“No último título do Palmeiras, meu pai estava inconsciente na UTI, mas a TV ficou ligada”

Palmeiras-campeão

Jogadores comemoram o último título do Palmeiras

Desolado com mais uma temporada de apequenamento do meu time, resultado da arrogância e mesquinharia de seus dois últimos presidentes, escrevi, no começo da semana, um post na CartaCapital (leia AQUI) sobre como havia desistido de fazer campanha para meu filho se tornar palmeirense como eu. Após a publicação, recebi de um leitor, identificado com o artigo, um dos mais belos relatos sobre como o futebol pode funcionar como catalisador das pequenas grandes histórias entre entre pais e filhos – mesmo diante do contraditório. O testemunho é tão tocante que resolvi publicar na íntegra:

“Minha memória futebolística se iniciou em meados da década de 80 e, de lá para cá, o São Paulo nunca deixou de me trazer alegrias, principalmente com os títulos da Libertadores, dos mundiais, dos brasileiros, dos paulistas, etc.

Curiosamente, o São Paulo ainda não ganhou uma Copa do Brasil. Mas, em 2012, eu consegui ficar feliz com o campeão da Copa do Brasil – o Palmeiras.

Meu pai era filho de italianos e, justamente por isso, tornou-se torcedor do Palestra Itália. Apesar de não frequentar estádios, era fanático. E, apesar de fanático, nunca obrigou seus filhos a torcer pelo Palmeiras. Resultado: dois filhos são-paulinos e uma filha corintiana.

Em junho 2012, meu pai já estava com a saúde debilitada e teve de ser internado. A partir a internação, sua saúde só piorou. No início da internação, o Palmeiras se classificou para a final da Copa do Brasil e iria enfrentar o Coritiba que, por ironia, eliminara o São Paulo na fase anterior.

Enquanto o Palmeiras subia, meu pai piorava.

No dia da grande final, ele estava na UTI. Muito embora não aparentasse qualquer sinal de consciência, solicitamos aos enfermeiros que deixassem a televisão do quarto dele ligada durante a partida. Para ter certeza disso, fiz questão de visitá-lo durante o primeiro tempo e, quando cheguei ao quarto, vi que a televisão transmitia o a partida. Certificado, fiquei um pouco e fui embora.

Naquele 11 de julho de 2012, vi apenas o final do jogo na minha casa e, quando o árbitro apitou e o Palmeiras sagrou-se campeão, não pulei, não gritei e não abracei ninguém. Apenas fiquei feliz por ele e torci para que ele tivesse tido algum lapso de consciência naquele breve momento de felicidade.

A partir daquele momento, entendi por que ele nunca me forçou a torcer pelo Palmeiras. Ele sempre soube que em algum dia nós estaríamos juntos, mesmo que fosse apenas um único jogo. E realmente aconteceu. A minha torcida naquela noite foi, acima de tudo, pelo meu pai, primeiro para que ele se recuperasse e, segundo, para que o título do Palmeiras lhe desse uma injeção de ânimo.

No final de 2012, o Palmeiras caiu para a Série B e o São Paulo foi campeão da Copa Sul Americana.

No começo de 2013, meu pai nos deixou”.

Palmeiras: até, quem sabe, um dia

palmeiras1Vou ser sincero desta vez. O problema não sou eu, é você. Não acho que mudei tanto desses anos todos pra cá.

Mas você mudou.

Você está irreconhecível. A ponto de eu não me reconhecer mais em você.

Há doze anos, você pediu que eu ficasse do seu lado. Eu fiquei.

Cantei para você.

Defendi você.

Me afastei de todo mundo que tentou me afastar de você. Que fazia troça enquanto você estava febril, em apuros.

Você disse que era uma fase. Que tudo aos poucos voltaria ao normal. Que a gente conseguiria se encontrar sem sofrer nem sangrar. Que os domingos seriam calmos, como antes. Como antes eram inesquecíveis.

Seguimos. Veio o segundo rebaixamento. Você se reergueu. E mal se reergueu, voltou à arrogância de sempre: se livrou de quem te honrou, de quem esteve à altura da tua grandeza. Voltou a dizer que ninguém é inegociável. Ninguém é insubstituível. E que você, egoísta, era maior do que tudo, inclusive do que aqueles que te carregaram até aqui.

Porque é só disso que você é feito: de nervos e suor. De muitos nervos e muito suores. Você é um catado de todo mundo que um dia se doou a você. Do torcedor ao roupeiro. Do terceiro goleiro ao centroavante matador. São os homens que levaram às glórias, e não suas glórias que desceram até os homens. Por isso não os maltrate: sem esses homens você seria apenas um projeto.

Hoje o que me apego a você é um retrato, e ele está velho, as dobras desgastadas, escuras, amareladas. Olho para este retrato como quem busca entender como tudo começou. Respiro. Lembro de um domingo. Muitos domingos. Em 93. 94. 96. 98. 99. Até 2000. De lá pra cá são só desencontros. Somos uma farsa. Você é só a sombra do que foi um dia. Que usa o que foi um dia para frequentar as festas dos grã-finos, cair de bêbado, ser carregado, passar vergonha.

Sempre tive esperanças de que tudo voltasse a ser como antes. Mas não dá mais. Há momentos em que é preciso reconhecer a inutilidade da esperança. A esperança, quando farta, é o campo aberto da desilusão. E enquanto te espero, você debocha.

Por isso não quero te ver.

Não quero te olhar.

Você optou por este caminho. Desfez-se de tudo o que te levou a ser quem era. Desfez-se de quem te vestiu. E espera por dias melhores na lógica da inércia.

Este tempo pode ser melhor para nós dois. Você segue sua vida, eu sigo a minha. Já não passo fazer nada por você. Mas posso fazer por mim. Os seus domingos são incertos. Os meus têm salvação. Não vou abrir mão deles por você.

Um dia, quem sabe, a gente se encontre. A gente se reconheça. Hoje não dá. Apenas não dá.

Sobre o tempo

Às vésperas de completar 31 anos, tomei uma decisão de cunho radical. Em um fim de tarde de domingo, coloquei meus tênis surrados de futebol de salão, amaciados por dois pares de meias que não usava mais (um par para cada pé), e apareci na quadra, com o rosto prensado no alambrado, perguntando se podia “fazer time de fora” (quem conhece sabe: é o modo cortês e oficial de perguntar: “posso me incluir nesta peleja?”).

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Evair, ídolo eterno

Faz mais ou menos quatro meses. A primeira investida durou dez minutos, o tempo para terminar meu estoque de oxigênio e minha garganta fechar. A segunda tentativa durou meia hora: meu domingo terminou em glória e minha segunda-feira, em dores. Por todo o corpo: nas costas, na panturrilha, no ombro, no pescoço, no joelho. No terceiro domingo, estava quase adaptado: conseguia correr e respirar ao mesmo tempo sem olhar para a bola. Mas o cálculo entre as dores do dia seguinte e a liberação de endorfina da véspera estava em um equilíbrio mambembe. Era uma armadilha: no quarto domingo, tropecei sozinho na bola e fiz ecoar pelo prédio o estralo de um tornozelo estourado. Passei dois dias de cão, sem conseguir colocar os pés no chão. Teimoso e com as dores debaixo do tapete, voltei à quadra no domingo seguinte e tomei outra pancada. No mesmo tornozelo. O estalo, de sete graus na escala Richter, foi ouvido em um raio de 180 quilômetros de onde estávamos. Dali em diante, toda vez que chutava uma bola, o tornozelo voltava a doer, e eu era obrigado a abandonar a quadra e a passar os dias fingindo não sentir dor para não ter de confessar: “vim, vi e perdi”.

