A influência retrospectiva de Oscar Niemeyer – Como um arquiteto influenciou seus antecessores

A influência retrospectiva de Oscar Niemeyer – Como um arquiteto influenciou seus antecessores, de Ian Roberts
Algumas ideias estão tão profundamente arraigadas na nossas vidas que parecem, realmente, fazer parte delas. A ideia de que o conhecimento está lá fora, à espera de alguém para descobri-lo por e para nós, é uma delas. Essa ideia simples, quase singela, não é um fato da natureza. Ela foi formulada por Platão, ilustrada pelo  mito da caverna, e impulsionou o desenvolvimento científico ao longo dos anos. Sua força é irresistível porque ela é uma ideia que funciona. Ela nos diz que pensar é decifrar um mundo que está fora de nós, que se revela para nós por meio do uso da razão. Não haveria limites para descobrir o mundo. Os limites estariam apenas na nossa própria razão, que não seria capaz de ver o mundo como ele é, de entendê-lo, de decifrá-lo. Os progressos da humanidade, do fogo ao ônibus espacial, passando pela Internet e pelos transplantes de órgãos, mostram a força da ideia de Platão. Ele nos disse que os limites estão na nossa própria razão, não no mundo.
O arquiteto inglês Ian Roberts, professor da UCL (University of the City of London), partiu dessa ideia para escrever “A influência retrospectiva de Oscar Niemeyer” _mas foi parar em um mundo muito, muito diferente do que estamos acostumados a analisar com nossa razão. Para Roberts,  arquiteto com doutorado em filosofia da ciência pela Universidade de Oxford, as ideias também estão em algum lugar lá fora, prontas para serem descobertas por alguma mente brilhante. É uma diferença fundamental em relação a Platão. Para o arquiteto inglês, não são apenas os fatos do mundo que se revelam pelo uso da razão. As próprias ideias para entender esses fatos precisam ser descobertas pela razão. Para ilustrar ser argumento, contudo, Roberts não recorre às polêmicas científicas, aos debates que marcaram a história do conhecimento humano. Ele prefere analisar a obra de Oscar Niemeyer.
Os argumentos de Roberts, escritos em prosa fluente e elegante (mas infelizmente ainda não disponível em português), são cristalinos. Ele afirma que o Coliseu de Roma é uma obra de Oscar Niemeyer. Pelos relatos existentes, os Jardins da Babilônia também revelam a genialidade do arquiteto brasileiro. A Cidade Proibida da China é outro exemplo de toque do mentor de Brasília. Isso não significa, diz o autor, que essas obras foram concebidas por Niemeyer.  Longe disso, é óbvio (e não é preciso bom senso para reconhecer tal platitude). O que Roberts faz é uma provocação que nos instiga a pensar: ele afirma que essas obras expressam aspectos de uma ideia que só foi captada, em sua plenitude, pelo brasileiro. Ou nas palavras do próprio Niemeyer: “Não é o ângulo reto que me atrai, nem a linha reta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual, a curva que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, no corpo da mulher preferida. De curvas é feito todo o universo, o universo curvo de Einstein”.
Em todas essas obras havia a busca pela curva da mulher romana, da mulher babilônica, da mulher chinesa. É uma ideia presente em várias civilizações, em diversas partes do mundo e da história, mas que só Oscar Niemeyer entendeu e levou a cabo em Brasília, na Pampulha, em Niterói. “Se as ideias têm donos, no sentido mais amplo do termo dono, então é justo reconhecer que algumas das maiores obras da humanidade, ao longo de sua história, tem o gênio de Oscar Niemeyer”, afirmou o autor em entrevista recente ao jornal britânico “The Guardian”. Para Roberts, os gênios não são frutos de uma época, de um país. “Os gênios simplesmente enxergam”, disse ele na mesma entrevista.
Não é preciso concordar com os argumentos de Roberts para apreciar sua obra nem partilhar de sua compreensão do platonismo. Em uma época marcada pela falta de audácia, leva o leitor a imaginar. Em tempos de conformismo, provoca reflexão. É uma contribuição singular que precisa ser traduzida em português, especialmente em anos de eleições e seus debates vazios.

“A influência retrospectiva de Oscar Niemeyer – Como um arquiteto influenciou seus antecessores”

de Ian Roberts

Algumas ideias estão tão profundamente arraigadas na nossas vidas que parecem, realmente, fazer parte delas. A ideia de que o conhecimento está lá fora, à espera de alguém para descobri-lo por e para nós, é uma delas. Essa ideia simples, quase singela, não é um fato da natureza. Ela foi formulada por Platão, ilustrada pelo  mito da caverna, e impulsionou o desenvolvimento científico ao longo dos anos. Sua força é irresistível porque ela é uma ideia que funciona. Ela nos diz que pensar é decifrar um mundo que está fora de nós, que se revela para nós por meio do uso da razão. Não haveria limites para descobrir o mundo. Os limites estariam apenas na nossa própria razão, que não seria capaz de ver o mundo como ele é, de entendê-lo, de decifrá-lo. Os progressos da humanidade, do fogo ao ônibus espacial, passando pela Internet e pelos transplantes de órgãos, mostram a força da ideia de Platão. Ele nos disse que os limites estão na nossa própria razão, não no mundo.

O arquiteto inglês Ian Roberts, professor da UCL (University of the City of London), partiu dessa ideia para escrever “A influência retrospectiva de Oscar Niemeyer” . Para Roberts,  arquiteto com doutorado em filosofia da ciência pela Universidade de Oxford, as ideias também estão em algum lugar lá fora, prontas para serem descobertas por alguma mente brilhante. Ele avança as idéias de Platão, mas apoiado em Platão. Para o arquiteto inglês, não são apenas os fatos do mundo que se revelam pelo uso da razão. As próprias ideias para entender esses fatos precisam ser descobertas pela razão. Para ilustrar ser argumento, contudo, Roberts não recorre às polêmicas científicas, aos debates que marcaram a história do conhecimento humano. Ele prefere analisar a obra de Oscar Niemeyer. Segundo Roberts, ele é o melhor exemplo da sua teoria.

