dos perigos de se voar demais

Parece nome de filme da “Sessão da Tarde”, mas é um pouco mais que isso. “Amor sem Escalas” é daqueles longas que se propõem a falar demais, mostrar demais, ensinar demais; mas nem tudo é um naufrágio, como parece indicar a tradução para o português (em inglês foi batizado como “Up in The Air”, embalagem, como se vê, um pouco mais atraente).

Depois de acertar o alvo em seus dois últimos trabalhos (“Obrigado por Fumar” e “Juno”), dessa vez faltou ao diretor Jason Reitman escolher melhor o tema que pretende tratar. Em todos esses filmes temos o cinismo de personagens brilhantes diante de missões inusitadas: seja o porta-voz da firma que é pago para convencer a humanidade de que fumar não é assim tão mau ou a menina que despreza, e tenta dar o fim, na “coisa” que foi parar na sua barriga depois da primeira apronta adolescente. Dessa vez o canalha-mor é o funcionário de uma empresa que terceiriza demissões: sua missão é correr o mundo e anunciar para os empregados o que os patrões de fato não têm coragem de anunciar.

Ou seja: depois do fumo e da gravidez na adolescência, agora Reitman resolveu polemizar o mundo corporativo, certo? Não tanto. Se for essa a ideia, passou longe das principais novelas nonsenses sobre o assunto filmadas recentemente, como “O Corte”, de Costa-Gravas, “O Grande Chefe”, de Lars Von Trier e, em parte, “A Era da Inocência”, de Dennis Arcand.

Ryan, personagem de George Clooney, é cínico como o são os personagens mais marcantes de Reitman – é genial como ele tenta convencer os que assistem às suas palestras, imbecis como todas as palestras motivacionais, a deixarem os laços existenciais para trás para que “toda a vida caiba dentro de uma mala”. Mas, diferentemente dos antecessores, acaba se tornando vítima de uma lição de moral que o diretor deixa escapar no meio da história…

A princípio, Ryan é apenas um funcionário “das antigas”, que assume a crueldade de sua função como “algo que alguém tem que fazer” e que, a certa altura, se depara com o novo e a mudança. E o novo está representado em Anna (Natalie Keener), a caçula da equipe que descobre um método para reduzir custos e encurtar a crueldade. A proposta é que as demissões passem a ser anunciadas via webcam. É quando Ryan descobre que ele também pode ser carrasco e vítima do mecanismo que está prestes a ser apresentado; seus serviços, o tetê-a-tete que lhe é tão caro, podem ser descartados com um simples clique. Além do mais, a proposta fará com que seja extinto seu único propósito aparente de vida: se tornar a sétima pessoa no mundo a acumular dez milhões de milhas pela American Airline, companhia que o permite levar sua sensibilidade e demitir um pobre alvo um dia em Detroit e, em outro, estar no Kansas para mais uma missão ingrata.

O embate é o que o filme tem de melhor. De um lado, a personagem ambiciosa, metódica, aparentemente plugada nas novas tecnologias. De outro, o bonitão (e comedor) da empresa, desafiado com algo que parece fugir de seu alcance. Ao viajarem juntos, para dar forma a uma suposta simbiose, descobrem que não são, assim, tão diferentes como parecem. Como se vê, a jovem carreirista parece ter o domínio da nova linguagem, mas lhe falta vivencia e maturidade para lidar com relações reais conectadas por banda larga – é hilário o escândalo infantil que a até então funcionária-padrão protagoniza num saguão de hotel quando o namorado resolver terminar com ela…por meio de uma mensagem de celular.

