Cautela e canja de galinha: a chatice ganha título

Por Thiago Varella

Diz o ditado: cautela e canja de galinha não fazem mal a ninguém. Adoro esportes. O último fim de semana tinha tudo para ser especial para mim. No sábado, a luta do século no boxe. E no domingo, meu time, o Santos, na final do Paulista.

Cena do filme "A Fuga das galinhas"

Cena do filme "A Fuga das galinhas"

Claro que estou feliz com o título, mas este é assunto para outro post. O que me incomodou profundamente nos dois eventos foi o excesso de cautela. Quase ali no limite com o medo, a covardia.

“Pra quê inovar se está bom assim?” Usamos em propagandas a frase “ousadia e alegria”, mas, no fundo, vivemos a era da “cautela e resignação”.

“Pra quê vou mudar de emprego se nesse eu ganho bem e tenho plano de saúde. Odeio meu trabalho, mas, nessa crise, não é bom arriscar. Vai que, né?”, diz o cauteloso funcionário.

Um outro exemplo desses “tempos de canja de galinha” é o tal índice de confiança do consumidor. O sujeito, muitas vezes, tem dinheiro no bolso, está empregado, tem uma vida confortável, mas não gasta. E reclama. “Vai que, né?” E daí o índice de confiança do consumidor desaba.

No Congresso, os deputados – com amplo apoio do povo – votam projetos de lei que oprimem ainda mais as minorias e se recusam a fazer profundas mudanças sociais. “Somos brancos, heterossexuais e de classe média. Por enquanto, nada nos atinge. Mas, vai que, né?”

Não tenho índices, mas chuto que as seguradoras estão mais ricas do que nunca. É muito perigo por aí pra gente ficar desassistido. Psicólogos e psicanalistas também têm um grande filão de mercado. Esse medo todo só pode ser fruto de baixa autoestima.

Meu time foi campeão, mas a atitude do técnico Marcelo Fernandes de segurar o jogo, mesmo com um jogador a mais (aliás, 10 x 9 em campo em números de atletas) é muito covarde. O mesmo medo que Oswaldo de Oliveira demonstrou no primeiro jogo contra o Santos, quando o Palmeiras poderia ter enfiado uns 4 gols.

Cautela, técnica e chatice podem levar você a ser campeão do mundo invicto, ensina Floyd Mayweather (e Tite, e Muricy e tantos outros profetas da canja de galinha). E com isso o mundo fica cada vez mais insuportável. Viva o Brasil de 1982, a Holanda de 1974 e tantos outros perdedores que ousaram e nos deram alegrias.

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