No domingo passado, aparentemente livre das dores, consegui passar duas horas (intercaladas em jogos de dez minutos ou três gols) em quadra. Foi um exercício de autodestruição consentida. Uma autodestruição física e moral. Éramos exatos 16 elementos. Por consenso, três capitães tiraram “dois ou um” para escolher seus times. Vi a convocação de um por um. E consegui, às vésperas de completar 31 anos, ser o último a ser escolhido; no caso, o único a não ser escolhido. Como só dois times podiam jogar, me sentei na beira da quadra, com um bico que meu filho de quatro meses não faria, ao lado dos outros cinco jogadores da partida seguinte. Um deles chegou e olhou minha camiseta com estranhamento. Era simplesmente minha camiseta favorita: minha camiseta verde com o desenho do atacante Evair estampada em branco num fundo verde com os dizeres “O Matador”.

-Quem é o Matador?

-Como assim?

-Esse cara da sua camisa.

-Você não conhece?

-Não.

-É o Evair.

-Quem????????

-O Evair. O maior centroavante da história do Palmeiras.

Foi quando me dei conta de que falava “no meu tempo, as coisas eram assim”. Meu tempo…Dos cinco jogadores de fora, apenas um – torcedor, por acaso, do Palmeiras – sabia de quem se tratava, ainda assim por causa dos relatos do pai, também palestrino. De repente, estava num ponto equidistante entre quem não viu nem se encantou com o que eu vi ou me encantei e o que não vi nem me encantei, mas me era narrado com a saudade de quem sentiu escapar das mãos – como as glórias, por exemplo, da seleção de 70 ou da segunda Academia.

Foi o segundo dos muitos pontapés que tomaria em jogo antes mesmo de entrar em quadra. À exceção do Mineiro, um morador do prédio que devia ter a minha idade e não sei por que cargas d’água não virou jogador profissional, e o Gaúcho, atleta de dois metros capaz de fuzilar quem estiver na trajetória da bola quando acerta um chute de bico, todos em quadra eram nascidos no tempo em que eu já jogava futebol de salão pelo time de nossa cidade, Araraquara. O melhor em quadra, um rapaz de quem só um mandado judicial ou um caminhão seria capaz de tirar a bola, havia nascido em 1996. Foi exatamente o ano em que, perto de completar 14 anos, disputei meu primeiro torneio interno no Clube 22 de Agosto, então uma referência no futebol de salão da cidade – fosse araraquarense, Drummond diria que as glórias do Clube 22 de Agosto são hoje apenas um quadro pendurado na parede. Naquele ano, nosso time ficou em terceiro lugar no torneio, o que rendeu uma gloriosa medalha de bronze, guardada na estante mais vistosa do meu quarto. Do time jamais me esqueci: Bigorna no gol, Deivis Pipoca de pivô; Paulo Bigode e eu, como alas. O fixo era um tal Rafael Marques, que chamávamos de Magrelo: o único da turma que seguiu carreira. Hoje é centroavante titular do Botafogo e joga ao lado de Clarence Seedorf. Mas, naquele tempo, o cara da cidade se chamava Samuel Flores. Ninguém, nem Roberto Carlos, tinha o chute mais violento e mais preciso do que o Vinicius Holanda. E não havia nada que nos impusesse mais autoridade do que o treinador do clube, o Roberto Salami (o técnico Luiz Felipe Scolari se sentiria um amador perto dele). É como se diz: não importa o quanto o mundo evolui, ninguém jamais chegará aos pés dos ídolos (dentro ou fora da tevê) que formamos aos 14 anos. Nunca vou ver Evair num tete-a-tete como Neymar, como nunca vou saber como me sairia se o jogador que (não) fui aos 14 anos se encontrasse hoje com os rapazes do meu prédio. Como dizíamos: “Daria pau?” Aposto que sim, mas prefiro o benefício da dúvida. O tempo agora é deles.

Transportado para o tempo atual, e devidamente desmoralizado já na preleção, lembrava daqueles dias como quem percebe que o tempo passou numa tarde. Daquela quadra, à exceção do Mineiro e do Gaúcho, eu era o único que havia visto, e admirado, Evair em campo. Era um centroavante reto no melhor sentido da expressão. Tornou-se o maior ídolo de uma geração atuando sem pedaladas, sem toques de letra ou chapéu. Era letal na bola parada e preciso no passe. Dava a impressão de que não precisava de impulso para acertar a bola aonde quisesse. E acertava.

Em quadra, os meninos que desconheciam O Matador tinham como referência as acrobacias elásticas de Neymar, um craque incontestável, mas de estilo tão parecido com o Evair – de quem já se declarou fã – quanto João Gilberto de Fred Astaire. Resultado: não só não recebi uma bola (apesar dos berros evocados de alguma tarde de 1996: “se quiser tem!”) como me vi na desconfortável situação de ser o alvo dos dribles que todos queriam testar. Nos dez minutos de cada jogo, tentavam me dar chapéu, caneta, drible da vaca, drible de letra e todos os dribles para os quais ainda não inventaram nome.

A cada passe que errava, recebia uma bordoada em forma de olhar. Era o desprezo em sua matéria-bruta. O peso da cabeça, mais do que o corpo, era uma âncora amarrada em cada perna. Pensava na segunda-feira, na entrevista agendada, no futuro dos protestos, nas eleições, na casa, nas contas, no filho, na mulher, nos pais que envelhecem e nos amigos que se mudam a cada dia para um canto novo do Planeta. Para jogar como jogava aos 14 anos, precisaria de 80 quilos de preocupações e carboidratos a menos.

Enquanto isso, o jogo rolava. E o que era para ser um intervalo lúdico de uma semana de tensões se transformava em uma praça de guerra.

Triturado, sorria por dentro com um deboche indefinido, como quem busca um consolo: aquela fome exibida em quadra tinha data e hora para acabar. Muito logo, para aqueles meninos, chegaria a hora do vestibular. Os cursos preparatórios. As aulas. As festas da faculdade. Os estágios. Os trituradores de carne chamados primeiro emprego. O cansaço. Os bares. As ressacas. E o futebol será só uma desculpa para destreinar a mente, estralar os ossos, e triturar o que nos sobra de autoridade. Porque nada é tão assustador do que ser triturado por quem nasceu enquanto criávamos um reinado – com todos os capitais sociais reservados ao esporte – com a bola nos pés. Alguns não correrão em um ano o que correram naquele domingo. Não perdem por esperar: como nós, envelhecerão com seus hits, celulares, aplicativos, manhas e tiques e cliques de multifunções captadas em velocidade tão assustadora como a chegada de novos ídolos. Eu e meu saco de objetos de memórias obsoletas – os esquemas 4-4-2, o PC 386, o escândalo PC Farias, o MasterSystem, o Tamagotchi, a série Friends, o Orkut, o Twitter, o Facebook – estaremos sentados à espera, engordando em proporção geométrica, e repetindo como um mantra: aconteça o que acontecer, jamais haverá um ídolo como Evair (ou Romário, ou Viola, ou Raí, ou Marcelinho, ou Edmundo ou Bebeto, ou quem quer que estivesse no auge quando tudo o que tínhamos no bolso era um tempo para chamar de nosso).

Após reações a selinho, Uruguai oferece asilo a Sheik

Sheik uruguaio. O presidente do Uruguai, José Mujica, deve oficializar até o fim da semana o convite de asilo ao atacante Emerson Sheik, do Corinthians. O jogador, alvo de protestos e ameaças desde o vazamento de um selinho dado em um amigo nas redes sociais, está refugiado no posto da Polícia Federal do aeroporto de Guarulhos e teme por sua segurança. “Não queremos só que o jogador entre em nosso território. Queremos que ele entre no século 21. E que ele traga os três campeonatos brasileiros, o mundial e a Libertadores na bagagem”, disse Mujica. O presidente é um dos entusiastas da possível contratação do atleta pelo Nacional de Montevidéu, último campeão uruguaio da Libertadores, conquistada em 1988.

