dos perigos de se voar demais

Parece nome de filme da “Sessão da Tarde”, mas é um pouco mais que isso. “Amor sem Escalas” é daqueles longas que se propõem a falar demais, mostrar demais, ensinar demais; mas nem tudo é um naufrágio, como parece indicar a tradução para o português (em inglês foi batizado como “Up in The Air”, embalagem, como se vê, um pouco mais atraente).

Depois de acertar o alvo em seus dois últimos trabalhos (“Obrigado por Fumar” e “Juno”), dessa vez faltou ao diretor Jason Reitman escolher melhor o tema que pretende tratar. Em todos esses filmes temos o cinismo de personagens brilhantes diante de missões inusitadas: seja o porta-voz da firma que é pago para convencer a humanidade de que fumar não é assim tão mau ou a menina que despreza, e tenta dar o fim, na “coisa” que foi parar na sua barriga depois da primeira apronta adolescente. Dessa vez o canalha-mor é o funcionário de uma empresa que terceiriza demissões: sua missão é correr o mundo e anunciar para os empregados o que os patrões de fato não têm coragem de anunciar.

Ou seja: depois do fumo e da gravidez na adolescência, agora Reitman resolveu polemizar o mundo corporativo, certo? Não tanto. Se for essa a ideia, passou longe das principais novelas nonsenses sobre o assunto filmadas recentemente, como “O Corte”, de Costa-Gravas, “O Grande Chefe”, de Lars Von Trier e, em parte, “A Era da Inocência”, de Dennis Arcand.

Ryan, personagem de George Clooney, é cínico como o são os personagens mais marcantes de Reitman – é genial como ele tenta convencer os que assistem às suas palestras, imbecis como todas as palestras motivacionais, a deixarem os laços existenciais para trás para que “toda a vida caiba dentro de uma mala”. Mas, diferentemente dos antecessores, acaba se tornando vítima de uma lição de moral que o diretor deixa escapar no meio da história…

A princípio, Ryan é apenas um funcionário “das antigas”, que assume a crueldade de sua função como “algo que alguém tem que fazer” e que, a certa altura, se depara com o novo e a mudança. E o novo está representado em Anna (Natalie Keener), a caçula da equipe que descobre um método para reduzir custos e encurtar a crueldade. A proposta é que as demissões passem a ser anunciadas via webcam. É quando Ryan descobre que ele também pode ser carrasco e vítima do mecanismo que está prestes a ser apresentado; seus serviços, o tetê-a-tete que lhe é tão caro, podem ser descartados com um simples clique. Além do mais, a proposta fará com que seja extinto seu único propósito aparente de vida: se tornar a sétima pessoa no mundo a acumular dez milhões de milhas pela American Airline, companhia que o permite levar sua sensibilidade e demitir um pobre alvo um dia em Detroit e, em outro, estar no Kansas para mais uma missão ingrata.

O embate é o que o filme tem de melhor. De um lado, a personagem ambiciosa, metódica, aparentemente plugada nas novas tecnologias. De outro, o bonitão (e comedor) da empresa, desafiado com algo que parece fugir de seu alcance. Ao viajarem juntos, para dar forma a uma suposta simbiose, descobrem que não são, assim, tão diferentes como parecem. Como se vê, a jovem carreirista parece ter o domínio da nova linguagem, mas lhe falta vivencia e maturidade para lidar com relações reais conectadas por banda larga – é hilário o escândalo infantil que a até então funcionária-padrão protagoniza num saguão de hotel quando o namorado resolver terminar com ela…por meio de uma mensagem de celular.

O meio que conecta e desumaniza, parece dizer o diretor, é o mesmo que infantiliza, desaprende e “desensina”. Porque no fim toda aquela parafernália não é suficiente para fazer com que a jovem tenha muitas ambições além daquelas já incrustadas na mediocridade cotidiana (comuns desde que o mundo é mundo): uma companhia ok, uma casinha ok, carrões, e mais passa-tempo como filhos e afins. E se fixar: um emprego, uma casa, um carro e um marido para quem abrir a latinha de cerveja depois de um árduo dia de trabalho. Já Ryan quer voar longe, literalmente; quer não se prender, não se envolver, não ser pautado além do necessário para não ter frustrado seu plano de…conquistar as dez milhões de milhas que nem ele sabe para que serve.

Poderia ficar assim: de um lado, o homem inalcançável, que não sonha mas viaja e pensa viver; de outro, a geração que pensa estar conectada com o mundo, mas não sabe lidar com as questões mais elementares da vida rotineira – com cenas apimentadas de um caso extraconjugal e uma paixão boba que brota no meio da trama com a sempre arrebatadora Vera Farmiga. Entra nessa conta um detalhe aparentemente pouco importante: a irmã de Ryan, prestes a casar com um sujeito que ele nunca viu na frente, manda para o irmão uma foto em tamanho grande em que é abraçada pelo futuro marido; pede que Ryan faça foto da foto (isso mesmo) nos lugares mais fantásticos por onde ele passa nos 350 dias do ano em que está viajando, para que a parede da nova casa da irmã seja enfeitada por uma felicidade que já nasce fabricada, de uma vivencia que não existiu fora a imagem. (O que muito me fez lembrar o desespero de casais de amigos que saem para viagens aparentemente extraordinárias e passam os dias no destino tão invejável fazendo fotos e postando imagens de uma felicidade duvidosa em páginas de relacionamento, como o Orkut. Enfim, alguém resolveu falar sobre isso…)

Essa ligação entre dois mundos, conectados pelo vazio de propostas e projetos de vida, é o que Reitman faz de melhor. Mas abusa ao se propor a dar respostas para o que os personagens parecem se perguntar.

Enfim, perguntas que, a princípio, não tem respostas, mas mesmo assim o diretor segue em frente…e dá a deixa para que o espectador saia de lá com certezas inoportunas do tipo: “é, vale mais uma vida vazia do que solitária. Porque todos precisam de alguém em algum momento para viver”. E só porque resolveu falar disso, e não de novas tecnologias ou crueldade do mundo corporativo, que “Amor sem Escalas” é, para mim, o mais pretensioso filme de Reitman. O que é uma pena, porque, como ficou provado em “Juno”, talento, originalidade e bons atores para sair da própria armadilha não lhe faltavam dessa vez.

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