O meio que conecta e desumaniza, parece dizer o diretor, é o mesmo que infantiliza, desaprende e “desensina”. Porque no fim toda aquela parafernália não é suficiente para fazer com que a jovem tenha muitas ambições além daquelas já incrustadas na mediocridade cotidiana (comuns desde que o mundo é mundo): uma companhia ok, uma casinha ok, carrões, e mais passa-tempo como filhos e afins. E se fixar: um emprego, uma casa, um carro e um marido para quem abrir a latinha de cerveja depois de um árduo dia de trabalho. Já Ryan quer voar longe, literalmente; quer não se prender, não se envolver, não ser pautado além do necessário para não ter frustrado seu plano de…conquistar as dez milhões de milhas que nem ele sabe para que serve.

Poderia ficar assim: de um lado, o homem inalcançável, que não sonha mas viaja e pensa viver; de outro, a geração que pensa estar conectada com o mundo, mas não sabe lidar com as questões mais elementares da vida rotineira – com cenas apimentadas de um caso extraconjugal e uma paixão boba que brota no meio da trama com a sempre arrebatadora Vera Farmiga. Entra nessa conta um detalhe aparentemente pouco importante: a irmã de Ryan, prestes a casar com um sujeito que ele nunca viu na frente, manda para o irmão uma foto em tamanho grande em que é abraçada pelo futuro marido; pede que Ryan faça foto da foto (isso mesmo) nos lugares mais fantásticos por onde ele passa nos 350 dias do ano em que está viajando, para que a parede da nova casa da irmã seja enfeitada por uma felicidade que já nasce fabricada, de uma vivencia que não existiu fora a imagem. (O que muito me fez lembrar o desespero de casais de amigos que saem para viagens aparentemente extraordinárias e passam os dias no destino tão invejável fazendo fotos e postando imagens de uma felicidade duvidosa em páginas de relacionamento, como o Orkut. Enfim, alguém resolveu falar sobre isso…)

Essa ligação entre dois mundos, conectados pelo vazio de propostas e projetos de vida, é o que Reitman faz de melhor. Mas abusa ao se propor a dar respostas para o que os personagens parecem se perguntar.

Enfim, perguntas que, a princípio, não tem respostas, mas mesmo assim o diretor segue em frente…e dá a deixa para que o espectador saia de lá com certezas inoportunas do tipo: “é, vale mais uma vida vazia do que solitária. Porque todos precisam de alguém em algum momento para viver”. E só porque resolveu falar disso, e não de novas tecnologias ou crueldade do mundo corporativo, que “Amor sem Escalas” é, para mim, o mais pretensioso filme de Reitman. O que é uma pena, porque, como ficou provado em “Juno”, talento, originalidade e bons atores para sair da própria armadilha não lhe faltavam dessa vez.

os rebeldes não souberam amar

É um imperativo já traduzido no título: “Não, minha filha, você não irá dançar”.

A chamada é para a filha e dá a sensação de que o filme vai tratar das repressões vivenciadas pela personagem em sua relação com os pais – ou algo anterior a ela.

Não deixa de ser.

No papel da mãe divorciada que acaba de sair de casa, dois filhos no colo, Léna (Chiara Mastroianni) recorre aos pais como reduto de uma paz que parecia violada, até então por motivos desconhecidos, durante o casamento.

Quem já saiu de casa sabe como é: voltamos, temos saudade, necessidade de ter uma guarda de bom senso e quem faça o almoço, o jantar; mas dois dias bastam para que as velhas miudezas que nos afastaram do lar voltem a se manifestar. E, quanto mais afastados daquilo estamos, mais insuportáveis parecem as velhas manias naqueles poucos dias em que voltamos a conviver com eles.

Até então, tudo bem; os rebeldes sabem como driblar os pais, mandar tudo à merda, mostrar o dedo do meio, sair para as aprontas (com os amigos rebeldes, lápis nos olhos, cabelos espetados, coturno) e depois voltar para casa de madrugada, gritando nossas rebeldias aos nossos pais insones. Tipo “cadê meu leite quente, mãe?”

Transgredir no mundo que nos colocaram chega a ser prazeroso, e Léna parece não ignorar isso. Mas sem certa explicação, cumpriu todos os papéis que constavam do script e, à exceção de uma certa melancolia evidente (sobre a qual os olhos do diretor, Christophe Honoré, são mestres), não parecia se distanciar da irmã, assumidamente funcionária-padrão à serviço do lar.

