O Corinthians na velocidade terrível da queda

Parecia No caminho com Maiakóvski, o famoso poema de Eduardo Alves da Costa. Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor do jardim. Empate sem gols com o San Lorenzo.
E não dizemos nada.

Na segunda noite, já não se escondem; os maiores rivais pisam nas flores e matam o cão. E não dizemos nada. Ou melhor: dizemos. “Era só paulistinha, não vale nada, bora para o prato principal, a competição que realmente importa”. Dias depois, derrota para o São Paulo no Morumbi.

Até que um dia, o mais frágil deles, 13º colocado na fase de grupos e dono da defesa mais vazada do torneio, com dez gols em seis jogos, entra na casa, rouba a luz e o juízo e arranca um grito da garganta. É tarde: já não podemos dizer nada.

A eliminação do Corinthians na Libertadores em sua segunda decisão em seu estádio recém-inaugurado assombra pela velocidade com que a equipe se desmanchou em menos de um mês. Quem assistiu, pouco antes, à vitória alvinegra sobre o São Paulo, em Itaquera, viu ali um time pronto, treinado, calejado, indestrutível. Era o campeão de 2012 em versão melhorada.

Basta rever o gol de Elias depois de uma troca de passes que faria inveja a Xavi e Iniesta. Dois a zero foi pouco, mas era preciso tirar o pé. Havia um grupo da morte pela frente. Do grupo, todos agora estão mortos.

Nos próximos dias, os motivos da derrotada serão destrinchados, analisados, repetidos à exaustão. O time se expôs demais. Tite falou demais. Explicou demais. Deu pistas demais. Em um mês, a equipe mais forte do país ficou manjada, mas não só.

Há menos de um mês, não apenas a torcida e a imprensa esportiva, mas os próprios jogadores pareciam convictos de que nada poderia causar abalos. O time era emocionalmente uma pedra. Marcava. Pressionava. Tocava. Respirava. Truncava. Inspirava. E, como um boxeador que vence pela paciência e o cansaço rival, aplicava seus melhores golpes quando ninguém mais tinha força para reagir.

Esse time aparentemente indestrutível caiu ontem contra um time inexpressivo com dois jogadores expulsos. Andou em círculos por 180 minutos, mas os sinais estavam dados.

Há pouco mais de um ano, o Corinthians estreava com derrota em seu estádio: 1 a 0 para o Figueirense, pelo Campeonato Brasileiro. Desde então, transformou sua arena em uma fortaleza. Os rivais assustavam só de ver a aglomeração da torcida quase na linha dos laterais. Caía em Itaquera, já era.

Os dois gols de um aplicado Palmeiras nas semifinais do Paulistão no tempo normal, seguidos das defesas de Fernando Prass nos pênaltis, foram a pisadela num jardim aparentemente inviolável.

Parecia um acidente de trabalho, mas uma pulga acabava de ser instalada nas orelhas mais confiantes. É quando o mito se descobre mortal.

Após a eliminação do paulistinha, o Corinthians seguiu o que era. O time mais organizado tinha um alçapão a seu favor e pelo menos três dos melhores jogadores em atividade no Brasil: Guerrero, Elias e Renato Augusto. Um adoeceu, outro perdeu um pênalti, outro perdeu as referências.

A falta de confiança virou grito diante do mais frágil dos adversários, que num chute sem pretensões encontrou um desguarnecido Cássio no primeiro jogo das oitavas. Era como engolir a torre do tabuleiro. A fortaleza começava a ruir.

No futebol, como em uma antiga música, o que há algum tempo era jovem e novo hoje é antigo. O Corinthians se rejuvenesceu do fim do ano pra cá. Tite se reciclou com Ancelotti e trouxe as iguarias ao Brasil. Ambos caíram no mesmo dia, um na Libertadores, outro na Champions League.

A modernidade líquida, essa incapacidade de fazer planos a longo prazo entre ondas de inovação tecnológica e tempestades de informação em velocidade, não oferece tempo para contemplação. Quando a estratégia fora exposta e decodificada pelas fronteiras inimigas, já era tarde para pensar uma ideia nova. Ascensão e queda já não reconhecem abismos. Andam coladas, mas é preciso reconhecer seus sinais. Da velocidade terrível de umas e outras, não há tempo sequer para o luto: no fim de semana, o time volta a campo para a disputa do Campeonato Brasileiro.

Endividado e sem a renda de público e premiações esperada para o ano, é possível que o Corinthians tenha de se desfazer de seus maiores ativos: os jogadores. Se conseguir furar a onda, o time renasce no dia seguinte. Com o elenco e o técnico atuais, mais o peso de seu estádio e sua torcida, a equipe pode não ser imortal, mas já larga com um pé na próxima Libertadores. Com chances reais de levar o Brasileiro.

Encontro marcado. Sem o Real Madrid na final, a decisão da Champions League não será o encontro de arquirrivais que todos esperavam. Em campo, no entanto, Barcelona e Juventus terão o tempero dos duelos particulares de um mundo que dá volta e se reencontra num mesmo palco.

Um ano atrás, Messi barrou a ida de Carlitos Tevez à Copa de 2014. Tevez tem a chance agora de roubar a terceira taça europeia do craque do Mundial. Ambos são os maiores jogadores argentinos desde Maradona.

Evra sofreu injuria racial de Suárez, que mordeu Chiellini na Copa. Os três se reveem num duelo único – o zagueiro italiano, lembrou um amigo, já em entra mordido para a decisão.

Haverá outros tira-teimas em Berlim. Com a Juve, a Itália tem a chance de desbancar a supremacia espanhola dos últimos anos. Mais do que isso, os últimos heróis de suas seleções têm a chance de uma última consagração. Campeões da Copa em 2006, Buffon e Pirlo medem forças com Xavi e Iniesta, símbolos da conquista espanhola de 2010.

A vida, diria Vinicius de Moraes, é a arte do reencontro, embora haja tanto reencontro. O futebol é a vida em reedição.

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