Meu amigo Álvaro Leão

Há mais ou menos dez anos, escrevi sobre meu amigo Álvaro Leão num jornal da cidade contando como estava espantado ao vê-lo chegar à casa dos 70 jogando futebol como nunca. Me intrigava o fato de ele jamais ter assumido o posto de atleta café-com-leite, desses que você deixa na quadra e finge que não ouve quando pedem a bola. Pelo contrário: levando nas costas metade da idade somada do time todo, sempre foi daqueles zagueiros (ou “fixos”, no jargão do futsal) por quem todos saem no tapa para ter na equipe. Com ele lá atrás, todos se garantem.

    Homenagem ao seu Leão feita pelos amigos do Orkut com o slogan do filme do Pelé

Homenagem ao seu Leão feita pelos amigos do Orkut com o slogan do filme do Pelé

Dez anos depois, cá estamos. Eu, que costumava jogar bola com relativa tranquilidade, já não aguento meia hora corrida de jogo. Não sem ficar com as costas, coxas e panturrilhas estouradas até o meio da semana, quando volto ao trabalho mancando, com dores, queixas e mau humor. Já não chego à linha de fundo sem pedir água ou balão de oxigênio nem evito que moleques mais novos façam a festa sobre mim com carrinhos, carretilhas, chapéu, lençol, caneta e outras firulas que não estão a venda.

Em dez anos, terminei namoro e engatei outro. Casei. Troquei de trabalho cinco vezes. Vi presidente sair, presidenta chegar, e ditadores caírem como dominó. Vi guerra terminar e outras tantas começarem. Ganhei olheiras e cansaços.

Não cheguei ainda aos 30 anos e posso dizer, não sem certa vergonha, que não troco mais nada (nem futebol nem livros nem filmes nem festa com amigos) por uma boa meia hora de sono. Onde eu encosto eu durmo. E somo mais tempo de vida no bar (ou no Facebook) do que em quadra. Fiquei mais chato. Regredi.

Nesta semana, Seu Leão completa 80 anos e me fez pensar na vida. O que ele tem de tempo de jogo muita gente não tem de vida. E, para meu espanto (multiplicado por cada ano desde que escrevi sobre ele pela primeira vez), continua ativo, correndo, suando, chegando na hora em ponto do jogo, desarmando atacantes rivais, buscando a bola no fundo da rede, cadenciando o jogo, driblando quando dá, fazendo seus gols quando pode. Mais que tudo: o danado ainda lança bolas certeiras e não perde um passe. Seu Leão foi, nós ficamos (e às vezes, quando nos machucamos, é ele quem corre para a bolsa, tira algum medicamento miraculoso e nos empresta, pra ver se a gente para de frescura e volta logo em quadra para o jogo continuar).

Quando deixou de jogar futebol, aos 37 anos, Pelé, no auge da carreira, guardou para a torcida inteira o melhor de sua melhor imagem: tricampeão do mundo, mais de mil gols no currículo, uma bolada de dinheiro. Mas só voltaria a pegar numa bola para gravar comerciais na tevê. Outros tantos jogadores se arrastaram, engordaram, colecionaram escândalos e fracassos. Ronaldo, Adriano, Ronaldinho Gaúcho…não são poucos os exemplos de quem desperdiçou o status de ídolo antes mesmo de bater os 35 anos.

Diferentemente de todos eles, seu Leão segue firme. Se jogou pelo menos uma vez por semana desde os 20 anos, e marcou pelo menos um gol, ele tem no lombo nada menos do que 3.120 gols em torneios internos. Bota aí o quíntuplo de desarmes, o quádruplo de lançamentos, o dobro de bolas tiradas em cima da linha e então saberemos quem foi o verdadeiro Fenômeno do futebol nesse tempo todo. Por isso, se me perguntarem qual meu grande ídolo no esporte – meu e de uma multidão de amigos em comum – digo sem pestanejar: Álvaro Leão.

Aos 80, ele pode dizer que joga melhor que aos 70. Porque para ele o tempo é só um detalhe.

Se amanhã vierem aqui cientistas, especialistas em DNA, nutricionistas, psicólogos, imprensa esportiva e perguntarem “qual o segredo?”, ele dirá com aquele velho sorriso de lado, tímido, que é porque não come carne (“peixe só de vez em quando”), só frutas e verduras, e não cortou de todo a cerveja no fim de jogo.

É uma explicação convincente, mas meu palpite é outro. O Fenômeno é explicado pela forma que ele toca a vida. Do tempo que o conheço – e eu não devia ter mais de 15 anos – nunca o vi se queixar nem deixar de sorrir. Seu Leão não é daqueles que fazem escândalo em restaurante porque a coca-cola veio sem gelo. Nem vai berrar no trânsito (ele só anda a pé) nem maldizer a política, a juventude, a televisão. Nunca precisou dar carteirada na vida (“sabe quem eu sou!) nem contar vantagens, riquezas. Nem gritar para pedir respeito. Não falou demais nem ouviu de menos. Não parou no tempo lembrando do que se foi e não volta. Não moveu guerras por muito nem por pouco. Não ofendeu nem se deixou ofender. Não menosprezou. Não desautorizou quem não viveu o que ele viveu ou não viu o que ele viu (e ele viu muito). Para ele, tanto faz se um amigo tem 100 anos ou 5: a amizade para ele é a mesma.

Por essas e outras, é possível imaginar que ele chega aos 80 anos sem jamais ter brigado com um amigo sequer. Que nunca agiu com desrespeito com a mulher, os filhos (dois gêmeos e uma filha que sempre viaja e sempre manda notícias), os amigos (e são muitos) nem com as cachorrinhas que leva todos os dias a passear pelo Parque Infantil (ok, de vez em quando ele briga, e muito, por causa de um lateral ou falta não marcada, mas, até aí, atire a primeira pedra quem nunca…)

Seu Leão não se amargou, não se desgastou, não queimou pavios de lamparinas finitas em salões mal iluminados. Seu Leão olhou pra frente, abriu a janela e foi viver. Viu os tempos novos chegando e não se assustou: montou em cima dele como num touro e seguiu rumo. Batendo embaixadinhas. E caminhando sereno, respondendo com generosidade a uma vida que lhe foi generosa. Sabe que a alma costuma enrugar antes da pele, como ensinou Millôr Fernandes, e por isso se conservou menino.

Eu e meus amigos, simples mortais que ainda tentamos entender a vida, temos agora um caminho longo pela frente. Daqui a dez anos, vamos ser testados com outras crises. Muitos estarão velhos antes dos 25, dos 30, dos 40, 50 e até 100 anos. Mas ele estará lá: logo cedo na quadra do Clube 22 de Agosto, com a bola num braço e os coletes no outro, apressando todo mundo a deixar de bobagens para começar logo o jogo. Porque na vida, como no jogo, não há tempo a perder com bobagens – é o que ele nos ensina, mesmo em seu silêncio. Por isso não existem palavras para expressar o quanto o agradecemos por ter guardado parte desses 80 anos em nossa companhia, amizade e respeito.