Os argumentos de Roberts, escritos em prosa fluente e elegante (mas infelizmente ainda não disponível em português), são cristalinos. Ele afirma que o Coliseu de Roma é uma obra de Oscar Niemeyer. Pelos relatos existentes, os Jardins da Babilônia também revelam a genialidade do arquiteto brasileiro. A Cidade Proibida da China é outro exemplo de toque do mentor de Brasília. Isso não significa, diz o autor, que essas obras foram concebidas por Niemeyer.  Longe disso, é óbvio (e não é preciso bom senso para reconhecer tal platitude). O que Roberts faz é uma provocação que nos instiga a pensar: ele afirma que essas obras expressam aspectos de uma ideia que só foi captada, em sua plenitude, pelo brasileiro. Ou nas palavras do próprio Niemeyer: “Não é o ângulo reto que me atrai, nem a linha reta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual, a curva que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, no corpo da mulher preferida. De curvas é feito todo o universo, o universo curvo de Einstein”.

Em todas essas obras havia a busca pela curva da mulher romana, da mulher babilônica, da mulher chinesa. É uma ideia presente em várias civilizações, em diversas partes do mundo e da história, mas que só Oscar Niemeyer entendeu e levou a cabo em Brasília, na Pampulha, em Niterói. “Se as ideias têm donos, no sentido mais amplo do termo dono, então é justo reconhecer que algumas das maiores obras da humanidade, ao longo de sua história, tem o gênio de Oscar Niemeyer”, afirmou o autor em entrevista recente ao jornal britânico “The Guardian”. Para Roberts, os gênios não são frutos de uma época, de um país. “Os gênios simplesmente enxergam”, disse ele na mesma entrevista. “Niemeyer enxergou as curvas da mulher como fonte da arquitetura”, conclui.

Não é preciso concordar com os argumentos de Roberts nem partilhar de sua compreensão do platonismo para apreciar sua obra. Em uma época marcada pela falta de audácia, leva o leitor a imaginar. Em tempos de conformismo, provoca reflexão. É uma contribuição singular que precisa ser traduzida em português, especialmente em anos de eleições e seus debates vazios. Ele nos leva a pensar no mundo que podemos construir.

“Amusia”, de Julio Mistral

Editor Convidado: Menisco Nuñez

Em 1988 Júlio Mistral teve uma idéia das boas depois de ler a “Harmonia”, de Schöenberg: a música toca os indivíduos como os indivíduos tocam a música.


Analisando as complexas conexões que o compositor alemão faz do uso da harmonia aplicado ao entendimento dela, Mistral concebeu o seu mais famoso livro sobre o desapego das massas às mais belas composições eruditas da contemporaneidade. “Amusia” foi lançado em 1989, um ano de colapsos políticos e culturais que marcou, para alguns historiadores judeus, o fim do século XX como o conhecemos. E um ano que, para Mistral, marcou a legitimação de sua toda especial história.


No começo de 1977, nas largas avenidas de La Paz, singradas por veículos diversos que só se coincidem na precariedade, Mistral caminhava sempre com os olhos – e ouvidos – atentos à sonoridade fisiológica das massas urbanas. Os grunhidos do vendedor de tapetes loopeados ao passo arrastado da aymara idosa concluíam melódica e harmonicamente um pedaço ausente na musique concrète ou em qualquer vanguardismo. A música pura da vida, quando assimilada pelo ouvido atento, era a razão das noites mal dormidas do acadêmico desde sua primeira estada na Bolívia. Onde, como em todo lugar que já estivera, ninguém ouvia de fato a sinfônica existência da cidade.


Um povo surdo?

O que nos faz gostar de Stockhäusen (compositor experimentalóide alemão) quando sentados num sofá de veludo à beira do fogo e odiar Stockhäusen quando presos ao trânsito e à narrativa sonora da metrópole? Quando Mistral tentou pela primeira vez responder esta pergunta, o que achou foi uma surdez neurológica capaz de lhe tomar mais ainda – como se fosse possível – o sono furioso que lhe davam as noites. Em sua casa, na época, havia um piano e um teremim. Ambos nunca eram tocados, tampouco eram peças meramente decorativas: serviam para Mistral pensar no som que poderiam fazer e não faziam.


A cidade sim fazia um som completo. O que lhe faltava era saber como amarrá-lo conceitualmente. E conceitos aliados à música só existem se à música dedicam-se ouvintes. “Eu vejo o som do apito de um guarda londrino como introdução perfeita para o motor de um rickshaw indiano, mas sinto que as duas coisas, apesar de conexas, não se tornam música ao povo. Tornam-se barulho”, confidenciou ao literato pantaneiro Marcu Jaguaré, em entrevista de 1982.


O estalo que fizera de Mistral um ouvido em desagrado fora descobrir que, apesar de natural, essencial e onipresente na história da humanidade, a música quando executada por alguém era basicamente um esforço vão de repetir a música criada ocasionalmente pelo atrito das coisas. Concepção que, obviamente, ganhou muito mais força e potencial com a Revolução Industrial I, II e III. Mas como vimos, o que ele não conseguia entender, era como as pessoas não se davam conta disso. Por que não se reuniam para comentar as últimas sonatas para vidraceiros e traseuntes da 5th Avenue como o faziam após a 3ª de Mahler.


O acadêmico apelou então para os teóricos. Como arte suprema que é, a música mereceu e merece desde seu primeiro estrépito até o último fade-out linhas e linhas de conjecturas e detalhamentos. Cada clave merece um livro e cada livro sobre música é feito notas infinitas sobre um aspecto quase divino da criatividade humana. Mas nada disso passou pela cabeça de Mistral. Ele queria apenas desvendar o relato dos homens sobre a razão de sua insônia. E por que esses homens não haviam dito outra coisa.


Tira me o sono, passarinho

É claro hoje, mas então não era: o livro que mais influenciou Mistral na ocasião de seu ingresso –e assunção- na Universidade Livre de la Bombonera (ULB), em Buenos Aires, foi “Para quem os sinos não tocam”, do atonal e dodecafônico escritor tcheco Zipt Horst Benjanic. Consta que seu primeiro contato com esse majestoso tratado do silêncio e do atrito das coisas foi numa aula experimental do professor Simon Garffun-Kehl, em 12 de junho de 1983. já quase senil, Garffun-Kehl teria levantado ao alto o livro e, surpreendentemente, o atirado com todas as forças sobre uma mesa de vidro, que foi ruidosamente despedaçada diante da sala, atônita, muda e embasbacada.


Após a estridente explicação de Garffun-Kehl -autor também do enigmático senão fisicamente tentador Som do Silêncio (Groove Press, 1976)- sobre os aspectos mais profundos do atrito como música, durante a qual o acadêmico jogou pratos e copos contra o quadro negro, ninguém teria o saco que teve Mistral para tirar satisfações com o velho professor de harmonia ergonômica. Conhecido por sua má-conduta e rispidez, Garffun-Kehl recebeu Mistral com surpreendente empatia. E, principalmente, apresentou-lhe o livro de Benjanic (deixando-o, por capricho, estirado no chão entre cacos de vidro).


