “Pensei que fosse um desses tiozinhos que sacam a beleza da bagaça, brou”, disse um dos estudantes.

Vivessem na Estônia de poucos anos atrás, estariam de joelhos, pedindo autógrafos à custa de sangue, atracando-se para tocar aquele que foi alçado por publicações daquele país ao patamar de “o mais promissor artista da para século XXI”. O que Mariano fez? Uniu poesia a esportes radicais!

O história do Artista segundo ele mesmo: “Ah, tudo começou em Brotas, no interior desse estado catártico de anseios deploráveis e cabeças rolando cheias de areia do tempo, essa coisa feérica que é sentir a existência sublimando-se rumo ao Palácio dos Bandeirantes…”. Como se percebe na primeira conversa, o forte do Mariano não é o diálogo ou o memorialismo – impossível entrevistá-lo: seu pensamento não possui cabrestos e sua linguagem desconhece limites lógicos. Estela, também sua relações públicas e câmera woman, arrisca uma possibilidade. Depois da filmagem no Masp, já em sua casa no Brooklin, com o pára-quedas de Mariano devidamente dobrado, enche a mão de gordurosos amendoins fritos e diz:

-Olha, ele sofreu um acidente, em 1999, né?[arroto] Tava descendo de rapel, bateu a cabeça, maior sanguera. Daí, quando acordou do coma, quis voltar ao local do acidente. Foi só colocar os pés ali na beira da montanha que ele desandou a falar umas coisas engraçadas.[longo arroto]

As “coisas engraçadas” a que ela se refere são tratadas no livro “Mariano, homem do ano”( Vikerkaar, 2004) do atarracado e hirsuto promotor de festas estoniano Piotr Huoel, como “o limite entre a capacidade humana de se debruçar sobre si mesmo ( de afiar o auto olhar cruel nas paredes porosas deste umbigo cognitivo) e o próprio desaparecimento físico, tratando-o não como um fim, mas como o único combustível não fóssil de tudo que existe, rindo da cultura do risco que o banaliza como uma mera normalidade – com certeza não poética” (tradução livre).

Huoel é o pai midiático de Mariano. Conheceu-o no Carnaval de Salvador em 2001, para onde o agitador cultural fora em busca de uma mulata que conhecera na Internet e que descobriu, ao chegar lá, ser uma prostituta. Contrário ao turismo sexual, tentou um pacote promocional para pular de pára-quedas oferecido pelo hotel. E foi então que viu o homem franzino e loiro (quase engolido pela enorme mochila e sempre acompanhado de uma senhora de vestes indecentes) sentado. O homem que fechou fortemente os olhos, antes de pular, e que disse palavras que o estoniano muito doido nunca esqueceria (“tarde de sol/ criança lunar/ nasceu amputada/ de solidão”). Versos que, anos mais tarde, ele seria capaz de declamar prontamente, com os olhos brilhando.

Depois, em terra firme, aproximou-se. Tentou conversar. Difícil “Ele estava arredio, uma de suas fases mais atonais mesmo”. Mas Estela falava.E muito. Explicou-lhe o acidente, a surpresa, a revelação. Também explicou o passado de vendedor de carros em uma revendedora de usados em uma decadente Vitória (ES), a paixão surgida em uma festa de aniversário da filha de uma vizinha. Falou sobre o início difícil – ela tinha 30 anos a mais que ele – sobre as tórridas noites em um auto-lanche da cidade, sobre como teve a idéia de começar a gravar tudo o que o já acidentado marido dizia e, finalmente, sobre como agradeceu a vontade incessante dele de entrar de cabeça nos esportes radicais: ela adorava aventuras e acabava-se de se aposentar pelo Intituto Médico Legal de Vitória.