Embora alérgica à caretice, Léna também teve seu lar, trabalhou, casou, teve filhos; fez, a contragosto, tudo que se esperava dela, e o divórcio parecia fichinha ante o olhar desaprovador dos pais que acreditam (e vivem) num casamento tradicional, desses que se prometem eternos nos altares inóspitos.

Mas é o olhar do filho, o mais velho, de aparentes sete anos, que a arrebata; quando os filhos, e não os pais, passam a nos cobrar bom senso, segurança e calma, a rebeldia passa a ser ridícula. O que antes era revolucionário passa a ser infantil e não há desejo de afogar as clausuras sociais que nos livre da certeza de que fazemos mal nossos papéis, esses enlameados pela culpa e pela ansiedade. É como uma soma zero de vetores; as vocações se anulam e a liberdade, em vez de ser vivenciada em doses grandes loucuras, são trancafiadas. Isso, a longo prazo, gera apenas imobilismo e dor, além de queixas – basta notar como Lena e toda sua rebeldia e lascívia, que parece a ponto de explodir a qualquer momento do filme, não consegue sequer conviver com o jovem amante, apenas cinco anos mais novo, vivido pelo sempre misterioso Louis Garrel.

Durante um dos diálogos que dão vida ao filme, o personagem de Garrel arremata: “você quer ser rebelde, revolucionária, mas não percebeu que isso requer renúncias”. Ou seja: só é suficientemente livre quem for capaz de, de fato, mandar tudo à merda e saber que, na vida, não terá certas vivencias.

Isso inclui uma decisão fundamental na vida de qualquer pessoa, em gravidade talvez só abaixo da escolha fundamental da existência descrita por Albert Camus: “viver ou não”.

No caso, ter filhos ou não.

Nem todos são capazes de ser bons pais, ou bons filhos, e ainda assim estar próximo de um ideal de liberdade que consiste em ir e vir, ou, no caso, mandar ir e vir (ações caras à personagem) sem ter que dar satisfação; ainda assim, todos, em um imperativo social cruel, são obrigados a tentar.

Mas a vida não é um laboratório, e os seres com quem lidamos não são descartáveis, parece dizer o diretor. Eles são nossa origem e nosso fim, a continuação. Nessa, o contra-argumento, que tem sido usado talvez desde Caim ou Abel, “eu não pedi pra nascer”, é a toda hora colocada em jogo pelo filho que pede, em silencio de olhos cansados, para que a mãe, por favor, se decida entre viver ou amar.

Em “Em Paris”, filme anterior de Honoré, a casa do pai é o aconchego do personagem que ousou romper com o casamento. O ambiente não lhe é hostil porque o próprio pai já passara por isso. Em “Não minha filha, você não irá dançar” não há paz visível a olho nu enquanto reprovação e decepção são originárias não apenas dos pais, mas dos olhos de uma criança que só agora começa a entender o mundo.

Outono

Logo que vim a São Paulo, fiquei impressionado com os personagens que via nas ruas e que pareciam colorir o caminho de casa até a faculdade. Era gente simples, que vendia tudo quanto era parafernália, pedia riscos de cifras pra fazer seu lanche e andava de bairro em bairro tentando melhor sorte que em vidas anteriores. Era o homem de bigode, alinhado, que vendia passes de ônibus em frente ao ponto (depois inventaram o bilhete único, seus serviços ficaram sem função, e ele sumiu do pedaço); o negro cego, de cabelos brancos, que vendia rosas em frente à Imaculada Conceição; as ciganinhas que ziguezagueavam entre transeuntes com os calcanhares sujos e as palminhas das mãos levantadas, como recipientes; o chinês que vendia yakissoba na frente do colégio; o homem que tocava violão dentro do ônibus; o jovem que recolhia caixas de papelões e fuçava no lixo em busca de algo que lhe forrasse; as centenas de pessoas que se revezavam em frente à catraca do condução para amplificar o discurso que parecia ensaiado: “eu não gostaria de atrapalhar a viagem de vocês…”

Achava que tinha trabalho a fazer; que, sensibilizado, de alguma forma poderia interferir naqueles destinos escassos e alimentar uma população de índices chineses com o que me sobrava. Bastava vontade e um discurso anti-burguês contra “tudo o que está aí” que tentava calibrar com livros e vídeos.

