Meu amigo Álvaro Leão
Há mais ou menos dez anos, escrevi sobre meu amigo Álvaro Leão num jornal da cidade contando como estava espantado ao vê-lo chegar à casa dos 70 jogando futebol como nunca. Me intrigava o fato de ele jamais ter assumido o posto de atleta café-com-leite, desses que você deixa na quadra e finge que não ouve quando pedem a bola. Pelo contrário: levando nas costas metade da idade somada do time todo, sempre foi daqueles zagueiros (ou “fixos”, no jargão do futsal) por quem todos saem no tapa para ter na equipe. Com ele lá atrás, todos se garantem.

Homenagem ao seu Leão feita pelos amigos do Orkut com o slogan do filme do Pelé
Dez anos depois, cá estamos. Eu, que costumava jogar bola com relativa tranquilidade, já não aguento meia hora corrida de jogo. Não sem ficar com as costas, coxas e panturrilhas estouradas até o meio da semana, quando volto ao trabalho mancando, com dores, queixas e mau humor. Já não chego à linha de fundo sem pedir água ou balão de oxigênio nem evito que moleques mais novos façam a festa sobre mim com carrinhos, carretilhas, chapéu, lençol, caneta e outras firulas que não estão a venda.
Em dez anos, terminei namoro e engatei outro. Casei. Troquei de trabalho cinco vezes. Vi presidente sair, presidenta chegar, e ditadores caírem como dominó. Vi guerra terminar e outras tantas começarem. Ganhei olheiras e cansaços.
Não cheguei ainda aos 30 anos e posso dizer, não sem certa vergonha, que não troco mais nada (nem futebol nem livros nem filmes nem festa com amigos) por uma boa meia hora de sono. Onde eu encosto eu durmo. E somo mais tempo de vida no bar (ou no Facebook) do que em quadra. Fiquei mais chato. Regredi.
Nesta semana, Seu Leão completa 80 anos e me fez pensar na vida. O que ele tem de tempo de jogo muita gente não tem de vida. E, para meu espanto (multiplicado por cada ano desde que escrevi sobre ele pela primeira vez), continua ativo, correndo, suando, chegando na hora em ponto do jogo, desarmando atacantes rivais, buscando a bola no fundo da rede, cadenciando o jogo, driblando quando dá, fazendo seus gols quando pode. Mais que tudo: o danado ainda lança bolas certeiras e não perde um passe. Seu Leão foi, nós ficamos (e às vezes, quando nos machucamos, é ele quem corre para a bolsa, tira algum medicamento miraculoso e nos empresta, pra ver se a gente para de frescura e volta logo em quadra para o jogo continuar).
Quando deixou de jogar futebol, aos 37 anos, Pelé, no auge da carreira, guardou para a torcida inteira o melhor de sua melhor imagem: tricampeão do mundo, mais de mil gols no currículo, uma bolada de dinheiro. Mas só voltaria a pegar numa bola para gravar comerciais na tevê. Outros tantos jogadores se arrastaram, engordaram, colecionaram escândalos e fracassos. Ronaldo, Adriano, Ronaldinho Gaúcho…não são poucos os exemplos de quem desperdiçou o status de ídolo antes mesmo de bater os 35 anos.
Diferentemente de todos eles, seu Leão segue firme. Se jogou pelo menos uma vez por semana desde os 20 anos, e marcou pelo menos um gol, ele tem no lombo nada menos do que 3.120 gols em torneios internos. Bota aí o quíntuplo de desarmes, o quádruplo de lançamentos, o dobro de bolas tiradas em cima da linha e então saberemos quem foi o verdadeiro Fenômeno do futebol nesse tempo todo. Por isso, se me perguntarem qual meu grande ídolo no esporte – meu e de uma multidão de amigos em comum – digo sem pestanejar: Álvaro Leão.
Aos 80, ele pode dizer que joga melhor que aos 70. Porque para ele o tempo é só um detalhe.
Se amanhã vierem aqui cientistas, especialistas em DNA, nutricionistas, psicólogos, imprensa esportiva e perguntarem “qual o segredo?”, ele dirá com aquele velho sorriso de lado, tímido, que é porque não come carne (“peixe só de vez em quando”), só frutas e verduras, e não cortou de todo a cerveja no fim de jogo.
