O dia em que a mística derrubou o Palmeiras

Foto: Cesar Greco / Fotoarena

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O Palmeiras caminhava para uma eliminação melancólica. Perdia por 2 a 0, ouvia gritos de olé na arquibancada de torcida única e assistia aos adversários santistas testarem todas as possibilidades de dribles, chapéus e passes de efeito na ponta do ataque. Reagiu, marcou dois gols e levou a decisão para os pênaltis. Trocou o drama de uma desclassificação melancólica pelo drama de uma desclassificação cruel – e bem mais amarga.

Tudo, dizem os entendidos, é uma questão de distância entre expectativa e realidade. A nossa era a caminhada para a consagração. Nos dois gols, marcados em dois minutos, Cleiton Xavier, Barrios e Rafael Marques, que tinham entrado no segundo tempo, foram determinantes. Cuca do Galo-Louco-Eu-Acredito caminhava para a história de uma torcida tão pia na própria mitologia quanto nas vitórias mais absurdas.

Barrios deu o passe para o primeiro gol após ser lançado por Xavier (aquele da bomba em Santiago), que cruzou na medida para o segundo gol, ambos anotados por Rafael Marques, carrasco dos rivais paulistas que uma hora dessas, no ano passado, levava a decisão para os pênaltis num jogo igualmente perdido numa Arena Corinthians lotada.

De mística em mística, lá estava Fernando Prass, herói da conquista da Copa do Brasil contra o mesmo Santos do algoz Ricardo Oliveira e Gabigol. Era o tira-teima das duas últimas finais.

Dessa vez não tinha boneco gigante entre o gramado e a arquibancada nem uma multidão cantando, vibrando e secando em cada cobrança.

Mas a tentação é maior, a história passa sempre ali, roçando nossas pernas debaixo da mesa, pedindo para ser revivida. Essa tentação tem algo comum com a consagração: a rima. Só.

O epílogo de Luiz Felipe Scolari, campeão da Libertadores e da Copa do Mundo que se esborracha no rebaixamento em 2012 e nos 7 a 1 de 2014,  deveria servir de espantalho aos desavisados: cuidado com o mito do Rei Sebastião.

É nessas horas que nossos filhos de três anos de idade têm mais a ensinar do que nossa própria coragem: quando aplicam em casa o que ouviram na escola ao verem os pais brigarem. “Senta e pensa”.

Ontem, entre o empate milagroso e os pênaltis, ninguém parou e pensou.

Se pensou, pensou errado: tudo deu tão certo na Copa do Brasil que era improvável, quase injusto, viver tudo de novo sem a mesma carga de eletricidade. Seria também mais justo aos mesmíssimos protagonistas.

Naquele intervalo, faltou a voz daquele apresentador bonachão da TV que provoca o participante da gincana que já tem um milhão e é tentado a dobrar a aposta. “Mas mas mas mas você está certo disso? Quer mesmo colocar a perder aquela imagem do pênalti derradeiro de 2015? E você? Gols decisivos contra Santos, São Paulo, Corinthians….herói da semi em 2015. Quer ficar aqui, na paz dos heróis, sem ser importunado, ou vai correr o risco de perder os três últimos pênaltis decisivos na terceira decisão contra o mesmo time?”

Perdemos, mesmo empatando. Mesmo sem derrota para os três maiores rivais na temporada (tivesse respeitado um pouco mais o torcedor nos jogos contra times menores, o jogo poderia ser em casa, e em casa a história era outra. Mas isso é assunto para o Brasileiro).

E pior do que perder é perder a mitologia. O que o palmeirense viveu naquela final de 2015 ninguém nunca vai tirar, e são Prass pode perder mais quatro pênaltis daquele que ainda teria crédito – pelas defesas contra o Fluminense, contra o Corinthians, contra o Rosário Central, contra o próprio Santos e pelas muitas que virão.

Mas sempre quando tudo dá errado, mesmo quando parece que vai dar certo, lembro da pergunta de uma amiga palmeirense já cansada de tomar lições da vida: eu sei que aprendemos na derrota, mas o que mais falta para aprender?

Pois o jogo de ontem tem um caráter didático duplo aos palmeirenses. Um é que é preciso aprender também com as vitórias – elas nunca são um fim em si se não um meio.

A nossa era um ingresso para a Libertadores, mas o time se apegou tanto à mítica dos próprios heróis (vai no desespero que na hora H eles nos salvam) que demorou a voltar para a realidade.

Só percebeu que estava na Libertadores quando o Rosário Central marcou o terceiro gol na Argentina. Era tarde, apesar da reação.

A outra lição é mais indigesta: é preciso não só aprender, mas se desapegar das vitórias. Elas servem de inspiração e repouso da memória, mas insistir na fórmula é desprezar o acaso – aquele detalhe quase sempre esquecido que consagra e maltrata em seguida seus próprios heróis. Os nossos serão eternos. Mas mereciam um epílogo mais nobre.

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