RES: RES: RES: à deriva

E-mail 1

De Matheus P.
Para Fabrício M.

 

Assunto:  à deriva *

 

(PS: essa conversa pode ser um possível post de blog, tudo bem?)

 

Depois de duas ou três cervejas, acho que as conclusões não fluíram tão bem entre gôndolas de supermercado, nem entre chilenos, nem entre a fuga dos meninos batmans da Brigadeiro.

Mas, pelo que conversamos ontem depois do cinema, deu pra ver que você fez uma leitura mais voltada para a totalidade da história (tanto no sentido da produção, conceito, ideia até arte-final), e eu de algo inserido na história, que é o drama de uma menina que começa a enxergar as rupturas de um modelo familiar que não existe, a não ser nas fotos.

Essa figura de linguagem, e o jogo de imagens (o segredo à vista, mas observado por detrás dos cactos espinhentos; o mar que traga e devolve; o jogo de interesses que percorre a relação entre amigos; a absorção dos vícios comuns aos adultos; a fingida inocência usada como recurso quando o mundo nos cobra posicionamento, combate e conflito) me fizeram perceber o filme como um bom trabalho, ainda que seja atemporal, deslocado, sem propósito – a princípio, a não ser relatar um drama sem que para isso tentasse inserir uma compreensão nova sobre o país.

Sobre isso, a caminhada pela av. Paulista na madrugada ontem teve muito mais a nos ensinar em relação ao medo e absurdos dos dias em que vivemos.

 

E-mail 2

De Fabrício M.
Para Matheus P.

 

Assunto: RES:  à deriva

 

 

Isso é um embate antigo que me vem, o descolamento de realidade. Eu compreendo uma metáfora temporal e espacial que se faz, por exemplo, montando peças de Shakespeare. Em Hamlet, por exemplo, escolhe-se falar de um reino da Dinamarca como desculpa pra falar de política, relações de poder, amor, teatro e até psicologismo, se esse for o seu interesse.

Mas quando você parte pra uma obra, você faz escolhas explícitas e implícitas. Ao contar uma história da classe média isolada numa praia no meio do nada (sim é uma paisagem natural linda, a gente infere que é próximo de São Paulo, mas não se sabe onde é), num tempo ali pelos anos 1980 (algo nostálgico?) e sem pobres…

A única questão financeira por que a família passa é a de vender ou não os direitos autorais da obra do patriarca. A salvação da família é a venda de direitos autorais! Está se discutindo isso em 2009! E há outros alheamentos deliberados feitos pelo diretor, como, por exemplo, a escolha do Vincent Cassel. Que tipo de família é essa que ele está discutindo? Um autor francês que escreve do Brasil (e não se sabe se pro mercado brasileiro ou francês), com uma família e uma vida estabelecida no Brasil. Jesus, o que se está querendo discutir com essa exceção da exceção da exceção?

Ok, existe uma crise e a menina se defronta com a dificuldade de ver os pais se separando, descobrindo que todos são adúlteros (e não se explica o adultério, que também é uma construção histórica no Brasil) e ela própria se vê no limite de “debutar”. Essa história, como já te disse, não me interessa. Há lapsos no filme de riscos que a menina sofre. O risco de estupro. O risco do contato com uma arma. O risco de olhar para o abismo e ele olhar de volta…Mas são TÃO banais, que mesmo se ela morresse ou se matasse, ainda assim a história não me interessaria. Ela não anda com laptop do bar até o mercado pra comprar iogurte e passa medo por essa opção. Ela é só uma adolescente que vai passar por uma crise e vai sobreviver.

Com ou sem núcleo familiar constituído?

Não me interessa saber.

O que o diretor deliberadamente não colocou na cena, isso sim me interessa discutir. Pra resguardar uma culpa-classe-média dos casais inconsequentes que acham que vão ser felizes para sempre e resolvem ter filhos e descobrem que não se sustentam como família em meio a adultério e incompletude da própria vida em família (um vida que se define por concessões). A culpa de quem tem filhos e vai chorar ao ver o filme. A culpa de uma parcela da população que vai ver a cadeira, novamente, e não vai ver o trabalho por trás da cadeira. O dinheiro público colossal que foi captado pra fazer o filme que não tem interesse público. Interessa, por opção do diretor, somente à classe média. Pega esse núcleo familiar e faz uma projeção do filme na Daslu. Aposto que não haverá interesse. Aí faz uma projeção na favela que fica colada à Daslu. Aposto que também não haverá interesse.

É um produto, com público específico definido no roteiro, edição, trilha melosa, galã francês e Debora Bloch.

 

 

E-mail 3

De Matheus P.
Para Fabrício M.

 Assunto: RES: RES:  à deriva

 

A gente já gostou dos mesmos filmes por motivos diferentes, mas esse é o primeiro que a gente discorda mesmo. Quer dizer: concordo com todos os pontos que vc colocou, só não acho que isso faz do filme uma história ruim. Realmente, vendo o filme de uma forma isolada, ele está desconectado a qualquer grande questão. Pelo tema, poderia ser lançado em qualquer época de qualquer década dos anos 70 pra cá e, mesmo assim, não despertar interesse num nicho específico. Politicamente é um filme ruim. Mas esteticamente, não.

Não entendo de produção, nem acho que o estético esteja descolado do político. É algo agrupado, integrado; faz parte da totalidade, pra usar um jargão do marxismo, bem oportuno aqui. Posso estar discursando como Poliana nessas horas, mas vi uma beleza bastante consistente nas cenas. Por exemplo, na indiferença da mãe ao saber, pela filha e por meio de uma foto, que o marido tem amante. Ela pega a foto e joga no meio do bolo de fotos. Eram só fotos. Vistas por ali, eram uma família perfeita, risonha, leve. Fora das telas, o conflito surgia. É possível se unir pelo amor, mas também pelo ódio. O que os levou a se odiarem daquele jeito? É curioso ver como a personagem olha para o pai com ódio no princípio, compaixão no segundo momento e devoção (ou admiração), por fim. São pais heróis. Os pés de barro, mas heróis (Gosto quando a menina fecha os olhos e deixa ser guiada pela correnteza, pela motocicleta ou pelos barcos que a levam para lugares que não sabe onde vai dar, mas muda a expressão do rosto quando confrontada com o que é real).

Entendo que não seja uma história de adultério, nem que haja uma implicação moralista ali. Acho que o Dhalia pensou em como seria levar à tela uma flor que desabrocha; e argumenta que esse desabrochar é solitário, é doloroso, mas também é atraente.

Durante o filme, fiquei pensando qual teria sido o último verão meu, porque, como aquelas crianças, também descobri cedo que os adultos à minha volta eram extremamente incompletos e infelizes e auto-destrutivos. Percebi no momento em que tinha também minha roda de amigos. Foi exatamente na época em que deixava minha casa para passar as tardes num clube em Araraquara, onde os meninos começavam a beber, fumar, falar sobre putarias, descobertas. É um mundo tenebroso, porque é exatamente quando descobrimos que estamos sós: os pais já não são heróis, e o mundo que se apresenta atrai, mas também machuca.

Somos tomados por sentimentos contraditórios sobre com quem nos relacionamos; aquela repulsa repentina que a invadia todas as vezes que se deixava ser tocada. Aquilo existe.

Eu, aos 14 anos, sonhava com certas meninas, e depois fugia, porque não entendia pra onde aquilo me levava. Por ter vivo isso, tudo aquilo, no filme, pareceu bastante verossímil.

