o Coringão voltou

Ronaldo acaba de fazer o segundo gol do Corinthians. O segundo gol dele em clássicos pelo time, no segundo jogo das semifinais do Paulistão.
O Corinthians corre a passos largos rumo ao título paulista, campeonato que não vence desde 2003. Agora, sim, dá para dizer o que a torcida canta desde o final do ano passado, quando conquistou o acesso à primeira divisão: “o Coringão voltou”.
O primeiro título desde o conturbado Brasileiro de 2005, sem contar, claro, a Série B do ano passado.
Começou como um time estropiado, com um gênio fora do peso como líder em posição duvidosa. Chega à final como um time constante, invicto, com meio-campo firme, defesa sólida e, agora, um ataque mortal. Até o Douglas, sumidão na temporada, resolveu jogar bola, marcando o primeiro gol do jogo que selou a classificação para a final.
Que me lembre, o São Paulo só ensacou o Corinthians uma vez, Denílson, Serginho, Raí e França à frente, na final do Paulista de 98.
As duas vitórias corintianas nessas semifinais confirmam o histórico. E o São Paulo, na decisão, amarela de novo. Tivesse o Brasileiro o formato mata-mata nas finais e é possível questionar se o time ostentaria as seis estrelas, hora dessas, no peito. É possível. Mas eu duvido.
O time jogou parecendo desnorteado com a falta de Rogério Ceni. Essa história de liderança parece bobagem, mas não é.
Abalado, o atual campeão brasileiro foi presa fácil a um time que está realmente a fim de tirar das costas a pecha de time da segunda divisão.
Pior que isso só o Palmeiras, soberano até anteontem, de Luxemburgo.
Escrevi aqui um texto lamentável no começo da temporada, iludido ao ver o time ganhar uma série de dez jogos seguidos. Keirrison marcava gol dia sim e dia não, e não deixava dúvidas de que se sagraria como o melhor jogador do Brasil tão logo fosse encerrado o campeonato.
Mas, como diria Michel Foucault no seu clássico ‘Vigiar e Punir’, futebol é uma caixinha de surpresas, e quem não faz, toma.
No ano passado, o Palmeiras começou devagar e pegou no tranco no meio do campeonato pra frente. Tirou da reta o São Paulo, manteve uma escrita de quatro jogos só de vitórias contra o Corinthians, e maltratou a Ponte na final. Tinha Valdívia, Henrique, Martinez e Kleber entre os principais jogadores.
Neste ano, começou atropelando – inclusive o Santos, algoz da semifinal – mas perdeu força e confiança. Tinha fome de bola, como disse várias vezes o Luxemburgo, e fazia realmente lembrar o time de 96, de Muller e Rivaldo.
Mas na decisão faltou firmeza. No ano passado, só Valdívia brilhava, quando brilhava, mas ninguém fazia tanto gol como o Keirrison deste ano. Só que desta vez havia um detalhe que poucos notaram: o meio-campo é um fiasco, com exceção do Pierre. Jumar é imprestável, Sandro Silva, fraco, Evandro, displicente. O melhor entre os reservas era o Sacony, longe das graças do Luxemburgo. Cleiton Xavier não estava no último jogo e fez falta. Sem Willians, o time perdeu o gás do início do ano. E o lateral-direito, Fabinho Capixaba, mostrou como poucos em muitos jogos que não tem a mínima capacidade de vestir camisa de time grande.
Enquanto isso, Cristian e Elias começavam a brilhar no Corinthians, e Mano Menezes fechava uma trinca Ronaldo-Dentinho-Jorge Henrique capaz de desmontar a mais sólida defesa até então, a do São Paulo.
Keirrison era o mais promissor, mas falta a ele a gana de ganhar cada jogo que sobrava no Kleber – que, se fosse volante, seria chamado de brucutu.
O K9 – alguém ainda o chama assim? – foi nomeado melhor atacante do Brasil, com justiça, mas perdeu o foco. Parecia longe, com medo de quebrar a perna e melar uma negociação que parece certa com algum grande time da Europa.
Teve o melhor começo de um atacante da história do Palmeiras, com 12 gols em dez jogos, mas prova hoje que é ainda inferior a atacantes como Kleber Pereira, implacável na hora H (cinco gols nos três últimos jogos), e Ronaldo dos dias de hoje.
Para crescer, precisa aprender a driblar e a passar a bola.
Santos e Corinthians fazem a final. Quarto e terceiro colocados na primeira fase. Um em ascensão, outro invicto e fortalecido. E que mostraram mais vontade e menos medo de avançar até chegarem aonde chegaram.
Parecia piada de salão falar que Ronaldo, que já foi Fenômeno e que hoje é a cara do Cascão, do Maurício de Sousa, faria qualquer peso em qualquer campeonato em pleno ano 2009. Mas com ele em campo o Corinthians dificilmente perde esse título.
A não ser que ao Santos, de Neymar e Kleber Pereira, tenha sobrado uma dose cavalar de vontade que colocou em campo para vencer, duas vezes, o grande time da competição até aqui.
É cara, maldito Luxa que liberou a venda do Valdivia. Quanto ao Ronaldo, nem falo mais nada. Já duvidei dele tres vezes e ele me calou.
Bela análise, Matheus.
E coloco aqui mais uma pitada para discussão. Hoje o Juca Kfouri levantou na coluna dele da Folha a seguinte pergunta: A comissão técnica do Palmeiras é compatível ao elenco?
Eu reformulo, questionando: Será que o Luxemburgo desaprendeu a treinar ou o time é uma farra mesmo?
Contra o Botafogo de Ribeirão, na última rodada do Paulista, ficou clara a deficiência do meio-campo pra trás. Contra o Colo Colo, o Palmeiras mostrou que não sabe aliar dinamismo ofensivo com firmeza na marcação. A vitória contra o Sport no Recife – que parecia uma retomada de rumo – revelou-se um hiato na falta de competência. Os últimos três jogos escancararam as fragilidades defensivas do time e a falta de confiança do goleiro no seu trio de zaga. Tanto é que Marcos deu de líbero em muitos momentos no jogo de sábado.
Eu prometo desdizer todas essas dúvias se Luxemburgo mostrar a mesma gana dos tempos de Parmalat e colocar fogo nesse time pra vencer os dois próxmos compromissos. O que eu acho muito difícil. Por isso, rezemos….