A final do Paulista e o lado bom da vida

“Seu receptor está sem atividade há quatro horas e vai ser desligado automaticamente”. O recado da TV dava o sinal de quanto tempo passei afundado no sofá depois que o Lucas Lima – aquele que o Thiago Varella, das linhas abaixo, chamou de jogador decisivo – converteu o último pênalti do campeonato.

Fiz essa foto sobre minha camisa pouco antes do jogo. Ia usá-la como perfil se fôssemos campeões

Fiz essa foto sobre minha camisa pouco antes do jogo. Ia usá-la como perfil se fôssemos campeões

Ali estava, ali fiquei. Estava ali, na verdade, havia uma semana, desde que o Dudu fechou os olhos, no primeiro jogo, e mandou a bola no travessão, e do travessão para o espaço, no primeiro duelo.

Desde então o Palmeiras não havia feito nada na primeira final com o Santos desde 1960.

O pênalti desperdiçado tirou da reta a sova que o time desenhava aplicar se abrisse dois a zero com um jogador a mais e diante de sua torcida. Seria um massacre, mas virou outra coisa: virou medo da tragédia, imaginada como um empate no fim do jogo, como acontecera em nove em cada dez rodadas da temporada anterior.

O time, com medo do vexame, passou a tocar de lado, garantiu a vitória no primeiro encontro, e de lado seguiu tocando até que o Ricardo Oliveira apareceu livre diante do Fernando Prass para mostrar o quanto aquela oportunidade custara ao ser desperdiçada (o lance deu – injustamente – uma cruz ao principal reforço do time na temporada; um reforço que foi importante em vários momentos decisivos do Paulistão e que, na final, falhou, mais ainda ao ser expulso no segundo jogo, como falharam todos, inclusive o treinador, que diante de um time mais leve e veloz optou por atacantes-postes, decisivos também em outros jogos, mas visivelmente ilhados no último duelo).

Afundado com meu amigo Felipe Zangari no sofá, tentava em vão alguma explicação: mentalmente, fazíamos uma limpa no elenco e escalávamos o time ideal, aquele que, se saísse do nosso jeito, certamente não deixaria o título escapar.

Estranho sentimento este: há cinco meses, justamente com a ajuda do Santos, comemorávamos como se não houvesse amanhã por ficarmos em primeiro lugar na tabela invertida do Brasileiro entre os que seguiriam no torneio do anos seguinte. Hoje lamentamos o vice-campeonato.

As derrotas nas finais são mais doloridas do que as campanhas medíocres. É o que nos lembram as memórias dos tempos em que éramos competitivos (voltamos a ser?) e conquistávamos só uma parte do que nos cabia – a outra parte eram os vices, os quases e aquela maldita sensação de que faltou pouco, de que foi um esforço hercúleo carregar esta pedra gigante até o pico e agora ela rola para baixo e precisa ser erguida de novo na mesma linha de partida das outras pedras já na rodada seguinte.

Passamos perto, e a verdade é essa. A explicação, diria agora ao Felipe, é que os centímetros pra cá não eram pra lá. Fosse a vida injusta a nosso favor, a bola do Dudu haveria de entrar – e a do Rafael Marques e do Jackson não precisariam ser desperdiçadas.

Na pior das hipóteses, os centímetros colocariam o Amaral na linha da defesa, e com ele o título que não vinha desde 2008.

Os centímetros, meu amigo, são soprados pelo vento – e só por isso não comemoramos o título.

Aliás, comemoramos. O maldito delay na TV nos levou à sacada para arrancar todos os gritos entalados quando o Xavier cobrou a falta e o Amaral pegou o rebote. Na volta para a sala, o lance estava anulado, mas nosso gritou de campeão já havia escapado. Voou pela janela e não voltou mais.