É preciso uma dose de sensibilidade por parte do autor para lembrar desses movimentos-chave-ruptura na vida de uma criança para fazer com que o espectador se lembre de tudo isso diante da obra. Crescer tem seu preço, parece dizer o Dhalia, e talvez essa seja a única pretensão do filme. Mostrar como a verdade é escancarada, mesmo quando tentam escondê-la – a verdade sempre esteve ao alcance da menina, muito facilmente, mesmo quando ela não queria enxergar.

Os 14 anos são os anos da mudança. É um tempo onde guardei muitos cadáveres insepultos, que tento revisitar quando penso, leio, escrevo. Por isso me identifiquei tanto com a personagem. Me senti na pele dela, e alimentei uma certa compaixão também, porque, como ela, também me foi dado aos 14 anos o “dom”, se assim se pode chamar, de perceber ruínas onde meus familiares ainda enxergavam flores. Quando a gente se dá conta disso, não tem outra alternativa que não enfrentar ou se dar o luxo de tentar resolver, canalizar as questões, para que as pessoas que se odeiam, mas que amamos, não se destruam à nossa frente. Acho que isso é uma espécie de unidade familiar universal. Uma espécie de estrutura elementar: a gente constrói as coisas, mas também é capaz de destruir. Ao mesmo tempo, me aproximei, durante um tempo, de uma menina que começou a enxergar a fissura da relação dos pais, prestes a se separar. E, como a personagem, alimentava ódio dos pais, ao mesmo tempo que usava o artifício de ter acabado de sair da adolescência para, em vez de assumir o conflito, fingir que não via as mudanças para não doer nem se machucar. Isso a atriz conseguiu captar.

 

ADENDO: Antes de responder: vc viu “A Casa de Alice”? É um filme também que se pretende a ser um retrato da estrutura familiar brasileira. Mas a família é longe de ser estruturada; não tem casa de praia muito menos lancha. Tudo com cores pesadas, sem figurino do Hercovich. Se sim, vc gostou?

 

E-mail 4

De Fabrício M.
Para Matheus P.

 

Assunto: RES: RES: RES  à deriva

 

Sim, discordamos deveras sobre as conclusões de “À Deriva”. E me vejo tentando desviar dos clichês de argumentação em que caio na “Bacante”. Mas é que tem algumas coisas que eu começo a riscar giz, saca? Meio radical ao extremo, mas é que me cansam um tanto. Tentando pegar por uma perspectiva histórica, acho que a obra do Dhalia chega na era do ultra-indivíduo. Tudo é centrado no eu. A base da sociedade de consumo: “você merece”, “feito pra você”, “porque a vida é agora”.

É impossível fugir das questões do indivíduo quando se parte para um filme ou qualquer obra de arte. No entanto, não consigo ver o filme do Dhalia ao menos tentando colocar aqueles indivíduos em contraste com qualquer coletivo, senão aquele coletivo descolado da realidade, uma classe média em dias de verão.

 Pensando por esse lado, discordo de você quanto a uma “unidade familiar universal”, acho que aquela unidade ali apresentada nos é muito cara. Somos da classe média. Nos sentimos culpados pelo esfacelamento das estruturas familiares (em boa medida, as estruturas mais arcaicas da sociedade), identificamo-nos com o que nos é apresentado.

Por essa via, o filme do Dhalia é muito verdadeiro: provavelmente ele trata das questões dele. Mas veja, não há nada de universal nisso. A mesma menina bonitinha seria feia se tivesse nascido no lugar errado. Talvez não tivesse pai (e nem vou voltar ao ponto de que ter um pai francês e autor de livros é algo beeeeeem específico). A mãe não seria professora. As crises da classe média se explicitam ali por conta dessas escolhas e, como te disse no primeiro e-mail, essas crises conjunturais não me interessam. Quero ver estruturas. É claro que se pode fazer um filme sobre o indivíduo, mas contextualize minimamente sua realidade. Coloque-o em relação com seu coletivo. Se aquele for o único coletivo possível a uma adolescente, vamos ter que ouvir muito mais vezes “essa geração está perdida”.

Cara, meu parágrafo se soltou e foi prum lado que não queria. Mas outros pontos: beleza consistente. Pelo parâmetro que você colocou, de estética e política conectadas (ou por outra, a política como parte de uma estética), não vejo beleza consistente em nada dali. Ao contrário, vejo uma inconsistência nas próprias escolhas do filme. Por isso não vejo beleza. Ah, enfim, sabe quando você sente que já falou demais? Eu acho que já falei demais.

Vamos beber?

 

Ps: Não vi Alice, mas verei.

 

 

 

* À DERIVA

Direção: Heitor Dhalia
Produção: Brasil, 2009
Com: Debora Bloch, Laura Neiva, Vincent Cassel
Onde: em cartaz no Espaço Unibanco Pompeia, Reserva Cultural e circuito

a chupeta que mudou a história

Na última quinta-feira, mergulhei e saí estarrecido com a história do jovem personagem de “Indignação”, livro mais recente de Philip Roth.

Faz exatamente um ano (lembro disso por causa da data de aniversário do meu irmão – 3 de agosto) que li pela primeira vez algo dele – “Homem Comum”, que já tinha me impressionado pela capacidade de me lançar à sensação mais cruel e exata do que deve ser morrer.

Pouco depois, ganhei de presente o “Fantasma Sai de Cena”, livro sobre o qual há tempos quero escrever neste espaço, mas até agora não fiz. Fato é que, dos três, “Indignação” é de longe o melhor.

Em menos de 170 páginas, Roth conseguiu montar um romance áspero e inquietante, vertiginoso, capaz de levar à perda de juízo, com a mesma facilidade, tanto personagem como leitor.

Nos Estados Unidos de 1951, o jovem Marcus Messler, filho de tradicionais açougueiros judeus de Newark, resolve sair de casa para fugir da paranóia sufocante do pai, que teme perder o filho para uma vida desregrada. O filho, ateu, metódico, obediente, atento, melhor aluno das escolas por onde passou – desses tipo “não bebo, não fumo, não fodo” – mesmo não querendo, já planejou sua vida a ponto de se manter, com os estudos, longe da possibilidade de ser mandado para a guerra da Coreia, estourada por aqueles anos, como soldado raso. Planeja também a fórmula de se manter distante do açougue em que se criou, onde sangue, abate, carcaças e serviço sujo (“mas que alguém tinha de fazer”) são imagens que emporcalham as memórias da infância e do destino já traçado pelos pais – sem resignação. 

O medo, enfim, de um mundo imenso e intenso fora das grades de casa, ora trancadas pelo pai quando o filho se atrasava, como punição, está presente em todos os lados. Leva seus atores às reações mais bestiais e torturantes, e acaba sendo trasmitido como herança, como um dom.

Para fugir dessa paranóia, o jovem Messler deixa a cosmopolita Newark para estudar numa universidade da provinciana Ohio, que existiu de fato e se tornou conhecida pela rigidez com que sua direção conduzia normas estabelecidas havia décadas. Exemplo: homens e mulheres separados e com espaços e horários delimitados, aulas jurássicas com pastores batistas que vomitavam moralismo e intolerância e regras para se vencer na vida.