Huoel apaixonou-esse pela força imagética e espiritual do “poeta-suicida”, pela história ímpar e logo lhes comprou um par de passagens. Os levou para a Estônia e fez Mariano percorrer todos os programas de auditório do país (só no Canal 8 estoniano são sete programas do tipo por semana), inscreveu-o num show de calouros literário da principal rádio de Taliin e até conseguiu que ele gravasse um disco minimalista com uma espécie de José Miguel Wisnick de lá, Rivo Rõkov. Ao vivo, só falava em português. Raramente havia tradutores. Ainda assim, todos pareciam gostar do que ouviam e não entendiam.

Mariano era então um mudo e abrupto superstar estoniano. O dinheiro fluía como um mosquetão livre de nós. Não podia mais andar anônimo pelas ruas de Taliin sem ser agarrado, fazia apresentações conceituais na Universidade de Tartu. Foi parte do júri oficial de uma mostra de documentários sobre os nativos de pele alva; era aclamado como o “profeta de um lindo renascer em cabos entrelaçados” em grafites pela cidade. Figurou em caixas de leite e até um preservativo “larger” levava suas imagens e palavras. Uma das novelas mais populares da Estonia chegou a ter um personagem brasileiro e as trocas comerciais entre os dois países aumentaram 2,8 %. Algo acontecia, o “furacão mudo e enigmático chamado o que?, Chamado Mariano!”, como crianças da classe média alta diziam no final do período escolar em brincadeiras de roda.

Levemente entediado com um mundo que não parava de girar a sua volta, logo teve suas primeiras experiências com o submundo estoniano: orgias com “pálidas selvagens” (como escreveria para a mãe mais tarde) e infinitas sessões de meditação turbinadas pelo Rjiituh, o daime feito com água de neve derretida por obesos e peludos homens com mais de 80 anos em um secreto ritual local. Fez uma ou duas letras para uma banda de polka local, “La Banda de Polka de Estonia” e freqüentava um bar reconhecidamente anarquista no centro velho da capital. O que havia?

A mulher também se perguntava isso. “Foi aí que ele começou a perder o tônus artístico”, responderia, anos depois, Estela. Ela tinha sido, de certa forma, posta de lado no processo de arrebatação pública a que Huoel tinha submetido Mariano: perdera espaço na cama do Artista para estonianas bronzeadas e em seu coração para uma tristeza que crescia junto com o neve acumulada lá fora. O inverno chegara para a Estonia e para Mariano. E seus versos pareciam ter simplesmente se esgotado, até porque não lhe davam mais sessões gratuitas de tirolesa, rapel e congêneres. O frio era tanto que todos as atividades esportivas ao ar livre haviam sidas proibidas.

Pouco falava e quando o fazia algo era um misto de vergonha e auto-piedade. Dizia aos novos amigos , com frases estranhamente claras e diretas, que era uma farsa, um mentiroso. Nessa época de vacas e idéias magras é que ele lançou um panfleto em um encontro de esqui altamente concorrido no. No papelzinho amarelado, espalhado por um avião que nos dias de semana carregava pesticidas, um desenho dele mesmo enclausurado e uma frase: “Eu morri”.

Poucos entenderam, mas o choque na imprensa, que comparecia em peso ao evento, foi quase que imediato. Telejornais enfiavam câmeras em seu rosto já macilento e repórteres abelhudos vieram ao Brasil descobrir a verdade sobre Mariano Brickovits. Colunistas articulados revelavam as festas e achavam as mulheres e os falsos religiosos que tinham as tinham freqüentado. Se saísse na rua, era taxado de mal agradecido, maldito, brasileiro e, ironicamente, de suicida. Até Estela deu uma entrevista o jornal “Eesti Paevaleh” falando sobre a ruína da vida privada do Artista, pela qual pagou com uma tremenda briga – tremenda a ponto dos vizinhos albinos do casal chamarem a polícia. Um crítico literário da revista Vikerkaar disse, em lúcido artigo: “Mariano parece, finalmente, ter entendido que não se pode desafiar a morte sem sofrer algum tipo de conseqüência. De uma maneira bisonha, fez sua cova e escreveu sua lápide. Que Olovon guarde sua alma”.

