Confortavelmente entorpecido

-Quanto falta?

-Quarenta.

-Putaquepariu. Há duas horas faltavam quarenta e cinco.

-Esse dia começou há um mês.

A cada espiada no relógio, um chope na mesa evaporava.

-Mais um?

-Mais um.

-E agora?

-Trinta e oito.

Quanto mais a espera engessava, menos sentia meu estado alterado. Falava com meu amigo das saudades do antigo Parque Antártica como quem se refere a um território invadido, dominado, estrangulado. Desconfigurado.

Sentado num bar em Campinas, tentava observar ao redor qualquer ponto de amparo ou familiaridade. Na última vez que disputamos essa final, cumpri todas as convenções: vesti a (antiga) camisa da sorte, reuni o maior número de palmeirenses possível e nos encontramos num bar de amigos palestrinos numa paralela da Avenida Paulista, para onde desembarcamos ao fim do jogo.

Dessa vez estava tudo soturno.

Não podia assistir ao jogo em casa porque não podia acordar o meu filho. A TV da sala pifou e a do quarto sofre com o delay: antes de alguém cruzar a bola eu descubro, pelos gritos dos vizinhos, se foi gol ou não. Precisava de um novo QG, mas os da sorte estavam longe.

-Conheço um bar legal em Campinas. O chope é dois e cinquenta. Vai estar cheio de palmeirense. Traga sua camisa da sorte.

Olhava para o guarda-roupa, sem a velha camisa, e só enxergava fiascos: com essa perdi a final do Paulista, com essa outra fui rebaixado e com aquela, retrô, tomei cinco gols da Chapecoense.

-Não tenho.

-Foda-se então. Às oito passo na sua casa.

Até as oito da noite havia um ano inteiro e só sobrevivi aos minutos finais porque era dia de natação. No caminho para a aula, encontrei um vizinho corintiano, sorriso de orelha a orelha, e não sei por que diabos resolvi perguntar para quem ele torceria na final.

-Pro Palmeiras.

-Sério?

-Sério. Se for pra Libertadores, vai ser mais fácil bater.

Visualizei uma reedição dos embates de 99 e 2000. Buscava algum consolo na memória e, quando o Marcelinho partia para a cobrança, fui interrompido pela professora:

-Você fez dez chegadas de costas. Era pra fazer ondulação.

Não sei onde estava com a cabeça, mas ela não estava na água.

O cansaço da natação, somado às toneladas de chope que dragaria pouco depois, naquele bar de Campinas, me transformava num personagem sonado do Cronenberg.

Se alguém me soltar aqui no fim do jogo, pensava comigo, era capaz de acordar na Dinamarca, mas não saberia chegar em casa.

-Sabe o que eu acho? A gente devia assistir o jogo da volta na Turiassu.

-Vamos? Vamos agora? Ainda tem ingresso?

-Ingresso já era. Mas pelo menos a gente fica no meio da festa.

Traçávamos planos para a quarta-feira seguinte como quem acerta os detalhes para o desembarque na Normandia.

-Que horas são?

-Nove e trinta e dois.

-Putaquepariu.

Olhava para o lado e não havia nada que me lembrasse uma final de campeonato. Os muitos palmeirenses previstos por meu amigo éramos dois: ele e eu. Àquela altura parecia um erro tático escolher um bar vizinho ao Moisés Lucarelli, estádio da Ponte Preta, para ver jogo do Palmeiras.

Quando não olhava para o relógio, olhava para a TV. Na tela as pessoas moviam os lábios, mas não conseguia ouvir. O som do aparelho era abafado pela música ao vivo: faltando vinte minutos para o começo do jogo, o artista emendou a fase acústica do Renato Russo.

-Ela passou do meu lado, oi amor, eu lhe falei.

Alguns amigos do meu amigo chegaram, puxaram conversa sobre trabalho, e eu não tinha nada a dizer a não ser que estava em pânico.

No bolso, o celular vibrava como britadeira e, para não deixar ninguém na mesa falando sozinho, evitava conferir as mensagens.

Para disfarçar, olhava para a mesa do lado, já sem muita discrição, e via um rapaz lamber a orelha da namorada com roupa de academia.

-Só eu que podia, dentro da tua orelha fria, dizer segredos de liquidificador.

Não estou certo se de Renato Russo o músico do bar pulou para Cazuza ou se foi só minha imaginação. Mas a música já estava impregnada pela cena.

Sentado na mesma mesa, um amigo do casal, de dois metros de altura e quinze de largura, conversava com o garçom.

-Falta muito?

-Vinte.

Pergunto para a amiga do meu amigo se está realmente frio ou se o problema é comigo. Não sei o que ela respondeu, mas possivelmente deve ter estranhado, enquanto balançava os chinelos, quando disse que deveria ter levado um agasalho.

