O dia em que a mística derrubou o Palmeiras

Foto: Cesar Greco / Fotoarena

Foto: Cesar Greco / Fotoarena

 

 

 

 

 

 

 

O Palmeiras caminhava para uma eliminação melancólica. Perdia por 2 a 0, ouvia gritos de olé na arquibancada de torcida única e assistia aos adversários santistas testarem todas as possibilidades de dribles, chapéus e passes de efeito na ponta do ataque. Reagiu, marcou dois gols e levou a decisão para os pênaltis. Trocou o drama de uma desclassificação melancólica pelo drama de uma desclassificação cruel – e bem mais amarga.

Tudo, dizem os entendidos, é uma questão de distância entre expectativa e realidade. A nossa era a caminhada para a consagração. Nos dois gols, marcados em dois minutos, Cleiton Xavier, Barrios e Rafael Marques, que tinham entrado no segundo tempo, foram determinantes. Cuca do Galo-Louco-Eu-Acredito caminhava para a história de uma torcida tão pia na própria mitologia quanto nas vitórias mais absurdas.

Barrios deu o passe para o primeiro gol após ser lançado por Xavier (aquele da bomba em Santiago), que cruzou na medida para o segundo gol, ambos anotados por Rafael Marques, carrasco dos rivais paulistas que uma hora dessas, no ano passado, levava a decisão para os pênaltis num jogo igualmente perdido numa Arena Corinthians lotada.

De mística em mística, lá estava Fernando Prass, herói da conquista da Copa do Brasil contra o mesmo Santos do algoz Ricardo Oliveira e Gabigol. Era o tira-teima das duas últimas finais.

Dessa vez não tinha boneco gigante entre o gramado e a arquibancada nem uma multidão cantando, vibrando e secando em cada cobrança.

Mas a tentação é maior, a história passa sempre ali, roçando nossas pernas debaixo da mesa, pedindo para ser revivida. Essa tentação tem algo comum com a consagração: a rima. Só.

O epílogo de Luiz Felipe Scolari, campeão da Libertadores e da Copa do Mundo que se esborracha no rebaixamento em 2012 e nos 7 a 1 de 2014,  deveria servir de espantalho aos desavisados: cuidado com o mito do Rei Sebastião.

É nessas horas que nossos filhos de três anos de idade têm mais a ensinar do que nossa própria coragem: quando aplicam em casa o que ouviram na escola ao verem os pais brigarem. “Senta e pensa”.

Ontem, entre o empate milagroso e os pênaltis, ninguém parou e pensou.

Se pensou, pensou errado: tudo deu tão certo na Copa do Brasil que era improvável, quase injusto, viver tudo de novo sem a mesma carga de eletricidade. Seria também mais justo aos mesmíssimos protagonistas.

Naquele intervalo, faltou a voz daquele apresentador bonachão da TV que provoca o participante da gincana que já tem um milhão e é tentado a dobrar a aposta. “Mas mas mas mas você está certo disso? Quer mesmo colocar a perder aquela imagem do pênalti derradeiro de 2015? E você? Gols decisivos contra Santos, São Paulo, Corinthians….herói da semi em 2015. Quer ficar aqui, na paz dos heróis, sem ser importunado, ou vai correr o risco de perder os três últimos pênaltis decisivos na terceira decisão contra o mesmo time?”

Perdemos, mesmo empatando. Mesmo sem derrota para os três maiores rivais na temporada (tivesse respeitado um pouco mais o torcedor nos jogos contra times menores, o jogo poderia ser em casa, e em casa a história era outra. Mas isso é assunto para o Brasileiro).

E pior do que perder é perder a mitologia. O que o palmeirense viveu naquela final de 2015 ninguém nunca vai tirar, e são Prass pode perder mais quatro pênaltis daquele que ainda teria crédito – pelas defesas contra o Fluminense, contra o Corinthians, contra o Rosário Central, contra o próprio Santos e pelas muitas que virão.

Mas sempre quando tudo dá errado, mesmo quando parece que vai dar certo, lembro da pergunta de uma amiga palmeirense já cansada de tomar lições da vida: eu sei que aprendemos na derrota, mas o que mais falta para aprender?

Pois o jogo de ontem tem um caráter didático duplo aos palmeirenses. Um é que é preciso aprender também com as vitórias – elas nunca são um fim em si se não um meio.

A nossa era um ingresso para a Libertadores, mas o time se apegou tanto à mítica dos próprios heróis (vai no desespero que na hora H eles nos salvam) que demorou a voltar para a realidade.

Só percebeu que estava na Libertadores quando o Rosário Central marcou o terceiro gol na Argentina. Era tarde, apesar da reação.

A outra lição é mais indigesta: é preciso não só aprender, mas se desapegar das vitórias. Elas servem de inspiração e repouso da memória, mas insistir na fórmula é desprezar o acaso – aquele detalhe quase sempre esquecido que consagra e maltrata em seguida seus próprios heróis. Os nossos serão eternos. Mas mereciam um epílogo mais nobre.

O vilão Ricardo Oliveira

Ricardo Oliveira: o deboche teve troco

Ricardo Oliveira: o deboche teve troco

Em 1993, o Corinthians venceu o primeiro jogo da final do Campeonato Paulista contra o Palmeiras com um gol de Viola. Na comemoração, o atacante se agachou ao pé da trave e saiu imitando um porco raivoso, símbolo do rival. A empolgação era explicável, mas o ídolo alvinegro havia se esquecido de um detalhe: o jogo de volta na semana seguinte. Entre as duas partidas, o vídeo do deboche foi exibido à exaustão no Parque Antártica. O Palmeiras venceu o duelo derradeiro com uma chapuletada histórica: 4 a 0.

Desde então, nada do que Viola faria até o fim da carreira seria tão lembrado como a comemoração naquela final (ok, foi campeão do mundo com a seleção, mas como coadjuvante), o que nos leva a algumas conclusões. Uma delas é que a vida, como o futebol, é loteada de clichês, mas alguns deles a prudência pede que não sejam chutados. Nunca ninguém negou a validade, por exemplo, do aforismo que ensina não cuspir para cima para não cair na testa. Nem o caráter cíclico (e irônico) da existência: o mundo dá voltas. Quatro anos depois da final do Paulista, Viola vestiria a camisa do arquirrival. Jamais foi aceito pela torcida e nunca ultrapassou a linha entre os jogadores ordinários e os grandes craques. Ficou no meio-termo. Cantou vitória cedo demais.