Neste espaço, retrógrado mesmo para os padrões dos anos 50, os ares de mudanças que começavam a penetrar nas trincas de uma sociedade enraizada na cultura do medo e do controle eram combatidos e vigiados sob formas de punição e coação física e psicológica, como a que o personagem mergulha quando descobre que, mesmo a quilômetros de distância, não consegue se livrar da paranóia da família nem das instituições por que passa e – pior – sequer dele mesmo.

É nessa parte que entra o boquete. Na primeira vez que sai com a primeira mulher que se envolve, pega emprestado o carro de um amigo e leva a amiga, colega de classe nas aulas de história, para jantar. Ganha um boquete na saída, e a passagem só de ida para um mundo que lhe cobra respostas: por que ela fez isso? Será que já fez antes? Quem é essa menina? Por que age assim?

A procura o leva a esbarrar no próprio moralismo, que tenta sufocar, mas é trazido à tona pelas pessoas que o cercam – pais, colegas, direção da escola – e transforma o desejo mais primitivo que um jovem de sua idade pode ter como experiência na armadilha que possibilita ao autor ligar, num lance, um boquete com a tão temida guerra da Coreia. Seria um puta exagero, não fosse magistralmente conduzido pela narração límpida e comovente de um dos grandes escritores da atualidade.

“Indignação” é a mais cruel demonstração de como a desproporção de respostas e reações estão presentes em uma sociedade atormentada por fantasmas da guerra e da ausência do controle – isso em todos os poros e nas mais triviais manifestações. Essa grande e intrigante realidade cujo pano de fundo é nada mais que uma cínica e micro-cósmica associação de pais e mestres – só para parafrasear o amigo Graciliano Rocha –  chamada Estados Unidos.

preciso…

escrever alguma coisa aqui antes que este espaço crie teias de aranhas, como meu cérebro; quero falar de coisas que passam voando e que nunca ficam registradas; de Maísa a Lars Von Trier; preciso falar do que Trier falou, do choro e indignação que seu novo filme causou; do choro e indignação que causou sua declaração de que é o melhor diretor de cinema da atualidade; preciso dizer o que o leva a acreditar nisso, e o que me leva a acreditar em tudo isso também; preciso falar de “A Janela”, o melhor filme sobre a relação tempo/espaço que já vi; e da tristeza que deixei na sessão do filme sobre o Wilson Simonal quando começou a tocar, pela última vez, o “Sá Marina”, música que até então não tinha essa conotação melancólica que agora tem; quero falar sobre o inverno que se aproxima dos campos como um cobertor de nuvens que não abriga mais de dois corpos; quero falar da vontade de falar do livro raríssimo do Mário Palmério, que comprei por R$ 12 e cuja dedicatória foi assinada em 1965; quero falar sobre 1965 e sobre 1969, os 40 anos do Abbey Road, o disco mais Beatles dos Beatles; preciso escrever porque prefiro o Abbey Road a qualquer outro CD que já tive na vida; quero falar do anúncio que ouvi no metrô sobre um garoto que se perdeu e era chamado como “Jovem Cidadão Jonathan – favor se dirigir à recepção da SSO” – e de como fiquei pensando que o tal jovem cidadão ainda não sabe que é cidadão nem que é jovem e que provavelmente não sabe o caminho nem o que significa SSO e que, por isso, deve estar perdido até agora naquele mundo subterrâneo de angústias chamado metrô; preciso falar da Coreia do Norte, da Perdigão e dos chineses que entram ilegalmente no Brasil; preciso de tudo quanto não cabe na esfera do tempo que correm essas linhas; preciso dar um jeito de captar cada uma das missões e fenômenos que passam como raios antes que sejam decretados o esquecimento mais perene num manto de mundo chamado Brasil. Mas quando?

comfortably numb…

A missão deste blog está descrita acima: quinquilharias, cinema e, às vezes (e só às vezes) futebol.
 
Não imaginava que o Palmeiras iria tomar tanto espaço dos nobres leitores em meio a uma Libertadores para a qual até pouco tempo me lixava.
 
Fato é que este blog tem atraído palmeirenses a rodo, e o texto sobre o Marcão levou este espaço ao seu pico de audiência – se fosse sobre Rogério Ceni, levaria ao pico e no pico ficaria.
 
Mas é hora de moderar.
 
Se não este pasto acaba virando comunidade de torcedor no Orkut, e espanto todo mundo que prefere assuntos menos enlouquecedores do que futebol.
 
Por isso resolvi falar do frio.
 
Um dos primeiros textos deste blog era sobre um calor sacana que fazia mundo afora justamente no meu dia de plantão.
 
Tinha vontade de correr pra praia, de tomar cerveja, de falar bobagens e de fritar ao sol.
 
Logo depois, tive alguns dias de folga, e na primeira chance, fui para casa ver sol e respirar.
 
Além de ter caído no marasmo, os dias entre Natal e Ano Novo, por conta de um monte de questões paralelas, conseguiram ser piores dos que os mais ferrados dias de trabalho e frio.
Alguns dias ainda depois, fui para a praia planejando ter o melhor Carnaval de todos os tempos. Longe de casa, mataria todas as vontades e saudades que me assolavam durante todo o ano.
 
Foi uma bosta: no segundo dia, peguei uma puta gripe, que virou febre e que me fez passar as tardes mais quentes do ano deitado debaixo da coberta, tremendo de frio.
 
No que me levou a concluir que minha sina é mesmo passar frio.
 
Porque só no frio, sem opção melhor mundo afora, me sinto forçado a passar mais tempo em casa e redescobrir o que há de melhor nas minhas prateleiras empoeiradas. São tempos de introspecção.
 
Pois ontem, ao chegar em casa, puxei o colchão para a sala de TV e por lá fiquei. Tomei dois copos de vinho, desses bem vagabundos, e voltei a ouvir um antigo CD do Zeca Baleiro, já empoeirado, chamado Líricas – que, lá pelo ano 2001, tinha me virado a cabeça com a música que abre o trabalho: “Minha Casa”.

Lembro que fazia frio nessa época de descobertas.

Com violinos e gaitas que enriqueciam uma letra um tanto nonsense, a música me levou àquele tempo a descobrir uma espécie de mundo que se abria. E, ouvindo-a novamente, me fez perceber que existem dois tipos de músicas que valem a pena serem ouvidas. Uma que te pira de saída, como esta, e, a outra, que você ouve, anos depois, com saudades dos tempos em que pirou na descoberta.
 
Das últimas coisas que descobri, e não são tão recentes assim, conto nos dedos de uma mão: Ventura, do Los Hermanos; Cê, do Caetano; Pareço Moderno, do Cérebro Eletrônico e, pouco depois, o DVD Intimidade, do Lô Borges – que me levou a descobriu de uma vez os caras do Clube da Esquina. Fora isso, só uma ou outra coisa que descobria no cinema por causa da trilha sonora. No ano passado, saí da sessão de “Reflexos da Inocência” transtornado com uma música do Roxy Music chamada “If There’s Something”.
 
Fazia frio, também, quando vi este filme.
O mesmo aconteceu quando assisti, num outro dia de frio, “Os Infiltrados”, do Scorsese, filme com a melhor trilha que já assisti. Tinha coisas como “Gimme Shelter” e “Let it Losse”, dos Rolling Stones, e “Baby Blue”, de um tal Badfinger do qual eu nunca tinha ouvido falar – é preciso lembrar que sou quase analfabeto para música.
 