O selo da discórdia deve selar ida de Sheik para o Uruguai

O selo da discórdia deve selar ida de Sheik para o Uruguai

Tapetão. Ainda não há data para a votação no Supremo Tribunal Federal dos embargos infringentes sobre a conquista da Taça Libertadores da América de 2012, resultado da ação ajuizada pelo grupo Orgulho Hétero.

Chicana esportiva. Antes do julgamento, amigos de Joaquim Barbosa garantem: quem se assustou com o destempero do presidente do Supremo durante a análise dos recursos do “mensalão” ainda não viu nada.

Transferência de tecnologia. Corintianos que protestam contra a existência do ex-ídolo alvinegro organizaram uma festa no aeroporto antes da viagem do deputado Marco Feliciano para a Rússia. O presidente da Comissão de Direitos Humanos para Humanos Direitos na Câmara vai passar participar de palestras e conhecer de perto a estrutura anti-gay montada pelo presidente Vladimir Putin. O deputado é autor do chamado Projeto Isinbayeva, que proíbe manifestações públicas de afeto durante as atividades esportivas.

Fora do Exu. Um grupo da Bahia iniciou, na semana passada, a coleta de assinaturas para o registro de um movimento alternativo ao candomblé tradicional. Os idealizadores defendem uma nova forma de organização coletiva, sem que Exu, o orixá da comunicação a quem são feitas as primeiras oferendas, tenha primazia sobre as demais entidades.

Pós-candomblé. “Somos adeptos do pós-candomblé, e no pós-candomblé não é permitida a ambiguidade de Exu. Aqui ou você é do bem, e está com a gente, ou é do mal”, diz Pai Pilé, líder horizontal do grupo vertical. Segundo ele, a ideia é que os adeptos do Fora do Exu vivam, rezem e trabalhem em terreiros coletivos, dividam as tarefas diárias e disponibilizem na web a transmissão dos eventos via celular, sem filtro nem edição.

Disparada ao cubo. Após a alta do dólar, que no início da semana chegou a ser cotado a R$ 2,41, a preocupação do Planalto agora é com a desvalorização do cubocard em relação à moeda nacional. O Tesouro planeja lançar ações de compra da moeda para tentar manter a paridade. Seria uma forma de conter o tsunami de cubocards no País, uma consequência da emissão descontrolada da moeda desmonetizada para o pagamento de hotéis, restaurantes, artistas e fornecedores em pelo menos 12 estados.

Controle sob câmbio. A proposta é tratada com reserva pelo Planalto. “O câmbio é flutuante. A boa fé também”, desconversou o ministro da Fazenda, Guido Mantega.

Bolsa Cubocard. A desvalorização da moeda, de acordo com os parlamentares da base aliada, deve enterrar no Congresso as chances de aprovação do projeto que prevê a remuneração em cubocards para as manifestações artísticas vencedoras dos editais do Ministério da Cultura.

Best Seller. A Companhia das Lendas fechou contrato para a publicação do novo livro de Octávio Cabral – Julio Maravilha, a biografia autorizada de Julinho da Adelaide. Após a polêmica biografia de José Dirceu, que narrava viagens jamais realizadas e diplomas de cursos inexistentes, desta vez o autor garante ter encontrado uma fonte oficial com 100% de credibilidade: o próprio Julinho.

Até sempre

Tinha um olho no relógio e outro na porta quando saí às pressas distribuindo beijos para a mulher, o filho, a cachorra e a sogra na primeira manhã que se anunciava comum – ao menos para os padrões consagrados de normalidade – em muito tempo. Era o desfecho da primeira noite em que dormíamos todos juntos. Nas noites anteriores, Miguel ficava em uma incubadora da UTI Neonatal da Maternidade Madre Theodora, em Campinas; de lá, após a visita da noite, voltávamos todos os dias pra casa com um encontro agendado para as duas horas da tarde seguinte. Foi assim durante quase 40 noites.

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Nesse tempo, já ao fim das visitas, listava todas as orações que havia aprendido na infância enquanto segurava a mão do meu filho, que engordava um pouco a cada dia. Olhava para o lado e via rituais similares, embora de expressões diversas: uma mãe que entoava cantigas de sua igreja em voz alta, um pai com um rosário vermelho ao pescoço e as mãos erguidas para o céu, outro que emitia sinais como um padre em direção ao berçário.

Eu, por minha vez, fazia uma trinca de orações e desenhava sobre a testa daquele corpo de um quilo e alguns gramas uma cruz imaginária. Me despedia com a certeza de que ele ficaria bem guardado sob a vigília de anjos e santos. Não por acaso, passei todo esse tempo quase sem problemas para dormir, algo do qual muitos pais se queixavam à boca pequena no corredor da maternidade.

Mas no primeiro dia em que dormimos e acordamos na mesma casa, quando a dinastia dos ponteiros e das horas marcadas já me empurravam para a vida regular, corriqueira e ordinária, por pouco não saio de casa sem repetir o ritual que marcara o período da internação, quando me sentava perto do berço, segurava aquelas mãos minúsculas e rezava baixo, ainda que mecanicamente, alguma oração que me ensinaram na infância – as quais tantas vezes, em todos esses anos, adormeci e me levantei sem recorrer a qualquer deferência.

Um pouco por culpa, outro tanto por despeito, só me lembrei de rezar ao lado dele, em casa, quase 24 horas depois de sua chegada. Rezei, talvez um pouco mais rápido do que nos outros dias, para não correr o risco de perder o ônibus. Aquele minuto me custou caro: o ônibus em direção a São Paulo acabava de partir e eu ficaria sem ter o que fazer na rodoviária de Valinhos, a 90 quilômetros da capital, durante cerca de uma hora.

Bufei, resmunguei, andei em círculo, abri e fechei o jornal algumas vezes até observar, no alto, a cúpula da igreja de São Sebastião, perto dali. Lembrei que, durante a internação do Miguel, que nasceu antes da hora com apenas um quilo e sem maturidade respiratória suficiente, rodei a região da maternidade até encontrar uma igreja. Aquela era a primeira vez em muitos anos que eu, orgulhoso e já tomado pelas rédeas dos ponteiros – da qual me imaginava autoridade – pedia ajuda a algo que não enxergava.

Daquela feita, entrei, pedi, ajoelhei e entreguei ao altar uma lista de pedidos, mais ou menos como o cancioneiro caipira de Renato Teixeira que, sem saber rezar, deposita apenas o olhar diante da imagem da santa em Pirapora. Pedi e recebi dias melhores; só esqueci de voltar para agradecer. Repeti, assim, uma passagem bíblica em que, após uma série de milagres realizados em uma cidade, apenas um curado volta ao templo para agradecer. No calor das horas, a gratidão evapora. E é assim desde o Antigo Testamento.

Dias depois, irritado com o atraso mas sem o desespero dos primeiros dias de internação, voltei a uma igreja com a ansiedade colhida do lado de fora por quem acabava de perder a hora (assim pensava). Levei um bom tempo até arrefecer e me sentir minimamente em paz para me lembrar dos últimos dias, o que provavelmente evitava inconscientemente. Da fileira de madeira à minha frente, notei a projeção da minha sombra; nesta imagem, em volta da cabeça e dos ombros, observei também a sombra de uma espécie de vapor, semelhante ao fio de calor expelido por uma vela acesa – ou ao calor visível de um asfalto quente.

Como sou jovem demais para acreditar em milagres, e velho demais para duvidar deles, permaneci onde estava sem fazer esforço para buscar uma explicação lógica. Vai ver a luz, filtrada pelos vitrais de um dia frio, era o que produzia o fenômeno do lado de fora. Quieto estava, quieto permaneci.