Indiferença, linguagem universal

Pegue uma van, coloque no banco de trás um jovem antissocial ao lado de um caixão e deixe perto da direção um pai em busca do equilíbrio entre trabalho e vida familiar. Depois, mande todos seguir por estradas inóspitas numa viagem desgastante, cheia de percalços, da qual ninguém nunca mais voltará igual.

A fórmula funciona do início ao fim em “Pequena Miss Sunshine”, bem-sucedido drama que se torna comédia dirigido pelo casal Jonathan Dayton e Valerie Faris.

RHEm “A Missão do Gerente de Recursos Humanos”, de Eran Riklis, o caminho é inverso. No longa, até mesmo o pôster parece montado para fazer o espectador rir. Os personagens, como são apresentados, parecem caricatos até pela verossimilhança: um gerente de RH de uma panificadora em Israel que quer e não consegue se livrar de um problema; um jornalista sedento de sangue e polêmica para sustentar um furo – e disposto a infernizar a vida do gerente; uma consulesa ninfomaníaca incapaz de dar suporte aos conterrâneos que vão parar na fria e distante Romênia; e o marido da consulesa, que mal sabe conversar com os visitantes, e bebe do instante em que acorda até a hora de dormir.

Todos tentando domesticar um jovem de 16 anos que mais parece um cavalo solto a distribuir coices em quem dele tenta se aproximar. Parece piada, mas não é: todos estão na mesma van, na mesma viagem Romênia afora, porque a mãe do rapaz, Yulia Petracke, acaba de morrer num atentado suicida em Israel. Seu corpo passou três dias à espera de identificação num necrotério e levou um repórter de um jornalzinho marrom local a escrever um artigo explorando a suposta insensibilidade da empresa em que a imigrante romena trabalhava. A empresa, afinal, era o único elo da vítima com o País.

A missão do gerente, exposta no título, é então minimizar os danos para a imagem da empresa. E levar a salvo (se é que é possível) o corpo de Yulia até sua família.

É desta forma que Riklis faz da imigrante morta a grande personagem do filme sem que ela apareça em uma cena sequer – com a exceção de um vídeo gravado pelo filho em sua última visita ao país de origem.

O constrangimento da missão delegada ao gerente – ele em si um fracasso como pai, marido e arrivista profissional – chega ao pico à medida que sai distribuindo dinheiro, às custas da empresa, para que tudo seja feito da forma mais rápida e indolor possível. A burocracia para o translado, que leva todo mundo à mesma van que vai cruzar a Romênia em direção ao povoado onde Yulia nasceu, soa como tragicomédia, mas não tem graça nenhuma. Por trás da missão, e dos percalços da missão, está um filho inconformado com o destino que se apresenta. O único entre todos que sente e é ainda capaz de chorar.

Ao criar situações constrangedoras, em que é necessário esforço para não rir, Riklis parece brincar com a própria capacidade do espectador de desdenhar a morte. Condolências, indenizações e queixas fazem parte da vestimenta oficial, incorporada pelo chefe dos recursos humanos (sic). Mas o fato é que nem o gerente nem a dona da empresa nem o repórter nem os funcionários do consulado israelense faz a menor ideia de quem era a funcionária que em vida era invisível e, na morte, passa a ser estorvo.

Sem que se perceba, o filme passa em voo rasante sobre as questões que assolam os tempos atuais – terrorismo, imigração, relações precárias de trabalho, corrupção, fragmentos de vidas familiares – para contar o saldo da indiferença do próprio espectador em relação à vida.

RHA capacidade de sentir e fazer a coisa certa sem o intermédio da etiqueta oficial é que está em jogo. Porque, como os espectadores, cada um dos personagens acredita de fato ter algo melhor para se preocupar além daquela convenção: a viagem da filha que o chefe de RH não vai acompanhar; a foto de um enterro e das lágrimas de familiares que vão vitaminar o trabalho do repórter; o medo da má fama que toma conta da dona da panificadora.

Num determinado momento, no meio da viagem, os aventureiros são parados por policiais de uma cidadela que interceptam o veículo, sem licença havia cinco anos para rodar; de quebra, descobrem que a ordem para enterrar o corpo expirou e que todos podem ser processados por violação de cadáver. A solução, ordenada pela autoridade policial, é providenciar o enterro na localidade mesmo, num local onde vítima e familiares não têm laço algum, e encerrar de vez a questão. Depois de tanto trabalho, parece uma decisão razoável, um alívio para os visitantes israelenses que não entendem a decisão proferida na linguagem romena. Por meio de um inglês sofrível, o policial avisa: “Não importa onde ela seja enterrada. Ela não se importa mais”. Faltou alguém que questionasse: e o que fazer com os vivos, cara pálida? (Porque a indiferença é a única ali que não pode ser enterrada).

É quando a comédia se torna drama, numa virada arriscada até mesmo para os mais habilidosos diretores de cinema: em inglês, romeno ou hebraico, a indiferença é linguagem universal, e a morte, o único elemento que liga personagens tão distintos. A forma como lidar com ela é que os diferencia – e a isso nem os espectadores, os que foram incapazes de rir ou chorar, ficam imunes ao longo do filme.

O desmedido momento

“E era o inesquecível de repente, de que podia traspassar-se, e a calma, inconclusa. Durou um nem-nada, como a palha se desfaz e, no comum, na gente não cabe: paisagem e tudo, fora das molduras.

Como se ele já estivesse com a Mãe, sã, salva, sorridente, e todos, e o Macaquinho com uma bonita gravata verde – no alpendre do terreirinho das altas árvores…e no jipe aos solavancos…e em toda-a-parte…no mesmo instante só…o primeiro pont0 do dia…donde assistiam, em tempo-sobre-tempo, ao sol renascer e ao voo, ainda muito mais vivo, entoante e existente – parado que não se acabava – do tucano, que vem comer frutinhas na dourada copa, nos altos vales da aurora, ali junto da casa. Só aquilo. Só tudo.

-”Chegamos, afinal!” – o Tio falou.

-”Ah, ainda não…” – respondeu o Menino.

Sorria fechado: sorrisos e enigmas, seus. E vinha a vida”.

o adeus a um amigo

Na última sexta-feira, fui, pela primeira vez na vida, a uma missa de sétimo dia em homenagem a um amigo. Foi num começo de noite sem frio nem calor em nossa cidade, que encerrava uma semana de nuvens e sem sol, como nossos ânimos quando soubemos que, aos 27 anos, nosso amigo havia deixado a vida numa colisão frontal na estrada. À medida que escurecia, naquela sexta-feira, tomávamos o caminho da igreja da Santa Cruz para, cada um do seu jeito, levar um abraço e um rabisco de palavras para uma família que esteve presente em minha vida durante mais de dez anos.