Mas tinha uma cena, no meio do tiroteio e tensão dos papéis trocados em que Leonardo di Caprio dá o balão, sem querer, no Matt Damon, e encontra refúgio na única pessoa que parece oferecer abrigo (e algo bem maior que isso) em toda a trama: a psicóloga interpretada por Vera Farmiga.
 
Cena que, diga-se, não teria nada de mais não fosse a música que começa a tocar ao fundo: “Comfortably Numb”, do Pink Floyd, cantada por Van Morrison. A temperatura sobe, e quebra o gelo da tensão do filme e de qualquer espectador. É no jeito que Farmiga olha para a câmera que parece ganhar sentido todo o desenho incompreendido da música (“The child is grown / The dream is gone”).
 
E foi depois do segundo copo, após “reouvir” (acabei de inventar essa palavra) o Líricas, do Baleiro, num dia novamente de frio, que resolvi assistir de novo ao filme de Scorsese. Queria, na verdade, rever a cena…mas dormi, naquele frio, antes da metade do filme.
 
Fiquei desmaiado de sono e cansaço.
 
Mas foi começar a tocar a música na TV e logo ela estava dentro do meu sonho; me fez despertar num pulo, quase num susto, como se tivesse tocado o despertador. Era exatamente a cena que queria ver.
 
Tateei o sofá em busca dos óculos e os coloquei rapidamente. O som aumentava e a cama do filme girava naquela cena, clássica ao menos para mim.
 
Demorei séculos para voltar a pegar no sono novamente. Depois, me lembro até que dormi bem mais tranquilo.
 
Só que a música, agora, não quer sair da minha cabeça. E este texto, que era para ser só um registro sobre meus excessos alviverdes, termina sem que tenha nada melhor para contar a não ser que certamente, logo mais, vou dormir e sonhar com o olhar de Vera Farmiga entre as guitarras de “Comfortably Numb”.
 

Mas fica a pergunta: quem poderia se importar menos?

 

 

 

 

o grande jogo

 

Palmeirense gosta mesmo é de mata-mata. E, assim como dizem dos corintianos, gosta de sofrer como poucos. Pelo menos é isso o que aponta enquete realizada pelo “Velha Margem” com dez alviverdes doentes, sofridos, valentes.
 
Perguntados sobre quais foram os cinco maiores jogos de suas vidas (contando-se que o mais velho da turma nasceu em 82 e o mais novo, em 92), 14 partidas foram citadas ao todo.
Dessas, apenas uma era do Campeonato Brasileiro da era dos pontos corridos – mesmo assim, só citada porque o camarada esteve no estádio e achou de bom tom não deixar de fora.
 
Seis dos 14 jogos citados eram de Libertadores, três do Paulistão, dois de Copa do Brasil, um da Mercosul e um do Brasileiro da era do mata-mata. A enquete foi feita na esteira da vitória sobre o Colo Colo, há duas semanas.
 
A ideia era saber se o jogo, vencido nos minutos finais com um golaço do Cleiton Xavier, já merecia entrar na lista das maiores vitórias da equipe de Palestra Itália. Entrou, mas foi citada apenas por dois palmeirenses. Leva pelo menos menção honrosa (se fossem seis partidas, estaria, certamente, na minha lista).
 
O blog adotou o seguinte critério: jogo citado como o mais emocionante ganhava cinco pontos; o segundo, quatro, e assim por diante. Na soma, os 4 a 2 do Palmeiras sobre o Flamengo, jogo de volta das quartas-de-final da Copa do Brasil de 99, ganhou de goleada: 40 pontos. Foi citada por oito dos dez palmeirenses, inclusive este blogueiro.
 
Participaram da enquete os meus amigos: Afonso Benites, Leandro Beguoci, Leonardo Pichonelli, Eduardo (Zezinho) Possi, Felipe Zangari, Fernando Vives, Luiz Raatz, Karen Cunsolo e Pablo Solano. Dei, por fim, o voto de minerva com a camisa 10 (afinal, sou o dono da bola).
 
Alguns votos levaram justificativa.
 
Foram lembrados como o jogo mais importante da vida da molecada os já citados 4 x 2 sobre o Flamengo (seis vezes), os 2 x 0 sobre o Cruzeiro da final da Copa do Brasil de 98 (duas vezes) e os 4 x 0 sobre o Corinthians na final do Paulista de 93 (uma vez) e os 3 x 2 sobre o Corinthians da Libertadores de 2000 (uma vez).
 
O jogo da final de 93 não entra na minha lista porque não está na minha memória: lembro de tudo naquele jogo, dos meus pais, a torcida, a festa, meu avô e meu cachorro assustado, menos da partida. Acho que ainda não tinha despertado para o futebol.
 
Para quem não se lembra, os 4 a 2 sobre o Flamengo aconteceram após o time ser derrotado, no Maracanã, por 2 a 1.
 
Em casa, o time perdia por 2 a 1 até perto dos 30 minutos do segundo tempo.
O empate de nada servia, nem a vitória, àquela altura, por um gol só de diferença, por causa do critério de gols fora de casa que assegurava a vaga para o Flamengo. Aos 44 e aos 46 (se minha memória não falha), Euller marcou, duas vezes de cabeça e em lances parecidos, e decretou a classificação do time da casa. Inesquecível.
 
Os 2 a 0 sobre o Cruzeiro deu ao Palmeiras seu primeiro título da Copa do Brasil – e único até agora. O gol do título, marcado por Oseas, quase sem ângulo, veio no fim, quando todos se conformavam com a disputa nos pênaltis. Serviu também para vingar a derrota em casa sofrida pelo mesmo Cruzeiro na mesma Copa do Brasil e no mesmo Parque Antártica, só que em 96 – Marcelo Ramos carrasco.
 
Os 4 a 0 sobre o Corinthians, fora o baile, tiraram o time da fila de títulos que durava 16 anos. O time tinha perdido o jogo de ida por 1 a 0, num gol lamentável de Viola, que saiu comemorando imitando um porco. Depois de 3 a 0 no tempo normal, Evair, de pênalti, fez o gol na prorrogação que deu o título para o Alviverde.
 
Por fim, os 3 a 2 sobre o maior rival pela Libertadores também aconteceu após derrota no primeiro jogo (4 a 3) e só veio no fim, com um gol quase espírita de Galeano.

A vitória levou a decisão para os pênaltis e sagrou Marcos como maior goleiro da história do clube depois que defendeu a última cobrança, de ninguém menos que Marcelinho Carioca.
 
Para os palmeirenses, nada poderia ser melhor – e a segunda eliminação do time de Parque São Jorge para o Alviverde em dois anos seguidos levou o time de Luiz Felipe Scolari para a final do torneio.
 
Na soma de pontos, só os duelos contra o Flamengo (99) e contra o Corinthians (2000) ficaram entre os cinco maiores jogos.  
 
Para encerrar, vale lembrar algumas citações justificando alguns jogos.
 
Benites, por exemplo, assim defendeu os 6 a 1 contra o Boca Juniors, na Libertadores de 94, como sendo o quinto maior jogo de sua vida: “Essa é boa para que os argentinos já comecem a arrepiar quando virem o nosso brasão em campo”. Deve pensar que fatalmente palmeirenses e argentinos se enfrentem na esquina seguinte da Libertadores.
 
Já Leonardo disse que a escolha dos 5 a 0 sobre a Ponte, no Paulistão de 2008, em 4º da sua lista, era “justa” porque a vitória tirou o time da fila depois de sete anos. “Além de tudo eu estava lá”, justificou. Por também ver o time de perto, das arquibancadas, Zangari citou um tal de Ponte Preta 2 x 6 Palmeiras como um dos grandes jogos da história da sua biografia.
 