Por meio de Bejanic, Mistral teve contato com a teoria segundo a qual o som dos pássaros é a verdadeira causa da música moderna. Messiaen era só um tradutor, que não foi suficientemente ouvido, ou orelhas, dizia Bejanic, com irônico desdém. “O pássaros são o bicho”, disse-lhe Bejanic, “eles cantam em bases harmônicas bem similares ao que hoje entendemos como minimalismo, ou integralismo californiano, ou serialismo polaco. Mas a verdadeira música está no bater de panelas.” Para Bejanic, ou melhor, no entendimento que Mistral fez do que dizia o escritor da República Tcheca, nossa aversão ao entretenimento musical potente das coisas do mundo repousava sob a tendência ancestral do homem a esperar que tudo soasse como um pintagol colorido e virtuoso.


Cátedras e Bate-bocas

Reunidas no volume epistolar “Bem-te-escrevi”, as cartas que Mistral e Benjanic trocaram entre 1984 e 1989 (ano em que o serviço postal Tcheco pôs em prática um súbito e largamente inexplicado embargo a correspondências remetidas de Buenos Aires) resumem de forma extensiva uma pergunta/pensamento que então se apoderava dos pensadores da música urbano-ambiental: enfim também ficaremos surdos?


Uma nova onda de classicismo engolia a academia, e um pessimismo bem racional, pode-se dizer que focado na sobrevivência dos seus portadores, estava em voga no que dizia respeito à arte musical do acidente, do atrito social, da queda, da construção civil, do atropelamento, do sino da igreja, dos camelôs. Era corrente a idéia de que as pessoas evitavam a música da cidade porque não queriam ouvi-la. Uma sociedade cujo alicerce era a síndrome do pânico se instalava do Titicaca ao Elba. E não fazia sentido esperar uma sinfonia surgir das esquinas de Bombaim se a rua estivesse deserta de ouvintes.


Alçado a catedrático de música moderna na ULB, Mistral disse não. Durante uma de suas primeiras aulas, sugeriu aos alunos que deixassem as dependências da Universidade e fossem às ruas, sem, no entanto, deixar claro que seu objetivo era mostrá-los o som da cidade, fazê-los entender a música. Vinte e seis alunos arrumaram suas coisas e seguiram o mestre rumo ao centro de Buenos Aires. Ao chegarem no seu destino, Mistral sorriu solitário ao notar que a Nove de Julho estava abarrotada de gente e veículos. Para ele, a música já começara.


Foram quase duas horas de aula no canteiro central da avenida mais movimentada da cidade. Quando notava a aproximação de uma moto barulhenta, Mistral levantava os braços e, como se regesse uma orquestra, acompanhava o veículo levantando as mãos quando estava próximo -e, portanto, produzindo decibéis e mais decibéis de música-  e  as abaixava enquanto o veiculo ganhava distância. No libreto, distribuido a todos logo que chegaram ao local, apenas uma frase: o verdadeiro Nirvana está aqui.


Cada vez mais imerso nos estudos inaugurados pelo “Amusia”, Mistral formou em sua aula uma nova geração de ouvintes da cidade, discípulos que seguiam seus passos tão logo deixavam a Universidade após o fim de mais um dia de aulas: essa gente, mistral via de sua janela na Juan de Garay, absortos numa esquina, com os gravadores ligados, ouvindo um bate boca entre taxistas como outros, em tempos esquecidos, sentariam numa poltrona para apreciar a Sagração da Primavera.

“O Arco da Velha”, de Zora Louise Randolph Olen

“O Arco da Velha” de Zora Louise Raldolph Olen

por Vítor Dudu

Talvez a vida pessoal da Zora Louise Randolph Olen, 92, apelidada carinhosa e internacionalmente de “Madame Zora” seja ainda mais incrível e impressionante do que o periélio assombroso que os seus trabalhos polêmicos e fascinantes percorrem há sete décadas. A agradável velhinha russo-americana, numa entrevista por telefone, abriu-nos o tarô das suas memórias repletas de situações romanescas, casamentos, quedas de monarquias, boicotes estadunidenses, Nepal, ataques soviéticos e brioches.

Madame Zora lançou esta semana “O Arco da Velha” após os sucessivos escândalos editorias provocados nos últimos anos pelo espírito do anarquista Edgar Helen Rocha psicografado por nossa ocultista sucessivamente em “Morri, e Daí?”, uma crítica ácida à empáfia dos vivos, “Videoclube Satânico”, soberba denúncia dos suplícios do Inferno, local onde há quarenta locadoras e em todas apenas dois filmes, “Doutor Jivago” e “De Volta Para a Lagoa Azul”, embolorados e copiados em VHS, “To Pagando Aluguel Até Hoje”, uma comédia acerca da última crise imobiliária e, finalmente, “Vice-Versa” cáustico libelo em que o polemista revela que Deus e Marx são a mesma pessoa.

Zora Louise aparentemente apostando no filão comercial aberto por Dan Brown em seus trabalhos aparentemente ficcionais apresenta-nos uma interessantíssima enciclopédia daquilo que a História não viu. O próprio título indica, sapiente, que a publicação não traz anedotas “do arco da velha”. É o próprio “arco da velha”, uma coleção de prosa e versos “tortos, recusados, sujos de poeira”, uma pesquisa assombrosa feita onde a nossa vã filosofia nem ousa conceber, no além túmulo, em outros planetas, no passado, no presente e no futuro.

O prefácio deste lançamento sensacional assinado pelo respeitado historiador brasileiro Victor Leonardi adianta-nos algumas das suas surpresas: “os poemas que Tomáz Antônio Gonzaga deveria ter escrito, mas não chegou a escrever, em seu exílio Moçambicano, algumas sátiras que Bocage deixou de redigir em noites quentes de Goa e Macau. E muitas cartas inéditas de Flaubert, pensamentos tortuosos que ele não ousou enviar a ninguém, resquícios do processo movido por seu Madame Bovary, confissões de Alighieri durante o exílio, de Cervantes na prisão.”

A numeróloga afirmou esta semana nas rádios e televisões norte-americanas  que algumas cenas e citações lhe foram mostradas clarividentemente através da luz astral. Outras vezes, enquanto dormia, páginas inteiras eram precipitadas na sua própria letra. Sonetos dos Mestres ou apócrifos essênios materializavam-se em papéis.