Em 2015, Ricardo Oliveira voltou ao futebol brasileiro após anos no exterior. Experiente e em forma, tornou-se logo o melhor atacante do país. Foi artilheiro do Paulista e do Brasileiro. Mas tão marcante quanto seus gols foi sua postura dentro de campo. Enquanto falava de Deus na beira do gramado e comemorava gol com os dedos erguidos aos céus, debochava de adversários numa descortesia típica dos colegas mais desleais.

Na final do Paulista, tripudiou, com o dedo na cara, o atacante Dudu num dos piores momentos de sua vida: o atacante palmeirense acabava de mandar para os ares uma cobrança de pênalti que fatalmente encaminharia o Palmeiras para o título. Desestabilizado, o time alviverde começou a perder o título ali. Mérito do Santos.

Os times voltariam a se encontrar duas vezes no Campeonato Brasileiro. O Palmeiras venceu no primeiro turno: 1 a 0, gol de Leandro Pereira. No segundo, o Santos ganhou por 2 a 1 em casa com gol de Ricardo Oliveira. Na comemoração, ele apontou o polegar em tom de deboche para o goleiro Fernando Prass, com quem havia trocado cotoveladas e declarações ríspidas ao longo da temporada, e virou o beicinho como se fosse uma criança em prantos.

Àquela altura, sabia que voltaria a se encontrar com o goleiro em outras duas (e mais importantes) oportunidades: as finais da Copa do Brasil. Favorito, o time de Oliveira venceu o primeiro jogo e perdeu o segundo. Ironia: o mesmo Dudu que mandara o Paulista para o espaço marcou duas vezes na segunda final. Oliveira até deixou o seu, dessa vez sem deboche, e encaminhou a decisão para os pênaltis. Num repeteco da temporada inteira, bateu o goleiro alviverde na última cobrança e viu o goleiro rival, a quem chamara de “chorão”, converter o tiro derradeiro para os palmeirenses.

Não sabemos o que se passa na cabeça de um jogador em momentos assim, mas é possível supor que Oliveira trocaria boa parte dos gols que o consagraram na temporada para rir por último na série de duelos (ao todo, sete jogos disputadíssimos). Derrotado, viu um clube inteiro, do roupeiro ao presidente, passando pelos torcedores, fazer biquinho na foto do título. Com uma máscara do adversário nas mãos, o meia-atacante Rafael Marques, do Palmeiras, resumiu: “Essa máscara é uma resposta a um jogador que foi desrespeitoso com a nossa equipe”.

Em outras palavras, aquela comemoração debochada de um jogo que no fim não levou o Santos a lugar algum foi o combustível para o Palmeiras fazer seu jogo da vida na temporada.

Ricardo Oliveira acabava de ser reprovado na lição mais simples do ano letivo: o mundo dá voltas, e o barato do futebol é que podemos acompanhar suas ironias em tempo real e diante das câmeras (na vida real os pequenos trocos são mais sutis e geralmente não cabem num pôster). O porquinho do Viola de ontem era o beicinho de panaca de hoje.

O palmeirense conhece bem (ou deveria conhecer) o caráter gravitacional do cuspe. Dias após a maior conquista da história do clube, o time enfrentou o Corinthians na final do Paulista de 1999 e foi derrotado. Ressentido, o atacante Paulo Nunes, principal jogador alviverde, decidiu cuspir na taça dos rivais: “deixa o paulistinha para eles”. Por ironia, aquela seria a última boa temporada do Diabo Loiro, que seria dispensado do clube pouco depois vagaria como alma penada até o fim da carreira, que contou com uma passagem melancólica pelo Parque São Jorge, onde entrou pela porta lateral e saiu pelos fundos. Pior que isso: na década seguinte, o único título do Palmeiras seria um sofrido e comemorado…paulistinha.

É forçoso recorrer a um clichê para explicar o futebol. Mas a vida dá voltas. E até hoje não surgiu ninguém que desmentisse seu caráter cíclico.

Como nasce um palmeirense

A entonação tinha a gravidade que a situação exigia.

-Precisamos conversar.

Sentamos. Ela pegou minha mão e foi direta:

-Você não vai a São Paulo amanhã.

-Como assim????

-Marcaram para quarta o ensaio geral. Vai acabar umas oito da noite. Você vai ficar com o Miguel.

-Eu levo ele comigo.

-Nem a pau.

-Assistir jogo nessa cidade é zica. Nunca ganhei nada aqui.

-Azar.

-Se eu não for pra Turiassu o Palmeiras não ganha. Você sabe disso.

-Arruma outro lugar por aqui. Às oito eu chego e você vai pra onde quiser.

Na quarta-feira, às oito em ponto, ela me escreve:

-Vou atrasar.

Duas horas pro jogo. Miguel, na tentativa de sair da fralda, já tinha mijado pela casa inteira e eu acabava de publicar, às pressas, uma pequena análise sobre a bomba detonada pelo Eduardo Cunha. “Vê se hoje é dia de abrir processo de impeachment”, pensava.

Pior foi escrever, escolher foto e postar com uma criança no colo e ao som da Peppa. Toda vez que tentava espiar o que rolava nos canais esportivos ele esperneava. Não tinha negociação.

Às nove em ponto eu só conseguia pensar quão irresponsável eu seria se abrisse uma garrafa de vinho na frente dele.

Melhor não.

Meu plano de chegar anestesiado para o jogo começava a virar vinagre. Na véspera, já sabendo que não iria a São Paulo, tinha acionado meu xará Matheus Pacheco, palmeirense fanático que certa vez me falou de uma pizzaria frequentada por palmeirenses na vizinha Vinhedo. Passei o óleo de peroba na cara e me convidei para o convescote.

-Preciso de um lugar que SÓ tenha palmeirense. Semana passada fui num bar com santistas e deu zica.

Ele entendeu meu apelo e ofereceu carona e um abrigo numa turma de desconhecidos.

-Tudo bem se eu der vexame se sair gol?

-Relaxa. Vamos lá. O pessoal é gente boa.

Às nove e vinte eu já tinha dispensado a carona fazia mais de hora. Abandonara a ideia do vinho e já calculava a autonomia de uma criança de dois anos se ficasse alguns minutos sozinha em casa.

Respirava. No computador, colocava o hino no repeat com um olho no relógio e outro na Peppa. Agora queria que o tempo não corresse.

-Leite qué.

Enquanto preparava a mamadeira, Miguel subiu na mesa para alcançar o computador. Como sempre. Para minha surpresa, ficou olhando fixo o símbolo palmeirense, uma imagem estourada de tela no link do YouTube.

