O vilão Ricardo Oliveira

Ricardo Oliveira: o deboche teve troco

Ricardo Oliveira: o deboche teve troco

Em 1993, o Corinthians venceu o primeiro jogo da final do Campeonato Paulista contra o Palmeiras com um gol de Viola. Na comemoração, o atacante se agachou ao pé da trave e saiu imitando um porco raivoso, símbolo do rival. A empolgação era explicável, mas o ídolo alvinegro havia se esquecido de um detalhe: o jogo de volta na semana seguinte. Entre as duas partidas, o vídeo do deboche foi exibido à exaustão no Parque Antártica. O Palmeiras venceu o duelo derradeiro com uma chapuletada histórica: 4 a 0.

Desde então, nada do que Viola faria até o fim da carreira seria tão lembrado como a comemoração naquela final (ok, foi campeão do mundo com a seleção, mas como coadjuvante), o que nos leva a algumas conclusões. Uma delas é que a vida, como o futebol, é loteada de clichês, mas alguns deles a prudência pede que não sejam chutados. Nunca ninguém negou a validade, por exemplo, do aforismo que ensina não cuspir para cima para não cair na testa. Nem o caráter cíclico (e irônico) da existência: o mundo dá voltas. Quatro anos depois da final do Paulista, Viola vestiria a camisa do arquirrival. Jamais foi aceito pela torcida e nunca ultrapassou a linha entre os jogadores ordinários e os grandes craques. Ficou no meio-termo. Cantou vitória cedo demais.

Em 2015, Ricardo Oliveira voltou ao futebol brasileiro após anos no exterior. Experiente e em forma, tornou-se logo o melhor atacante do país. Foi artilheiro do Paulista e do Brasileiro. Mas tão marcante quanto seus gols foi sua postura dentro de campo. Enquanto falava de Deus na beira do gramado e comemorava gol com os dedos erguidos aos céus, debochava de adversários numa descortesia típica dos colegas mais desleais.

Na final do Paulista, tripudiou, com o dedo na cara, o atacante Dudu num dos piores momentos de sua vida: o atacante palmeirense acabava de mandar para os ares uma cobrança de pênalti que fatalmente encaminharia o Palmeiras para o título. Desestabilizado, o time alviverde começou a perder o título ali. Mérito do Santos.

Os times voltariam a se encontrar duas vezes no Campeonato Brasileiro. O Palmeiras venceu no primeiro turno: 1 a 0, gol de Leandro Pereira. No segundo, o Santos ganhou por 2 a 1 em casa com gol de Ricardo Oliveira. Na comemoração, ele apontou o polegar em tom de deboche para o goleiro Fernando Prass, com quem havia trocado cotoveladas e declarações ríspidas ao longo da temporada, e virou o beicinho como se fosse uma criança em prantos.

Àquela altura, sabia que voltaria a se encontrar com o goleiro em outras duas (e mais importantes) oportunidades: as finais da Copa do Brasil. Favorito, o time de Oliveira venceu o primeiro jogo e perdeu o segundo. Ironia: o mesmo Dudu que mandara o Paulista para o espaço marcou duas vezes na segunda final. Oliveira até deixou o seu, dessa vez sem deboche, e encaminhou a decisão para os pênaltis. Num repeteco da temporada inteira, bateu o goleiro alviverde na última cobrança e viu o goleiro rival, a quem chamara de “chorão”, converter o tiro derradeiro para os palmeirenses.

Não sabemos o que se passa na cabeça de um jogador em momentos assim, mas é possível supor que Oliveira trocaria boa parte dos gols que o consagraram na temporada para rir por último na série de duelos (ao todo, sete jogos disputadíssimos). Derrotado, viu um clube inteiro, do roupeiro ao presidente, passando pelos torcedores, fazer biquinho na foto do título. Com uma máscara do adversário nas mãos, o meia-atacante Rafael Marques, do Palmeiras, resumiu: “Essa máscara é uma resposta a um jogador que foi desrespeitoso com a nossa equipe”.

Em outras palavras, aquela comemoração debochada de um jogo que no fim não levou o Santos a lugar algum foi o combustível para o Palmeiras fazer seu jogo da vida na temporada.

Ricardo Oliveira acabava de ser reprovado na lição mais simples do ano letivo: o mundo dá voltas, e o barato do futebol é que podemos acompanhar suas ironias em tempo real e diante das câmeras (na vida real os pequenos trocos são mais sutis e geralmente não cabem num pôster). O porquinho do Viola de ontem era o beicinho de panaca de hoje.

O palmeirense conhece bem (ou deveria conhecer) o caráter gravitacional do cuspe. Dias após a maior conquista da história do clube, o time enfrentou o Corinthians na final do Paulista de 1999 e foi derrotado. Ressentido, o atacante Paulo Nunes, principal jogador alviverde, decidiu cuspir na taça dos rivais: “deixa o paulistinha para eles”. Por ironia, aquela seria a última boa temporada do Diabo Loiro, que seria dispensado do clube pouco depois vagaria como alma penada até o fim da carreira, que contou com uma passagem melancólica pelo Parque São Jorge, onde entrou pela porta lateral e saiu pelos fundos. Pior que isso: na década seguinte, o único título do Palmeiras seria um sofrido e comemorado…paulistinha.

É forçoso recorrer a um clichê para explicar o futebol. Mas a vida dá voltas. E até hoje não surgiu ninguém que desmentisse seu caráter cíclico.

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