A taróloga espetacular revelou-nos, exclusivamente, que centenas de conjunções astrais provaram-na inequivocamente que o momento de escrever, comprar e distribuir este livro era mesmo o ano de 2009 e que os iluminados saberão porque. Zora Louise Randolph Olen garantiu ainda ao seu entrevistador que o seu próximo lançamento será a sua tão esperada autobiografia.

A respeitável sibila promete contar, enfim, toda a verdade sobre a famosa briga que teve com o Paulo Coelho no início dos anos 80 além de detalhes escabrosos a respeito de vinte e uma das suas vidas passadas.

Até agora tudo o que sabemos acerca da célebre querela astral da década de Ronald Reagan é que a cartomante lançara “Eu Nasci Há Dez Mil Anos” o jingle do seu programa televisivo numa emissora californiana e que um ano depois o brasileiro fazia sucesso no seu país reprisando quase todas as sílabas e as solfas da ocultista. O místico acrescentara, apenas, uma espirituosa redundância no título e no refrão.

A velha quiromante, desde 1989, afirma ter matado o nosso suposto acadêmico trocando o seu “invólucro material” pelo do roqueiro Raul Seixas. Atualmente um campeão de vendas de manuais de culinária esotérica.

“O Arco da Velha”

Autora: Zora Louise Randolph Olen

Editora: Primer Impacto

Páginas: 1026

Quanto: R$ 299,00

Onde Comprar: nas principais livrarias ou, de acordo sábias predições de Zora Louise “nas grutas do Tibete, o país das montanhas azuis, na pirâmide de Quéops, no além, no Atol das Rocas, no cosmos”

“O Pólo em Chamas”, de Marfisa Tanborindegy

“O Pólo em Chamas”, de Marfisa Tanborindegy

Colaboração para o Vertigus, por Vitor Dudu

“Ai, amiga, se eu contar ninguém acredita, há dois anos atrás…” essa é a frase de abertura do novo escândalo de Marfisa Tanborindeguy, a famosíssima e polêmica socialite carioca. Você abre a primeira das setenta e cinco páginas de “O Pólo em Chamas” e, pronto, já está sentado no sofá desta mulher elegantérrima, nem repara na redundância ou na rude criadagem e fica lá rodando na boca a azeitoninha do seu Martini.

Os banquetes, as festas, as bebidas caras e um cassoulet de fofocas quentes tiram o fôlego, parágrafo a parágrafo, do pobre lente. Por falar em pobre, o título de um dos seus capítulos é especialmente provocante. “Pobre?” e do engraçadíssimo samba de Seca Pacotinho vem o subtítulo, “Nunca Vi nem Comi eu Só Ouço Falar”.

Outro momento imperdível é o opíparo rega-bofes que Marfisa povoou de gansos ainda emplumados recheados de truffes blanches e pirão de mandioca “para dar um toque brasileiro, né?” e leitões “cozidos num saquê chiquerésimo”. As revelações bombásticas sobre a sexualidade e os hábitos heterodoxos da alta sociedade – que reúne-se regularmente na cobertura altíssima da socialite, avistando de lá de cima a brancura das praias mais glamourosas da Baía de Guanabara – fariam qualquer editor de tablóide corar.

As artes de Marfisa mostram-se inigualáveis, entretanto, no capítulo brilhante e educativo “Separe o Shoyu do Sashimi”. Obra prima. Terminemos esta resenha, é o que nos resta, com as últimas frases deste magnífico bafafá impresso. “Vire tudo do avesso, ouse, bote as mamas pra fora, ouse, avacalhe, ouse. Transforme o frio do seu pólo… em chamas. É um luxo, amiga.”

“O Pólo em Chamas”

Autora: Marfisa Tamborindegy
Editora:Lamê Edições
Páginas: 75
Quanto: R$ 95,00

Onde Comprar: nas principais livrarias ou, como diria a própria Marfisa “em qualquer Confeitaria Colombo, em qualquer Café Majestic da galáxia, amiga”

A resignação ativa em “O misólogo”, de Bertrand Phillippe Preud’homme

Livro: O misólogo
Autor: Bertrand Phillippe Preud’homme
Editora: Simona
Páginas: 302
Qualidade: Excelente
Platão, em seu livro Fédon, criou o termo misologia para definir a aversão à razão e à lógica, mas não ao saber. Um misólogo, grosso modo, é um sujeito para quem a vida é uma sucessão incompreensível de fatos sem ligação um com o outro. O que diferencia o misólogo de um adolescente em crise ou de um fã de Nietzsche, além da robustez intelectual, é a indignação militante, é o ímpeto de pregador contra os acadêmicos que tentam enquadrar o nosso mundo num sistema de sentidos.
Essa postura de resignação ativa diante da complexidade das relações humanas abarca alguns ensaios de Montaigne, por exemplo, um escritor que teve a coragem de se prostrar perante o homem, e não diante de todos os homens. Não é um jogo de palavras. Entender os fantasmas de um único indivíduo é uma missão para pensadores de porte. Estudar a humanidade como quem cataloga orquídeas é fácil. É ceder aos apelos do senso comum universitário, é aceitar os louros do presente e os insultos do futuro, é enxergar o conhecimento humano como uma parede de dominós. Um sistema intelectual é sempre belo e fascinante quando nasce. Mas, tal como se levanta, cai, derrubado pela corrente da história. São apenas papers que se sucedem, sem nexo de causalidade.
Karl Marx e Friedrich Hayek são alguns dos casos mais emblemáticos. Eles passaram pelo mesmo bosque, embora usando trilhas diferentes _ e não chegaram a lugar algum. Estudar um único indivíduo, sem método, aberto a todos os desvios do caminho, é uma aventura semelhante a escalar o Everest. Algumas pessoas até já fizeram o caminho, mas você nunca sabe o que vai encontrar quando for a sua vez. Quando você atravessa um bosque, sabe onde vai chegar. No Everest, não.
Bertrand Phillippe Preud’homme, filólogo da
Universidade de Estrasburgo, na França. partiu desta definição cristalina para construir o principal personagem de seu livro de estréia na ficção. “O misólogo” relata as tergiversações de um vendedor de kebabs na periferia de Paris com método cartesiano e resultado devastador. François, o vendedor de kebabs, é atropelado a caminho do trabalho e, em vez de lamentar o ocorrido, passa a buscar explicações universais para o seu infortúnio.  “Se não houvesse os carros, minha perna não teria sido quebrada”, comenta ele. “Se não houvesse a revolução industrial, não haveria carros. Se não houvesse a revolução gloriosa, não haveria revolução industrial”, continua François, até chegar a uma contradição lógica. “Se não houvesse homens, não haveria pernas. Se não houvesse pernas, não haveria ossos a quebrar”. A lógica que contradiz a si própria é desnudada em uma sequência de “se” desfilados por 300 páginas.  Preud’homme usa as armas da razão para desmontar sua arrogância. É um clássico instantâneo. Como diria Pierre Assouline, crítico do diário “Le Monde”: “É um espanto”.