Ele voltou ao Brasil, ele reencontrou tirolesas, base jumps e rapels; ele reencontrou as palavras, as mastigou, engoliu as mágoas, ele olhou para o mundo como uma criança e ouviu os anjos chorarem. Viu as dívidas comerem a aposentadoria da mulher, a amou como louco, aprendeu a passar roupa e a ler auto-ajuda, viu os anos chegarem e a mente ás vezes querer explodir; ele aprendeu a gritar para vender fitas k-7 e, recentemente, Cds com seus poemas no Largo da Batata, em São Paulo; e Mariano sabe que ainda é o mesmo adolescente que percebeu que perante a vertigem e o ridículo da existência, nos agarramos ás palavras e ao medo com o mesmo entusiasmo com que um homem, um dia, dobrou o primeiro pára-quedas. Ele ainda é um Artista.

Uma equação literária

Ao contrário das pessoas normais, que não têm consciência de sua própria razão, os loucos têm ciência de sua loucura. Alguns poucos brincam com isso. Jogam. Fazem dos homens e mulheres joguetes para a sua mente criativa. Criam descaradamente. São os gênios. Os raros gênios de verdade, que aparecem de tempos em tempos nas mais variadas áreas do conhecimento humano.

Um deles é o brasileiro José Airton Ribeiro, o Macarrão, como é conhecido carinhosamente pelos seus amigos da Academia Campinense de Letras por causa de seus longos cabelos louros, com alguns fios ruivos, que conferem à sua vasta cabeleira um aspecto reconfortante de macarronada de domingo. Embora sinta-se um pouco desconfortável com a alcunha, José Airton Ribeiro prefere não causar confusão: “Lunatacs prodicentum, tub causen”, afirma. “wsder, drftgty hujiko lokijunm”. Ribeiro, como se vê, nas faz concessões.

O motivo é claro. Aos 90 anos, sua capacidade intelectual lhe reserva o destino de o mais importante crítico literário da história da humanidade, título conferido pela International Universities Association, fórum criado pelas melhores universidade do mundo. Seus livros circulam em edições limitadas, restritas a poucos pares. Seu salário mensal, uma pequena fortuna estimada em 600 mil dólares, valor equivalente ao que recebe o craque Ronaldinho no Barcelona, é bancado pela Universidade de Dussex, da Inglaterra. Segundo o contrato firmado entre Ribeiro e os súditos da rainha, o brasileiro se dispõe a não divulgar, de maneira alguma, cada frase do que escreve. Os direitos sobre a sua obra pertencem exclusivamente à Universidade, que pretende estudar em primeira mão as intrincadas conexões literárias efetuadas pelo que eles chamam de The Spaghetti. Ribeiro, por sua vez, não admite escrever em qualquer outra língua que não seja a sua própria. Língua, aliás, que ele não revela o código. Hoje, o maior desafio dos estudiosos ingleses é tentar decifrar seu idioma. E, depois, entender as suas idéias.

O cérebro de José Airton Ribeiro não suporta os limites impostos pelo mundo tangível. Sente-se desconfortável em esquemas linguísticos históricos. Ou seja: todos os idiomas já criados na face da terra. Como estudioso incansável, Macarrão aprendeu todas as línguas do mundo. Além disso, sua capacidade matemática ímpar lhe permitiu inventar uma complicada equação, baseada em funções cartesianas e no teorema de Fermat. Com este feito, Ribeiro pode não só criar seu próprio idioma como também prever a evolução de todas as línguas do planeta. O problema é que são poucos os que entendem o funcionamento da célebre equação, conhecida como O paradigma de Ribeiro. Além disso, compreende-la é algo que leva tempo. Quando foi divulgada pela revista Science, em 1978, Macarrão foi ridicularizado. Até porque escreveu o artigo de explicação para a comunidade científica na língua para a qual, segundo a sua equação, convergem todas as línguas do mundo.

