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	<title>Velha Margem &#187; Aronofsky</title>
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	<description>Quinquilharias, cinema e, às vezes, futebol</description>
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		<title>declínio do império americano em 2.284 caracteres (com espaço)</title>
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		<pubDate>Wed, 22 Apr 2009 17:24:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Matheus</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Aronofsky]]></category>
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Fabricio Muriana [fmuriana@gmail.com] 
 
&#8220;Matheus, meu caro. 
Eu devo estar ficando paranóico. Por sorte não sou o único. Encontrei pelo menos mais um amigo que leu a mesma paranóia no filme do Aronofsky.
Vamos restabelecer as bases: eu fiz uma leitura, você fez outra.
Da tua, posso dizer que foi muito rica, sobretudo a história do pai que saiu [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div dir="ltr">
<div dir="ltr"><span style="font-family: Tahoma;"><span style="font-size: x-small; font-family: Arial;"></span></span></div>
<div dir="ltr"><span style="font-size: x-small; color: #000000;"><span style="font-size: large;"><span style="font-size: small; font-family: Tahoma;">Fabricio Muriana [fmuriana@gmail.com] </span></span></span><span style="font-size: small; font-family: Tahoma;"><img class="aligncenter" src="http://www.cinesemana.com.br/wp-content/uploads/2009/03/olutador.jpg" alt="" width="595" height="335" /></span></p>
<div dir="ltr"><span style="font-family: Tahoma;"><span style="font-size: x-small; font-family: Arial;"> </p>
<div><span style="font-size: small; font-family: Tahoma;">&#8220;Matheus, meu caro.</span> </p>
<p><span style="font-size: small; font-family: Tahoma;">Eu devo estar ficando paranóico. Por sorte não sou o único. Encontrei pelo menos mais um amigo que leu a mesma paranóia no filme do Aronofsky.<br />
Vamos restabelecer as bases: eu fiz uma leitura, você fez outra.<br />
Da tua, posso dizer que foi muito rica, sobretudo a história do pai que saiu do quarto em 1999. Isso daria um conto.<br />
Mas do filme, li uma metáfora do conflito no Iraque. Explico.<br />
Fiquei um bom tempo me perguntando o que moveria o Aronofsky a fazer um filme sobre um lutador de telecat (nem sei como se escreve). Talvez daí a paranóia de que ali exista uma metáfora.<br />
Entenda, não acho que o Kubrick tenha feito &#8220;O Iluminado&#8221; porque ele curta o gênero do terror. O gênero pra esses caras é muito pouco.<br />
O lutador do Aronofsky só luta com cartas marcadas e ele é sempre o vencedor.<br />
É um decadente, um ex-vencedor que finge vencer. A batalha da vida dele foi há 20 anos (guerra do golfo?).<br />
Hoje ele só vive da imagem. O lutador do Aronosfsky são os estados unidos.<br />
Ele está definhando (talvez numa crise), já sofreu um ataque do coração e o médico mandou parar (alguns bilhões de dólares injetados na economia). Mas ele diz, ao fim e ao cabo, que é o público quem vai dizer quando ele vai parar. Mesmo que seja pra morrer no ringue.<br />
Agora os pontos mais diretos: você lembra da cena em que ele joga video-game com um moleque? E o moleque deliberadamente ensina pra ele que nos novos jogos de call o duty você não assume mais a identidade de alemão ou americano na Segunda Guerra Mundial; agora você pode ser inglês ou americano na guerra do Iraque.<br />
A grande batalha do filme é claramente uma luta entre os Estados Unidos e o Iraque. Curiosamente uma luta que acontece novamente depois de 20 anos. Seu oponente, a uma certa altura da luta diz &#8220;eles já tiveram o suficiente, pode acabar comigo&#8221;. E a platéia urra &#8220;USA, USA&#8221;.<br />
Ele namora uma puta, também decadente que desiste dele na batalha final (a ONU?).<br />
A filha dele, primeiro se frustra, depois diz claramente: &#8220;eu nem te odeio, nem te amo&#8221;, in other words, eu cago pra você. Seria a geração que está chegando agora?<br />
Eu vi, no filme do Aronofsky, a metáfora genial de um país gigante, cujas entranhas estão podres.<br />
Gostei muito do filme, muito mesmo.</p>
<p>Abração e valeu por compartilhar a reflexão.</p>
<p>Fabrício&#8221;</p>
<p></span></div>
<p></span></span></div>
</div>
<p><span style="font-size: small; font-family: Tahoma;">Enviado: domingo, 19 de abril de 2009 22:47 </span></p>
<p><span style="font-size: small; font-family: Tahoma;">Para: Matheus P. </span></p>
<p> </p></div>
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		<title>nos tempos do vale-tudo</title>
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		<pubDate>Mon, 20 Apr 2009 01:23:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Matheus</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[anos 80]]></category>
		<category><![CDATA[Aronofsky]]></category>
		<category><![CDATA[Raul Seixas]]></category>
		<category><![CDATA[Rourke]]></category>

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Randy ‘The Ram’ Robinson, o lutador de vale-tudo que colocou no chão adversários monstros com golpes elásticos e imprevisíveis, tenta acertar um contragolpe ao propor a Cassidy, prostituta quarentona interpretada por Marisa Tomei, uma cerveja num boteco imprestável a certa hora do dia. 