Durante a celebração, que não levou mais de uma hora, vi num altar um padre Anchieta conduzir sua missa como outra qualquer; cumpriu os ritos, evocou paz e prosperidade, e, num dos raros momentos em que citou meu amigo, pediu conforto e orações à família que se reunia a poucos metros dele, dizendo que sabia o que era aquela dor. Como se fosse possível. Se soubesse, talvez não passasse o tempo de sua homilia falando de sacrifícios necessários em tempos de Quaresma nem faria propaganda, ao fim da missa, de seu CD de música gospel que já estava a venda; também não teria se referido ao meu amigo como “senhor Hugo”. Se tivesse se preocupado em conferir a idade do meu amigo, numa tentativa de saber quem era a pessoa para quem rezava, dedicaria parte daquele rito para falar de despedidas, de encontros e esperanças, e não da pretensão de se entender uma dor que não se explica, que não se toca, que não se divide.

Porque há um caminho natural quando os pais criam os filhos e deixam o caminho para que eles sigam uma história já assentada; mas quando os filhos tomam a dianteira, a lógica se inverte e nem mesmo a língua falada dá conta reunir significado ao significante. No dicionário da língua portuguesa, existe uma palavra que define o que se tornam os filhos quando perdem os pais, mas não para os pais e irmãos que ficam. Não existe órfão de filhos, porque nem mesmo a palavra tem a pretensão de abarcar o que é essa dor.

Quando o líder espiritual da paróquia se abstém, cabe à família e aos amigos cumprirem seu papel: dizer o que não pode ser dito. Durante a celebração, tomei conta do quanto gostava daquela família que se reunia num miolo de igreja, distribuindo panfletos com a imagem de Nossa Senhora Aparecida e pedindo orações para que o filho não fosse jamais esquecido. Até mesmo as flores que enfeitavam a igreja sabiam que aquele silêncio e aquele choro eram a manifestação mais clara do que é saudade – esta, sim, palavra que só existe em nossa língua, a única que se preocupou em criar um sentido para uma ausência que se faz presente. Porque, de fato, como diz a música, a saudade “dói como um parto”, mas é também o seu avesso: é deixar vivo o que não pode ser esquecido.

Passei uma semana pensando o que poderia dizer para meus amigos quando os visse, finalmente, e esboçasse qualquer pretensão de conforto; mas era em vão. Com os dias, fui percebendo que a melhor maneira de enfrentar a morte, e levar vida onde há ausência, é não deixar nunca que ela se manifeste: é lembrar, todos os dias, dos melhores dias de nosso amigo. Só assim a vida se redefine, e a ausência se torna presença, ora como dor, ora como lembrança, ora como a força que nos faz lembrar de alguém toda vez que a vida manda olhar para o céu – como diz outra música.

O que diria para aquela família, se pudesse, é que, a partir daquele dia, vou pensar no nosso amigo sempre e em todo lugar. Que a saudade, esta que se assenta, já é uma forma de continuar uma vida que se interrompe. Assim foi na última semana, quando me peguei a lembrar das histórias de quando éramos crianças e íamos juntos para a escola, no mesmo carro, onde seis pessoas, mais um motorista, se amontoavam todos os dias.

Hugo era um ano mais novo que eu, participava dos mesmos rachas de futebol, mas amadureceu antes que todo mundo; sua irmã, Silvia, foi a primeira grande amiga de minha vida, e estudava comigo desde a segunda série do ensino fundamental; voltávamos a pé para casa naquele início dos anos 90 e depois mudamos de escola, e nossas mães passaram a nos levar, com nossos irmãos, para outras aulas; no caminho, fazíamos planos, e trocávamos impressões sobre o mundo que se agigantava em nossa volta.

Hugo estava sempre com a gente; não perdia festas e transitava com propriedade entre os amigos mais velhos da irmã. Sempre rindo. Do que me lembre, gostava de samba e impressionava a todos pela educação, pelo trato com amigos e professores. Nunca o vi levantar a voz. Certa vez, nos idos da quinta ou sexta série, fiquei doente, com gripe, das fortes; todos no carro ficaram com medo de uma possível distribuição gratuita do vírus, mas o Hugo não: antes de descer do carro, encheu minhas costas de tapinhas e simplesmente disse: “melhoras pra você”.

Era uma simples gripe, e a expressão, usual; mas não entre a gente, crianças querendo sair da casca. Só o Hugo, naquele tempo, seria capaz de dizer algo assim: “melhoras”. Só adultos falavam daquele jeito, e ele já tomava a dianteira naquele tempo. “Melhoras”. Desde então, sempre que via alguém com gripe, tentava falar como ele: “melhoras”.

No dia que aconteceu o acidente, estava a caminho de nossa cidade, com a esperança de que, nos dias de Carnaval, pudesse reencontrar amigos de longa data; lembrei que foi assim da última vez que passei a festa na cidade, há três anos, quando o encontrei, e dei a contar minhas novas e ele, as dele; e falamos, como sempre, que precisávamos nos ver mais, reunir as famílias, tomar um chope, colocar os assuntos, todos, em dia; e lembrar os bons tempos. Lembrei também, no dia do acidente, sem saber ainda o que tinha acontecido, que havia pouco nossas mães haviam se encontrado, e Bel, a mãe dele, contava animada que Hugo era pai de uma  menina, então com cinco meses. “Como será que eles estão?”, pensei, a caminho de casa.

O encontro de nossas mães ao fim da missa eu nunca vou esquecer, como nunca vou me esquecer deste amigo, que não merece ser esquecido: vai ser sempre lembrado, por quem teve a sorte de conviver com ele, como o sujeito que amadureceu antes que todo mundo, e que, antes de todo mundo, deixou aos que ficam a receita para se fazer um mundo um pouco melhor, mais leve, mais humano. Lembrar é a melhor forma de manter viva uma presença que, a partir de agora, é saudade e lembrança: mas é também vida por toda parte.

A ruína masculina em 103 minutos

 

Tenho a péssima mania de esperar um, dois, às vezes dez anos do lançamento de um filme que todos, na época, dizem ser brilhante, para descobrir se encontro, por mim mesmo, anos depois, tantos luminares preditos na data da estréia. Às vezes demoro, mas às vezes confiro; e guardo uma mania ainda pior de escrever sobre algo que deixou de ser novidade desde que saiu de cartaz.

Fato é que nos últimos tempos esbarrei em cada esquina em “Closer – Perto Demais”, o filme que provocou estragos e silêncios entre quem passou tantos anos numa vida a dois de juras de fidelidade e amores sem fim e mesmo assim não foi capaz de passar impune a cada argumento desenhado pelo longa de Mike Nichols – e inspirado, na verdade, em uma peça de mesmo nome.

Não sei, além de ouvir dizer, da peça; mas do filme, diferentemente do que imaginava – e como venderam os amigos que o indicaram – deixei a “sessão” imaginando que Nichols se importou menos em contar os desarranjos de um quadrado amoroso do que da ruína masculina encarnada por apenas um dos quatro personagens: Daniel, jornalista frustrado (autor de obituários) e aspirante a escritor vivido por Jude Law. É Daniel (ou Dan) a figura que liga os outros três personagens: Alice (Natalie Portman), Larry (Clive Owen) e Anna (Julia Roberts). Na cena inicial – que toma fôlego ao som de “Blower Daughter”, também conhecida como a versão inglesa (e original) de “É isso aí”, de Seu Jorge e Ana Carolina – Dan percorre as ruas de Londres e deixa seu gélido ar de escritor humilde, e fracassado, para erguer as sobrancelhas e olhos que atingem como lança a anônima novaiorquina de cabelos vermelhos que passa por ele pelas ruas. O acidente sofrido por Alice, culpa da distração dos olhos de Jude Law, é o prenúncio de que aquele sujeito tímido e de raciocínios rápidos não era assim tão confiável como poderiam apregoar aqueles olhos tão atentos ao mundo.