Em um de seus raros ataques de fúria – Ribeiro fala como um canário canta – fez uma concessão: para demonstrar a viabilidade de sua equação, traduziu o artigo para o inglês e submeteu sua equação a uma prova técnica, para que seu funcionamento fosse comprovado pela comunidade científica. Não deu outra. Hoje, passados 26 anos , Ribeiro ganhará o prêmio máximo da Universidade de Harvard por ter previsto o surgimento da linguagem “naum, eh so alegria”, usada pelos adolescentes em blogs e conversas de computador. Isso, anos antes de qualquer sinal de internet no planeta. Justa premiação para quem, desde aquela época, amargou o pior que o ostracismo tem a oferecer.

Nascido em 1904, na cidade de Americana, estado de São Paulo, José Airton Ribeiro aprendeu a ler e a escrever com 2 anos de idade. Seus pais, agricultores analfabetos, não entendiam o que se passava. Achavam que o menino tinha algum problema mental, algo que lhe conferia algumas habilidades – como aprender a falar antes de andar – mas completamente incapaz de cumprir atividades básicas, como sentir fome. Desesperados, cansados – tinham que se lembrar de dar comida para o rapaz até os 15 anos, quando ele saiu de casa – o levaram para Campinas. Lá, o apresentaram para Barão Geraldo, dono das terras na qual os colonos trabalhavam em Americana. Encantado com as habilidades do jovem José Airton Ribeiro, o barão lhe enviou para a Inglaterra. E lá Ribeiro amealhou o conhecimento que o fez, até 1978, a maior celebridade em assuntos literários na Europa e nos Estados Unidos. Sua capacidade de descobrir conexões lingüísticas em obras díspares, como Dom Quixote, de Cervantes, e Fim de Partida, de Samuel Beckett, seu método de análise baseado em logaritmos, o fizeram pioneiro da introdução da matemática nos assuntos literários. Consta que Churchill se referia a Ribeiro como “patrimônio vivo da humanidade”.

Seus dissabores começaram com a publicação do artigo na Science. A Universidade de Cambridge, onde criou a cadeira de Estudos Literários Matemáticos, o aposentou quando ele passou a lecionar na língua derivada da equação. Desgostoso com o maior fracasso de sua vida justamente naquilo que devia ser a sua coroação, Ribeiro voltou para o Brasil. Foi morar em Campinas, em um apartamento pago pelo espólio do Barão Geraldo. José Airton Ribeiro decidiu que seria um homem normal. Para tanto, isolou-se. Não leu mais nada, não escreveu mais uma linha. Sem mulher, sem filhos, quis aprender como sentir fome, como sentir frio, como as pessoas conseguem amar umas as outras. Até que uma equipe de pesquisadores da Universidade de Harvard, a única que acreditou na equação em 1978, conseguiu provar que José Airton Ribeiro estava certo. Descobrir seu paradeiro foi simples. Vaidoso, Ribeiro deixara uma carta à direção de Cambridge. Nela havia todas as coordenadas para encontrá-lo. E estava escrita em inglês, em português, em alemão, em francês, em espanhol e na língua que hoje adolescentes de todo o mundo usam em suas conversas pela internet.

Es la economaquía, Dummkopf!

Poucos notaram o sorriso de soslaio no rosto do boliviano e futuro economista Tupac Athaualpa de la Cruz (1916-1996) quando o intelectual alemão Mortiz Schlick (1882-1936) caiu morto com um tiro no peito, desferido por um ex-aluno insatisfeito com as considerações do pai do positivismo lógico a respeito de um ensaio que escrevera. Pudera.

Naquele corpo de menino indígena, viver e estudar na cidade onde se reunia a nata da intelligentzia européia não era uma benesse. Era uma ofensa para a qual só havia refúgio nos livros que escrevia e ficaram no fundo de suas gavetas até serem descobertos há seis anos, pela ex-amante de seu filho Evo.

