Messi, Suárez, Neymar: a união possível dos povos latinos

O futebol e suas metáforas. Nas semifinais da Champions League, há mais em jogo do que o confronto de forças entre quatro gigantes. Há também embate de identidades metamorfoseadas em espirito esportivo.

neymessiVejamos o encontro entre a Juventus e o Real Madrid. É um duelo típico entre escolas – uma hegemônica e outra agonizante – mas também de séculos diferentes. Um é o da Velha Senhora, liderada por Pirlo, um velho senhor. É a cidade industrial e seu parque automobilístico, tradicional e austero. Do outro lado está a geração Y em estado bruto. A globalização possível de talentos e valores individuais, imateriais, pedantes, transnacionais. O jovem mexicano corre ao lado do maratonista gaulês, que recebe do habilidoso brasileiro, que abre passagem para a promessa colombiana, que ajeita para o centroavante francês. Tudo para o astro português de chuteiras brilhantes e cabelo impecável sorrir como para a propaganda da Cepacol e dizer: “fui eu”.

Mas é na outra chave que o embate é mais simbólico. O Bayern de Munique é, há três temporadas, o topo do futebol que chegou ao topo do mundo. É a racionalidade bávara, disciplinada e aplicada, unida em campo a uma utopia para além de suas fronteiras. É a solidez germânica com o sotaque francês de Ribéry, holandês de Roben, polonês de Lewandowski. Uma ortodoxia regida por um espanhol que agora reencontra não só uma antiga equipe, mas uma antiga escola. Uma escola de pouca definição e muita posse de bola. Uma escola, sobretudo, em desconstrução pela união possível dos povos americanos.

Quando criança, adorava ver, nos intervalos das disputas oficiais, as seleções paulista e carioca se enfrentarem em amistosos de tira-teima. Era a chance de torcer ao menos uma vez na vida pelo algoz Marcelinho Carioca. Era a chance de domesticar a minha inveja. E vê-lo trocar passes com meu ídolo possível, Djalminha. O Barcelona é mais ou menos isso: a união da nata do futebol brasileiro, uruguaio e argentino.

É a domesticação da rivalidade regional para uma causa histórica: levar o ouro da colônia até a metrópole para subvertê-la. No Barcelona, a potência ibérica, incorporada por Xavi e Iniesta, é quem está a serviço da espinha que se contorce e não se dobra.

Neymar, Suarez, Messi. Um é o Brasil e sua ambiguidade. É caboclo, é índio, é praieiro. Uma hora é hipster. Outra é moicano. Uma hora é linha reta. Na outra é lambada. É o correr lento que de repente escapa e se reinventa. É a introdução em bossa nova e a conclusão em mangue-beat. É o não-combinado e o imprevisto. É o que pode fazer qualquer coisa, até o combinado. Que transita em todo campo porque seu problema não é espaço: é foco.

Foco que sobra a Suárez, a valentia uruguaia até quando respira. Que, se preciso, mata e morre por um lance. O que faz não o que sabe, mas o que pode, num espaço diminuto do lado de lá do rio da Prata. É o que se imola com a mão na bola, o dente na carne, o joelho em frangalho. Que corre para a primeira bola como se fosse a última.

A trinca se fecha com um gênio argentino e uma sina borgeana: a reinvenção do passado em uma vereda que se bifurca e produz o novo a partir de tudo o que existe. Messi é Maradona em releitura. É o predecessor reinventado, disciplinado, focado, bem alinhado. Maradona é Cortazar, Messi é Borges. Maradona é Guevara, Messi é Gardel. Uns têm cabelo esvoaçante, a barba por fazer, o cigarro pendurado na canto da boca. Outros são alinhados, têm a cara e a roupa limpa e impecável ao fim do turno: o jogo, o conto, o canto.

Uns são o caos assumido, outros a ordem – mas uma ordem subvertida pela linha reta. Messi cria tudo de novo com tudo o que já existe. Andando na linha, ele a reordena em uma biblioteca com todas as histórias possíveis e impossíveis: as escritas, as não escritas e as que ainda serão escritas. É Quixote recriado em cada linha em sua própria terra. É a cópia e é o original. É o realismo fantástico recriado no campo de múltipla escolha que, para nós, os mortais, se resumiriam a quatro linhas.

Numa era de impasses entre fronteiras sólidas e ideias fixas, as semifinais da liga europeia são o encontro da imaginação que ainda pulsa. Se um outro mundo é possível, melhor não fechar os olhos, mas vê-lo com as pernas. Por elas, o futebol se reinventa como a epifania possível de um mundo real e minguado em sua pobreza imaginativa.

PS: A partir de hoje, este blog passa a ser um blog de crônicas inspiradas no futebol e seus afetos. Análises táticas, desenhos de duas linhas de quatro e lupas sobre quem é ou quem deveria ser o falso nove estão terminantemente proibidas neste espaço.

Foto:Messi, Neymar Jr e Suárez. Miguel Ruiz/FCB

1 comentário

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  • Imagino essa trinca sudaca nas mãos do mestre Telê…Pobres bávaros!
    Sim, padeço do mal de ser são-paulino. Chego ao ponto até de pensar que o PH atuando por trás dessa linha formaria um dos maiores times da História. Hehehehe.

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