Na lista, destaque também para uma derrota: os 3 x 4 para o Vasco, em pleno Parque Antártica, em plena final, e na minha plena formatura de 3º colegial, que levou o título da Copa Mercosul para São Januário.
 
Porque algumas derrotas também são emocionantes”, disse Raatz.
Abaixo, a lista dos grandes jogos da história de nossas vidas verdes:
 
Os 5 +
Palmeiras 4 x 2 Flamengo (Copa do Brasil de 99) – 40 pontos

Corinthians 2 x 3 Palmeiras (vitória nos pênaltis, na Libertadores de 2000) – 32 pontos

Palmeiras 2 x 1 Deportivo Cali (vitória nos pênaltis, na Libertadores de 1999) – 18 pontos

Palmeiras 5 x 1 Grêmio (Libertadores de 95) – 15 pontos

Palmeiras 2 x 0 Corinthians (Libertadores de 99) – 12 pontos

 

Marcão eterno

 

 

Meu amigo Fernando Vives diz que não assiste mais jogos do Palmeiras com roupa. Conta que deu sorte, na primeira fase, ter assistido ao primeiro jogo contra o Sport só de cuecas em frente da TV de casa. Na ocasião, pegou gripe por combater o frio apenas com a íntima indumentária. Mas viu o time dele ganhar por 2 a 0 fora de casa. Sofre agora por ter de assistir aos jogos da equipe do trabalho, e devidamente vestido.

Outro amigo, o Leandro, também segue seus rituais. Veste a camisa em dia de jogo, mesmo quando escondida debaixo da camisa. E não pisa em bares de onde assistiu antigas derrotas.

Na primeira fase, eu também vi meu time perder dois jogos importantes no meu bar favorito. Por isso, só botei o pé nele, ontem, depois do jogo. Como carne de porco na sexta-feira santa mas não vejo jogo do meu time lá nunca mais. Estive perto, é verdade, num bar ao lado. Exatamente onde vi o Cleiton Xavier emendar aquele balaço contra o Colo Colo. Num canto de rua, sem lugar no bar, vi os mesmos personagens de dois ou três posts abaixo – e dessa vez a menina que chorava abraçada à bandeira estava de camisa vermelha, e estava de costas.

Só que a rua estava em silêncio, e a impressão é que uma nuvem imensa e carregada havia estacionado sobre nós.

Um silêncio de doer. Tentei puxar o hino uma vez, mas, constrangido, parei.

Dessa vez, estava com a camisa que comprei na última vitória na Libertadores. Que tinha dado sorte, tanto quanto o brado de ‘Paulo Baier viado‘ que ensaiei no jogo de ida. Foi por isso que ele perdeu, de novo, dois gols cara a cara com o goleiro.

Mas minha participação se limitou aos 90 minutos de bola rolando.

Depois disso, entreguei a Deus. Vi meu time perder por 1 a 0, depois de se segurar como pôde. Jogar como time pequeno, satisfeito com um empate sem gols contra um time que tem tanta experiência em Libertadores como eu em combates contra tropas nazistas na Segunda Guerra. A decisão nos pênaltis parecia ser a melhor opção.

Menos para mim, que acordei pela manhã sem disposição alguma para sofrer.

Mas sofri. Puta que pariu como sofri.

Duas horas antes da partida, estava com as mãos geladas. Pessoas falavam comigo e eu só enxergava bocas, não ouvia sons. De novo, aquela síndrome de nada fazer sentido antes do apito final.

Estava sozinho do lado de fora do bar. Via pessoas passarem por mim com olhos arregalados e tom de piedade.

Pensavam: ’meu Deus, esse maluco ainda vai quebrar tudo na rua. vou dar dinheiro pra ele e sair daqui’.

Mas loucura é contagiante. Logo eu e meus tiques nervosos (um passo pra frente toda vez que falava do meu time, e um pra trás pra falar do adversário; mãos nos cabelos, nariz e olhos fechados; unhas roídas; terço da sorte apertado dentro do bolso e etc) nos multiplicamos num espaço de rua que nos coube. Todo mundo queria o fim do jogo.

E os gritos, tiques, manias, socos na parede pipocavam. Olhos arregalados por todos os lados.

Juntos, entregamos nas mãos de Deus, e Ele encaminhou nossa demanda para a pessoa certa.

Marcos, que pegou tudo o que pôde e mais um pouco com a bola rolando, segurou três pênaltis e carimbou a passagem para as quartas-de-final. Foi a grande partida da vida dele.

Achava que nunca mais o veria brilhar como contra o Corinthians, em 1999 e 2000.

Mas o negócio dele é Libertadores. E era sua nona decisão por pênaltis em Libertadores pelo Palmeiras – até então, só havia perdido duas – e ambas para o Boca Juniors.

O homem, que já morreu e ressuscitou para o futebol tantas vezes ou mais do que Ronaldo, estava iluminado; na primeira defesa, vi um filme já assistido há dez anos rodar novamente.

E comecei a me sentir seguro.

Naquela Libertadores, ele entrou para sempre na lista de ídolos eternos do time. Ficou um pedestal acima de Edmundo e Evair quando decidiu defender o time na Série B do Brasileiro, abrindo mão de uma negociação com o exterior. Encheu uma torcida inteira de orgulho ao se sagrar campeão do mundo em 2002 pela seleção. Mas, pelo clube que levou ao ponto mais alto de sua história, nunca mais fora tão decisivo quanto contra o Corinthians naqueles dois anos.

Voltou a ser ontem: jogou por um time inteiro, e ganhou o jogo sozinho. Mesmo. Fora ele, ninguém brilhou. Muitos brigaram, e foram úteis; mas não decidiriam o jogo.

Poucos goleiros podem se dar ao luxo de dizer que podem decidir uma partida sozinhos. Principalmente depois dos 30. Marcos está com 36. Diz que, com essa idade, toda e qualquer defesa é a mais difícil da carreira. Mas, dez anos depois, decidiu sozinho, de novo, num jogo que poderia ser 3 ou 4 a 0 para os donos da casa.

Em 99, o time havia anotado, a essa altura do campeonato, 17 gols em seis jogos. Agora, sem a cadência de um Zinho, a experiência de um Evair, a frieza e a velocidade de um Euller para o segundo tempo, o time só marcou dez.

É época de escassez. O time tropeça, se enrola, se perde. Mas segue de pé. Tem um monstro debaixo da trave. O maior de todos os que vestiram a camisa desse clube.