Só não podemos dizer que não comemoramos – como se não houvesse amanhã ou olhar atento do bandeirinha. Comemoramos como fizemos na Copa do Brasil 2012 num boteco de São Paulo, quando bebemos tanto que mal nos lembramos do jogo, só da festa, que envolveu a invasão de um caminhão de tijolo, um joelho rasgado e uma foto constrangedora do momento em que não vi mais nada e me deitei numa zebra de pedestres da avenida Paulista e tranquei o trânsito. Malditos centímetros a menos.

Dessa vez estava sóbrio. Estávamos. Não ofereci nem água ou suco porque estava afundado no sofá meia hora antes do jogo com a sensação de que as coisas estavam fora do lugar. A desconfiança aumentou quando o time se atrasou para a execução do hino e quando os jogadores começaram a tropeçar num gramado de sabão na primeira arrancada e, mais ainda, quando o Valdívia tomou chapéu do Renato. Ou quando o buraco pela ausência do Arouca ficou notável a cada bola não dividida no meio-de-campo. Depois vieram os gols, as expulsões, as confirmações de que o Robinho não foi o melhor do mundo, mas é muito acima da média, e que o Ricardo Oliveira era de fato o grande jogador do torneio.

Sóbrios, conseguimos descartar as explicações de sempre e os culpados de toda vez – o juiz, o craque que refugou, o zagueiro que espanou, o treinador que olhou e não olhou, os espíritos que faltaram. Nervosos estávamos todos, mal-escalados, também – bastava perder o título para o Santos descobrir que a melhor estratégia era colocar o Robinho no sacrifício para o jogo no Palestra. Longe da passionalidade alcoólica, pudemos olhar os detalhes, e eles estavam nos centímetros que nos censuraram o grito, e também nos metros cavados por uma equipe superior.

Chegamos juntos, ombro a ombro, no fim do torneio, e esta não é a notícia boa. A boa notícia é poder buscar o lado bom das coisas mesmo quando a bola gigante já desliza metros abaixo em direção ao chão.

-Pelo menos disputamos uma final.

-É verdade.

-E voltamos a ganhar clássicos e a jogar de igual pra igual.

-É verdade.

-Se acertar alguns detalhes, temos uma perspectiva pela frente.

-É verdade.

-Faltou pouco. Há cinco meses, faltava muito.

-É verdade.

As pequenas consolações nos ergueram do sofá, que já se moldava com o peso de nossas costas. Uma vez de pé, fomos caminhando até a portaria listando as outras boas notícias da tarde. Uma delas: no meio do jogo, no pico da ansiedade, meu filho que ainda não completou dois anos soltou sua primeira frase com mais de duas palavras em bom português e ponto de interrogação.

-Tá bravo?, perguntou ele ao Felipe.

Estava, mas a verdade ainda é dolorosa para ser dita. Queríamos apenas que o Palmeiras fizesse um gol – e que ele parasse de correr na frente da TV querendo mostrar seus brinquedos. Não aconteceu nem uma coisa nem outra, mas veio sua primeira frase.

Apesar das bolas e pedras que rolam, a vida e seu amontoado de experiências estão sempre em construção. Éramos campeões antes do jogo, agora não somos mais. Meu filho não falava português, agora fala.

-Não quer mesmo ficar e pedir uma pizza?, perguntei, já na porta.

-Não, vou ver a mulher.

-Está certo. E eu vou colocar o Miguel pra dormir.

-Foi bom a gente não ter bebido, sabia? Amanhã é segunda-feira e estaríamos com a cabeça desse tamanho.

-É verdade.

-Fica pra próxima.

Estávamos, oficialmente, resignados com o copo meio vazio. De volta ao prédio, o porteiro se abriu um sorriso ao me ver de volta.

-Não vai tirar essa camisa, palmeirense?

Só tive tempo de olhar para o lado, para me certificar de que era mesmo comigo, antea de responder:

-Não.

1 comentário

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  • Sempre fui palmeirense, até este timinho aceitar alterar o horário de jogo para o gozo dos coxinhas na Av. Paulista. Vida curta aos manipulados!

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