Livro: O misólogo

Autor: Bertrand Phillippe Preud’homme

Editora: Simona

Páginas: 302

Avaliação: Nasce um clássico

Platão, em seu livro Fédon, criou o termo misologia para definir a aversão à razão e à lógica, mas não ao saber. Um misólogo, grosso modo, é um sujeito para quem a vida é uma sucessão incompreensível de fatos sem ligação um com o outro. O que diferencia o misólogo de um adolescente em crise ou de um fã de Nietzsche, além da robustez intelectual, é a indignação militante, é o ímpeto de pregador contra os acadêmicos que tentam enquadrar o nosso mundo num sistema de sentidos.

Essa postura de resignação ativa diante da complexidade das relações humanas abarca alguns ensaios de Montaigne , um escritor que teve a coragem de se prostrar perante o homem, e não diante de todos os homens. Não é um jogo de palavras. Entender os fantasmas de um único indivíduo é uma missão para pensadores de porte. Estudar os homens como seres pertencentes à essa ilusão consentida chamada humanidade é uma desfaçatez.  É ceder aos apelos do senso comum universitário, é aceitar os louros do presente e os insultos do futuro, é enxergar o conhecimento humano como uma parede de dominós. Um sistema intelectual é sempre belo e fascinante quando nasce. Mas, tal como se levanta, cai, derrubado pela corrente da história e pela sua fragilidade inerente. São apenas papers que se sucedem, sem nexo de causalidade. Por isso os estudos sobre a humanidade não prosperam. São sedutores, evidente, mas estudam algo tão fundamentado, sólido, como o éter onde os antigos acreditavam estar imerso o nosso mundo.

Karl Marx e Friedrich Hayek são alguns dos casos mais emblemáticos. Eles passaram pelo mesmo bosque, embora usando trilhas diferentes _ e não chegaram a lugar algum porque não havia lugar a chegar. Estudar um único indivíduo, sem método, aberto a todos os desvios do caminho, é uma aventura semelhante a escalar o Everest. Algumas pessoas até já fizeram o caminho, mas você nunca sabe o que vai encontrar quando for a sua vez. Quando você atravessa um bosque, sabe onde vai chegar. No Everest, não. Montaigne está preocupado em oferecer perguntas, não respostas. Parece óbvio. Mas nos faltam tantos autores para dizer o óbvio sobre nossas vidas que o óbvio, por óbvio, hoje está envolto em névoa densa.

Na tradição de Montaigne, Bertrand Phillippe Preud’homme, conhecido filólogo da Universidade de Estrasburgo, na França, partiu desta definição cristalina para construir o principal personagem de seu livro de estréia na ficção. “O misólogo” relata as tergiversações de um vendedor de kebabs na periferia de Paris com método cartesiano e resultado devastador. François, o vendedor de kebabs, é atropelado a caminho do trabalho e, em vez de lamentar o ocorrido, passa a buscar explicações universais para o seu infortúnio.  “Se não houvesse os carros, minha perna não teria sido quebrada”, comenta ele. “Se não houvesse a revolução industrial, não haveria carros. Se não houvesse a revolução gloriosa, não haveria revolução industrial”, continua François, até chegar a uma contradição lógica. “Se não houvesse homens, não haveria pernas. Se não houvesse pernas, não haveria ossos a quebrar”. A lógica que contradiz a si própria é desnudada em uma sequência de “se” desfilados por 300 páginas.  Preud’homme usa as armas da razão para desmontar sua arrogância. Mas em vez das armas maçantes das teses acadêmicas, se vale da literatura poética, ritmada, revelando um autor seguro com os efeitos provocados pelo uso da palavra certa. É uma surpresa para quem se acostumou a ler nas universidades brasileiras livros como o clássico “Crítica da Razão Diletante”, em que Preud’homme desconstrói a difusão do conhecimento com uma argumentação intrincada, que exige do leitor concentração semelhante à usada pelo escritor para erguer sua obra. “O misólogo” parte da resignação ativa de um vendedor de kebabs para popularizar a sofisticação das teses de Preud’homme. É um clássico instantâneo. Como diria Pierre Assouline, crítico do diário “Le Monde”: “É um espanto”.

Martin Berbatov, o homem que amava os revólveres

“A arte de bem atirar”, de Martin Berbatov (Editora B. Schmitz, 458 páginas)
Martin Berbatov forjou um mundo onde balas de grosso calibre desempenham um papel redentor, mas, ao contrário, do que seus detratores gostam de difundir, ele não é o pai intelectual das inúmeras associações pró-armas espalhadas pelo planeta. A sutileza dos seus escritos ultrapassa o corolário de recomendações. Ele nunca foi um militante nem preconizou lição alguma. Seu objetivo é saudar o engenho humano levado aos limites do paradoxo. Ele precedeu os futuristas italianos no louvor às máquinas, como notou Ernest Hemingway, autor de “Adeus às Armas”, livro esse, aliás, que presta uma homenagem sutil a Berbatov.
Delicado, “A arte de bem atirar” segue a tradição homérica ao preencher todos os espaços dos sentidos: podemos ouvir o barulho, ver o brilho, sentir o frio de cada um dos revólveres descritos. Berbatov trata as máquinas como personagens de uma aventura épica, mas sem idealizá-las. As armas são apresentadas tal como são as pessoas, em toda a complexidade de seu temperamento. Há um existencialismo nos revólveres. As armas são elas e suas circunstâncias e, portanto, qualquer leitor inteligente logo nota a obra de Berbatov não faz apologia às armas, mas à inteligência que materializou a idéia. Graças a uma bem-acabada tradução feita diretamente da sua língua materna, o búlgaro, Berbatov poderá, enfim, ser conhecido pelo leitor brasileiro. Lá estão frases clássicas como “O estalido de um revólver abre a brecha para a eternidade” e “A bala perfeita combina o peso do chumbo e a leveza do horizonte”.
Frágil, tímido, como revelam as entrelinhas das cartas à única mulher com quem dormiu em vida, Berbatov provavelmente se sentiria deslocado ao lado de Chuck Norris ou do general Ambrose Burnside, fundador da National Rifle Association of America, em 1871. Tanto é que, pelas informações de seus biógrafos, nunca deu um único tiro em toda a sua vida.  Samuel Colt revolucionou a fabricação de pistolas, em 1836. “A arte de bem atirar”, de 1857, mudou, para sempre, nossa relação com as pistolas.