Dan é o que as brasileiras chamariam de sujeito “fofo”. “Belezinha”, talvez. É doce e atencioso, e não se furta a prestar socorro à nova amiga após ser atropelada; é ele que a leva ao táxi e ao hospital, e é com ela que decide passar o resto da vida – quando ela decide abandonar a vida de striper para trabalhar numa cafeteria e esperar que o para sempre viesse após a felicidade momentânea que brota naquela vida a dois. Aquela vida recheada de conversas amenas e ironias finas pensadas pelo jovem escritor, que transmite à futura amante a sensação de que ela está ao lado da figura mais incrível e doce que já pousou por aquelas terras desde o Papai Noel – com a vantagem, óbvio, de ter nascido na pele de um Jude Law.

Mas Dan, o menino tímido e cheio de referências de outrora, um dia lança seu livro que supostamente o consagraria. A pretensão não o leva apenas a deixar a pele de cordeiro – o leva a voar no suspiro mais leve da vaidade, expressa em todas as suas tintas durante a sessão de fotos para a contracapa da obra. Nichols consegue fazer a transfiguração do personagem a cada clique da máquina fotográfica pilotada por Anna, a linda artista por trás de lindos retratos de desconhecidos que povoam o estúdio. E que, como Alice, é também americana. Mas uma americana de outra estirpe: mais séria, aparentemente mais segura, de sorriso contido e gestos exatos – que ganham o outrora jovem sonhador dizendo apenas que lera o livro do autor que posava à sua frente; e é por saber que alguém aparentemente tão interessante se interessa pelo que tem de melhor e mais pessoal é que, quando vê, Dan está novamente com a sobrancelha franzida, numa expressão de confiança que lhe foge quando confessa, de quanto em vez, que é apenas um autor de obituários em busca de um lugar ao Sol que ainda não viu.

De frase feita em frase feita, a vaidade se envaidece, e Dan cria para si uma dependência que já não encontrava sob a égide de sua Alice, a quem não via sequer uma célula a ser conquistada.

Mas são a fala e a sensibilidade do jovem escritor que ganham cada fio de cabelo de Anna, que passa um ano entre encontros casuais com quem fatalmente passaria o resto da vida – ele, aquele ser tão impressionante e impressionável e sua visão de mundo tão mais refinada que a do namorado, Larry. Larry, afinal, é só um médico que tropeça nas próprias palavras; um ser que vê o mundo em linha reta e é incapaz de produzir uma frase ou impressão do mundo que faça rir ou chorar além dele mesmo. Anna e Alice sabem disso. Mas o destino as levam a cair nos braços dos dois homens para a prova mais cabal e pretensiosa já desenhada num filme que já vi em toda minha parca vida: afinal, o que elas querer?

Em momentos distintos do filme, Alice e Anna não escondem que tudo em Daniel é mais intenso e interessante; até mesmo o sexo é mais carinhoso, envolvente, expressivo. E, mesmo com tudo de bom que toda mulher pode esperar de um homem, Daniel falha. E, ao falhar, passa a viver o maior pesadelo incrustado em corações e mentes masculinas: perder para o ogro do gramado ao lado.

Dos quatro personagens, nenhum, provavelmente, vai pro céu; nenhum conseguiu cumprir o que jurariam diante de um altar à frente de um padre que os levaria a prometer amores eternos, na saúde ou na doença, e fidelidade ad eternum. Para quem não viu o filme, só lamento (pois já deveria ter feito em 2004): todo mundo come todo mundo, em idas e vindas em que só um acaba como perdedor.

E acaba perdedor não porque lhe faltassem atribuições para ganhar, no fim, o louro de grande homem na vida de duas grandes mulheres. Não porque lhe faltasse sinceridade ou coragem no momento-chave da vida de um cidadão – que é escolher entre proteger e ser protegido; cuidar e ser cuidado; impressionar ou ser impressionado. Há mulheres nessa vida que assustam (e te ganham) pela postura diante da vida, porque para elas nada parece abalar; há outras que encantam justamente na capacidade de pedir proteção e encantos em cada poro do corpo. A escolha diante de Daniel é apenas a escolha do que ele quer para ele mesmo quando envelhecer; porque, dali a alguns anos, não terá intacta a beleza intacta de Jude Law; dali em diante será só a velhice, o medo da solidão, e a sorte de uma companhia.

A traição, no fim, não é o fim, mas um meio encontrado no enredo para que cada um descubra, afinal, com quem se lida durante toda uma história que duas pessoas possam ter juntas. E é o que Nichols acerta em cheio quando parece propor: o que elas querem, menino Dan, não é seu brilhantismo, sua capacidade de impressioná-las nem de se mostrar sensível e diferente de todos os homens (encarnados, todos num só, na simplicidade e indelicadezas do velho Larry); o que elas esperam de você é outra coisa.

E é justamente essa “outra coisa” que lhe falta diante do maior dos desafios. Em todo o filme, verdades e mentiras são manejadas até que as primeiras se tornam inevitáveis, com todas as dores que podem trazer; como ali ninguém aparentemente merece o reino dos Céus, a alguns cabe fugir, outros sair de casa, outros apenas esperar a hora certa e a cadência do tempo para perdoar e ser perdoado. Porque todos, afinal, buscam a verdade.

Mas o que está em jogo, no fim das contas, não é nossa capacidade de mentir ou dizer a verdade a nosso favor; é, afinal, nossa capacidade de digerir as verdades alheias que nos são apresentadas. E é esse o único e exclusivo erro do homem perfeito, que, quando descobre que já não tem em mãos verdades nem mentiras, se perde, e volta a ser a criança que chora e se bate e se entrega toda vez que é contrariado. E, quando é contrariado, Daniel nem protege nem instiga.

O que elas querem, diz Nichols, pode não ser exatamente um Larry e sua visão de vida opaca; mas o que ele apresenta – sua capacidade de controle e estabilidade mesmo quando as verdades mais duras desmoronam os castelos das maiores cartas-mentira – parece mais, mas muito mais interessante que a sensibilidade que tanto ganharam terreno em dois grandes corações. O resultado disso tudo é a mais desoladora humilhação pela qual já vi passar um personagem de cinema; quando Larry, o tão desprezível ser para quem um coração é apenas um pedaço de carne do tamanho de um pulso rodeado de sangue, conta que fodeu, e muito, com as duas mulheres de sua vida; ou quando Alice, a jovem que pedia para ser protegida, toma forma da mulher que parecia esconder ao dizer que, sim, Daniel teve em algum momento da história a opção de magoá-la ou não e, por isso mesmo, decide ir embora; ou quando Anna decide deixar aquele barco para navegar em águas menos inconstantes, mesmo sem o brilhantismo do ser – agora envelhecido – que a encantara com suas sacadas e expressões sobre a vida.