E foi em silêncio que catei as dobras dos últimos dias e coloquei num projetor imaginário, como quem assiste ao trailer de um filme que me havia marcado.

Muito nitidamente, pude reconfigurar o rosto dos médicos e enfermeiras que nos atenderam naquela maternidade – e que me levam, agora, a escrever este texto. Era como se, do altar, alguém me dissesse: “Lembre-se deles. Lembre-se de cada uma deles”.

Foi o que eu fiz.

Nos minutos que tinha ao meu dispor, lembrei de quando uma das enfermeiras me conduziu à mão até uma incubadora da UTI e me mostrou qual das crianças ali espalhadas era o meu filho. Tudo o que sabia sobre ele, a partir de então, viria da boca delas.

Foi uma convivência intensa: em 40 dias, vi mais aqueles rostos do que havia visto o de amigos e familiares ao longo do ano. Lembrava das jovens que me ajudavam a amarrar o jaleco à entrada da UTI. Que me explicavam o modo certo de lavar as mãos antes de adentrar nos corredores de cuidados extremos. Da senhora que certa vez o deitou de lado e o aqueceu com as mãos até que ele parasse de chorar. Das moças que lhe abriam a sonda para depositar a injeção de leite. E dos relatos, aos risos, sobre como ele passara a noite.

Nosso primeiro mês com nosso filho era uma rota refeita nos relatos das enfermeiras sobre os momentos em que não estivemos lá. Em nosso lugar, elas foram pais e foram mães. Mais que isso: elas tinham o que nos sobrava em preocupação e o que nos faltava em firmeza e precisão. Para nós, pobres mortais, imaginar a introdução de um tubo de alimento ou de oxigênio a partir da boca de um recém-nascido é um procedimento tão complexo quanto construir diariamente uma nova Ponte Rio-Niterói. Para elas, era uma ação tão involuntária quanto um suspiro.

Por algum tempo – que, como na música, passou afinal depressa como tudo tem de passar – não eram apenas os bebês que acumulavam maturidade e musculatura para seguir a vida fora dali; era como se nós, os pais, estivéssemos num curso intensivo de maturação e exercício de paciência, fé, coragem e confiança – a confiança de que nossos filhos estavam em boas mãos.

Copo meio cheio, meio vazio, a convivência com um filho prematuro é a oportunidade rara de ver, tocar e sentir algo que, em um processo normal, estaria escondido sob as camadas de pele e útero. Mas, no início dessa transição, parecia algo implausível supor que um bebê de apenas um quilo – alguns eram ainda menores – saísse dali inteiro, pronto para uma vida que pede força e vigor a partir de seu primeiro instante. Mas eles conseguem. E não apenas porque naquelas salas havia um acúmulo secular de estudos, experiências, tecnologias, testes e medicamentos, mas porque entre a ciência e a nossa fragilidade havia uma mão destra, hábil e certeira a cuidar, durante as horas madrugada adentro, dos filhos que não eram delas – algumas enfermeiras relatavam a experiência como mães, outras confessavam a vontade de terem, um dia, os seus filhos; todas eram mães de todos eles de alguma forma e dom, e não apenas pela obrigação do ofício.

Ao final do percurso, entrei novamente em uma igreja para pensar em tudo e, afinal, agradecer. Sem querer, deixei um agradecimento duplo: o primeiro, dedicado às profissionais da Madre Theodora, que tanto nos ajudaram naqueles dias; o segundo, por terem os céus me poupado do vexame de ser flagrado às lágrimas e soluços que me escapavam ao lembrar dos rostos de quem não tive tempo de agradecer e me despedir.

Durante nosso período de internação – sim, nos sentíamos também internados – pensamos qual seria a melhor maneira de dizer obrigado a cada uma delas. Pensamos em levar uma tonelada de balas e doces em nossa despedida, e agradecer, com um abraço, uma por uma, a começar pela moça da recepção. Não houve tempo: na afobação entre a alta e a logística até o caminho de casa, não houve tempo para cerimônias, discursos ou despedidas solenes.

Não houve tempo sequer para um aceno de mão e uma expressão, mínima, de agradecimento. Como se fosse possível: para ficarmos quites, teríamos de cuidar dos filhos de cada uma delas por pelo menos 40 dias e 40 noites. Saímos de lá, portanto, com uma dívida impagável. Uma dívida que não nos impede de dedicar a elas, de hoje até sempre, cada segundo de uma nova vida que começa.

Para a posteridade

Araraquara, 24 de novembro de 2012

Caía uma garoa fina quando soube que você viria ao mundo. Não chegava a trovejar naquela noite. Mesmo assim fazia frio. E a garoa fina, que se estendeu até a manhã do dia seguinte, era motivo suficiente para nos manter em casa a salvo e a seco. Foi só por isso que não peguei a bicicleta e saí pedalando mundo afora com meus fones de ouvido. Seria o meu primeiro impulso em condições normais de pressão e temperatura: a notícia sobre a sua chegada era grande demais para caber naquela casa e – isso você não vai demorar a perceber – nessas horas não tem nada melhor a fazer do que pedalar e/ou ouvir música para digerir qualquer notícia, boa ou má.

posteridadeO que me ajudou foi ter tomado antes meia garrafa de vinho tinto dividida com seu avô. Teria tomado oito se tivessem outras garrafas na mesa. Não tinha. Fui então andando pela casa catando as dobras da notícia e colocando pra dentro, como tenho feito até agora. Só soube que você estava a caminho graças à resistência da sua mãe em beber ou comer as fatias cruas do carpaccio e do sashimi que seu vô tinha preparado a tarde toda para nós, as visitas. Na casa do seu avô é assim: ninguém se nega a experimentar o que se oferece sem ter uma boa explicação. Sua mãe precisava de uma desculpa convincente para conter a ofensa. Ela tinha.

Assim que sua mãe saiu de casa – ela foi dormir na vó Sônia porque agora tem receio dos gatos da vó Marisa – levei o aparelho de som para o banheiro e me demorei algum tempo no chuveiro. (Só não fui com ela porque seu vô andava meio rabugento por causa de uma cirurgia que faria na semana seguinte. Pelo menos agora, ele precisa mais da minha companhia do que vocês). A primeira música que ouvi, ainda querendo pedalar, foi “Coração Vagabundo”, do Caetano Veloso. Não se preocupe quando alguém disser que era uma música velha; ela já era velha quando eu a descobri. Você talvez estranhe quando ouvir pela primeira vez – eu mesmo estranhei muito – mas se prestar atenção não vai demorar a entender que tudo o que nossos corações vagabundos (sim, são todos vagabundos) querem na vida é guardar o mundo em nós. Vai ver foi por isso que tentei captar um dia inteiro, como numa foto, para escrever este texto, o primeiro dos muitos que você promete me inspirar. Desse dia, se você me perguntar, o que me lembro era do sol. Sim: pela manhã havia luz e calor por toda parte. Foi este sol que levou sua mãe a me pegar pelos braços e me levar à piscina apesar da minha insistência. Ficamos algumas horas ali, eu ainda sem saber que você também já estava naquelas águas. Não sei quem estava mais bonita, se sua mãe ou aquela manhã.

Com os anos a gente descobre que não importa como terminam os dias (aquele terminou chuvoso), e sim como eles começam. Isso vai pautar todo o nosso humor. Naquele dia fazia muito sol até então. Logo que acordei, corri para o computador para escrever sobre o futuro da seleção brasileira sem o Mano Menezes, que tinha deixado o time um dia antes, para surpresa geral. Se isso foi bom ou não só vamos saber quando ouvirmos os rojões nas ruas e você estiver perto de completar um ano. Não se assuste caso isso aconteça: é assim todo ano de Copa do Mundo. Isso é o Brasil, embora uns querem que não seja.

