Como nasce um palmeirense

A entonação tinha a gravidade que a situação exigia.

-Precisamos conversar.

Sentamos. Ela pegou minha mão e foi direta:

-Você não vai a São Paulo amanhã.

-Como assim????

-Marcaram para quarta o ensaio geral. Vai acabar umas oito da noite. Você vai ficar com o Miguel.

-Eu levo ele comigo.

-Nem a pau.

-Assistir jogo nessa cidade é zica. Nunca ganhei nada aqui.

-Azar.

-Se eu não for pra Turiassu o Palmeiras não ganha. Você sabe disso.

-Arruma outro lugar por aqui. Às oito eu chego e você vai pra onde quiser.

Na quarta-feira, às oito em ponto, ela me escreve:

-Vou atrasar.

Duas horas pro jogo. Miguel, na tentativa de sair da fralda, já tinha mijado pela casa inteira e eu acabava de publicar, às pressas, uma pequena análise sobre a bomba detonada pelo Eduardo Cunha. “Vê se hoje é dia de abrir processo de impeachment”, pensava.

Pior foi escrever, escolher foto e postar com uma criança no colo e ao som da Peppa. Toda vez que tentava espiar o que rolava nos canais esportivos ele esperneava. Não tinha negociação.

Às nove em ponto eu só conseguia pensar quão irresponsável eu seria se abrisse uma garrafa de vinho na frente dele.

Melhor não.

Meu plano de chegar anestesiado para o jogo começava a virar vinagre. Na véspera, já sabendo que não iria a São Paulo, tinha acionado meu xará Matheus Pacheco, palmeirense fanático que certa vez me falou de uma pizzaria frequentada por palmeirenses na vizinha Vinhedo. Passei o óleo de peroba na cara e me convidei para o convescote.

-Preciso de um lugar que SÓ tenha palmeirense. Semana passada fui num bar com santistas e deu zica.

Ele entendeu meu apelo e ofereceu carona e um abrigo numa turma de desconhecidos.

-Tudo bem se eu der vexame se sair gol?

-Relaxa. Vamos lá. O pessoal é gente boa.

Às nove e vinte eu já tinha dispensado a carona fazia mais de hora. Abandonara a ideia do vinho e já calculava a autonomia de uma criança de dois anos se ficasse alguns minutos sozinha em casa.

Respirava. No computador, colocava o hino no repeat com um olho no relógio e outro na Peppa. Agora queria que o tempo não corresse.

-Leite qué.

Enquanto preparava a mamadeira, Miguel subiu na mesa para alcançar o computador. Como sempre. Para minha surpresa, ficou olhando fixo o símbolo palmeirense, uma imagem estourada de tela no link do YouTube.

-Olé porcô, olê porcô.

De tanto me ver cantar, ele começava a me imitar. Justo ele, que se esconde e foge do pai em dia de jogo. Àquela altura a cantoria era uma piscadela em meu socorro. Uma espécie de primeira solidariedade de filho para pai. Era como se dissesse: “Pai, senta aqui, vamos conversar”.

Sentados na mesma cadeira, passamos os minutos que antecediam a final batendo palma e cantando todos os hinos de torcida que eu sabia de cor. Aproveitei o palmeirismo latente do momento para convencê-lo a assistir pelo menos os primeiros minutos do jogo. Ele não se indispôs. Mas antes que os jogadores subissem o túnel, recebo o inbox salvador:

-Fica pronto. Eu te levo na porra do bar. Só coloca uma blusa nele porque esfriou.

Abri o guarda-roupa e peguei o primeiro agasalho que me saltou. Era o agasalho do Palmeiras, presente quase intacto dado pela madrinha. Saímos os dois de verde e branco.

No corredor do prédio, uns vizinhos nos saldaram: “Vai Palmeiras”. Miguel levantou os braços para eles e retomou a cantoria:

-Olê porcô!

Montamos no carro e pela primeira vez ele esperneou para sentar na cadeirinha. Queria meu colo. Queria seguir cantando e batendo palma junto com a minha.

-Olê porcô, Olê porcô.

Na despedida inevitável na frente da pizzaria, dei um beijo prolongado na bochecha dele enquanto amarrava o cinto da cadeirinha. Ele entendeu.

Pulei para dentro, avistei meu amigo. Tinha 15 minutos de jogo. Me apresentei aos novos amigos. Sentei. Levantei. Cantei. Xinguei. Esmurrei mesas e cadeiras. Xinguei em voz alta e pedi desculpa aos presentes. Perdi a voz nos gols do Dudu e a esperança no do Ricardo Oliveira. Prometi fazer um busto em frente de casa em homenagem ao Fernando Prass. Negociei com o dono do restaurante uma saída rápida antes de pagar a conta: precisava dar a volta olímpica no quarteirão em fogos.

Cheguei em casa cantando alto e me joguei na cama para abraçar a criança que dormia, esticada, sem desconfiar dos perigos do mundo.

-Ele demorou a pegar no sono por causa dos fogos. Se você acordar ele eu te mato.

Vivo, sentei na varanda para ouvir o hino pela undécima vez. Chorei copiosamente quando, pela manhã, ele veio sonâmbulo na minha direção, me deu um abraço e voltou a dormir. A doença legada por meu avô, ao que tudo indica, acaba de contagiar mais uma vítima.

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