Por esse motivo o grito, reprimido durante todo o jogo, explodiu de uma vez, num estrago imenso pelas ruas, como numa oração em agradecimento:

-Puta que o pariu, é o melhor goleiro do Brasil: Marcos!

nem Marley nem eu

Sábado à noite, chego em casa e vejo tia, vó, mãe e pai em volta da televisão.
Estavam assistindo ao tal do filme inspirado no tal do livro que virou best seller, desses que você tem que entrar na lista de espera da locadora para poder levar.
Alguém da casa furou a fila e trouxe uma cópia pirata.
Na capa do DVD, vejo um loirinho aguado abraçando com certo nojo uma Jennifer Aniston que, com toda idade, mantém a mesma carinha de quando despontou como a Rachel nos Friends.
E tem um cachorro também, acho que um labrador, meio que abanando o rabo entre o casal feliz, saudável. 
Como preconceito pouco é bobagem, me juntei à família e também tomei minha parte naquela comunhão.
Dois, três, quatro minutos de filme e vi um casal de jornalistas de certa forma bem sucedidos, mas cuja única crise é o dilema viver ou trabalhar; até que o animalzinho chega e começa a movimentar a casa. Em meio à bagunça, o bicho acaba virando o mais humano dos personagens, e vira uma espécie de elo que aproxima os pombinhos em busca de filhos e a resolução a todos os seus problemas. Tudo bem original, não?
Então o cachorro começa a destruir a casa, fazer os donos passarem vergonha com a vizinhança e até mesmo com uma moça-paraíba-masculina-mulher-macho-sim-senhor que tenta adestrar os cães da molecada.
Levar filme pra casa é tarefa arriscada. Todos, a certa altura, dormem ou reclamam ao final porque não viram tiros nem um peitinho de fora.
Mas dessa vez não tinha tiros nem peitinhos, e todo mundo pareceu se divertir. O povo ficou com os olhos pregados até o final – ouvi dizer que choraram quando souberam que o cachorro não escaparia do seu destino fatal.
Em cada cena, dava pra ver o diretor falando: ‘chega aí, família bonita. vem ver que fofura é essa criatura; olha como ele é sapeca, pimpão e bonito. legal, né? gostaram? riram bastante? então olha agora o que eu vou fazer com os seus sentimentos!’.
E estraçalha o pobre com a mais cruel das deferências.
Mas, pelo clima em casa no dia seguinte, posso imaginar que poucos se sentiram mal com o desfecho desenhado já na capa do DVD pirataSuponho que tenha rolado uma lagrimazinha aqui e ali, um suspiro e ponto.
Suponho também que todos ficaram satisfeitos, porque pela primeira vez não vi meus pais dormirem com dez minutos de filme nem reclamarem, no dia seguinte, onde diabos eu tinha arrumado tal e qual filme.
Mas só suponho.
Tenho certeza que o cachorro morreu, mas não sei como – antes de saber se o casal ia ter filhos ou não, eu já estava na lua, sonhando com sabe-se-o-quê, graças a uns goles a mais tomados no jantar.
Nada contra o sucesso, aliás tenho em boa conta vários discos e filmes que venderam absurdos sem ser piegas nem brega.
Mas dessa vez, estava roncando já no segundo latido e só notei isso no dia seguinte. Não ganhei o sábado, mas pela primeira vez dormi antes da meia-noite em semanas. E pude acordar bem cedo, e disposto, para jogar bola no domingo de manhã.
A partir de agora, quando quiser ver a família disposta a ficar junto e dormir mais cedo, e ainda quiser acordar disposto para o futebol, vou prestar atenção na cotação do filme. Se numa escala de zero a dez o filme tiver levado duas patinhas, eu topo.

das arquibancadas para a história

 
Um dos pensamentos de criança que mais me causava desespero era imaginar o que existia na cidade antes de a cidade existir. Mato, pensava eu. E antes de existir o mato? Pedras, concluía. E, na época das pedras, pensava, não havia homens. Um dia tudo foi desabitado. E antes? Bom, antes nem mundo existia. E antes de não existir o mundo, o que havia? Tudo devia ser escuro. Mas e antes? Quando, afinal, foi o começo do começo? E antes de haver começo? Alguma coisa deveria vir antes. E antes para sempre. Deus? E antes de Deus?

Nessas horas, montava uma espiral na minha cabeça.

Aos 26 anos, já não tenho pretensão de saber coisa alguma.

Mas quer outro pensamento desesperador que ainda me pega por esses dias?

Pare por cinco minutos e pense como o autor de sua biografia começaria o livro definitivo sobre sua vida e obra. Pensou?

Pelo menos no meu caso, a resposta seria desesperadora até um dia atrás.

Seria algo como: ‘A máquina de café acabava de engolir a última moeda. O líquido veio amargo, sem açúcar. Segurou com certo cuidado o copo de plástico ainda quente, lambeu a colher, de plástico também, e a arremessou – como numa cesta de três pontos – em um lixo abarrotado de papeis e entulho. Antes de voltar à sua mesa, onde um trabalho inconcluso o levara até o café para pensar consigo mesmo e tomar a grande decisão, engoliu de vez a bebida amarga e quase fria àquela altura. Foi então que decidiu: sim, vou ficar uma hora a mais no trabalho e desistir de ir ao cinema‘.

Essas e outras perversões cotidianas e ordinárias preencheriam um tomo de lá vão suas…oito ou nove páginas, enriquecidas pela narrativa acerca de ônibus lotados, trânsito, cumprimento de horários, dois ou três pensamentos livres e ainda não reificados, intercalados por café e bolacha, sonecas depois do almoço, divertimento escasso em programas de TV e livros que começaram a serem lidos e escritos, mas jamais terminados.

Desconfio que essa história não renderia interesse para além da primeira página sem amores arrebatadores – no sentido trágico da questão, com noites insolúveis e insones, não correspondência e ameaças ruidosas de suicídio – nem grandes viagens, grandes perseguições, sequestros ou assassinatos – matar alguém é fundamental para despertar interesse em nossa biografia, a não ser que se tratasse de homicídio culposo, desses sem graça e sem querer.

Dito isso, gostaria de anunciar aos senhores que desde a última terça-feira essa história começou a mudar.

Enfim, fiz algo digno de nota e de introdução a uma biografia dessas encomendadas apenas aos grandes sujeitos.

Após pagar pecados às toneladas no dia anterior, deixar o trabalho por volta das 18h para fazer uma prova, marcada para as 19h30 e na qual marcaria presença apenas às 20h30…ler ler ler e não entender nada do que me perguntavam na folha de prova; correr a caneta num papel almaço como se corresse numa caixa de areia movediça e lenta, numa cadência sofrível, ilógica e indecifrável; voltar para casa e perder o sono; correr para o bar e encher a cara; lembrar de como tudo parece perdido mesmo quando parece ganho…Depois de um dia de cão, enfim, abri mão do almoço e comprei passagem para a história, impressa num ingresso de R$ 50 para assistir, da arquibancada, ao primeiro jogo das oitavas-de-final entre Palmeiras e Sport. O terceiro encontro entre os times no ano, após uma série de piabas que os paulistas vinham tomando desde 2007.

Cheguei ao Parque Antártica com meus amigos Afonso, Pablo e Cíntia, e ficamos o tempo todo com os pescoços doloridos, de tanto esticados, vendo os pernambucanos atacarem em nosso campo, do nosso lado.

Canalhas, vieram para segurar o resultado, trancar o jogo, impedir a progressão de um time visivelmente superior.

Perigo mesmo só levavam nas bolas paradas, vindas dos pés de Paulo Baier, que até já vestiu o manto verde. Mas que, em 25 minutos de jogo, rasgou um pouco da história que tinha naquele estádio ao correr como um babeta, como se tivesse dor de barriga, de lado a lado do campo para bater escanteio. Levava décadas para chegar de um ponto a outro, com a clara intenção de ganhar tempo e irritar torcida e adversários. Andava em campo.

Numa dessas corridas sem vontade, em que o estádio inteiro torcia para que ele tropeçasse no próprio calcanhar, sofresse fratura externa e que seu fêmur, escapado da rótula, perfurasse seus próprios olhos, resolvi tomar em mim a noção de história e consciência de classe e deixei de me ver como mero espectador da história; cansado de só tentar compreender o mundo, resolvi transformá-lo, como pedia um barbudão no distante século 19.