Mas no dia em que eu soube que você viria ao mundo o mundo estava longe de se resumir às agruras do futebol (não eram poucas, com o rebaixamento de nosso time consumado uma semana antes – sim, porque neste mundo você terá direito a tudo, menos a escolher outro time para torcer que não o meu – e a iminente consagração dos nossos maiores rivais no Mundial de Clubes). O mundo, embora já tivesse sido bem pior, andava estranho: Israel se segurando num cessar-fogo para não trucidar os palestinos em Gaza, o novo presidente do Egito se autoconcedendo poderes como um faraó, e, por aqui, a chefe de gabinete da Presidência em São Paulo sendo demitida por suspeita de corrupção. (Guarde esta palavra para quando você envelhecer).

A bem dizer, nenhuma notícia de jornal daquele dia havia me deixado tão atônito quanto a entrevista do Philp Roth, um dos escritores favoritos do seu pai, para o New York Times (é provável que estes nomes ainda estejam em evidência quando você começar a se interessar pelas letras). Era dele o último livro que tinha lido quando a minha vida ainda não era sua: “O Avesso da Vida” (olha a ironia). Mal tinha digerido aquelas páginas quando li, naquele sábado, uma frase dele que jamais vou esquecer: “Escrever é frustração – frustração diária, sem falar na humilhação. Não consigo mais encarar dias em que jogo fora as cinco páginas que escrevi. Não posso mais fazer isso”.

Aquilo me deixou confuso porque, com meus trinta anos recém-completados, tudo o que quero é viver dessa frustração – falo há muitos anos que estou preparando minha migração para a literatura, e prometo que, antes de você completar 18 anos, já terei desembarcado de vez (ou pelo menos desistido dessa conversa).

Durante algumas horas, as frases do velho Roth ficaram ecoando por toda a casa. Pensei que nada mais seria capaz de me chocar naquele dia até saber da sua chegada. Sem poder pedalar, sem mais vinho na mesa e sem sua mãe por perto, passei uma madrugada praticamente inteira olhando cada canto da casa dos seus avós. Percebi que, à exceção da chuva, tudo ali diminuía: a biblioteca, os livros que eu me perguntava se um dia te fisgariam, as luzes, as lombadas, a mesa de jantar, a tevê desligada, as palavras marteladas em notícias de jornal, a vida enfim. Foi a primeira lição que você me trouxe à vida: que tudo se apequena quando o universo se expande. Daqui em diante, tudo o que preciso, agora, é voltar ao tamanho normal. Teremos alguns meses até lá. Se não conseguir, vamos pelo menos brincar juntos no quintal: você cresce e eu fico aqui onde estou.

Combinado?

Um beijo,

Do seu pai

PS: Em tempo: não se preocupe com o cardápio, caso você tenha alguma aversão a carne ou peixe cru. Eles vão programar o seu jantar durante dias, preparando e providenciando tudo o que você pedir e o que não pedir para o jantar. Se quer uma dica, peça para a sua avó fazer aquela polenta com rúcula e tomate fresco que ela preparara pela primeira vez no almoço daquele mesmo dia. Não chega perto de qualquer receita da sua bisavó, mas te garanto ser bem melhor que os nuggets preparados todas as noites em que não tenho outra ideia pra o jantar. Última uma dica: o carpaccio do seu avô é incrível, mas não caia na dele quando ele te perguntar se você prefere o de peixe ou o de carne. Aprenda desde cedo a mentir: diga que nada chega perto ao de carne. Isso vai te poupar horas de discussão em torno de algo já posto à mesa. Vai por mim.

De volta aos anos 90: o futuro da seleção nas mãos dos ‘treinadores de ponta’

Os jogadores são outros, mas os treinadores são os mesmos dos anos 90. O que leva à conclusão: o time de 2014 estará mais perto de 1994 do que qualquer rival da Copa. Confira o futuro da seleça nas mãos dos técnicos de ponta cotados para comandar Neymar e companhia:

Com Luxemburgo, a faixa de capitão terá endereço certo.

Com Luxemburgo, a faixa de capitão terá endereço certo.

Luxemburgo: Experiência no gol: Dida estará de volta. Na esquerda, pode surgir quem for: o Roberto Carlos, com 40 anos, vai ser sempre titular. A dupla de zaga vai ter, necessariamente, um brucutu (Domingos ganha chance) e um defensor-metido-a-artilheiro (o João Carlos de ontem pode ser o Leonardo Silva de hoje). Fabiano, o genrão, será o capitão. Um dos volantes vai ser pura invenção: um meia-meia-boca será deslocado para se tornar um volante-craque. Emerson está velho. Vamos de Diego Souza. No ataque, Fred deixa de ser o matador para atuar como centroavante-pivô, tipo Müller e Evair.

Felipão: Time com oito volantes, dois deles necessariamente ex-zagueiros. Marcos Assunção será o mais avançado. Será também o capitão. Esquema: bota todo mundo na área e treina bola parada até cansar. Luan (com o Hulk na reserva), que marca (mal) e ataca (mal) ganha chance ao lado de Neymar, que passa a compor o meio-de-campo para dar lugar a Euller, demovido a abandonar a carreira para ajudar a seleção (Paulo Nunes, com 130 quilos, não entraria em forma a tempo).

Muricy: Esteja onde estiver, o Edinho, do Flu, vai ser sempre o volante titular e o Borges, o centroavante. Breno, Alex Silva, André Dias e Miranda, tudo o que seus times tinham de bom nos velhos tempos, serão titulares. Jean, de novo, vai ser queimado para jogar na lateral-direita. Dagoberto será o camisa dez. Todos os gols começam e terminam nas cobranças de escanteio.

Abel Braga: Fred é escalado como centroavante, lateral, meia e goleiro. Esquema: joga a bola nele e esquece da vida. Diguinho será o 13º jogador, espécie de talismã garantidor de emoção até o último minuto.

Joel Santana: Vai jogar para o povo. É Renato Abreu no meio e mais dez.

Meus caros f…amigos

“Vai ser dois a zero para o Coritiba. Dois gols contra do Valdivia”. A sentença do meu amigo Fernando Vives foi feita logo que chegamos, após quase duas horas de via crúcis, ao estádio em Barueri. Ninguém mais do que ele parecia disposto a rir da própria tragédia, passadas e futuras. Ainda assim, o sorriso amarelo era a manifestação mais contida de um frio agudo que acabava de me percorrer. “De novo?”, me perguntei antes de desanuviar completamente o pensamento ao fim da sinapse.

Meu estado lamentável após o jogo, deitado numa faixa da Paulista

Meu estado lamentável após o jogo, deitado numa faixa da Paulista

A piada de mau gosto na hora errada deixava claro: em dez anos, havíamos aprendido a não levar nossa sorte a sério para não perder a esportiva. Porque muita coisa havia sido tirada da gente, menos essa capacidade de, como num filme de Mario Monicelli – o cineasta italiano que, diante da iminência da morte, decidiu se jogar da janela de um hospital – rir do próprio destino. A trajetória até Barueri numa noite fria de julho parecia o símbolo perfeito de uma trajetória reiniciada dez anos antes, quando caímos pela primeira vez para a Segunda Divisão. Era nossa primeira e única final de campeonato nacional desde então. Seria pouco, quase nada para quem, nos anos 90, se acostumou com dribles e gols de nomes como Rivaldo, Edmundo, Evair, Djalminha, Alex. Mas os tempos agora eram outros. Em dez anos, fomos levados num tapa só à fila de quarta força do futebol paulista. Vimos o Corinthians ganhar dois títulos nacionais, uma Libertadores e uma cacetada de Paulistas. O São Paulo ganhava três Brasileiros, uma Libertadores e um Mundial. O Santos se sagrara campeão da Libertadores e tinha dois novos títulos nacionais no currículo. O Palmeiras tinha um Paulista. Suado, sofrido, comemorado. Quase uma ilha de alegria contida cercada por mágoas de todos os lados: as desclassificações vexatórias nas Copas dos Brasil e da Sul-Americana, os Brasileiros perrengues, o título escapado das mãos em 2009.