Parece mais que manjado, mas a cerveja é o trunfo que o Randy [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div dir="ltr"><span style="font-family: Tahoma;"><img class="aligncenter" src="http://moviefordummies.files.wordpress.com/2009/03/o-lutador-mfd.jpg" alt="" width="500" height="280" /></span></div>
<div dir="ltr"> </div>
<div dir="ltr"><span style="font-family: Tahoma;"><span style="font-size: large;"><span style="font-size: small;"></p>
<div dir="ltr"><span style="font-size: x-small; color: #000000; font-family: Tahoma;"></p>
<div dir="ltr"><span style="font-family: Tahoma;"><span style="font-size: large;"><span style="font-size: small;">Randy ‘The Ram’ Robinson, o lutador de vale-tudo que colocou no chão adversários monstros com golpes elásticos e imprevisíveis, tenta acertar um contragolpe ao propor a Cassidy, prostituta quarentona interpretada por Marisa Tomei, uma cerveja num boteco imprestável a certa hora do dia.</span></span><span style="font-family: Tahoma;"><span style="font-size: large;"><span style="font-family: Tahoma;"><span style="font-size: small;"> </span></span></span></span></span></div>
<div dir="ltr"><span style="font-family: Tahoma;"><span style="font-family: Tahoma;"><span style="font-size: large;"></span></span></span></div>
<div dir="ltr"><span style="font-size: small;">Parece mais que manjado, mas a cerveja é o trunfo que o Randy (Mickey Rourke) tem em mãos para se aproximar da única pessoa daquelas paragens que parece entender o que os prende num tempo, para eles, áureo: os hoje cultuados, festejados e maltratados anos 80.</span></div>
<p><span style="font-size: small;">Em ‘O Lutador‘, filme de Darren Aronofsky, Cassidy é quem sai à caça e é rejeitada por clientes em busca de carne jovem pelo puteiro; Randy é um quase-velho-quase-brocha, que viveu seu auge em 89 e, de lá pra cá, se mantém em pé graças a medicamentos para cavalo que injeta sem dó nas veias para manter o tamanho e a força de outros tempos. </span></p>
<p><span style="font-size: small;">O corpo e os cabelos, longos, parecem deslocados na pele em volta de olhos enrugados e veias saltadas de um homem que viu e não viu passar o tempo; mas são, ao lado dos cartazes e capas de revistas e jornais que anunciavam com estridência as glórias de lutas inesquecíveis, e hoje pendurados nas paredes, o que o prende numa época agora lembrada como ‘perdida‘.</span></p>
<p><span style="font-size: small;">Essa insistência em manter a forma de um tempo áureo num tempo em que ele e sua trupe são esquecidos ou lembrados como caricatura é o ponto mais tocante no longa de Aronofsky, que já havia arrebentado em ‘Requiém para um Sonho‘, que, como ‘O Lutador‘, me foi sugerido pelo amigo Fabricio Muriana.</span></p>
<p><span style="font-size: small;">Curto pacas as mensagens que me mandam por e-mail com imagens de brinquedos, propagandas e personagens da TV que marcaram os anos 80, hoje homenageados como ‘trash‘.</span></p>
<p><span style="font-size: small;">Tenho lembranças vagas, embora coloridas, do final daqueles anos: Jaspion ao fim da tarde, Turma do Balão Mágico e Super Xuxa Contra o Baixo Astral pela manhã; novelas caretas; Zizi Possi cantando ‘Perigo é ter você perto dos olhos mas longe do coração‘; Lula barbudo, Sarney, Alagoas, estagflação; Silas no meio-campo da seleção; Pula-Pirata, cigarros de chocolate, lango-lango, bonecos do Rambo e do He-Man. </span></p>
<p><span style="font-size: small;">Tudo com a vantagem de ser criança e não ter outra alternativa na vida que não crescer e sair daquele corpo de nem metro e meio.</span></p>
<p><span style="font-size: small;">Para quem estava no front, porém, a coisa muda figura. </span></p>