Porque Dan, o único até então que não tinha sido traído – e o único que não soube conviver com o revés – é talvez o único dos quatro personagens que se leva a sério mais do que deveria; e, como diz Pedro Juan Gutiérrez, logo no início de “Trilogia Suja de Havana”, um homem só é capaz de lidar com os grandes ou pequenos erros se não se levar a sério. É isso o que o “fofo” desconhece; e é tudo o que deveria conhecer, além dos livros e filmes e referências que apresentava para conquistar as Natalies Portmans e Julias Roberts que esbarram em seu caminho.

Dali em diante, a ruína masculina, expressa em 103 minutos de filme, já é conhecida – ao menos no Brasil, onde Chico Buarque já cantava, muitos anos antes, como doía homem saber que a mulher outrora amada no fim das contas encontrava seu caminho (sem ele) por outros homens que souberam amá-las bem mais e melhor; e Marina Lima (pasmem) quando, em “Virgem”, descrevera todas as belas paisagens do Rio de Janeiro que não deixaram em momento algum de ser as mais belas paisagens do Rio de Janeiro apenas por conta de um grande amor, que passou, e evaporou.

a descoberta do mundo

No trabalho, a bancada onde hoje me sento está coalhada de palmeirenses desde que dois novos reforços se somaram à fileira verde. Pela primeira vez na vida, posso dizer que somos maioria numa ala e região são-paulisticamente contagiada da zona sul. A reunião de forças já rendeu à nossa bancada o apelido de “turma do amendoim” – numa maldosa referência às antigas arquibancadas de torcedores que tanto infernizaram a vida de Luiz Felipe Scolari no Parque Antártica naqueles duros e saudosos dias do fim dos anos 90.

Como o time anda saindo da UTI, e tem chance agora de conquistar um primeiro título de expressão desde 2000, o assunto, no almoço e durante intervalos, agora, é dominado por discussões com meus amigos Leandro, Ricardo e Renan – a Cíntia às vezes faz uns frilas nas conversas – sobre nossas chances nos tabuleiros, a velha lesão no Valdívia, o empenho do Kleber em cada dividida, as rabugices do Felipão e nossa mania de relembrar, a toda hora, os velhos tempos, a velha garra, os velhos resquícios da velha Academia.

No último almoço, começamos a contar por que caralhos escolhemos este e não qualquer outro time para sofrer pela vida toda. Porque, em matéria de sofrimento, o palmeirense só está abaixo dos amigos botafoguenses, atleticanos e lusitanos numa escala de produção industrial de desolação.

Mas, como contei no almoço, a escolha do time não foi bem uma escolha, mas uma missão familiar. É como ser convocado para a guerra. Basta saber que não há registro nesta Terra de que em algum dia tenha existido um Pichonelli que não fosse palestrino. Um que seja. A italianada de casa suportaria facilmente conviver com filho ladrão, bêbado ou estelionatário, mas jamais aceitaria ver entre as vestes penduradas no armário do quarto algum uniforme alvinegro ou tricolor. Nunca.

Só que tudo tem uma origem na vida, como no Gênesis. Desde bebê, usava a velha e surrada camiseta verde, e ouvia meu pai falando de liberdades, e que os filhos teriam plena possibilidade de torcer para que time quisessem, desde que da rua para fora. Não nutria ainda amores por aquele escudo até um certo domingo de 1993, quando, após o primeiro jogo da final do Paulistão, as ruas de minha cidade foram tomadas por corintianos dispostos a gastar as vozes numa comemoração que ameaçava rasgar a noite por uma vitória magra de 1 a 0. Aquele famoso episódio em que o Viola saiu debaixo da trave imitando um porco.

Não precisei esperar o jogo de volta, na semana seguinte, nem os 4 a 0 de vingança que selou o primeiro título de expressão do Palmeiras em 24 anos – o primeiro de minha parca existência – para agarrar aquele escudo como quem agarra a última voz de uma identidade ainda em formação.

Minha conversão se deu naquela mesma tarde da derrota, quando, voltando da chácara onde me criei, passamos numa camionete por entre os torcedores rivais, em êxtase pela vitória que parecia definitiva, e que pipocavam pelas ruas. Meu vô Pedrinho, que ia na carroceria comigo, estava desolado; levava as mãos ao rosto, embaralhava os cabelos e roia as unhas num tom frenético como se a família acabasse de sofrer uma enorme agressão. E, vendo os fogos e rojões alvinegros, nosso cachorro, o Tupi, que nos acompanhava, se pegou a latir e chorar também. Eram, para mim, dois cães tristes e desolados pelos mesmos motivos. Via meu vô e meu cachorro chorando de maneira copiosa e começava a querer entender que caralhos era time que cortava feito faca as esperanças dos meus mais queridos entes. Queria, mas ainda não entendia.

No auge do desespero, enquanto nossa camionete atravessava a frente inimiga, só via meu vô socando a beira do veículo com uma mão e tentando consolar o Tupi, com a outra. E dizia, na cara de quem quisesse ouviu: -Não liga não, Tupi: são tudo uns corno.

Aquela revolta foi o ponto de ebulição para o início do meu calvário. Desde então, nunca mais soube o que é ter sossego aos domingos – mesmo quando nosso time não estava em campo, era preciso secar adversários. Fico imaginando quanto tempo e quantas viagens perdi na vida pra ficar na frente da TV, ou no alto de uma arquibancada, à espera de uma redenção que só as almas mais vagabundas conseguem entender. Ou buscam entender.

Lembro, sem querer lembrar, de cada aflição – o maldito gol do Elivélton, os malditos pênaltis contra o Boca, a mais que maldita virada do Vasco na final da Mercosul, que azedou para sempre minha formatura no colegial. E já prometi, tantas vezes numa mesma semana, que nunca mais iria sofrer por causa de uma bola e meia dúzia de vagabundos.

Caio em contradição, porém, a cada aniversário, quando alguém faz questão de lembrar que, se a gente cortar o bolo com a faca virada para cima, pode fazer um pedido e ele se realiza. Aos 18: “uma Liberta e um Mundial”. Aos 19: “Uma Liberta só já vale”. Aos 20: “um Brasileiro”. Aos 25: “Um Paulistinha que seja”. E agora, aos 28: “Essa tal de Sul-Americana. E um bom jejum corintiano no ano do centenário”.

No fim das contas, é quase uma doença: basta ver se aproximar a rodada e entro, automaticamente, na pilha da tabela, com todas as possibilidades e definições de uma temporada. Em cada grito de gol, uma nova esperança de que a humanidade ainda tem jeito – e começo a desconfiar que vai ser preciso esperar mais quatro jogos para saber se jogo ou não na lata de lixo da história o que foi este interminável 2010 para mim.

as mulheres de nossas vidas

Naquele tempo, dia de Nossa Senhora não era feriado. Mas a procissão já era sagrada, e comemorada sempre às vésperas da celebração. Naquele ano, o ano em que nasci, o feriado tinha caído numa segunda-feira, e a paróquia resolvera preparar a festa para a véspera, dia 11 de outubro.