O histórico de revezes deixava todo mundo ressabiado e até mesmo a vitória sobre o Grêmio nas semifinais parecia mais um capítulo de ilusões do que o retorno aos velhos tempos. Motivos para desconfiar não faltavam. Henrique, nosso melhor zagueiro, tomara um tapa na cara no último jogo e não jogaria a primeira final da Copa do Brasil por expulsão. Barcos, nosso melhor atacante, acabava de ser internado com uma apendicite descoberta naquele dia e estava fora das finais. Eles se somavam a uma fila de desfalques iniciada quando Wesley, a principal contratação do ano, se lesionou sem disputar nem cinco partidas pela equipe.

Manter o humor, ao menos no discurso, era tudo o que tínhamos à frente do estádio antes de nos despedir. Leandro e Ricardo foram para um lado. Fernando e eu, para outro. Separados na arquibancada e chegados na desolação, como na música de Chico Buarque, cada dupla seguiu o caminho de um destino improvável. O Palmeiras, como sempre, jogou mal. Como sempre, me fez quebrar uma bandeira. Mas, como quase nunca, ganhou um jogo sem merecer (nos últimos anos, o time na reta final perdia tanto quando merecia perder quanto quando merecia ganhar).

Os 2 a 0 sobre o Coritiba na primeira final da Copa do Brasil deixou todo mundo com um sorrisinho entalado ameaçando se abrir. Nada seria tão fácil – o Valdivia jogou bem mas foi expulso, o Barcos seguiria fora, o Maikon Leite perdeu a chance de matar o jogo e, a bem dizer, não fosse o Marcos Assunção estava todo mundo fodido. A semana seguinte seria de puro desespero.

No dia da segunda decisão, minha vontade era tomar um calmante, me esconder num bunker e só sair dali quando o jogo acabasse. Leandro, mais corajoso, tomou um avião e foi para Curitiba, onde um ano antes o time havia levado uma chapuletada, no mesmo campeonato, por 6 a 0. Era preciso coragem. Entre meus amigos palmeirenses, o que mais ouvia era: “vou assistir ao jogo sozinho. Quero chorar sozinho em caso de nova decepção”.

Foi um parto convencer meus amigos Fernando, Luiz, Rodrigo e Felipe a me acompanharem num bar cujos donos eram palmeirenses e onde eu havia assistido boa parte dos jogos decisivos. Estava preparado para o que der e viesse – e, em caso de tragédia, estaria amortecido por abraços e álcool, muito álcool. Pouco antes de chegar ao bar, percebi o grau da situação quando recebi pelo celular uma mensagem da Karen, parceira nos últimos anos de grandes desolações: “Cara, tô com o cu na mão”.

Foto da festa após o título com alguns dos melhores amigos que um cara pode ter.

Foto da festa após o título com alguns dos melhores amigos que um cara pode ter.

Não havia outra saída a não ser beber. Das seis da tarde, quando sentamos na mesa, até o apito final, nunca tinha entornado tanta cerveja como naquele dia. Faltavam horas para o jogo começar e eu já estava torto, sem mais saber onde estava. Antes que tudo começasse, liguei para o Leandro e perguntei como estava o clima. Tenso, ele explicou, mas firme. E desejamos um bom jogo um para o outro. Dali a pouco puxaria abraçado com meu amigo Felipe, seminarista, todas as orações que tinha decorado em minha vida religiosa. No dia seguinte, tudo o que me perguntava era o que teriam pensado os transeuntes que passavam pelo bar àquela hora.

Do jogo mal me lembro. Lembro de ter xingado a mãe, o pai, a vó, a tia, o genro de todo mundo que estava em campo, palmeirenses ou coxa-branca. Fernando, pessimista, seguia dizendo “vai dar bosta, cara, tô falando”, mas não se conteve e, após meses em abstinência, começou a tomar pinga pura. Tomei também.

Por superstição, não queria sair de frente da tevê de jeito nenhum. Mesmo assim, a certa altura a situação ficou insuportável: fui para o banheiro, de onde escuto o narrador gritar o gol do Coritiba. “É isso”, pensei, enquanto esmurrava a porta, “a história da minha vida palestrina”.

Era tanto álcool no sangue que já não tinha espaço para esperanças. Sina do caralho, diziam meus amigos, pouco antes de o juiz marcar uma duvidosa falta à direita, perto da área. Quem tem Marcos Assunção tem tudo, meu irmão, dizia um. E outro: é agora. E antes que o nosso volante corresse para a bola eu já via a rede do Coritiba balançando. Gol.

O que aconteceu a partir dali, meu amigo, só a Bíblia pode narrar. Foi um tal de abraça-e-corre e vai-pra-rua-e-grita que parecia todo mundo ter recebido uma carta de alforria. Corremos pelo quarteirão, esmurramos a mesa e não nos calamos nem mesmo quando um policial sisudo entrou no bar para saber se a festa era pelo Palmeiras ou pelo Coritiba. Palmeirense, ele caiu na farra com a gente, e só um anjo verde impediu que um tiro fosse disparado acidentalmente naquele bar. Éramos todos e éramos um.

De repente me senti a pessoa mais feliz da história da existência humana: cercado de alguns dos meus melhores amigos, chutando para cima, como quem lança um foguete, a zica que parecia impregnada para o resto de meus dias.

Por algum motivo, não me pergunte o porquê, começamos a gritar abraçados “Ninguém tira, cara, ninguém tira”. Não era pelo título. Não era consagração, coisa alguma. Apesar da euforia, parecíamos saber exatamente nosso tamanho naquilo tudo. O que ninguém tirava era a experiência, única experiência só proporcionada pelo esporte, de conter num abraço o calor de uma amizade. Estava feliz por mim, por meus amigos, pelo meu time. A gente não escolhe um time pela cor da camisa, me disse certa vez o Leandro, àquela altura em transe numa arquibancada do Couto Pereira. A gente escolhe pelos laços e, no nosso caso, os laços familiares. Lembrei dessa frase quando me dei conta de que, naquele dia, fazia exatamente um mês que havia enterrado meu avô, espécie de ponto de ignição da minha vida como torcedor. O que eu não chorei no enterro, numa tentativa desabusada de mostrar força a quem se derramava, chorei diante da tevê até o apito final. Um filme passava ágil na minha cabeça: lembrava da cara dele, nos bons tempos, quando tudo o que nos preocupava eram as desfortunas do nosso time. “Êêêêêê, parmeirense!”, ele dizia ao me ver, toda vez, até o fim da vida, como quem se orgulha da transmissão de um legado.

Fim do jogo, começo a receber ligações de tudo quanto é canto. Ligações de torcedores de todos os times, entre eles corintianos retribuindo os parabéns que havia dado uma semana antes, quando o time se sagrara campeão da Libertadores. O futebol acabava de me dar outra lição: uma conquista não parecia anular a outra, e só então me dei conta de que a mesquinharia havia passado reto naquele bar.

Era bom ser campeão da mesma forma como era bom ser cumprimentado em dia de aniversário. A gente nunca sabe por que tanta efusão pela passagem cíclica dos anos. Mas os abraços são sempre bem-vindos. E naquele dia eu abracei, putaqueopariu, como eu abracei.

A festa não tinha hora para acabar. Fomos todos para a Paulista, onde invadi um caminhão de cimento, rasguei parte da calça, caí de um canteiro e estourei um joelho sem sentir a menor dor – a fila de lesões do time acabava de ser transferida para a torcida. Eu invadia carros em meio ao buzinaço, espalhava cumprimentos e abraçava gente que nunca havia visto na vida. (Mais sorte teve meu amigo Leandro, que voltava no voo do time campeão).