-Olé porcô, olê porcô.

De tanto me ver cantar, ele começava a me imitar. Justo ele, que se esconde e foge do pai em dia de jogo. Àquela altura a cantoria era uma piscadela em meu socorro. Uma espécie de primeira solidariedade de filho para pai. Era como se dissesse: “Pai, senta aqui, vamos conversar”.

Sentados na mesma cadeira, passamos os minutos que antecediam a final batendo palma e cantando todos os hinos de torcida que eu sabia de cor. Aproveitei o palmeirismo latente do momento para convencê-lo a assistir pelo menos os primeiros minutos do jogo. Ele não se indispôs. Mas antes que os jogadores subissem o túnel, recebo o inbox salvador:

-Fica pronto. Eu te levo na porra do bar. Só coloca uma blusa nele porque esfriou.

Abri o guarda-roupa e peguei o primeiro agasalho que me saltou. Era o agasalho do Palmeiras, presente quase intacto dado pela madrinha. Saímos os dois de verde e branco.

No corredor do prédio, uns vizinhos nos saldaram: “Vai Palmeiras”. Miguel levantou os braços para eles e retomou a cantoria:

-Olê porcô!

Montamos no carro e pela primeira vez ele esperneou para sentar na cadeirinha. Queria meu colo. Queria seguir cantando e batendo palma junto com a minha.

-Olê porcô, Olê porcô.

Na despedida inevitável na frente da pizzaria, dei um beijo prolongado na bochecha dele enquanto amarrava o cinto da cadeirinha. Ele entendeu.

Pulei para dentro, avistei meu amigo. Tinha 15 minutos de jogo. Me apresentei aos novos amigos. Sentei. Levantei. Cantei. Xinguei. Esmurrei mesas e cadeiras. Xinguei em voz alta e pedi desculpa aos presentes. Perdi a voz nos gols do Dudu e a esperança no do Ricardo Oliveira. Prometi fazer um busto em frente de casa em homenagem ao Fernando Prass. Negociei com o dono do restaurante uma saída rápida antes de pagar a conta: precisava dar a volta olímpica no quarteirão em fogos.

Cheguei em casa cantando alto e me joguei na cama para abraçar a criança que dormia, esticada, sem desconfiar dos perigos do mundo.

-Ele demorou a pegar no sono por causa dos fogos. Se você acordar ele eu te mato.

Vivo, sentei na varanda para ouvir o hino pela undécima vez. Chorei copiosamente quando, pela manhã, ele veio sonâmbulo na minha direção, me deu um abraço e voltou a dormir. A doença legada por meu avô, ao que tudo indica, acaba de contagiar mais uma vítima.

Confortavelmente entorpecido

-Quanto falta?

-Quarenta.

-Putaquepariu. Há duas horas faltavam quarenta e cinco.

-Esse dia começou há um mês.

A cada espiada no relógio, um chope na mesa evaporava.

-Mais um?

-Mais um.

-E agora?

-Trinta e oito.

Quanto mais a espera engessava, menos sentia meu estado alterado. Falava com meu amigo das saudades do antigo Parque Antártica como quem se refere a um território invadido, dominado, estrangulado. Desconfigurado.

Sentado num bar em Campinas, tentava observar ao redor qualquer ponto de amparo ou familiaridade. Na última vez que disputamos essa final, cumpri todas as convenções: vesti a (antiga) camisa da sorte, reuni o maior número de palmeirenses possível e nos encontramos num bar de amigos palestrinos numa paralela da Avenida Paulista, para onde desembarcamos ao fim do jogo.

Dessa vez estava tudo soturno.

Não podia assistir ao jogo em casa porque não podia acordar o meu filho. A TV da sala pifou e a do quarto sofre com o delay: antes de alguém cruzar a bola eu descubro, pelos gritos dos vizinhos, se foi gol ou não. Precisava de um novo QG, mas os da sorte estavam longe.

-Conheço um bar legal em Campinas. O chope é dois e cinquenta. Vai estar cheio de palmeirense. Traga sua camisa da sorte.

Olhava para o guarda-roupa, sem a velha camisa, e só enxergava fiascos: com essa perdi a final do Paulista, com essa outra fui rebaixado e com aquela, retrô, tomei cinco gols da Chapecoense.

-Não tenho.

-Foda-se então. Às oito passo na sua casa.

Até as oito da noite havia um ano inteiro e só sobrevivi aos minutos finais porque era dia de natação. No caminho para a aula, encontrei um vizinho corintiano, sorriso de orelha a orelha, e não sei por que diabos resolvi perguntar para quem ele torceria na final.

-Pro Palmeiras.

-Sério?

-Sério. Se for pra Libertadores, vai ser mais fácil bater.

Visualizei uma reedição dos embates de 99 e 2000. Buscava algum consolo na memória e, quando o Marcelinho partia para a cobrança, fui interrompido pela professora:

-Você fez dez chegadas de costas. Era pra fazer ondulação.

Não sei onde estava com a cabeça, mas ela não estava na água.

O cansaço da natação, somado às toneladas de chope que dragaria pouco depois, naquele bar de Campinas, me transformava num personagem sonado do Cronenberg.

Se alguém me soltar aqui no fim do jogo, pensava comigo, era capaz de acordar na Dinamarca, mas não saberia chegar em casa.

-Sabe o que eu acho? A gente devia assistir o jogo da volta na Turiassu.

-Vamos? Vamos agora? Ainda tem ingresso?

-Ingresso já era. Mas pelo menos a gente fica no meio da festa.

Traçávamos planos para a quarta-feira seguinte como quem acerta os detalhes para o desembarque na Normandia.

-Que horas são?

-Nove e trinta e dois.

-Putaquepariu.

Olhava para o lado e não havia nada que me lembrasse uma final de campeonato. Os muitos palmeirenses previstos por meu amigo éramos dois: ele e eu. Àquela altura parecia um erro tático escolher um bar vizinho ao Moisés Lucarelli, estádio da Ponte Preta, para ver jogo do Palmeiras.

Quando não olhava para o relógio, olhava para a TV. Na tela as pessoas moviam os lábios, mas não conseguia ouvir. O som do aparelho era abafado pela música ao vivo: faltando vinte minutos para o começo do jogo, o artista emendou a fase acústica do Renato Russo.

-Ela passou do meu lado, oi amor, eu lhe falei.

Alguns amigos do meu amigo chegaram, puxaram conversa sobre trabalho, e eu não tinha nada a dizer a não ser que estava em pânico.