Eu tinha nascido havia três dias, mas, por conta da cirurgia, minha mãe só recebeu alta dos médicos naquele domingo. Foi liberada minutos antes da procissão – a primeira que perderia em seus 25 anos de vida. No caminho, pediu para que meu pai parasse o carro perto da igreja, na Vila Xavier.

Muitos anos depois, ela contaria que viu os últimos fiéis passarem por ela, e que conseguiu acompanhar só com os olhos e os ouvidos os passos e as músicas que eram cantadas em direção à igreja. A procissão tinha à frente o andor construído pelo meu avô (todos os anos ele dizia que deixaria de fazer o serviço, por causa da exaustão, mas sempre atendia ao padre; e todos os anos montava o melhor andor, para levar a réplica da imagem que um dia fora encontrada no rio Paraíba pelos pescadores; a imagem de uma santa negra, tão brasileira quanto a dor).

Aquela procissão, ao que consta, foi o primeiro evento social da minha parca existência.

Os primeiros olhos que me viram, depois de minha mãe e de quem estava naquele hospital, foram da padroeira, a padroeira de todas as mães e todas as mulheres.

De presente, ganhei no meu caminho, a minha procissão que já dura 28 anos, a companhia das mais brilhantes figuras femininas. A começar por minha avó, mulher de joelhos calejados, e terços impecáveis, que rezam todos os dias, a cada novo dia, nas primeiras luzes do dia; é a linha que divide tudo o que transcende o entendimento e os temores, a embaixadora de tudo o que há de mais puro nas nossas vidas.

E a mãe, que olha e zela e que guarda e que sabe tudo de mim antes que eu mesmo reconheça qualquer sinal de fraqueza ainda incrustado. E todas as belas mulheres que encantaram com franjas e sorrisos, dentes e gestos, sapatilhas, olhares, reprimendas e abraços.

Todas elas um reflexo daquele dia de sol e cantoria.

Longe dela

Tenho um amigo que não pode passar perto da versão cantada por Renato Russo de “If Tomorrow Never Comes”. Bastou um clique inocente num vídeo achado no YouTube, certa vez, para perder a fome e a vontade de comer por um longo inverno tenebroso. Ficou estirado no sofá, a manhã toda; e só saiu de lá resgatado por um guincho, para poder caminhar de novo pelas ruas e seguir a vida, no trabalho, horas depois.

Meu amigo nunca contou o motivo do baque, mas não deve ser difícil imaginar tudo o que deixou de falar, um dia, achando que teria tempo para tornar tudo claro para a pessoa certa, na hora certa. Em algum momento, tudo foi interrompido, e o barco tomou um rumo diferente daquele previamente imaginado.

O medo de ser atropelado pelas mudanças já levou artistas, poetas, palestrantes motivacionais e chefes de repartições públicas a insistirem toscamente no velho lema de viver cada instante como se não houvesse amanhã. Conversa.

Assistindo de novo “Longe Dela”, de Sarah Polley, me dei conta de que mais assustador do que não ter amanhã para dizer ou demonstrar tudo o que se deve dizer ou demonstrar é ver o amanhã chegar rasgando, a mil, mesmo depois de anos de acertos e cuidados.

Quando estava em cartaz, em 2007, corri para conferir o filme e, desde então, não me lembro de ter assistido qualquer coisa numa sala de cinema que fizesse ecoar pelos corredores tantos ruídos de narizes assoprando e soluços contidos. E, realmente, foi de doer.

À saída, uns olhavam para os outros, com vergonha dos olhos envoltos, enormes, avermelhados por dentro e arroxeados por fora. Todos apavorados pelo que nos aguardava alguns anos à frente.

No filme, o casal Grant e Fiona Andersson (Gordon Pinsent e Julie Christie) parece abraçar a paz dos justos, juntos, numa velha casa do interior em algum canto do Canadá. A velhice que ronda aquela rotina não parece provocar estragos nem ansiedades pueris nas vidas que deixaram para trás. Porque um tem o outro; fazem compras juntos, dividem o mesmo quarto, fazem juntos o jantar, caminham juntos pelos campos, e se apoiam um no outro quando a neve ameaça cobrir os joelhos no primeiro escorregão. Um tem o outro por perto, e não importa se a terceira guerra vá estourar em qualquer canto da próxima esquina a qualquer instante: eles parecem ter cruzado todo o caminho, e, desde que juntos, não há futuro que ameace soterrar uma vida justa, a dois. A solidão passa longe dali.

É quando o amanhã um dia bate à porta. E chega na forma da insanidade: Fiona, cuja beleza parece preservada em cada contorno, não percebe, mas começa a sinalizar ao marido todos os sintomas de que sofre com o mal de Alzheimer. Tirando o filme, e algumas histórias sobre vizinhos que envelheceram, nunca até então havia pensado nessa forma de morrer, que é o esquecimento. Vai ver era porque só me preocupava, mesmo, em me proteger em um presente de intensidades, enquanto os sintomas de debilidades estavam condicionados a um tempo que apenas parecia longe de chegar.

Mas, para Fiona e Grant, o amanhã chegou de uma vez. Chegou quando ela saía para as caminhadas diárias e esquecia o caminho de volta para casa; chegou quando segurava a velha frigideira e não sabia qual era seu lugar de origem – se na geladeira ou se na prateleira. E quando nomes e fatos recentes começavam a se embaralhar. O amanhã veio sem piedade para aqueles dois, e os cuidados dos quais Fiona necessitava estavam longe daquela casa.

Na sequência, vem a decisão, a internação, num asilo, e o distanciamento. O tratamento de choque: no primeiro mês, estavam proibidas as visitas. Tudo passando em um ritmo tão frenético ao som de um piano de cordas pesadas e violinos desafinados: a câmera fitando os olhos do marido acusam a todo instante a loucura que guarda pela mulher, de quem agora precisa se afastar. Porque assim foi determinado pelo amanhã.

Antes da despedida, observados não sem piedade pela enfermeira que os acompanha, ainda pedem que a porta do novo lar seja encostada para que possam guardar os últimos instantes de uma privacidade que está prestes a ser dissolvida. Fiona, então, faz o alerta à enfermeira: “Se não se importa, gostaríamos de nos despedir sozinhos. Sabe: é a primeira vez que vamos ficar longe um do outro nos últimos 40 anos”.

O caminho de volta, a maldita música, os olhos envelhecidos em semanas: longe dela, o dia não tem graça e se arrasta. Resta a Grant apenas se apegar à memória, aos dias de suas glórias, aos dias em que Fiona esteve do seu lado. Sabe que, na volta, o desencontro já é irreversível.

Após a quarentena, a ansiedade para o reencontro é substituída pelo ciúme e o desconforto: Fiona olha para ele, o homem que esteve ao lado dela a vida toda, mas não o reconhece. O acúmulo de tempo, saudade, desejo que carrega nos olhos é trocado pelo desespero: vendo-se nos olhos da pessoa que mais ama naquele mundo, Grant vê-se morto.