Tupac não foi um gênio reconhecido em vida, tendo ele passado a maior parte de seus dias como um obscuro bibliotecário em Graz, em terras austríacas. Logo aos 22 anos, aquele que seria anos mais tarde considerado o principal nome da economia boliviana foi arrancado do bairro mais rico de Cochabamba e mandado à Europa, por não aceitar as ordens de seu pai, homem averso à idéia de ter um filho revolucionário.

Os problemas vinham desde os 15 anos do rapaz, que já defendia uma concepção econômica que o acompanhou até a morte: a economaquia, derivada da titanomaquia da mitologia grega.

Para o pensador, a economia mundial deveria ser baseada em fortes choques, de capitalismo, de estatismo, de confiança e de dúvida sucessivamente, com vista de se atender ao máximo de interesses o possível, em uma intrincada cadeia lógica hegeliana. A depressão de 1930 e a incipiência do pensamento keynesiano só reforçaram as crenças do rapaz, que ria dos pobres norte-americanos se acotovelando em filas de pão.

Para ele, aquele estado de coisas só apresentava uma via para a salvação: “Es la economaquía, estupido!”, costumava dizer naquele que era seu principal chavão, segundo sua biografia não-autorizada “Os Passos do Terceiro Tupac”, do jornalista Matheus Pichonelli.

Tupac pensava ser de melhor aplicação em alguns momentos o sistema friedmaniano, de robotização dos índices que regem os agentes econômicos. A sua genialidade e ponderação, no entanto, depois rumavam às idéias de Espinoza, segundo quem a economia deve ser sempre subordinada à política, a maior das artes – pregava a centralização do poder e a limitação do raio de ação dos agentes populares.

Então tornava-se bolivariano. Depois liberal. Mais tarde, anarquista. E tudo com coerência impar, fruto de sua imensa capacidade de rever conceitos e ajustá-los a uma realidade cada vez menos perene e mais intangível. Tupac não aceitava ser refém da obscuridade, mesmo em uma Áustria que sempre lhe foi alheia. Tinha luz própria e desdenhava dos “dummkopfen” que o ignoravam.

Quando Schlick foi morto, o descendente incaico, cujo nome é uma homenagem ao maior herói daquele povo, não mostrou nada do seu poder de insuflar e arrebatar mentes e corações, como fazia quando era líder estudantil e sindical em sua terra natal – época de sua vida ainda pouco clara, dada a falta de documentos históricos do Departamento Nacional de Movimentos Populares, localizado em Sucre. Sabe-se apenas que Tupac se sentia prostrado a utilizar sua oratória em alemão e mesmo em redigir no idioma teutônico, apesar de dominá-lo, bem como fazia com o quíchua e o papiamento.

Foi então que veio o Anschluss e a economaquia Tupac começou a se refinar. Pouco passava a sobrar do menino que aos 12 anos via seus vizinhos ingerindo pálidas folhas de coca, enquanto seus pais o incentivavam a fumar o refinado rapé. Tupac já era feito homem e exibiria seus dotes intelectuais de forma inequívoca assim que o Terceiro Reich se instalou na outrora bela Viena. (continua)