Livro: “A arte de bem atirar”

Autor: Martin Berbatov

Editora: B. Schmitz

458 páginas

Martin Berbatov forjou um mundo onde balas de grosso calibre desempenham um papel mágico, mas, ao contrário do que seus detratores gostam de difundir, ele não é o pai intelectual das inúmeras associações pró-armas espalhadas pelo planeta. A sutileza dos seus escritos ultrapassa o corolário de recomendações. Ele nunca foi um militante nem preconizou lições. Seu objetivo é saudar o engenho humano levado aos limites do paradoxo. Berbatov precedeu os futuristas italianos no louvor às máquinas, como notou Ernest Hemingway, autor de “Adeus às Armas”, livro em que presta uma homenagem sutil a Berbatov.

Delicado, “A arte de bem atirar” segue a tradição homérica ao preencher todos os espaços dos sentidos: podemos ouvir o barulho, ver o brilho, sentir o frio de cada um dos revólveres descritos. Berbatov trata as máquinas como personagens de uma aventura épica, mas sem idealizá-las. As armas são apresentadas tal como são as pessoas, em toda a complexidade de seu temperamento. Há um existencialismo nos revólveres. As armas são elas e suas circunstâncias e, portanto, qualquer leitor inteligente logo nota que a obra de Berbatov não faz apologia às armas, mas à inteligência que materializou a idéia e o mundo aberto por elas.

Frágil, tímido, como revelam as entrelinhas das cartas à única mulher com quem dormiu em vida, Berbatov provavelmente se sentiria deslocado ao lado de Chuck Norris ou do general Ambrose Burnside, fundador da National Rifle Association of America, em 1871. Tanto é que, pelas informações de seus biógrafos, nunca deu um único tiro em toda a sua vida.   Graças a uma bem-acabada tradução feita diretamente da sua língua materna, o búlgaro, frases clássicas de Berbatov poderão, enfim, ser conhecidas pelo leitor brasileiro. Dois exemplos: “O estalido de um revólver abre a brecha para a eternidade” e “A bala perfeita combina o peso do chumbo e a leveza do horizonte”. Samuel Colt revolucionou a fabricação de pistolas, em 1836. “A arte de bem atirar”, de 1857, mudou, para sempre, nossa relação com as pistolas.

A Quatro Mãos

“Jejichz obsah je chranen autorskym zakonem. Prepis, sirení, ci dalsí zprístupnování tohoto obsahu ci jeho cásti verejnosti.”

“Hoje os obstáculos são muitos para a moral do homem. Antecipadamente, sem pensar, correu nua e deitou-se na cama onde lia o francês esperto.” (Emil e Milos Koubek)

A escrita já existe há centenas e centenas de anos. Mas apenas em meados dos recentes anos 1960 o mundo pôde conhecer um trabalho tão brilhante quanto o dos irmãos tchecos Emil (1943-1974) e Milos Koubek (1945-1990). Pioneiros, os jovens da região de Pardubice, no coração do país então comunista, revolucionaram os padrões da literatura ocidental ao criarem um novo estilo a quatro mãos: em suas três obras – ali disseram tudo que havia para ser dito – cada um escreveu 866 páginas. Alternadamente.

Mentirá aquele que disser que os Koubek se amavam e se entendiam perfeitamente. Somente dessa maneira, julgariam os parvos, poderiam eles dois encontrar tamanha simbiose de pensamento e concatenação de idéias aparentemente desconexas. Mas a verdade é que escreviam conjuntamente, e não juntos. Odiavam-se. A propensão à genialidade compensava. A um bastava ler a página anterior e a história seguia, sempre com espontaneidade e fluidez. Não queria um saber o que o outro pensava, se havia algo planejado para este ou aquele personagem. O que os movia era o impulso de continuar.

Foi pouco depois de Emil deixar o curso de geologia da Universidade Nacional e de Milos entrar no primeiro ano do segundo grau – fora acometido por um distúrbio de atenção apenas minimizado com terapia ocupacional – que veio o primeiro livro: “As Antípodas de Richard Wagner” (1964). Aquilo que tinha começado dois anos antes como uma brincadeira de Emil para estragar um conto do irmão, iniciado e esquecido durante uma passagem pelo banheiro, transformara-se na pedra fundadora de uma nova literatura.

Os oito personagens da narrativa – Katrina, Dario, Vaclav, Tatyana, Franz, Heine, Johannes e Madeleine – se revezam nas páginas umas vezes pelas mãos de Emil e outras, por meio de Milos. As idéias tinham seu eixo sempre sob uma intrincada cadeia lógica hegeliana, com foco na estética gótica, nas perspectivas da televisão tcheca sob julgo comunista, na música clássica e nas memórias de Albert Speer, arquiteto da Alemanha nazista. Tantas informações sem a perda da espinha dorsal narrativa – a humanidade e a universalidade são o mote — fizeram da obra um sucesso imediato na academia tcheco-eslovaca.

Além da densidade intelectual, fruto de muitas tardes na biblioteca de Kravonitzke, atraiu à intelligenzia do país comunista a habilidade dos irmãos de escrever alternadamente, desdobrando uma história em várias outras. Após publicada a primeira obra, Emil e Milos já eram conhecidos como “Os irmãos Scheherazade”, em uma referência à contadora de histórias das Mil e Uma Noites. A vantagem sobre a mulher, comentava-se, era o ímpio revezamento dos Koubek ao contar histórias. Sem perder o foco.

A fama dos contadores de história se confirmou no trabalho seguinte, “Como Tergiversar com o Pêndulo – a Insubordinação do Marechal Tito” (1965), na qual aparecem 33 personagens de cada um dos autores, um representando cada ano do século até então. Emil e Milos dissecam as Guerras Mundiais, os países não-alinhados às superpotências, a filosofia de Merleau-Ponty e Sartre, os pergaminhos, os tecidos chineses, os tapetes persas, as execuções na Revolução Francesa, o surgimento do cinema e a popularização da mirra. O texto foi aclamado rapidamente pela crítica cirílica, como não poderia ter sido diferente, apesar da limitada repercussão da mídia ocidentalóide.