Tudo o que viveram até então está esquecido. Descobre, então, que a forma mais cruel de morrer é deixar de ser enquanto continua sendo. Está vivo, mas morto aos olhos de quem mais adora. O resto de seus dias se limita, agora, na anulação: sem ser reconhecido, contenta-se em sentar num sofá próximo do asilo e acompanhar os dias da mulher com os novos amigos; sem interferir nem interagir. Só olhando de longe, como se o auge daquela intimidade fosse o distanciamento do mais platônico dos amores contraditos.

É de lá, perto e distante, que observa Fiona com seus novos amigos; não os rapazes da velha juventude, que transpiravam virilidade e colocam em perigo as paixões mais intensas com labaredas de fogo e conquistas pueris. Não. Os novos amigos hoje são carregados pelas enfermeiras, babam nas próprias camisetas, confundem-se entre nomes e tarefas diárias; apóiam-se em bengalas e cadeiras de roda. Porque o amanhã para todos eles foi cruel.

Só que foi ainda mais cruel para quem teve preservada a sanidade. A nova realidade devolve a Grant o ciúme mais infantil que, no alto de seus mais de 60 anos, jamais imaginou viver: a mulher, que não se lembra dele, está encantada com o novo amigo, Aubrey (Michael Murphy), um velho demente que pede ajuda dela (e chora) até para caminhar.

E Grant fica indeciso entre o ciúme, a inveja e a sanidade. Parece estar em queda livre rumo ao inferno até o dia em que Aubrey é removido daquele asilo porque a família já não tinha condições financeiras de mantê-lo no local. É quando Grant descobre que suporta ser dilacerado a cada visita – pelo esquecimento, pelo ciúme, pelo paradoxo; só não suporta ver a mulher desconsolada, longe do novo amigo.

Sem Aubrey, a companhia de todos os dias na mais solitária das rotinas, Fiona cai em depressão; o quadro se altera e o isolamento, dentro da instituição, passa a ser inevitável. Para evitar a morte da mulher pela tristeza, Grant descobre que ciúme e posse são apenas penduricalhos dentro de algo maior. E, de próprio punho, resgata o algoz de seu asilo exílio, em casa, e o leva, carregado na cadeira de rodas, de bandeja para a pessoa que mais ama.

Nunca vou me esquecer do silêncio rasgado daquela sala de cinema quando Grant corta os corredores da instituição para tentar salvar a mulher da própria morte. Todos pareciam se perguntar até onde aceitariam a própria anulação para dar sobrevida a algo, ou alguém, acima de nós. As respostas, depois desse filme, cada um guardará para sempre nos cofres mais bem vigiados da existência.

As ervas daninhas

Acho que passei dias, meses, anos – não sei dizer quanto tempo passei sem me lembrar de suas vastidões e seus limites, suas cercas bambas que só serviam para delimitar um terreno, minúsculo, encravado entre canaviais. Não lembrava mais de suas tardes nem suas manhãs; as manhãs frias, ainda sob névoa, que congelava a ponta da grama e rebatia as primeiras luzes do dia. E brilhava. A bem dizer, nem via beleza naqueles pastos tortuosos, que tinham hora para acabar. Nem gado tinha. Não caberia naquela palma da mão, que eu tão bem conhecia. Aquelas manhãs em que o pai buscava as flores de abóbora, amarelas, para enfeitas os pratos (se não me engano eram comestíveis, mas não tinham gosto de abóbora, só a cor).

Nossa chácara.

Hoje falamos sítio.

Mas naquele tempo era só a chácara.

Que tanta vergonha me trazia. Não era um espaço reto, de gramados estáveis; nem verde era. Era um amontoado de terra, de formigueiros, de pés de carambolas tomadas de carambolas amargas; e pés de amora, do lado de fora, tomadas de amoras verdes, que poucos ousavam provar. E caíam, a certa altura do ano, e se estragavam sozinhas, aos pés dos pneus que estacionavam ali em dias de festa.

Mas a gente morria de vergonha das festas. Não entendia por que nossos pais nos tiravam das salas com videogame e lençóis limpos para nos arremessar na terra, barrenta, que sujavam nossos pés – e me faziam rezar para que, na volta, nenhum vizinho nos encontrasse no elevador do prédio. Também tínhamos vergonha de voltar na carroceria da camionete. A vontade era de se esconder quando algum amigo nos acenava, nas vias da rua principal da cidade, naqueles finais de domingo – todos a postos depois da missa, e a gente com os cabelos despenteados, os chinelos encardidos.

Mas foi só ouvir o velho CD, que nosso pai tanto ouvia estirado na rede logo que chegava na chácara. “Frevoador”. E fui lançado naquelas paragens, minúsculas – foi dito – em meio a canaviais. Não havia bucolismo nem paz ali; havia álcool, disso me lembro, e me lembro de como ficavam, os adultos, quando se abraçavam em garrafas, e começavam a gritar uns com os outros. Disso eu me lembro.

Lembro do Tupi, nosso pastor belga, que foi tirado de perto de nós quando mudamos para o prédio. Durante um, dois anos talvez, acostumamos a nos ver apenas aos finais de semana. Toda semana. Lembro dele correndo atrás do carro ou da camionete, até que as patas não suportassem a fuga daquela solidão, quando era hora de ir embora. Porque tudo ali era solidão.

Mas lembro das molas nas suas patas quando nos via chegar de novo; e de como avançava sobre qualquer criança ou adulto que ousasse brigar comigo ou com meu irmão ou minha mãe. Lembro do caseiro dizendo: “Ele não tem calendário, mas sabe quando é sábado: logo de manhã, fica parado em frente ao portão, com os olhos abertos, e sabe quando é o carro do senhor que chega”.

Lembro das festas juninas, as pessoas postadas debaixo da imagem de São Pedro, patrono da chácara, puxando coros, enquanto o gengibre queimava na panela.

Lembro que, depois da chácara, nunca mais a bronquite me atacou; e me lembro em cada canto daquele espaço, com uma colher entortada na mão, cavando e enchendo de água os desenhos que rabiscava no chão. Para o mundo, eram só estragos; mas eles que não chegassem perto dos canions que eu fabricava e eram observáveis apenas em minha vista aérea. Minhas propriedades.

Lembro também do Nei, o filho do caseiro; ele queria nossos brinquedos, e a gente queria aquele pasto todos os dias. No fim, ficávamos no mesmo espaço e dividíamos a mesma infância: ali, cheia de terra, fingindo ser caçadores de tesouro numa terra de escassez. Lembro do minha ojeriza em ver o Nei tomando leite direto do balde que acabava de encher, no sítio vizinho; mas lembro do seu estranhamento quando decidimos passar um sábado à noite na chácara, e ele nos viu chegando com caixas arredondadas e finas. Nunca tinha visto uma pizza antes. O Nei.

Lembro do futebol, das traves improvisadas de madeira – do lado esquerdo do ataque, se acertassem a bola no travessão, o gol se desfazia. E nunca ninguém se feriu.

E lembro das músicas, do fim de tarde e do café que coava – quando chovia, a vó fazia bolinho de chuva, e todos se abrigavam sob a marquise da casa grande; não precisamos ler Gilberto Freyre para entender como era, anos depois.