No bolso, o celular vibrava como britadeira e, para não deixar ninguém na mesa falando sozinho, evitava conferir as mensagens.

Para disfarçar, olhava para a mesa do lado, já sem muita discrição, e via um rapaz lamber a orelha da namorada com roupa de academia.

-Só eu que podia, dentro da tua orelha fria, dizer segredos de liquidificador.

Não estou certo se de Renato Russo o músico do bar pulou para Cazuza ou se foi só minha imaginação. Mas a música já estava impregnada pela cena.

Sentado na mesma mesa, um amigo do casal, de dois metros de altura e quinze de largura, conversava com o garçom.

-Falta muito?

-Vinte.

Pergunto para a amiga do meu amigo se está realmente frio ou se o problema é comigo. Não sei o que ela respondeu, mas possivelmente deve ter estranhado, enquanto balançava os chinelos, quando disse que deveria ter levado um agasalho.

Antes que o décimo chope chegasse à mesa, meu queixo tremia. Aqueles calafrios já tinham me deixado de cama há duas semanas. Os motivos eram outros, mas os sintomas eram iguais. A poucos minutos da primeira final, tentava, numa lucidez inquebrável pelo álcool, racionalizar meus calafrios: é tudo o mesmo pânico. O pânico de confiar em algo que extrapola nossa função. Ou entendimento. O pânico de chegar a campo sem um plano, ou ter o plano estraçalhado pelas condições. O pânico de saber que fé e esperança são afetos contraditórios – torcemos porque queremos ver alguma coisa na vida ser premiada: a doação, o esforço, a alteridade, o coletivo, a superação. Mesmo sabendo que nada disso ganha jogo, torcemos. Torcemos para que as vitórias (nunca as derrotas) nos ensinem. Nos consagrem. E temos pavor de saber que até as lições do jogo podem ser estilhaçadas pelo nosso maior medo: o acaso.

Não seria assim, também, o jogo fora do campo? Não jogaríamos, todos, num pisar de ovos constante em um campo minado, esburacado, molhado e vulnerável a qualquer intempérie? E se chover? E se, num instalo, alguém furar a bolha da boa convivência e sair metralhando desconhecidos? E se uma barreira se romper e acabar com um rio que parecia perene? E se um avião for abatido a quilômetros daqui? E se metade do PIB e da cúpula dos partidos for pega em flagrante? E se arrastarem meio país para a lama? E se nada disso tivesse qualquer importância?

Pensando em tudo e já pensando em nada, batia o queixo lembrando por que, dias atrás, me batia com um pensamento fixo. Acabava de ver meu filho se pendurar na cadeira para alcançar a mesa de vidro. Tirava de lá, e ele voltava. Tirava, dava bronca, e ele voltava – como o porquinho da índia do Manuel Bandeira. Percebi, então, que não estaria por perto todo dia a toda hora. E isso me deixou em pânico, na cama, por horas. Não ter o controle daquilo, nem de nada, é admitir uma derrota: tudo, no fim, se resume a torcer. Para que nada (ou tudo) aconteça. Para que ninguém se machuque. Mesmo quando os dejetos estão a caminho do mar.

-Desculpa, filho, mas está vendo esta foto? Pois este é o mundo que deixamos pra você. Ele não é nada seguro. Fracassamos.

Pensava nisso e o queixo se tremia. Agora tremia de novo por causa de um jogo. Queria guardar para ele um pôster e dizer: “a desistência não é uma opção. Eles acreditaram e foram campeões. Venceram uma equipe melhor”.

Vai ver, pensava comigo, levamos esse jogo a sério porque só no campo podemos visualizar erros e acertos, punição e redenção, com um tempo determinado. Em uma hora e meia de jogo, temos o desfile de como funciona, ou deveria funcionar, a nossa própria vida.

Era o que conseguia pensar enquanto via, sem unha nem dentes nem queixo, os jogadores em campo: estavam lá o Zé Roberto, o Fernando Prass, o Lucas, o Gabriel de Jesus, o Rafael Marques, meu antigo parceiro de quadra em Araraquara que entraria apenas no segundo tempo. E vi também meu vô, meu pai, meus tios: todos os que não quis ver sofrer por causa de futebol quando criança; e, por não querer vê-los sofrer, pegava para mim o sofrimento. O futebol não é uma herança. É um contágio.

Pudesse, virava jogador para afastar da área qualquer perigo: ninguém nunca mais tentaria subir na mesa de vidro nem brincaria de faca nem explodiria aviões enquanto eu estivesse em campo.

Mas não estou. E, como não estou, resta torcer. E aprender, na marra, a lidar com os ponteiros. E o acaso.

-Esse jogo não acaba, putaquepariu.

-Esse 0 a 0 tá ótimo.

-A zaga parece que encaixou. Vai na base do bicão e boa.

Tinha acabado de falar quando o Gabriel, o do Santos, meio escorregando no campo chuvoso, passou no meio do paredão da zaga e mandou no canto: 1 a 0.

Antes que fizesse qualquer comentário, vi o brontossauro da mesa ao lado, que acompanhava o amigo que lambia a orelha da namorada, levantar em direção à TV:

-GOOOOOLLLL, CARALHO. CHUPA PORCADA, BANDO DE FILHO DA PUTA.

E olhou para mim, para o meu amigo; nós olhamos para trás, como se nos desviássemos de uma facada, e ali ficamos. De teimosos.

-Quanto falta?

Faltava um monte, pensei. Faltava quase tudo. Aqueles minutos finais são a eternidade de uma espera: do apito, do fim, do recomeço. Temos esperança de que tudo um dia acabe sem grandes estragos. Mas fé é outra coisa.

Assistia a tudo em silêncio e fui tomado pelo medo de engasgar com um grito que não poderia sair: o futebol, ali, era risco de vida. Naqueles minutos finais, os jogadores dançavam na tela e a voz do narrador seguia abafada. Com seu banquinho e violão, o músico do bar emendava Pink Floyd:

– I have become comfortably numb.

Dunga repete o erro de Felipão, que repetia erro de Dunga, que…gol da Alemanha

A série invicta de Dunga à frente da seleção brasileira caiu por terra como cai um mito. Quando é jogo jogado, e não amistoso pra encher bolso de patrocinador, a seleção brasileira é ainda um remedo de time de futebol. Mudou o técnico, mudaram alguns (menos do que deveriam) jogadores, mas o espírito é o de sempre.

Nos quatro últimos jogos oficiais, o time tomou 12 gols e marcou três – para tristeza dos milhões de brasileiros que acreditavam em mudanças após verem o boleiro João Dória Jr. assumir o comando da comitiva.