No dia seguinte tudo estaria igual: as iniquidades, os preconceitos, as arrogâncias de todos os dias, de todas as ruas. Mas o futebol, por algum motivo, me concedia um intervalo naquilo tudo. Tirava de mim um grito que não sabia onde começava, só como terminava.

Não sei se é possível lembrar de tudo isso em um minuto. Mas não devo ter levado mais tempo, ontem, diante de uma tevê desligada segurando o controle remoto. Foi uma eternidade. Em um minuto, enquanto me lembrava de cada amigo que comemorou aquele título comigo, calculava se valia a pena dormir sabendo se estava oficialmente rebaixado ou não. Estava. No fundo, sabia disso. Mas optei por não confirmar e dormir mais cedo para acordar mais cedo para uma segunda-feira cheia. O dia não era de festa – pelo menos não para mim nem meus amigos que, quatro meses antes, se reuniam numa mesma corrente.

Fui para a cama e, ao fechar os olhos, tentava controlar a ansiedade ou alguma teimosia em forma de esperança com a qual andei lutando nos últimos quatro meses. Mas coração de torcedor não falha. No fundo, a gente desconfia o que vai acontecer logo ao acordar. É uma sensação que acode em pontadas na boca do estômago, espécie de preparação para o grito. “Hoje você vai vibrar”, avisa o inconsciente até dos mais pessimistas, horas antes de a partida começar. Meu alerta estava morto desde o dia em que vi de longe meu time ser derrotado pelo Coritiba (ironia) justo na minha cidade-natal (ironia 2). A partir dali o final da história parecia dado. Todos os sinais estavam dados: as bolas na trave contra Grêmio e Santos, os gols inacreditáveis do Atlético Mineiro, as derrotas para os maiores rivais, os pênaltis nos lances finais, os bate-rebates pra dentro do próprio gol, as convocações de nosso melhor jogador, os desfalques (muitos), o gol de mão validado e invalidado, etc.

Desde a derrota para o Coritiba, me neguei a assistir o restante do campeonato. Não porque tivesse deixado de gostar do time. Mas porque tinha uma sensação estranha. Vitória era alívio, derrota ou empate, frustração. A conta não fechava. Fechei os olhos como quem vê, num ringue, alguém muito querido apanhar, sangrar, se estourar até a morte. A morte a conta-gotas parecia iminente e cada soco parecia estalar em mim. O Palmeiras, por mais esforço para parecer o contrário, é um gigante. E um gigante ansioso é o que de pior pode acontecer ao seu torcedor, diferentemente de times menores que, sem nada a perder, partem feito kamikases para cima de quem vier. Como numa luta de jiu-jitsu, o peso do clube passou a ser usado contra ele por rivais mais ágeis, mais habilidosos, menos travados.

Pela manhã, recebi a notícia: deixamos de sangrar. Era como se dissessem que o paciente havia parado de respirar. Era como um alívio: pelo menos agora podemos descansar. Bobagem, pensei comigo. Quem dera a vida também fosse assim: a gente morre e se encontra na rodada seguinte, mesmo que só pra matar a saudade. Até nisso o futebol tem suas vantagens. A Série B pode ser uma outra dimensão, menor dimensão, mas com a vantagem de levar na bagagem os milhões de doidos que continuarão a torcer, a vibrar, a lamentar ou a rir do próprio destino. Diferentemente da vida real, não vai dar tempo nem de sentir saudades. Estaremos juntos, para onde for. Porque o futebol, que une quem em dias normais estaria distante, é a experiência mais próxima do renascimento. Você pode quebrar a cara na rodada seguinte. Mas os abraços que ganhamos e retribuímos num estouro de alegria, estes são para sempre.

PS 1: E não é que hoje pela manhã o metrô estava cheio de gente com a camisa do Palmeiras? Alguns mais exaltados vão dizer que é conformismo. Eu prefiro chamar de esperança.

PS 2: Também pela manhã o Fernando, o pessimista das linhas acima, escreveu o que eu gostaria de ter escrito: “O que importa: torcer pra um clube independe de títulos ou da série que disputa. É uma questão de identidade, acima de tudo. Ganhar títulos é muito legal, mas que torce pra um clube em função disso entendeu errado o futebol.” E não é?

O final da novela segundo a literatura brasileira

Carminha_novocabelo_repGuimarães Rosa: “Max não morre. Fica encantado. Carminha entende que o pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo, bota o cara num saco, joga na terceira margem do rio e ele desaparece. Na cena final, ela vê um pavão e conclui: “Era, de quando em vez, a alegria”.

Machado de Assis: “Todos em volta do caixão de Carminha, cujo espírito, do alto, lembra de ter amado Tufão por 12 anos e 50 contos de réus. Ao ver os filhos, conclui: ‘Pelo menos consegui transmitir ao mundo o legado da nossa miséria’.”

Graciliano Ramos: “Carminha toma duas cachaças, perde todo o dinheiro no jogo para o Soldado Amarelo, que é enterrado na cena seguinte no buritizal”.

Graciliano Ramos (2): Com hidrofobia, a cachorra Baleia é espancada por Carminha. Defensores dos animais estraçalham a vilã.

Clarice Lispector: “A vilã, agora só com as iniciais, entra no quarto para apanhar os chinelos e encontra uma barata morta. Passa 85 dias à beira da janela pensando na vida vivida, na vida que não viveu e na vida que ainda seria vivida pelo inseto. E conclui que não é má, nem ela nem a barata, só mal interpretada, porque não consegue dizer o que sente e o que sente passa a ser lentamente o que diz”.

Dalton Trevisan: “Aconteça o que acontecer, todo marido morre no fim envenenado ou com vidro moído misturado na comida. A esposa, que traía e sorria, é a culpada”.

Nelson Rodrigues: O Juca de Oliveira enche Carminha de porrada. Ela apanha e sorri. Ele tira dela o relógio de pulso e arremessa para o telhado. Vira para a câmera e diz: ‘mulher que usa relógio de pulso não presta’. No fim os créditos se invertem, a trama muda de nome e se transforma em AVENIDA OTTO LARA RESENDE.

Drummond: “A vilã tem um espasmo metafísico diante da pedra usada para acertar os olhos dos algozes. Corta a cena e o lixão onde nasceu se torna apenas um quadro pendurado na parede. Mas como dói”.

Aos 30

Até meus 20 anos, costumava ir à igreja todos os domingos. Comungava, cantava, agradecia, desejava paz a quem estava ao meu lado. Sobretudo pedia perdão. Por tudo: pelo que sentia e pelo que não sentia, pelo que havia feito e pelo que havia omitido.

Naquele tempo, não era capaz de ir até a padaria sem levar no bolso um terço dado por minha avó. Também não tirava do pescoço um velho escapulário ganho anos antes, quando o mundo fora de casa assustava e prometia engolir minhas melhores intenções.

big fishO escapulário segue comigo. O terço também. Não dou um passo até a esquina sem eles. Mas, dez anos depois, só piso na igreja, salvo raras exceções, quando alguém casa ou morre. Não sei se isso foi motivo para me transformar numa pessoa pior. Creio que sim. Mas não só.

Aos 20 anos, com a força que conseguia reunir num terço carregado no bolso, saía às ruas e me indignava com tudo e todos. Essa indignação, que era também um fundo perdido de vaidade, me movia. Me fazia crer que, tão logo crescesse e aparecesse, seria capaz de construir, com ideias e boas vontades, um mundo sem injustiças. A indignação me fazia sentir um sujeito ativo da minha própria História. Essa indignação ficou, mas o otimismo quanto ao fim da História se diluiu em alguma esquina.