Lobo D’almada

Em seu clássico Das dores da Xilocaína, de 1962, o crítico Anatol Rosenfeld qualificava a obra de Lobo D’almada como uma das maiores contribuições já feitas à literatura em língua portuguesa na história, chegando a apontar o poeta, escritor e ensaísta gaúcho morto em 1953 como o único e legítimo herdeiro da tônica lírica de Camões e Ramalho Ortigão. Exageros a parte, o fato é que a obra de D’Almada ganhou enorme respeito da crítica acadêmica brasileira e principalmente estrangeira, apesar de nunca ter chegado ao olhos do grande público.” Os livros de Lobo são herméticos. Diria que são um divertimento exclusivo, apenas para iniciados”, diz o blibliófilo José Mindlin, que guarda em sua biblioteca um exemplar autografado da primeira edição de O encanto de Armando, livro lançado por D’almada em 1942. “Só fui conseguir entender a grandiosidade daquela prosa intrincada e complexa no ano passado, com a maturidade”, admite Mindlin, que está oganizando junto ao poeteiro Maurício Savarese a reedição de todos os livros do autor.
Nascido em 1897 na pequena São Borja, D’almada não pode ser enquadrado em nenhuma das correntes estéticas do século XX. Gostava de dizer que sua única influência literária havia sido sua professora de primário, e que depois disso não tocou em mais nenhum livro a não ser os que escreveu. Mas em sua obra é possível sentir todo o gosto amargo do barroco espanhol e das narrativas orais gauchescas. O poeta Haroldo de Campos no ensaio Uma D’almadíada Lupibarrockodélica, publicado na Revista da Civilização Brasileira em 1969, classifica a obra do autor “como um espelho hermético-hermenêutico em que se misturam barrocamente forma e conteúdo, com quê de Pound e um não-quê de Mallarmé”.
Seu primeiro livro é Marra-a-marra-me, Satanás, de 1910 , quando tinha apenas 13 anos. Nele, D’almada narra a história de um gaúcho-sem-nome que vaga com seu cavalo pelos pampas numa viagem interminável. A obra lhe rendeu três anos de prisão por atentado aos bons costumes e o ódio de Olavo Bilac, poeta brasileiro mais respeitado da época, que é ironizado no livro e chamado de homossexual. “O livro é de uma grandiosidade ímpar. O pampa vai tomando conta do gaúcho-sem-nome até que ele se torna mais um tufo de grama a ser pisado pelos outros milhares de gaúchos, que estupram Olavo Bilac”, diz a economista Maria da Conceição Tavares, outra confessa admiradora e estudiosa da obra de D’Almada.
Em 1915 lança seu primeiro livro de poesia, Alcança-me o pampa, com 650 páginas de um único poema composto por versos de uma só sílaba. A crítica o aclama como um grande poeta, e ele é convidado para ir ao Rio de Janeiro para ministrar palestras. Chegando à capital do país, é desafiado por Bilac para um duelo. Sem saber manejar a espada adequadamente, D’almada é ferido gravemente, e tem que amputar uma das pernas. Volta o Rio Grande do Sul, onde em 1920 lança Bólido melancólico, livro de poemas que depois renegaria.
Convidado por Mário de Andrade para participar da Semana de Arte de 1922, vai à São Paulo, de onde volta decepcionado, dizendo que os modernistas não passavam e “maricas cheios de gabolice”. A briga com lhe rende anos de ostracismo, que só é quebrado com o Elogio da miniatura, de 1933.

(continua…)

Crítica de uma razão impura

Crítica de uma razão impura

“Euskera! Bizikidetza eta Bakearen Pedagogia Euskal Herrian gaur egun!” (Nossas língua e cultura! Educar a todos é fundamental para a convivência e a paz no País Basco!)

Joaquín Beriguenstain (1879-1914)

Joaquín Beriguenstain é, antes de tudo, um basco. Apesar de se saber muito mais sobre ele por conta da tradicionalmente oral cultura daquela região, abrangida por Espanha e França, poucos escritores podem se dizer capazes de utilizar regionalismos para simbolizar dramas tão universais quanto fez “El Txaxi”, em seus 35 anos de vida.

Desde o início da disposição em se consolidar uma identidade nacional basca, esse paladino da palavra não indo-européia peregrinou como um mouro para difundir o idioma e a cultura “euskera” nas regiões mais inóspitas da Europa e do Norte da África.

Relegado ao esquecimento, bem como Euskadera Ferrero (1693-1745) e Henri Batasuna (1843-1893), esse homem esguio, fino no trato, segundo contou um parente espanhol de minha avó Lazinha, e de feições levemente nórdicas ajudou a minimizar a secular influência árabe no norte da Espanha. Ele assim fez em sua querida e católica Navarra, apesar de tudo indicar que ele tenha nascido em Sán Sebastian, além de ter sido o maior pregador da independência de sua província natal.