Durante a concentração, os empresários dos marmanjos seguem urinando de porta aberta. Ao menos uma negociação foi fechada entre um treino e outro. O sujeito entra em campo como jogador de um time e, no outro, está vendido.

Não fosse a oferta de carnes nobres motivo suficiente para a dispersão, a principal arma do time corre o risco de ser preso por suposto estelionato e corrupção na transferência para o Barcelona. Ainda assim, vai a campo – e dá no que dá.

Neymar, é bom reconhecer, é um gênio que, em campo, não precisa provar nada a ninguém. Mas a Neymardependência começa a fazer mal a ele. Na estreia da Copa América, ele acertou uma cabeçada e um passe a gol, mas foi campeão de jogadas que atrasavam o lance ou terminavam nos pés do adversário. Os outros dez correm de bobo, e a culpa é de quem escala a equipe num esquema neymarcentrista: 0-0-0-1-0.

Nunca na história desse país uma seleção foi tão dependente de um único jogador. Ronaldo tinha Rivaldo. Romário tinha Bebeto. Zico tinha Falcão. E Sócrates. E Junior. Pelé tinha Garrincha. Ou Rivellino. Ou Tostão.

Do time atual, a distância entre Neymar e qualquer bom jogador de clube é a distância de Eric Clapton para o Chimbinha. Bote os dois na mesma banda e tente ver no que dá. Com Neymar é a mesma coisa, e o time desaprendeu a jogar sem ele.

O erro de Dunga 2.0 é o mesmo de Felipão 2.0, que já era o mesmo de Dunga 1.0: não há plano B. Ambos apostaram todas as fichas num único time e não há plano de fuga em caso de incêndio ou apagão – como contra a Holanda em 2010 ou contra a Alemanha em 2014.

Nos últimos anos, o Brasil criou tanta dependência de Neymar que não aprendeu a jogar sem ele. Da última vez que teve de se reinventar sem o craque, tomou sete gols. Não há costas nem nervos que suportem tanto protagonismo. Nem tanta aposta equivocada.

O melhor esquema, para quem gosta e tem saudade de seleção e de futebol, é torcer para não encontrar, de novo, a Alemanha no caminho. A receita para a tragédia está toda desenhada. Amanhã será maior.

O Corinthians na velocidade terrível da queda

Parecia No caminho com Maiakóvski, o famoso poema de Eduardo Alves da Costa. Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor do jardim. Empate sem gols com o San Lorenzo.
E não dizemos nada.

Na segunda noite, já não se escondem; os maiores rivais pisam nas flores e matam o cão. E não dizemos nada. Ou melhor: dizemos. “Era só paulistinha, não vale nada, bora para o prato principal, a competição que realmente importa”. Dias depois, derrota para o São Paulo no Morumbi.

Até que um dia, o mais frágil deles, 13º colocado na fase de grupos e dono da defesa mais vazada do torneio, com dez gols em seis jogos, entra na casa, rouba a luz e o juízo e arranca um grito da garganta. É tarde: já não podemos dizer nada.

A eliminação do Corinthians na Libertadores em sua segunda decisão em seu estádio recém-inaugurado assombra pela velocidade com que a equipe se desmanchou em menos de um mês. Quem assistiu, pouco antes, à vitória alvinegra sobre o São Paulo, em Itaquera, viu ali um time pronto, treinado, calejado, indestrutível. Era o campeão de 2012 em versão melhorada.

Basta rever o gol de Elias depois de uma troca de passes que faria inveja a Xavi e Iniesta. Dois a zero foi pouco, mas era preciso tirar o pé. Havia um grupo da morte pela frente. Do grupo, todos agora estão mortos.

Nos próximos dias, os motivos da derrotada serão destrinchados, analisados, repetidos à exaustão. O time se expôs demais. Tite falou demais. Explicou demais. Deu pistas demais. Em um mês, a equipe mais forte do país ficou manjada, mas não só.

Há menos de um mês, não apenas a torcida e a imprensa esportiva, mas os próprios jogadores pareciam convictos de que nada poderia causar abalos. O time era emocionalmente uma pedra. Marcava. Pressionava. Tocava. Respirava. Truncava. Inspirava. E, como um boxeador que vence pela paciência e o cansaço rival, aplicava seus melhores golpes quando ninguém mais tinha força para reagir.

Esse time aparentemente indestrutível caiu ontem contra um time inexpressivo com dois jogadores expulsos. Andou em círculos por 180 minutos, mas os sinais estavam dados.

Há pouco mais de um ano, o Corinthians estreava com derrota em seu estádio: 1 a 0 para o Figueirense, pelo Campeonato Brasileiro. Desde então, transformou sua arena em uma fortaleza. Os rivais assustavam só de ver a aglomeração da torcida quase na linha dos laterais. Caía em Itaquera, já era.

Os dois gols de um aplicado Palmeiras nas semifinais do Paulistão no tempo normal, seguidos das defesas de Fernando Prass nos pênaltis, foram a pisadela num jardim aparentemente inviolável.

Parecia um acidente de trabalho, mas uma pulga acabava de ser instalada nas orelhas mais confiantes. É quando o mito se descobre mortal.

Após a eliminação do paulistinha, o Corinthians seguiu o que era. O time mais organizado tinha um alçapão a seu favor e pelo menos três dos melhores jogadores em atividade no Brasil: Guerrero, Elias e Renato Augusto. Um adoeceu, outro perdeu um pênalti, outro perdeu as referências.

A falta de confiança virou grito diante do mais frágil dos adversários, que num chute sem pretensões encontrou um desguarnecido Cássio no primeiro jogo das oitavas. Era como engolir a torre do tabuleiro. A fortaleza começava a ruir.

No futebol, como em uma antiga música, o que há algum tempo era jovem e novo hoje é antigo. O Corinthians se rejuvenesceu do fim do ano pra cá. Tite se reciclou com Ancelotti e trouxe as iguarias ao Brasil. Ambos caíram no mesmo dia, um na Libertadores, outro na Champions League.

A modernidade líquida, essa incapacidade de fazer planos a longo prazo entre ondas de inovação tecnológica e tempestades de informação em velocidade, não oferece tempo para contemplação. Quando a estratégia fora exposta e decodificada pelas fronteiras inimigas, já era tarde para pensar uma ideia nova. Ascensão e queda já não reconhecem abismos. Andam coladas, mas é preciso reconhecer seus sinais. Da velocidade terrível de umas e outras, não há tempo sequer para o luto: no fim de semana, o time volta a campo para a disputa do Campeonato Brasileiro.