Antes que o décimo chope chegasse à mesa, meu queixo tremia. Aqueles calafrios já tinham me deixado de cama há duas semanas. Os motivos eram outros, mas os sintomas eram iguais. A poucos minutos da primeira final, tentava, numa lucidez inquebrável pelo álcool, racionalizar meus calafrios: é tudo o mesmo pânico. O pânico de confiar em algo que extrapola nossa função. Ou entendimento. O pânico de chegar a campo sem um plano, ou ter o plano estraçalhado pelas condições. O pânico de saber que fé e esperança são afetos contraditórios – torcemos porque queremos ver alguma coisa na vida ser premiada: a doação, o esforço, a alteridade, o coletivo, a superação. Mesmo sabendo que nada disso ganha jogo, torcemos. Torcemos para que as vitórias (nunca as derrotas) nos ensinem. Nos consagrem. E temos pavor de saber que até as lições do jogo podem ser estilhaçadas pelo nosso maior medo: o acaso.

Não seria assim, também, o jogo fora do campo? Não jogaríamos, todos, num pisar de ovos constante em um campo minado, esburacado, molhado e vulnerável a qualquer intempérie? E se chover? E se, num instalo, alguém furar a bolha da boa convivência e sair metralhando desconhecidos? E se uma barreira se romper e acabar com um rio que parecia perene? E se um avião for abatido a quilômetros daqui? E se metade do PIB e da cúpula dos partidos for pega em flagrante? E se arrastarem meio país para a lama? E se nada disso tivesse qualquer importância?

Pensando em tudo e já pensando em nada, batia o queixo lembrando por que, dias atrás, me batia com um pensamento fixo. Acabava de ver meu filho se pendurar na cadeira para alcançar a mesa de vidro. Tirava de lá, e ele voltava. Tirava, dava bronca, e ele voltava – como o porquinho da índia do Manuel Bandeira. Percebi, então, que não estaria por perto todo dia a toda hora. E isso me deixou em pânico, na cama, por horas. Não ter o controle daquilo, nem de nada, é admitir uma derrota: tudo, no fim, se resume a torcer. Para que nada (ou tudo) aconteça. Para que ninguém se machuque. Mesmo quando os dejetos estão a caminho do mar.

-Desculpa, filho, mas está vendo esta foto? Pois este é o mundo que deixamos pra você. Ele não é nada seguro. Fracassamos.

Pensava nisso e o queixo se tremia. Agora tremia de novo por causa de um jogo. Queria guardar para ele um pôster e dizer: “a desistência não é uma opção. Eles acreditaram e foram campeões. Venceram uma equipe melhor”.

Vai ver, pensava comigo, levamos esse jogo a sério porque só no campo podemos visualizar erros e acertos, punição e redenção, com um tempo determinado. Em uma hora e meia de jogo, temos o desfile de como funciona, ou deveria funcionar, a nossa própria vida.

Era o que conseguia pensar enquanto via, sem unha nem dentes nem queixo, os jogadores em campo: estavam lá o Zé Roberto, o Fernando Prass, o Lucas, o Gabriel de Jesus, o Rafael Marques, meu antigo parceiro de quadra em Araraquara que entraria apenas no segundo tempo. E vi também meu vô, meu pai, meus tios: todos os que não quis ver sofrer por causa de futebol quando criança; e, por não querer vê-los sofrer, pegava para mim o sofrimento. O futebol não é uma herança. É um contágio.

Pudesse, virava jogador para afastar da área qualquer perigo: ninguém nunca mais tentaria subir na mesa de vidro nem brincaria de faca nem explodiria aviões enquanto eu estivesse em campo.

Mas não estou. E, como não estou, resta torcer. E aprender, na marra, a lidar com os ponteiros. E o acaso.

-Esse jogo não acaba, putaquepariu.

-Esse 0 a 0 tá ótimo.

-A zaga parece que encaixou. Vai na base do bicão e boa.

Tinha acabado de falar quando o Gabriel, o do Santos, meio escorregando no campo chuvoso, passou no meio do paredão da zaga e mandou no canto: 1 a 0.

Antes que fizesse qualquer comentário, vi o brontossauro da mesa ao lado, que acompanhava o amigo que lambia a orelha da namorada, levantar em direção à TV:

-GOOOOOLLLL, CARALHO. CHUPA PORCADA, BANDO DE FILHO DA PUTA.

E olhou para mim, para o meu amigo; nós olhamos para trás, como se nos desviássemos de uma facada, e ali ficamos. De teimosos.

-Quanto falta?

Faltava um monte, pensei. Faltava quase tudo. Aqueles minutos finais são a eternidade de uma espera: do apito, do fim, do recomeço. Temos esperança de que tudo um dia acabe sem grandes estragos. Mas fé é outra coisa.

Assistia a tudo em silêncio e fui tomado pelo medo de engasgar com um grito que não poderia sair: o futebol, ali, era risco de vida. Naqueles minutos finais, os jogadores dançavam na tela e a voz do narrador seguia abafada. Com seu banquinho e violão, o músico do bar emendava Pink Floyd:

– I have become comfortably numb.

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