Para isso, o literato, que passara sua juventude inclinado a fazer o curso de Direito, mas desistiu por desapego às leis e amor à Justiça, não media esforços. Filho de um importante empresário da indústria de laticínios, fazia questão, desde seus 22 anos, de escrever e imprimir seus livros em basco e iorubá, com o principio que guiou sua existência: educar os mais fragilizados.

Conta-se que Beriguenstain seguiu da Argélia ao então Congo Belga, hoje Congo-Brazzaville, para distribuir seus textos, lê-los em praça pública e tentar incitar a população local a se rebelar contra a exploração européia. Foi assim que surgiu seu livro mais conhecido, “You May”, concebido como um escárnio da língua inglesa e cuja data da primeira impressão se desconhece. Segundo minha avó, um conto traduzido do teatrólogo ucraniano Anton Tchekov (1860-1904) vinha junto do livro de Beriguenstain.

Não há confirmação oficial de que nada disso tenha acontecido, até porque a história de Beriguenstain sobrevive no boca-a-boca, e não em relatos de livros e grandes documentos. Beriguestain falava com desenvoltura, ao que parece, quatro idiomas: espanhol, inglês, basco e iorubá.

Isso sucitou a interpretação da zombaria com a anglofonia no título de “You May”, que poderia significar “Tu maio”, e não o aparente “Tu podes”, uma vez que os africanos justificavam a maior tendência dos colonizadores à violência no quinto mês do ano em virtude da posição do sol.

Existe margem para explicações ainda mais inquietantes sobre o sentido do título. Fernando Vives, um biólogo que fala iorubá, me informou que “You May” pode se tratar de uma palavra sibilante no idioma africano com “Iyê”, pronunciada com a extensão da última letra.

O léxico significa “mãe” – de onde sai a vida – e ainda é próxima de uma outra palavra do iorubá cuja tradução é algo como “prisão da qual se pode sair uma ou duas vezes, mas nunca uma terceira”. Com grande sensibilidade, segundo o relato de um tio-avô, Beriguenstain inverte a relação colonialista, o que será retomado pelo escritor árabe Tayeb Salih em sua obra “Tempo de Migrar para o Norte”.

O colonizado passa a ser o colonizador, sem a mesma violência dos europeus, mas sim com amor, educação, compreensão e aceitação do outro. Jeffrey Marshall, um soldado do Império Britânico à caminho da Nigéria, desiste de seu idioma por amor a uma princesa tribal africana, a bela Kalijah, que passava por Marrocos depois de uma viagem à Espanha.

O militar, que avistara a bela africana – chamada de “A Princesa Pobre”, sem sequer uma carruagem digna de seu título de nobreza – em uma barcaça atravessando o Estreito de Gibraltar, a encontra em Casablanca e, fascinado, se dispõe a ser escravizado por Kalijah. A negra aceita Marshall, contanto que ele aprenda sua língua.

Depois que isso acontece e o inglês busca iniciar uma relação física com Kalijah, mas ela impõe que sua cultura também deve ser aprendida e estudada pelo europeu. Marshall hesita, reclama e aceita o desafio. Até que Kalijah, depois de o inglês se humilhar e chorar diante dela pela primeira vez, aceita o homem e seu renascimento como um africano. Ela se torna a mãe dele – a sua amada Iyê.

Do lado de baixo do Equador africano, o livro deixou marcas indeléveis, também por ter sido o ápice de uma carreira que acabou poucos anos depois com a morte do escritor, por quem houve choro e rituais que uniram a todos – hutus, tutis, árabes e negróides.

Mas se Beriguenstain teve de desencarnar, o mesmo, no entanto, não aconteceu com o desejo pelo pan-africanismo/pan-basquismo, ainda resistente e ativo com as nuances humanistas e iluministas trazidas por um dos maiores representantes de sua cultura e de seu tempo.

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