Endividado e sem a renda de público e premiações esperada para o ano, é possível que o Corinthians tenha de se desfazer de seus maiores ativos: os jogadores. Se conseguir furar a onda, o time renasce no dia seguinte. Com o elenco e o técnico atuais, mais o peso de seu estádio e sua torcida, a equipe pode não ser imortal, mas já larga com um pé na próxima Libertadores. Com chances reais de levar o Brasileiro.

Encontro marcado. Sem o Real Madrid na final, a decisão da Champions League não será o encontro de arquirrivais que todos esperavam. Em campo, no entanto, Barcelona e Juventus terão o tempero dos duelos particulares de um mundo que dá volta e se reencontra num mesmo palco.

Um ano atrás, Messi barrou a ida de Carlitos Tevez à Copa de 2014. Tevez tem a chance agora de roubar a terceira taça europeia do craque do Mundial. Ambos são os maiores jogadores argentinos desde Maradona.

Evra sofreu injuria racial de Suárez, que mordeu Chiellini na Copa. Os três se reveem num duelo único – o zagueiro italiano, lembrou um amigo, já em entra mordido para a decisão.

Haverá outros tira-teimas em Berlim. Com a Juve, a Itália tem a chance de desbancar a supremacia espanhola dos últimos anos. Mais do que isso, os últimos heróis de suas seleções têm a chance de uma última consagração. Campeões da Copa em 2006, Buffon e Pirlo medem forças com Xavi e Iniesta, símbolos da conquista espanhola de 2010.

A vida, diria Vinicius de Moraes, é a arte do reencontro, embora haja tanto reencontro. O futebol é a vida em reedição.

Cautela e canja de galinha: a chatice ganha título

Por Thiago Varella

Diz o ditado: cautela e canja de galinha não fazem mal a ninguém. Adoro esportes. O último fim de semana tinha tudo para ser especial para mim. No sábado, a luta do século no boxe. E no domingo, meu time, o Santos, na final do Paulista.

Cena do filme "A Fuga das galinhas"

Cena do filme "A Fuga das galinhas"

Claro que estou feliz com o título, mas este é assunto para outro post. O que me incomodou profundamente nos dois eventos foi o excesso de cautela. Quase ali no limite com o medo, a covardia.

“Pra quê inovar se está bom assim?” Usamos em propagandas a frase “ousadia e alegria”, mas, no fundo, vivemos a era da “cautela e resignação”.

“Pra quê vou mudar de emprego se nesse eu ganho bem e tenho plano de saúde. Odeio meu trabalho, mas, nessa crise, não é bom arriscar. Vai que, né?”, diz o cauteloso funcionário.

Um outro exemplo desses “tempos de canja de galinha” é o tal índice de confiança do consumidor. O sujeito, muitas vezes, tem dinheiro no bolso, está empregado, tem uma vida confortável, mas não gasta. E reclama. “Vai que, né?” E daí o índice de confiança do consumidor desaba.

No Congresso, os deputados – com amplo apoio do povo – votam projetos de lei que oprimem ainda mais as minorias e se recusam a fazer profundas mudanças sociais. “Somos brancos, heterossexuais e de classe média. Por enquanto, nada nos atinge. Mas, vai que, né?”

Não tenho índices, mas chuto que as seguradoras estão mais ricas do que nunca. É muito perigo por aí pra gente ficar desassistido. Psicólogos e psicanalistas também têm um grande filão de mercado. Esse medo todo só pode ser fruto de baixa autoestima.

Meu time foi campeão, mas a atitude do técnico Marcelo Fernandes de segurar o jogo, mesmo com um jogador a mais (aliás, 10 x 9 em campo em números de atletas) é muito covarde. O mesmo medo que Oswaldo de Oliveira demonstrou no primeiro jogo contra o Santos, quando o Palmeiras poderia ter enfiado uns 4 gols.

Cautela, técnica e chatice podem levar você a ser campeão do mundo invicto, ensina Floyd Mayweather (e Tite, e Muricy e tantos outros profetas da canja de galinha). E com isso o mundo fica cada vez mais insuportável. Viva o Brasil de 1982, a Holanda de 1974 e tantos outros perdedores que ousaram e nos deram alegrias.

A final do Paulista e o lado bom da vida

“Seu receptor está sem atividade há quatro horas e vai ser desligado automaticamente”. O recado da TV dava o sinal de quanto tempo passei afundado no sofá depois que o Lucas Lima – aquele que o Thiago Varella, das linhas abaixo, chamou de jogador decisivo – converteu o último pênalti do campeonato.

Fiz essa foto sobre minha camisa pouco antes do jogo. Ia usá-la como perfil se fôssemos campeões

Fiz essa foto sobre minha camisa pouco antes do jogo. Ia usá-la como perfil se fôssemos campeões

Ali estava, ali fiquei. Estava ali, na verdade, havia uma semana, desde que o Dudu fechou os olhos, no primeiro jogo, e mandou a bola no travessão, e do travessão para o espaço, no primeiro duelo.

Desde então o Palmeiras não havia feito nada na primeira final com o Santos desde 1960.

O pênalti desperdiçado tirou da reta a sova que o time desenhava aplicar se abrisse dois a zero com um jogador a mais e diante de sua torcida. Seria um massacre, mas virou outra coisa: virou medo da tragédia, imaginada como um empate no fim do jogo, como acontecera em nove em cada dez rodadas da temporada anterior.

O time, com medo do vexame, passou a tocar de lado, garantiu a vitória no primeiro encontro, e de lado seguiu tocando até que o Ricardo Oliveira apareceu livre diante do Fernando Prass para mostrar o quanto aquela oportunidade custara ao ser desperdiçada (o lance deu – injustamente – uma cruz ao principal reforço do time na temporada; um reforço que foi importante em vários momentos decisivos do Paulistão e que, na final, falhou, mais ainda ao ser expulso no segundo jogo, como falharam todos, inclusive o treinador, que diante de um time mais leve e veloz optou por atacantes-postes, decisivos também em outros jogos, mas visivelmente ilhados no último duelo).

Afundado com meu amigo Felipe Zangari no sofá, tentava em vão alguma explicação: mentalmente, fazíamos uma limpa no elenco e escalávamos o time ideal, aquele que, se saísse do nosso jeito, certamente não deixaria o título escapar.

Estranho sentimento este: há cinco meses, justamente com a ajuda do Santos, comemorávamos como se não houvesse amanhã por ficarmos em primeiro lugar na tabela invertida do Brasileiro entre os que seguiriam no torneio do anos seguinte. Hoje lamentamos o vice-campeonato.