Aos 30, quase tudo o que tenho é cansaço. Aos 20, era capaz de entender a fome e gritar contra ela. Hoje peço que não atrapalhe meu caminho para o trabalho ou para casa. Porque tenho horários marcados para tudo. E o mundo, o meu mundo que ajudei a levantar contra mim mesmo, só acaba quando me atraso.

Durante esses dez anos, me perguntei muitas vezes se havia perdido a fé. Ou pelo menos a capacidade de imaginar que o mundo futuro seria melhor do que este que me legaram. A resposta era quase sempre afirmativa, embora tenha sido desmentida muitas vezes. Como quando me perdi de mim mesmo na praia. Acabava de completar 28 anos, e tudo o que me fizera chegar até ali parecia colocado em xeque. Naquela tarde, passei algumas horas estirado sobre as pedras da uma praia estranha. A praia era uma de dia, outra de noite. Quando a maré baixava, uma faixa de areia aparecia e separava as águas, criando um caminho até as pedras e um morro logo acima. À noite, a maré subia e a faixa de areia desaparecia. Tudo era engolido e virava alto-mar. E as pedras desapareciam.

Deixei as pedras antes que a maré subisse. Porque, aos 20 ou aos 30, nada me parece mais assustador do que o rio ou o mar, essas águas que sabemos como entrar mas nunca como sair. Caminhei até a rua e, a certa altura, num gesto recorrente, levei a mão ao bolso. Foi então que percebi: meu terço não estava no lugar. Havia caído em algum momento da caminhada. Dei meia volta, e refiz meu caminho.

De passo em passo, o dia ainda claro ao fim da tarde, olhava minhas próprias pegadas e não via sinal do terço naquele rastro refeito. Quando dei por mim, estava de volta à praia. O mar já se fechara e a faixa de areia havia desaparecido. O caminho até as pedras estava tomado pelo mar, que voltava a ser um só. Resolvi abrir caminho, como quem segue mata adentro. Mar adentro, no caso, um mar que, diferentemente do mar de Moisés, só voltaria a abrir no dia seguinte. As ondas não refrescavam: vinham dos dois lados, ao encontro delas mesmas, e estouravam fortes no rosto. Era o lugar delas, afinal, e não meu.

Mas cheguei, ameaçando tropeçar mais de uma vez, a passos lentos até as pedras, àquela hora já cercadas pelas águas. Foi ali que reencontrei o terço: na ponta de uma rocha, a centímetros de ser engolido de vez pela próxima onda. Batia água ao lado, acima, abaixo; mas nada o acertava, como se o terço, dado anos antes por minha avó, desafiasse minha teimosia e testasse até onde iria por ele, por ela, por tudo o que representava. Agarrei o terço e dele não voltei a me separar.

Por isso uso freio antes de dizer de vez que perdi a fé. Não, senhor, a fé ainda não perdi – e minha andança doida mar adentro em busca do terço não me deixa mentir. Em 30 anos, perdi muita coisa, mas não a fé. Perdi, por exemplo, a crença nas cerimônias, na espetacularização dos chamados grandes eventos. Não acredito em grandes eventos. Não me interessam as odes, as sacralidades, os cantos, os rituais. Nem das missas, nem dos batismos, nem dos casamentos, nem dos funerais. Me interessam os dias seguintes, os encontro ordinários, duros e repetitivos dos dias, dos trabalhos, das companhias. Também não acredito em felicidade – e talvez por isso a concepção de “inferno” não me faça, hoje, sequer franzir a testa.

Também não acredito em paraíso, da mesma forma que não acredito na sinceridade das cerimônias. Puxando pela memória, acho que nem antes nem depois dos 20 cheguei de fato, algum dia, a me preocupar em ser feliz. Ser feliz seria estar satisfeito com algo ainda a ser construído: eu. Essa satisfação me tornaria inerte. Mais: me tornaria conformado num mundo que grita, que provoca, que estrangula, que pede ação o tempo todo. Essa ação só cabe aos indignados, e eu, embora cansado, embora declaradamente impotente diante do todo, não deixei de me indignar. A indignação só foi reordenada. Já não saio na rua armado de palavras de ordem. Não canto “Apesar de Você” na rua com meus amigos estudantes. Porque o inimigo já não tem rosto. Não está no poder. Está pulverizado. Está dentro dos quartos. Está na sala de jantar. Está na fila do pão. Está manifestado toda vez que alguém é execrado, humilhado, enxotado por uma condição, seja ela a raça, o credo, a orientação sexual, a classe social. Não desdenho do santo ressentido que ergue cartazes contra demônios com rosto definido; ele pode chegar em casa e reproduzir, em nome da paz, as maiores tiranias contra tudo o que o desmente. E estar vivo é ser desmentido o tempo todo.

Hoje desconfio de quem pede ordem e segurança. Ouço essas palavras e identifico uma tendência ao isolamento e à própria violência supostamente combatida. Desconfio também de certezas. Das verdades impostas. Das teses sem frestas sobre a verdade definitiva da humanidade que me são apresentadas o tempo todo. Chego aos 30 ainda farto de semideuses – a diferença é que eles agora têm a minha idade e falam de conquistas, automóveis, cirurgias, viagens, andanças, aventuras extraconjugais, incursões acadêmicas, boladas no trabalho e outras pequenas vigarices assumidas como uma epopeia.

Aos 30 anos, tudo o que tenho é desordem e insegurança (e mesmo quando me protejo esbarro com algo que me escapa, ignoro e me ignora). E tenho dúvidas, muitas, sobre escolhas e caminhos, sobre projetos, sobre o minuto seguinte, e sobre o que parece certo. E desconfio, sobretudo, de quem diz não se arrepender. Porque eu me arrependo o tempo todo. Em 30 anos, talvez não tenha passado um único dia sem me arrepender. Me arrependo de quem me aproximei e de quem me afastei. Do que disse e do que escrevi. Do que não escrevi e do que não disse. Me arrependo até mesmo de não ter tomado um caminho diferente para o trabalho pelo menos uma vez. Porque os caminhos são muitos e, uma vez feita a escolha, jamais vou saber o que teria evitado, ou vivido, se estivesse simplesmente mudado o lado da calçada. E nada é mais angustiante do que simplesmente não saber.

Apesar disso, às vezes sem querer esbarro com ela. Se ser feliz é impossível, estar feliz é quase viável. É mais ou menos como beber água num copo pequeno para uma grande sede. Me encontro com este pequeno copo toda vez que volto para casa. Porque, em 30 anos, não houve cerimônia capaz de me alertar o estado verdadeiro de euforia como a sensação de voltar para casa e rever alguém. É quando também sou invadido pela vontade de fazer uma canção alegre, “brincando com palavras simples, boas de cantar”: “luz de vela, rio, peixe, homem, pedra e mar, sol, lua, vento, fogo, filho, pai e mãe, mulher”.

Tudo isso reunido num eterno reencontro, e na sensação de ter voltado outro toda vez. Sempre com algo a contar. Sempre com algo a mostrar. Sempre com algo a dividir. Como quem diz: não desistam de mim mais do que desisti, tantas vezes, de mim mesmo. Porque eu não desisti de vocês. E qualquer nota fora essa é em direção ao nada, ao tudo, ao nunca, ao sempre.

A certa altura tudo isso perde validade: cabem como luvas em palavras, mas a vida, a vida real de todo dia, é quase sempre quase, quase nunca sempre, quase nada nunca e quase tudo nada. Fora isso, essa apreensão inexata da totalidade ou do vazio, é o tempo que corre, que escapa, que reorienta. O tempo que fere ou cura, que aproxima ou afasta, que escapa ou se deixa domar. Mas que pulsa como antes, como sempre, como se fosse nada e ainda é tudo. Até quando durar.

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