Foi assim, consciente enfim de meu papel, em meio a 23 mil palmeirenses, como agente transformador da história, resolvi gritar, alto e bom som, um inédito, inovador e revolucionário hino, que foi logo acompanhado pelos companheiros de classe:

Paulo Baaaaaaier viaaaaaaaado!

Paulo Baaaaaaier viaaaaaaaado!

Começou tímido o coro, mas pouco a pouco ganhou adeptos. Torcedores que estavam à minha volta aderiram ao movimento, e direcionaram sua força de trabalho para a revolução derradeira.

Um, dois, três camaradas me acompanhavam. Num instante, todo o estádio começou a cantar o hino que havia composto, à mão, em poucos segundos.

Todo o estádio.

Diante de tudo aquilo, Baier se transformou.

Desde aquele hino, não pegou mais na bola e não acertou um cruzamento em direção à área. Atingido pelo golpe fatal, certamente pensava que não pegava bem correr como uma gazela pelo campo quando tudo o que os nobres torcedores queriam era justiça e futebol.

Paulo Baier se apagou.

Notou que estava sozinho contra uma massa de inimigos. E que não tinha como vencê-la.

Tenho certeza de que, não fosse esse golpe, ele conseguiria irritar o adversário. Poderia provocar a expulsão do Diego Souza na corrida seguinte.

Com um a mais em campo, viriam para cima, e conseguiriam um gol redentor a qualquer momento.

Com o resultado debaixo do braço, trancariam o jogo novamente na Ilha do Retiro e conseguiriam se classificar.

Baier se consagraria de tal forma que, no ano seguinte, seria contratado pelo Corinthians para servir Ronaldo.

A coisa daria tão certa que o time logo conseguiria uma vaga para a Libertadores, depois carimbaria passagem para Dubai e, enfim, conquistariam o mundo após atravessá-lo.

Sempre com gols de Ronaldo seguidos de passe do Paulo Baier.

E se consagraria de tal forma que ninguém mais aturaria os arroubos alvinegros pelas ruas, que seriam tomadas, invadidas; ninguém poderia trabalhar em meio às manifestações e o caos seria instalado no país, que teria a economia novamente em frangalhos, teria de recorrer novamente ao FMI e, como contrapartida, teria de enviar soldados para fazer frente às tropas americanas no Afeganistão.

Caos total.

Mas não. Ao sentir o contragolpe do ódio e do desprezo contido no hino da nossa internacional (‘Paulo Baaaier, viaaaaado‘), o jogador do Sport foi anulado do jogo e da história.

E o jogo terminou 1 x 0 para o Palmeiras.

Sem zebra e sem Paulo Baier. 

Na abertura da minha biografia, o autor, seja ele quem for, agora terá elementos narrativos suficientes para comprovar que naquele dia puxei o coro que um dia seria lembrado como o brado que salvou o país de seu naufrágio. Do naufrágio e de Paulo Baier.  
Depois dessa, qualquer destino, início ou explicação para o universo passou a ser indiferente para o destino da humanidade; em minha biografia, valeria no máximo notinha de rodapé.

 

o outono do patriarca

 

 

Dia desses, li numa coluna social que Fernando Henrique Cardoso foi visto num domingo sem graça almoçando macarrão com arroz, sozinho, numa padaria em Higienópolis, bairro nobre na área central de São Paulo.

‘Planície‘ era o título da nota.

O homem que comandou o Plano Real, príncipe dos sociólogos, duas vezes eleito presidente da República, com linha direta com o presidente Clinton…de repente estava sozinho, viúvo, cansado de guerra e estorvo. O que passava em sua cabeça, enquanto levava o garfo em direção ao prato? Remoía algum plano, algum erro passado, algum desajuste?

Nunca vamos saber.

Entender a mente de um governante pode não ser tarefa das mais fáceis, mas as nuvens de interesses que o encobre enquanto ainda exerce o poder provocam fendas nas mais sigilosas ambições; como se, por osmose, segredos fossem fatalmente transmitidos num contraste entre o cuidado e a busca por sinais de mudanças eventualmente captadas por microfones, gravadores e telefonemas.

Por ordem ou infidelidade, conversas, planos, desejos e intrigas vazam com facilidade quando vozes de certa influência são instigadas a falar. Estão, afinal, todos os jogadores imersos nos mesmos fatos.

Até que um dia vem a sucessão; novos problemas, propostas e personagens aparecem e antigos mandatários são deixados de lado, esquecidos aos poucos; mesmo quando fazem os sucessores, ficam numa linha ociosa entre preservar um legado num lugar seguro ou planejar novos voos enquanto é tempo.

Via de regra, criam institutos e se dedicam a dar palestras, escrever memórias, dar, entrevistas, palpites sobre política, futebol ou gastronomia. Para, supostamente, manter a influência.

Mas são, aos poucos, esquecidos, eles e seus segredos, ou o que sobrou deles, ainda não compartilhados.

A não ser que o erro e o escândalo sejam mais fortes que o personagem.

Em ‘Frost/Nixon‘, que concorreu ao Oscar de melhor filme este ano, o diretor Ron Howard, o mesmo de ‘Uma Mente Brilhante‘, se esforça em apresentar, em duas horas, como se movem os interesses que contornam personagens pinçados da vida real; mostra como se afunilam até David Frost e Richard M. Nixon se sentarem frente a frente, em 1977, para uma revisão da história que pode alçar, ou matar ali, qualquer ambição futura. A entrevista acontece três anos após a primeira renúncia de um presidente americano, em razão do Watergate. Nixon foi o 37º presidente eleito daquele país.

Frost, interpretado por Michael Sheen (o Tony Blair de ‘A Rainha‘), é um apresentador de TV britânico, espécie de Luciano Huck de lá. Tem como interesse usar o ex-presidente (vivido por Frank Langella) como ponte até o público e o mercado americano, onde pode apresentar seu próprio show.

Nixon, por sua vez, após três anos de silêncio, sente que é hora de retornar e abandonar a reclusão. Para isso, precisa do perdão, e precisa acreditar, sobretudo, que não errou.

Em algum momento, os objetivos vão se moldando conforme a rede de relações se aprofunda; de um lado, uma horda de assessores orientando/mandando o ex-presidente a ocupar este ou aquele espaço, como marionete; de outro, um pesquisador, um jornalista investigativo e um produtor, tentando fazer daquela ‘cessão‘ (cessão mesmo, com ‘c‘) de tempo, saliva e ideias um momento-chave da história; um momento em que, finalmente, alguém poderia admitir que errou, e chancelar seu enterro político no mesmo instante.

E vingar todo um país.

Do outro lado, porém, a pessoa que já ocupou a Presidência do país mais poderoso do mundo está disposta a jogar, e a jogar baixo se precisar, como o fez nos bastidores ao mandar grampear adversários democratas; erra, enfim, ao imaginar que está com a vida ganha diante do menino sonso da TV, galinha morta portanto. (Antes de uma das entrevistas ser gravada, o ex-presidente pergunta ao entrevistador se ele havia fornicado na noite anterior, na tentativa clara de desconcentrá-lo).