As derrotas nas finais são mais doloridas do que as campanhas medíocres. É o que nos lembram as memórias dos tempos em que éramos competitivos (voltamos a ser?) e conquistávamos só uma parte do que nos cabia – a outra parte eram os vices, os quases e aquela maldita sensação de que faltou pouco, de que foi um esforço hercúleo carregar esta pedra gigante até o pico e agora ela rola para baixo e precisa ser erguida de novo na mesma linha de partida das outras pedras já na rodada seguinte.

Passamos perto, e a verdade é essa. A explicação, diria agora ao Felipe, é que os centímetros pra cá não eram pra lá. Fosse a vida injusta a nosso favor, a bola do Dudu haveria de entrar – e a do Rafael Marques e do Jackson não precisariam ser desperdiçadas.

Na pior das hipóteses, os centímetros colocariam o Amaral na linha da defesa, e com ele o título que não vinha desde 2008.

Os centímetros, meu amigo, são soprados pelo vento – e só por isso não comemoramos o título.

Aliás, comemoramos. O maldito delay na TV nos levou à sacada para arrancar todos os gritos entalados quando o Xavier cobrou a falta e o Amaral pegou o rebote. Na volta para a sala, o lance estava anulado, mas nosso gritou de campeão já havia escapado. Voou pela janela e não voltou mais.

Só não podemos dizer que não comemoramos – como se não houvesse amanhã ou olhar atento do bandeirinha. Comemoramos como fizemos na Copa do Brasil 2012 num boteco de São Paulo, quando bebemos tanto que mal nos lembramos do jogo, só da festa, que envolveu a invasão de um caminhão de tijolo, um joelho rasgado e uma foto constrangedora do momento em que não vi mais nada e me deitei numa zebra de pedestres da avenida Paulista e tranquei o trânsito. Malditos centímetros a menos.

Dessa vez estava sóbrio. Estávamos. Não ofereci nem água ou suco porque estava afundado no sofá meia hora antes do jogo com a sensação de que as coisas estavam fora do lugar. A desconfiança aumentou quando o time se atrasou para a execução do hino e quando os jogadores começaram a tropeçar num gramado de sabão na primeira arrancada e, mais ainda, quando o Valdívia tomou chapéu do Renato. Ou quando o buraco pela ausência do Arouca ficou notável a cada bola não dividida no meio-de-campo. Depois vieram os gols, as expulsões, as confirmações de que o Robinho não foi o melhor do mundo, mas é muito acima da média, e que o Ricardo Oliveira era de fato o grande jogador do torneio.

Sóbrios, conseguimos descartar as explicações de sempre e os culpados de toda vez – o juiz, o craque que refugou, o zagueiro que espanou, o treinador que olhou e não olhou, os espíritos que faltaram. Nervosos estávamos todos, mal-escalados, também – bastava perder o título para o Santos descobrir que a melhor estratégia era colocar o Robinho no sacrifício para o jogo no Palestra. Longe da passionalidade alcoólica, pudemos olhar os detalhes, e eles estavam nos centímetros que nos censuraram o grito, e também nos metros cavados por uma equipe superior.

Chegamos juntos, ombro a ombro, no fim do torneio, e esta não é a notícia boa. A boa notícia é poder buscar o lado bom das coisas mesmo quando a bola gigante já desliza metros abaixo em direção ao chão.

-Pelo menos disputamos uma final.

-É verdade.

-E voltamos a ganhar clássicos e a jogar de igual pra igual.

-É verdade.

-Se acertar alguns detalhes, temos uma perspectiva pela frente.

-É verdade.

-Faltou pouco. Há cinco meses, faltava muito.

-É verdade.

As pequenas consolações nos ergueram do sofá, que já se moldava com o peso de nossas costas. Uma vez de pé, fomos caminhando até a portaria listando as outras boas notícias da tarde. Uma delas: no meio do jogo, no pico da ansiedade, meu filho que ainda não completou dois anos soltou sua primeira frase com mais de duas palavras em bom português e ponto de interrogação.

-Tá bravo?, perguntou ele ao Felipe.

Estava, mas a verdade ainda é dolorosa para ser dita. Queríamos apenas que o Palmeiras fizesse um gol – e que ele parasse de correr na frente da TV querendo mostrar seus brinquedos. Não aconteceu nem uma coisa nem outra, mas veio sua primeira frase.

Apesar das bolas e pedras que rolam, a vida e seu amontoado de experiências estão sempre em construção. Éramos campeões antes do jogo, agora não somos mais. Meu filho não falava português, agora fala.

-Não quer mesmo ficar e pedir uma pizza?, perguntei, já na porta.

-Não, vou ver a mulher.

-Está certo. E eu vou colocar o Miguel pra dormir.

-Foi bom a gente não ter bebido, sabia? Amanhã é segunda-feira e estaríamos com a cabeça desse tamanho.

-É verdade.

-Fica pra próxima.

Estávamos, oficialmente, resignados com o copo meio vazio. De volta ao prédio, o porteiro se abriu um sorriso ao me ver de volta.

-Não vai tirar essa camisa, palmeirense?

Só tive tempo de olhar para o lado, para me certificar de que era mesmo comigo, antea de responder:

-Não.

Lucas Lima para ministro

Por Thiago Varella

O brasileiro tem uma certa nostalgia com um tipo de jogador que, dizem, não existe mais. É o tal do camisa 10. O meia clássico. Cerebral. Elegante. Que cadencia o jogo e arma as jogadas para o centroavante.

Foto: Lucas Lima comemora golaço na vitória contra o XV de Piracicaba (foto: Ricardo Saibun/Santos FC)

Foto: Lucas Lima comemora golaço na vitória contra o XV de Piracicaba (foto: Ricardo Saibun/Santos FC)

Que saco! Para mim, meia clássico tem um erro grave de concordância. Na verdade, o correto é meia clássica, que se refere àquela peça de roupa que utilizamos com sapatos pretos. Meia cerebral seria um jogador que faz um exame neurológico antes de uma partida? E um meia elegante aquele que só dá entrevistas com terno italiano?Pois nos últimos jogos surgiu na Vila Belmiro um meia com as características tão desejadas pelos sebastianistas do futebol. Lucas Lima seria o herdeiro do Judas Paulo Henrique Ganso no meio-campo santista. Ou do messias Giovanni. Um armador habilidoso que pode vestir com tranquilidade a camisa 10.