É uma explicação convincente, mas meu palpite é outro. O Fenômeno é explicado pela forma que ele toca a vida. Do tempo que o conheço – e eu não devia ter mais de 15 anos – nunca o vi se queixar nem deixar de sorrir. Seu Leão não é daqueles que fazem escândalo em restaurante porque a coca-cola veio sem gelo. Nem vai berrar no trânsito (ele só anda a pé) nem maldizer a política, a juventude, a televisão. Nunca precisou dar carteirada na vida (“sabe quem eu sou!) nem contar vantagens, riquezas. Nem gritar para pedir respeito. Não falou demais nem ouviu de menos. Não parou no tempo lembrando do que se foi e não volta. Não moveu guerras por muito nem por pouco. Não ofendeu nem se deixou ofender. Não menosprezou. Não desautorizou quem não viveu o que ele viveu ou não viu o que ele viu (e ele viu muito). Para ele, tanto faz se um amigo tem 100 anos ou 5: a amizade para ele é a mesma.
Por essas e outras, é possível imaginar que ele chega aos 80 anos sem jamais ter brigado com um amigo sequer. Que nunca agiu com desrespeito com a mulher, os filhos (dois gêmeos e uma filha que sempre viaja e sempre manda notícias), os amigos (e são muitos) nem com as cachorrinhas que leva todos os dias a passear pelo Parque Infantil (ok, de vez em quando ele briga, e muito, por causa de um lateral ou falta não marcada, mas, até aí, atire a primeira pedra quem nunca…)
Seu Leão não se amargou, não se desgastou, não queimou pavios de lamparinas finitas em salões mal iluminados. Seu Leão olhou pra frente, abriu a janela e foi viver. Viu os tempos novos chegando e não se assustou: montou em cima dele como num touro e seguiu rumo. Batendo embaixadinhas. E caminhando sereno, respondendo com generosidade a uma vida que lhe foi generosa. Sabe que a alma costuma enrugar antes da pele, como ensinou Millôr Fernandes, e por isso se conservou menino.
Eu e meus amigos, simples mortais que ainda tentamos entender a vida, temos agora um caminho longo pela frente. Daqui a dez anos, vamos ser testados com outras crises. Muitos estarão velhos antes dos 25, dos 30, dos 40, 50 e até 100 anos. Mas ele estará lá: logo cedo na quadra do Clube 22 de Agosto, com a bola num braço e os coletes no outro, apressando todo mundo a deixar de bobagens para começar logo o jogo. Porque na vida, como no jogo, não há tempo a perder com bobagens – é o que ele nos ensina, mesmo em seu silêncio. Por isso não existem palavras para expressar o quanto o agradecemos por ter guardado parte desses 80 anos em nossa companhia, amizade e respeito.
Em “A Missão do Gerente de Recursos Humanos”, de Eran Riklis, o caminho é inverso. No longa, até mesmo o pôster parece montado para fazer o espectador rir. Os personagens, como são apresentados, parecem caricatos até pela verossimilhança: um gerente de RH de uma panificadora em Israel que quer e não consegue se livrar de um problema; um jornalista sedento de sangue e polêmica para sustentar um furo – e disposto a infernizar a vida do gerente; uma consulesa ninfomaníaca incapaz de dar suporte aos conterrâneos que vão parar na fria e distante Romênia; e o marido da consulesa, que mal sabe conversar com os visitantes, e bebe do instante em que acorda até a hora de dormir.
A capacidade de sentir e fazer a coisa certa sem o intermédio da etiqueta oficial é que está em jogo. Porque, como os espectadores, cada um dos personagens acredita de fato ter algo melhor para se preocupar além daquela convenção: a viagem da filha que o chefe de RH não vai acompanhar; a foto de um enterro e das lágrimas de familiares que vão vitaminar o trabalho do repórter; o medo da má fama que toma conta da dona da panificadora.
Como se ele já estivesse com a Mãe, sã, salva, sorridente, e todos, e o Macaquinho com uma bonita gravata verde – no alpendre do terreirinho das altas árvores…e no jipe aos solavancos…e em toda-a-parte…no mesmo instante só…o primeiro pont0 do dia…donde assistiam, em tempo-sobre-tempo, ao sol renascer e ao voo, ainda muito mais vivo, entoante e existente – parado que não se acabava – do tucano, que vem comer frutinhas na dourada copa, nos altos vales da aurora, ali junto da casa. Só aquilo. Só tudo.