Os dois lados estão armados para uma batalha que acabaria ingrata e inglória para apenas um dos lados. Uma guerra declarada em meio à falsa conquista de confiança e cordialidade sinistras. Os lutadores sorriem e se abraçam, destroem e reconstroem composturas, numa batalha invisível que pode decidir futuros – deixam o espectador, durante duas horas, com o maxilar doendo, tenso e com dentes rangendo.

E ponto.

Porque filme, entrevista e história não chegam perto, sequer, de demonstrar o que se passa na mente do mandatário quando as luzes se apagam e ele afinal se vê sozinho; ele e seu tempo, como o patriarca de Gabriel Garcia Marquez em seu outono.
 
 

história do cerco a Santiago, por são Cleiton Xavier


A professora pergunta se alguém tem alguma dúvida sobre o texto. É o sinal para que alunos comecem a guardar as tampas em suas respectivas canetas; estalos secos e cliques de fichários são ouvidos pela sala; folhas são reviradas, livros são fechados, como numa ventania.

Enquanto dá as instruções para um texto “fun-da-men-tal” da próxima aula para o entendimento do curso, levo os fones ao ouvido e sintonizo finalmente a CBN, ainda com medo de, na ânsia e inconscientemente, ligar o alto-falante do celular e ser visto e ouvido por todos; por sorte e atenção, a narração é restrita aos meus ouvidos.

Em segundos, não estou mais naquela sala, e sou incapaz de ouvir as últimas advertências e instruções.

Esqueço até que, havia pouco, tudo o que me ocupava a mente, enquanto não tinha nada nos ouvidos, era saber como sobreviver a um curso sobre raça, sexualidade e identidade nacional que deixei acumular tantos textos para a prova final; acabava de receber um alerta em um texto feito para a aula de que precisava “melhorar a redação e articular melhor minhas ideias”.

Como, se a aula é justo na quarta-feira?

É. Eu deveria estar preocupado com o alerta em nível 5 da OMS sobre a gripe suína; com o Congresso imerso em farras de passagens aéreas e tomada de crédito consignado de empresas do próprio diretor de RH do Senado; ou mesmo com o resultado das provas do Enem, com os rumos do ensino público, com o câncer da ministra/candidata ou mesmo com o catador de latas de Florianópolis que espancou o próprio cavalo e acaba de ser condenado a quatro meses de prisão…

Mas minha única preocupação está no Chile, não no México nem em Brasília nem em Santa Catarina.

A vida em 90 minutos – porque a minha, o resto dela, poderia estar em risco antes mesmo da 0h de quinta.

Pelo rádio, soube que o time está bem, meio-campo compacto, sobra de bola, chegando fácil ao gol adversário.

Que o Keirrison acaba de acertar a trave pela segunda vez…e que, na terceira chance, não vai ter perdão.

Estamos perto, é possível, é possível, diz o narrador.

Vamos tranquilos para o intervalo. Com calma: no fim a coisa encaixa.

Mas vem a alteração. Wendel é o melhor em campo, dizem os comentaristas, inconformados com a saída do lateral/volante do time.

Willians, que vem de lesão, vai ao jogo, para dar velocidade.

A ideia não vinga: a bola mal chega ao ataque, e a equipe, agora, está rendida no meio-de-campo.

O Colo Colo toma conta do jogo, tem mais posse de bola. O visitante, quando chega, quase não leva perigo.

Mas o time da casa também não.

Porque os brasileiros têm Pierre, monstro na cobertura, destruidor de lares e chances adversárias…Mas Pierre está machucado. Não aguenta mais andar em campo.

E agora, Wanderley?

Vai pôr o Evandro, aquele que até agora não mostrou a que veio? Em pleno jogo da vida de todos nós?

Ele mesmo.

Vamos que vamos…agora sem o Marcão, que levou o segundo amarelo. Lance bobo, um a menos. Meio-campo rendido.

E o tempo passa.

Perto dos 30 e quem sai é Diego Souza, herói do último jogo, o único que parecia capaz de encaminhar um destino melhor a uma equipe esfacelada, à beira da tragédia.

Sai de campo chorando.

Chorando estamos todos.

A essa hora, desligo o rádio – já deixei a sala, tomei o ônibus, atravessei metade da cidade e, perto de casa, paro do lado de fora de um bar com telão; tento acompanhar, com alguns torcedores duros e mendigos, a parte final da partida.

Sóbrio, a irritação cresce. Quanto falta?

Pouco.

O Colo Colo tem o jogo e a classificação na mão.

Por que fomos perder pra esses filhos da puta em pleno Parque Antártica?

É. Não era para ser.

O bar fica em silêncio; murros na mesa ecoam até a Paulista.

De onde estou, vejo uma loirinha, abraçada a uma bandeira verde e branca, chorar desolada, junto a um amigo ou namorado.

Como num strike de boliche, o choro se espalha.

Hora de rever nossa vida.

E torcer para que o vírus da gripe suína nos leve também, o quanto antes.

Porque viver assim não faz sentido, esse tudo por nada.

Que espécie é essa de Deus que deixa um time sair na primeira fase do campeonato depois de tanto esforço pra conseguir a vaga no ano anterior?

Lembra? O projeto Libertadores, a fase pré-classificação, na altitude boliviana. A ajuda do Caio Jr. O golaço contra o Sport, que tornou tudo possível. Tanto esforço para tudo se acabar, como uma pedra que rola do monte, após meses, anos, sendo carregada no lombo…

Ou Deus não existe ou é desnecessariamente cruel.

Quero esmurrar uma parede.

Sentar e chorar na sarjeta.

Sou um fodido, penso.

Até que, num chute salvador, vem a pandemia.

Cleiton Xavier domina.

O cara é louco? Vai mandar dali? Porra, tem gente livre! Porra, toca essa porra!

Mandou.

Balaço.

No ângulo.

Mortal.

Caralho!

Caralho!

É o que se ouve em toda Joaquim Eugênio de Lima.

Saio esmurrando paredes, ajoelho e rezo – sempre acreditei, Senhor, que ouviria minhas preces! Sempre!

No bar, as pessoas pulam tanto que o telão, esbarrado, sai do ar. Desespero: quanto falta?

Para disfarçar a ansiedade – quase tomamos um gol já no fim – alguém começa a cantar, em gritos, o hino do time.

“Defesa que ninguém passa, linha atacante de raça, torcida que canta e vibra por nosso Alviverde inteiro que sabe ser brasileiro ostentando a sua fibra”.

Nós, de fora, fechamos os olhos, e cantamos fortes, cada vez mais fortes, esperando um sinal. Um apito por uma década.

Até que, de dentro, alguém grita: “acabou!”

Saio berrando, feito louco, abraçando Deus e o mundo e ainda incrédulo.

Estamos na segunda fase, agora?

Não, estamos na história.

Estava tudo errado, tudo perdido; tudo jogava contra.

Mas ressurgimos.

Amanhã, talvez, tantos gritos podem ser lembrados como gritos em vão.

Ficamos roucos à toa?

Talvez.

Nessas horas, o desfecho é só detalhe; o importante é caminhar.

Como contra o Flamengo, na Copa do Brasil de 99; como contra o Corinthians, na Libertadores do ano seguinte.

Vitórias distantes da sala de troféus, mas jamais tiradas da memória.

Graças a elas ficamos mais fortes.

Estamos.

Pode cair o mundo, que o meu já foi se embora ainda ontem.

Nunca vou me esquecer dessa noite.

(PS: E não é que o sol brilhou forte e o frio, que ameaçava romper almas, se foi há pouco, pela manhã?)

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