A segunda obra dos Koubek, no entanto, expôs de forma indelével as divergências entre os dois irmãos, as mesmas que os levariam a encerrar os trabalhos conjuntos poucos anos depois. Emil defendia a organização social que levaria à Primavera de Praga. Já Milos advogava em favor da repressão dos direitos básicos dos tcheco-eslovacos pelos soviéticos, representantes do proletariado. O mais velho encantava-se com o balé. O mais jovem preferia a imprensa. O primeiro era fã de Beatles, e o outro só ouvia The Byrds. Sentiam que eram inconciliáveis, o afastamento definitivo se aproximava. Mas avaliavam que o trabalho ainda não havia sido concluído. Não tinham escrito nada que se pretendesse universal.

Foi esse sentimento que os moveu a escrever seu livro definitivo. O clássico “Deus, o Tempo e o Que Tiver Sobrado da Invasão dos Bárbaros” (1968) respondia a tudo que poderia ser perguntado com a história de 69 personagens, número que representa o equilíbrio entre yin e yang da simbologia coreana. De desafios da tecnologia, passando pela numismática, desembocando na existência de outros universos, Emil e Milos mostraram ao mundo que sua lógica surtia efeito e que já não havia nada a perguntar nem a responder.

(a continuar com resenha de “Deus, o Tempo e o Que Tiver Sobrado da Invasão dos Bárbaros”)

EXTRA EXTRA EXCLUSIVO = ENTREVISTEI O Sean Ogden

Por J. (crítico de teatro que não se identifica por medo de retaliação)
Especial para o Vertigus

Crescendo immersed acima na música tão diversa quanto as pedras do rolling, Nina Simone, Fritz Wunderlicht e Joao Gilberto, é fácil ver como Sean encontraria sua maneira à indústria da música.

Desde 1989 Sean rachou seu tempo entre o vinhedo de Martha e york novo, DJing em clubes em San Francisco, Boston, lounge de York Novo Taj (tajlounge.com), seus residencies semanais Le Souk (lesoukny.com) e espírito (spiritnewyork.com). É também o residente DJ Tsunami no
vinhedo de Martha. Sean é um veteran da indústria do casamento no vinhedo como um DJ e como o gerente de uma das companhias catering as mais respeitadas d’oeuvres Inc. de Hors, companhia que forneceu todos os serviços do partido para o presidente Bill Clinton sempre que visitou o console.

Sean atualmente trabalha como a cabeça da música de A&R E-Magine (emaginemusic.com) e escreve para diversos compartimentos em: San Francisco, York Novo e Londres including: Cultura de BPM, Urb, IDENTIFICAÇÃO Compartimento, o Ritmo do Fio, Wired e o Global. Sean tem também uma liberação cópia mais escura nova sob seu nome de estágio DJ Nightshade chamado “o som de Arábia” que você pode escutar e compra em amazon.com. Você pode também ver retratos do partido da liberação na seção da notícia de emaginemusic.com.

Sean traz um espaço largo e profundo real do conhecimento musical a seu DJing. Seus interesses largos e coleção vasta da música mais então de 10.000 registros & cds fazem possível para que cubra quase cada genre adequadamente e combinam isto com sua habilidade técnica e é fácil
ver porque Sean é um dos mais procurados DJs ao redor.

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“Sustentar um vibe é uma tarefa muito frágil e ephemeral, a música direita pode realçar a experiência dos povos e efetuar a maneira que se relacionam a uma outra. Você sabe se os povos forem sentimento ele apenas olhando em suas caras. Se é Bach, pássaro o Beatles ou menino
George ou qualquer outro artista no spectrum, o trabalho do DJ deve começar todos no sulco. A habilidade técnica é pointless sem a habilidade de ver o que faz um vibe trabalhar “.

Ficamos aqui como indicação

Blogueiros do Blog

Estava eu na fábrica clandestina de mesas de bilhar que tenho em sociedade com o Mautitzius Salvarese quando meu sócio me comunica a existencia desse valhacouto intelectual.

Como eu ia dizendo, a nossa fábrica de mesas de bilhar tem sede na Rua Cunhal das Bolas, Lisboa (confiram no mapa do Bairro Alto) que é a nossa porta de entrada para o Mercado Comum Europeu.

As bolas são de mármore retirado da tumba de Borges, em Genebra (sim é uma tiragem exclusiva para colecionadores e comercializadas junto com os charutos Davidoff). Mas, o que eu estava falando mesmo? Ah, Tucuman!!!

Um colega do Blog cita a bela San Miguel de Tucuman, que o Borges não deve ter querido ver nem amarrado. Cara pedante. Outro pedante, esse eu conheci, era o Bioy Casares.

É uma cidade bela (na altura de Santa Catarina/Brasil) terra de Mercedes Sosa e do escritor Tomas Eloy Martinez – um jornalista que se transformou em romancista.

Ele escvreveu Evita e o Romance de Peron e arrebentou. Lá também nasceu o arquiteto Cesar Pelli – autor daqueles dois prédios meio baixotes com um topo arredondado à margem do Rio Hudson, NY.

E para encerrar – no lado alemão savaresico – chegou um telegrama aqui do Thelonius Monk dizendo “cambada, o negócio é ler “Berlin Alexanderplatz”, do Alfred Döblin.

Saudações marroquinas

J. (crítico de revista cultural que não se identifica por medo de retaliação)

Ode ao grande argentino!

Por Carlos Miguel Bianchinni
Colaborador de VERTIGUS

Poucas pessoas no mundo são dignas de esculpir a resenha definitiva da obra deste grande mestre da literatura policial argentina. Uma delas sou eu. Não sucumbo a qualquer pedido, ainda que todos me honrem, mesmo os mais desaforados. Imaginem, porque trabalhei numa empresa de aço para pagar meus estudos literários na Universidade de San Diego, que o Instituto Brasileiro do Aço me pediu para escrever uma série de artigos sobre a poética dos metais. Recusei, é claro. Mas indiquei um amigo, que precisava do dinheiro.