<p><span style="font-size: small;">Curiosamente, a última lembrança que guardo daqueles anos é a de um certo domingo de 89, quando eu e meu pai ouvimos no rádio a notícia da morte do Raul Seixas. Sem dizer nada, ele simplesmente se levantou e entrou no quarto com uma garrafa de 51; só saiu de lá em 99, acho. Ouviu à exaustão a música ‘Canto para Minha Morte‘, que eu, então com seis ou sete anos, pensei que Raul tinha composto no leito de sua morte. </span></p>
<p><span style="font-size: small;">Raul, que havia dedicado uma canção inteirinha aos anos 80 (‘eeeeei, anos 80, charrete que perdeu o condutor…eeeeeeeeei anos 80, melancolia e promessas de amor‘), não conseguiu virar a década para ver a jostra que viria logo à frente, nos 90, com suas lambadas e sertanejadas.</span></p>
<p><span style="font-size: small;">Fato é que, naquele dia, meu pai perdia, talvez, a última referência de seu tempo, numa década manchada, de saída, com a morte de seu outro ídolo, John Lennon &#8211; por ironia, em dezembro de 1980. Deve ter chorado pacas naquele quarto escuro, que nem minha mãe nem eu ousamos colocar os pés; temia, imagino, que o esquecimento fosse o passo seguinte à morte do velho ídolo.</span></p>
<p><span style="font-size: small;">Naquele bar do começo do texto, com a cerveja já esquentando, Cassidy e Randy, recém-afastado dos ringues por problemas cardíacos, concordam que os anos 90 foram uma merda (coisa assim). Desprezam os grunges e Kurt Cobain a se dizem saudosos dos Gun’s Roses &#8211; banda que hoje provoca risos quando alguém da minha idade confessa já ter comprado CDs.</span></p>
<p><span style="font-size: small;">As falas dos personagens lembram um pouco os discursos dos nossos pais (os meus, pelo menos), de que naquele tempo, sim, a coisa funcionava e tals. Pudera. Cresceram no limbo dos 70 mas chegaram ao auge nos 80, quando casaram, tiveram filhos e começaram a ganhar dinheiro.</span></p>
<p><span style="font-size: small;">Corta a cena, e anos depois estão velhinhos, na defensiva; estranham os próprios corpos, dormem no sofá e xingam a porra do celular e do computador, que mal sabem ligar na tomada. E insistem até hoje em refrões, chavões e tantras que funcionavam há 20 anos, mas que hoje são motivos de gozação num mundo conectado em outras ondas, em muitas vertentes. Insistem também em erros juvenis, na certeza de que a vitória (qual?) foi tão intensa em seu tempo que se deu o direito de ser eterna.</span></p>
<p><span style="font-size: small;">Quando começam a ser esquecidos, resta jogar na defensiva, como faz o ex-mito Randy ‘The Ram‘ Robinson quando diante da filha. Os erros se voltam contra ele, com juros acumulados pela dor da idade, do cansaço e do peso. E para isso não há remédios nem anabolizantes que permitam ficar em pé.</span></p>
<p><span style="font-size: small;">Pode ser que ‘O Lutador‘ seja um filme simplesmente sobre homens que não souberam envelhecer, e veem os novos tempos passarem por eles, ora com reverência, ora com desdém; sempre com a indiscrição da violência e da solidão, e jamais com a doçura de glórias de um tempo ilustre, quando errar era só um detalhe num mundo a seu favor. Mas acerta o alvo ao questionar o que fizeram aqueles homens cultuados quando a plateia silenciou. Mudaram a tática ou apostaram nela até o fim, para fugir de compromissos ordinários, num mundo ordinário, sem graça e sem aplausos?</span></p>
<div><span style="font-family: Tahoma;"><span style="font-size: large;"><span style="font-size: small;">Numa analogia comovente &#8211; a de um lutador quando deixa o ringue, triste e vencido, como as chagas daqueles anos esquecidos &#8211; a batalha que consagra é, porém, combinada com o adversário. O resultado da luta era sabido, mas as reações da plateia, o único elemento efetivamente real daquele jogo, são incógnitas &#8211; assim como as vinganças e contragolpes da vida real.</span></span></span></div>
<p></span><span style="font-family: Tahoma;"></span></div>
<p></span></span></span></div>
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