Mais ou menos. Lucas Lima é o jogador certo no time certo. Ele tem muitas características do “enganche” argentino que todos desejam, mas, o importante mesmo, é que é o meia ideal para o Santos. Por três motivos: arma bem, segura bem a bola e joga com raça. Precisa de mais? Se, em vez de ficar preocupado se o sujeito é o 10 que todos esperam, a gente observasse apenas o futebol apresentado pelos jogadores, Danilo, aquele do Corinthians, seria titular da seleção brasileira há anos.
Mas o preconceito dos puristas atrapalhou Danilo, Alex, Raí, e pode muito bem prejudicar Lucas Lima. Aliás, nada mais chato do que esses sujeitos. Os nostálgicos do futebol são tão insuportáveis quanto os “especialistas”. Sejam eles experts em jazz, vinhos, cerveja, ou qualquer outra coisa.
Lucas Lima é a cerveja gelada que refresca num dia de sol. Tanto faz se tem muito milho ou não. Se fosse político, seria o nome ideal para assumir a articulação política do governo Dilma. Em sua maneira discreta e eficiente, faria Levy trabalhar em conjunto com as tendências de esquerda, com o PMDB, acabaria com a oposição e deixaria o caminho livre para Dilma governar.
Como é jogador, Lucas Lima deixa Ricardo Oliveira na cara do gol e ainda abre espaço para Robinho e Geuvânio. A volta do já-não-mais-tão-menino Robinho para o segundo jogo da final do Paulista é fundamental para o título do Santos. Mas não se iluda, o caminho para a conquista do campeonato será guiado por Lucas Lima.

Messi, Suárez, Neymar: a união possível dos povos latinos

O futebol e suas metáforas. Nas semifinais da Champions League, há mais em jogo do que o confronto de forças entre quatro gigantes. Há também embate de identidades metamorfoseadas em espirito esportivo.

neymessiVejamos o encontro entre a Juventus e o Real Madrid. É um duelo típico entre escolas – uma hegemônica e outra agonizante – mas também de séculos diferentes. Um é o da Velha Senhora, liderada por Pirlo, um velho senhor. É a cidade industrial e seu parque automobilístico, tradicional e austero. Do outro lado está a geração Y em estado bruto. A globalização possível de talentos e valores individuais, imateriais, pedantes, transnacionais. O jovem mexicano corre ao lado do maratonista gaulês, que recebe do habilidoso brasileiro, que abre passagem para a promessa colombiana, que ajeita para o centroavante francês. Tudo para o astro português de chuteiras brilhantes e cabelo impecável sorrir como para a propaganda da Cepacol e dizer: “fui eu”.

Mas é na outra chave que o embate é mais simbólico. O Bayern de Munique é, há três temporadas, o topo do futebol que chegou ao topo do mundo. É a racionalidade bávara, disciplinada e aplicada, unida em campo a uma utopia para além de suas fronteiras. É a solidez germânica com o sotaque francês de Ribéry, holandês de Roben, polonês de Lewandowski. Uma ortodoxia regida por um espanhol que agora reencontra não só uma antiga equipe, mas uma antiga escola. Uma escola de pouca definição e muita posse de bola. Uma escola, sobretudo, em desconstrução pela união possível dos povos americanos.

Quando criança, adorava ver, nos intervalos das disputas oficiais, as seleções paulista e carioca se enfrentarem em amistosos de tira-teima. Era a chance de torcer ao menos uma vez na vida pelo algoz Marcelinho Carioca. Era a chance de domesticar a minha inveja. E vê-lo trocar passes com meu ídolo possível, Djalminha. O Barcelona é mais ou menos isso: a união da nata do futebol brasileiro, uruguaio e argentino.

É a domesticação da rivalidade regional para uma causa histórica: levar o ouro da colônia até a metrópole para subvertê-la. No Barcelona, a potência ibérica, incorporada por Xavi e Iniesta, é quem está a serviço da espinha que se contorce e não se dobra.

Neymar, Suarez, Messi. Um é o Brasil e sua ambiguidade. É caboclo, é índio, é praieiro. Uma hora é hipster. Outra é moicano. Uma hora é linha reta. Na outra é lambada. É o correr lento que de repente escapa e se reinventa. É a introdução em bossa nova e a conclusão em mangue-beat. É o não-combinado e o imprevisto. É o que pode fazer qualquer coisa, até o combinado. Que transita em todo campo porque seu problema não é espaço: é foco.

Foco que sobra a Suárez, a valentia uruguaia até quando respira. Que, se preciso, mata e morre por um lance. O que faz não o que sabe, mas o que pode, num espaço diminuto do lado de lá do rio da Prata. É o que se imola com a mão na bola, o dente na carne, o joelho em frangalho. Que corre para a primeira bola como se fosse a última.

A trinca se fecha com um gênio argentino e uma sina borgeana: a reinvenção do passado em uma vereda que se bifurca e produz o novo a partir de tudo o que existe. Messi é Maradona em releitura. É o predecessor reinventado, disciplinado, focado, bem alinhado. Maradona é Cortazar, Messi é Borges. Maradona é Guevara, Messi é Gardel. Uns têm cabelo esvoaçante, a barba por fazer, o cigarro pendurado na canto da boca. Outros são alinhados, têm a cara e a roupa limpa e impecável ao fim do turno: o jogo, o conto, o canto.

Uns são o caos assumido, outros a ordem – mas uma ordem subvertida pela linha reta. Messi cria tudo de novo com tudo o que já existe. Andando na linha, ele a reordena em uma biblioteca com todas as histórias possíveis e impossíveis: as escritas, as não escritas e as que ainda serão escritas. É Quixote recriado em cada linha em sua própria terra. É a cópia e é o original. É o realismo fantástico recriado no campo de múltipla escolha que, para nós, os mortais, se resumiriam a quatro linhas.

Numa era de impasses entre fronteiras sólidas e ideias fixas, as semifinais da liga europeia são o encontro da imaginação que ainda pulsa. Se um outro mundo é possível, melhor não fechar os olhos, mas vê-lo com as pernas. Por elas, o futebol se reinventa como a epifania possível de um mundo real e minguado em sua pobreza imaginativa.

PS: A partir de hoje, este blog passa a ser um blog de crônicas inspiradas no futebol e seus afetos. Análises táticas, desenhos de duas linhas de quatro e lupas sobre quem é ou quem deveria ser o falso nove estão terminantemente proibidas neste espaço.

Foto:Messi, Neymar Jr e Suárez. Miguel Ruiz/FCB

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