Não foi o caso deste grande argentino nascido em Tucuman. Um caipira, nascido fora do cosmopolitismo de Buenos Aires. Um orgulho para um homem como eu, sempre carinhoso com os outros, um diferente que se porta como igual entre os iguais, ainda que ciente de sua genialidade. Quero dar a este grande argentino uma resenha que me orgulhe. E ele é um dos que mais podem se dar a este luxo, justamente porque admiro algumas de suas qualidades. Entre elas, a aversão completa ao que não seja nosso, genuíno, latino: ele tinha um dos mais impiedosos olhares sobre seus contemporâneos. Não é por outro motivo que retratou Jorge Luis Borges como um pistoleiro fracassado. Ele odiava Borges e seu cosmopolitismo empoeirado. Porque odiava, deu a ele um papel secundário, detalhesco, em sua única e maior obra, objeto desta resenha. Borges é o pistoleiro que desperta piedade em Juan Camiño, o herói do livro, na cena em que Camiño estupra a mãe de Borges e este tenta matá-lo, mas erra os tiros porque já estava ficando cego.

Mas, para que eu aceitasse escrever sobre sua obra, não bastava o ódio comum contra Borges e o nosso apego às coisas nacionais, ao jeito do povo. Há algo fonético que nos amalgama, no bom e belo sentido do amalgamar: a delicadeza com a qual ele retrava a democracia em seus escritos. Aliás, muito me agrada a campanha publicitária da rede americana de lanchonetes, a Burger King, e seu precioso slogan: “A democracia é grelhada”. Nada mais apropriado para um país tropical como o nosso, em que as bases de nossas peculiaridades foram forjadas sob um sol de submeter mamonas. Mandei até uma carta aos donos do Burger King elogiando a bela profissão poética na escolha das palavras “democracia” e “grelhada”. Outra campanha que muito me chamou a atenção foi a da cerveja Skol. Mais uma vez, o gênio criativo do brasileiro foi atingido por uma flecha galáctica de proporções nunca vistas, e o verso “a democracia é redonda” me fez parar de pensar por alguns instantes. Fascínio igual, só quando terminei de folhear “Babel de poemas – uma antologia multilíngüe”, de Carlos Freire. Ninguém nunca fez uma tradução do eslavo tão bela quanto a dele. Muito boa a escolha da LPM em publicá-lo. Freire é um amigo muito querido. Proporei a Freire um outro livro, em português, apenas com a tradução de grandiosos slogans publicitários e manchetes jornalísticas que elevem o caráter nacional. Não me importa que tenham sido escritas por mentes russas, desde que orem ao caráter brasileiro.

Diante dessa minha abundância de critério, não é por outro motivo que alonguei durante meses e meses de negociação exaustiva com os herdeiros, com a editora, com os jornais desta capital a publicação da resenha definitiva do homem que, aos 20 anos, era o único que tomava a defesa de Pablo Neruda contra as investidas covardes de Borges em difamá-lo como um autor sem nenhum talento, afora o de marketing. Um argentino contra um argentino, por um chileno. Mas um chileno de alma argentina, ao contrário de Borges, um argentino que aprendeu inglês antes do espanhol: quando leu o maravilhoso Dom Quixote na língua em que fora escrito por Cervantes, achou que se tratava de uma tradução mal feita do inglês, suprema heresia! O resultado é que vocês, leitores deste precioso site de divulgação restrita, dedicado às pessoas de bom gosto, têm o privilégio de ler, pela primeira vez em português, algumas palavras sobre a vida e a obra de um homem que passou boa parte de sua vida na Universidade de Buenos Aires, entrincheirado contra os homens e mulheres que objetavam transformar a Argentina em uma enorme Suíça, sem identidade, perdida nas cordilheiras e separada da consciência comum de seus irmãos uruguaios, chilenos e brasileiros. Desculpem-me os paraguaios, mas nada me tira da cabeça que vocês são a nossa Taiwan: não passam de uma província rebelde que Duque de Caxias não conseguiu anexar.

Estabelecidos os critérios, os que unem este vigoroso torcedor do Boca Juniors a mim, um fanático botafoguense, façamos algumas ressalvas aos outros brasileiros que quiseram tirar de mim a prioridade em comentar o escrito de dois volumes de mil páginas sobre as façanhas de Juan Camiño. Um dele é Carlos Heitor Cony – sim, eu sou um dos únicos neste mundinho literário que tem a salutar mania de dar nome aos bois – que fez o prefácio do livro daquele comediante de quinta categoria chamado Renato Aragão. Fica aqui a indicação: Cony, leia “Conselhos aos escritores de meu tempo”, onde estabeleço as normas cultas da resenha e do comentário e onde professo os dogmas de brilhantismo que unem os escritores os mais diversos. Basta ver que todos, ao contrário de você, escrevem com sujeito, verbo e predicado.

Vamos, não nos demoremos mais, falemos deste grande escritor. Porém, sou afeito a idéia de que o escriba deve ser o mais honesto possível com seus leitores. Como não pressuponho que todos os leitores deste site tenham tido a oportunidade de me conhecer, já que fui banido dos livros escolares e da grande mídia pelas resenhas contra Machado de Assis e a sua mania de defender o adultério, o homossexualismo e o aborto, falarei um pouco de mim.

Nasci em Copacabana, donde, aos 5 anos de idade, eu já sabia de cor as flexões verbais e recitava alguns poemas de Tomas Antônio Gonzaga. Minha carreira foi meteórica. Fundei o “Coletivo de Escritores pela Liberdade”, em que pretendíamos pedir ao presidente Dutra para que o governo subsidiasse a publicação de novos autores. Li Beckett e Joyce, me convenci do desfacelamento do mundo com Deleuze, amei a alteridade de Foucault e criei um dos primeiros movimentos de contestação contra a ditadura militar, o “Movimento dos Poetas”, simples assim, que pretendia espalhar poesia pelo Planalto Central para sufocar o espírito castrense dos mandatários da nação. Obviamente fomos bem sucedidos. Dias depois assumiu o presidente Figueiredo, e a democracia, a bela e doce democracia, já raiava sobre nós. Minhas amizades são as mais díspares, e variam entre Saramago e Tayeb Salih, passando por J.M. Coetzee e os herdeiros de Kafka.

Um homem de bom gosto, sim, este sou eu. Podem ficar tranqüilos. Comprem o livro do maior mestre da literatura policial argentina e terão feito uma das melhores aquisições culturais de vossas vidas. Recomendo, a vocês também, a compra do meu livro: “A democracia tostada”, em que reflito sobre a dialética entre o popular e o poético nas obras de Piazzola e Chico Buarque.

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