Deve ser por isso que tinha vontade de me trancar e mim e chorar pro resto da vida quando ouvia “Cidadão”, a música que me acordou hoje pela manhã e me levou novamente para aquele pasto tomado pelas ervas daninhas. Aquela família cabocla, netos de escravos, vindos de algum ponto do Nordeste, para trabalhar em sítios e construir casas dos bacanas. Os pais do Nei. Aquela música que falava sobre o pedreiro, retirante, triste por não conseguir matricular as filhas na escola que ajudou a levantar e nem sequer podia olhar para o prédio que ergueu sem que algum cidadão perguntasse se estava admirado ou querendo roubar. E lembro do fim da história, o retirante ajoelhado na igreja onde carregou o sino e o balado, pedindo forças para continuar de pé e narrando o fim da história: “Foi lá que Cristo me disse: rapaz, deixe de tolice, não se deixe amedrontar. Fui eu quem criou a Terra, enchi os rios, fiz a serra, não deixei nada faltar. Hoje o homem criou asas e na maioria das casas eu também não posso entrar”.

Mas naquela chácara estavam todos eles, no fim. Disso eu não sabia. E, com o perdão de Rubem Braga, eu também tenho confiança de que não serei maltratado na porta do céu; e mesmo que São Pedro tenha ordem para não me deixar entrar, ele ficará indeciso quando eu lhe disser em voz baixa: “Eu sou láááááááááááááááááá de Araraquara”.

Disso agora eu sei.

Canto para minha morte

famosos

Num fim de tarde de agosto de 1989, véspera de feriado em Araraquara, entrava com meu pai na garagem de casa quando o locutor da rádio anunciou a morte de Raul Seixas. Daquele ano, e não era qualquer ano, não me lembro de qualquer outra notícia que tenha atingido tão em cheio alguém da minha convivência: nem a queda do Muro de Berlim, nem o fim do bloco soviético, nem o fim da década. Lembro do silêncio de meu pai ao fechar a porta de casa; lembro do caminho até o quarto, onde se trancou com uma garrafa de cachaça debaixo do braço, um maço de cigarros e a expressão de quem pede para não ser importunado. Em seguida, ligou o som. E desapareceu. Tudo em menos de um minuto.

Lembro de tudo, inclusive do meu estranhamento com a música que vinha daquele quarto. Nunca tinha ouvido tocar nem falar dela, mas foi “Canto para Minha Morte” que ele resolveu ter como companhia até a manhã, provavelmente, do dia seguinte – e, se não fossem os esporros da nossa mãe, que teve de dormir na sala, ele presumidamente estaria naquele quarto até hoje.

Depois daquele dia, “Canto para Minha Morte” ficou proibida dentro de casa. Menos pelo risco de mandar seus habitantes para dentro do quarto e abraçar a depressão e mais pelas histórias que narrava, como quem tritura ossos em anestesia; sobre como Raul Seixas brincava com o assunto, como quem leva uma serpente no pescoço, dizendo que, um dia, queria encontrá-la: “vestida de cetim, pois em qualquer lugar, espera só por mim, e no teu beijo, provar um gosto estranho, que eu quero, não desejo, mas tenho que encontrar”. Tudo ao som de um tango amargo e alucinado, com descrições sobre acidentes de carro e corações que se recusam a bater no próximo minuto; anestesias mal aplicadas e dores já envelhecidas. Tudo, tudo com um presságio mais que assustador para quem, já naquele tempo, falava de vidas saudáveis e enriquecimentos sadios; é quando ele abre a música, ainda sem cantar, para avisar: “Eu sei que determinada rua que já passei, não tornará a ouvir o som dos meus passos. Tem uma revista que eu guardo há muitos anos e que nunca mais eu vou abrir”.

Muitos anos depois, entendi por que aquela música passou a ser maldita dentro de casa. Porque, de alguma maneira, levou meu pai, e as pessoas em volta dele, a pensarem no assunto. Os estragos daquele contato não poderiam ser menos devastadores.

É por isso que “Os Famosos e os Duentes da Morte”, longa de Esmir Filho, precisa ficar longe das melhores famílias. Sem que se perceba, a morte está por todo canto do filme, mesmo pelos personagens que evitam encará-la de frente. Ali, num vilarejo de origem alemã isolado no Sul do País, famílias levam a vida como a tradição bem mandava; se distraiam com festas em homenagem aos antepassados e com a necessidade de manter unidos os laços da colonização – que, em última instância, se apresenta como controle dos pais sobre a vocação despertada nos filhos de fugir para outro lugar. Quem resolvia ficar, se apegava no que pudesse; nem que fosse para conversar com os próprios animais guardados e criados dentro de casa.

Há uma ponte, porta de entrada e de saída para a cidade, onde quem sofre, sofre em silêncio; outros muitos preferem se jogar dela: a ponte compete com a Suécia, provavelmente, como o local da maior incidência de suicídios por metro quadrado do Planeta. É nesse ambiente que um jovem sem nome, fissurado por Bob Dylan, sonha em fugir para longe; tem no show do maior ídolo, em São Paulo, o ponto de fuga ea referência para finalmente encontrar a paz que não existe naquele inferno silencioso. A arte e a música, para ele, passam a ser, assim, não apenas elementos de transformação, mas um alento para quem tem coragem de se expor diante da única questão verdadeiramente filosófica da existência: viver ou não (Camus, novamente, ressurge).

No filme, Esmir Filho tem o cuidado de recriar a morte à imagem e semelhança de Bob Dylan; e não por acaso. O que o personagem, jovem que descobre o mundo, persegue o tempo todo é justamente o mundo que não se apresenta em fatos reais: e ter a morte à sua frente é o primeiro passo para enxergar o mundo para além daquela realidade já construída, e anterior a ele: rústica, sem cores, sem consistência ou contestações; sem sonhos, afinal. Ao encará-la, consegue ter por perto aquilo que lhe era mais caro e que lhe foi tirado. A morte, como na música de Raul Seixas, caminhava a seu lado, e ele não sabia em que esquina ela o iria beijar.

Diante de tantas questões que o mundo à sua volta fingia querer ignorar, chega a ser comovente o processo de desinteresse do jovem personagem pela rotina que lhe era imposta; o mundo do qual tenta se libertar por meio da conexão universal: ora a internet, ora a música que tocou os mesmos instintos em lugares distantes do globo. A música de fundo, “Mister Tamborine Man”, diz mais sobre aquele vilarejo do que imaginou seu autor ao transformá-la em hino.

Longe de tudo, as impressões universais estão todas naquela ponte, passagem para as grandes decisões: fugir, pular, voltar, encarar? O que fazer? A reconstrução da dúvida permite a Esmir Filho dar de presente, a quem ficou na sessão até o final, talvez a mais bela cena do cinema de nossos dias; diante de um novo suicídio, na mesma ponte, o menino, sem que se saiba se fala da nova vítima, do show de Dylan que ainda sonha em assistir ou da curva do rio apontada pelo dedo indicador em direção ao infinito, arremata, já sem pestanejar: “Sabe o que é foda? Depois dali, ó…não tem mais nada”.

Não poderia ser mais verdadeiro.

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