Só notei minha retirada de campo pouco depois de começar meu primeiro estágio. Não que entre as funções que me eram incumbidas estava a de promover a extinção do sentimento humano. O que mudava era que, encaixado a uma lógica limitada de horários, funções e preocupações que não estavam presentes naqueles primeiros meses de ócio, estudos e comoção, uma certa capacidade de perceber aquelas pequenas histórias que antes saltitavam nas vias comuns se tornava, a cada dia, inútil e desprezível.

Fui tomado de assalto por essa percepção quando vi uma mulher, no metrô, se aproximar de mim, e de outras pessoas, com as mãos estendidas, como quem pede socorro; sem apoio, ela se prostrou e começou a vomitar, com uma intensidade que parecia sujeita à morte. Interrompia, a cada instante, o jorro para olhar ao lado e, em náuseas pelos olhares inúteis e enojados de quem a observava, voltava a expelir seus males. Tive alguns segundos de paralisia ao ver a mulher naquele estado; lembrei que cerca de dez minutos me afastavam do horário exato para entrar no trabalho e, ao ver chegar o trem, tive de decidir, antes que as portas se abrissem, se ajudava a mulher a se levantar ou se seguia a multidão. Optei pelo segundo: desviei a passos largos da mancha que a mulher deixava e, sem coragem de fitá-la, entrei no metrô e garanti meus dez minutos que me permitiram chegar a tempo no horário determinado.

Não lembro picas do que fiz naquele dia no trabalho, um dos tantos em que fiz as vezes de funcionário padrão, que cumpre horários, não discute ordens e adapta a rotina à instituição anterior a mim – e portanto, mais forte. Mas da mulher nunca me esqueci.

Não levou muito tempo para que todos aqueles indivíduos que tanta afeição me provocavam passassem de figuras exóticas a sujeitos invisíveis no caminho entre o trabalho e minha casa.

Tudo isso me veio a cabeça, há algumas semanas, quando assisti ao “Hanami – Cerejeiras em Flor”, filme do diretor alemão Dóris Dörrie que se pretende uma adaptação de um clássico japonês. Na história, uma dona de casa com seus 60 anos, mãe de três filhos, descobre que o marido, com quem vive numa pequena cidade do interior, tem uma doença terminal e propõe uma viagem a Berlim. A ideia é forçar o encontro do pai com dois de seus filhos antes da morte, que ele ignora estar próxima. O outro filho – que, ao que tudo indica, é o mais bem-sucedido deles – está ainda mais longe, em Tóquio, onde a mulher sonha passar os dias para conhecer as flores de cerejeiras, o monte Fuji e o butô, dança japonesa em que corpo e sombra se confundem no mesmo ritmo.

Feito para estraçalhar corações e espalhar lágrimas, o filme peca em uma série de nuances; mas acerta como flecha ao ilustrar como as relações marido/mulher, pais/filhos, irmãos/irmãos se deslocam e se desumanizam à medida que as rotinas passam a ser enquadradas em outras prioridades. Tendo essa percepção bastante nítida, Dörrie mostra com certa crueldade a forma com que os pais são recebidos pelos filhos; na nova ordem das novas rotinas (agora com horários fixos e viciados, como o pai fizera toda vida com suas meias-verdades de sempre e a velha pontualidade ao sair e chegar em casa – inclusive no hábito de descalçar os sapatos e pendurar o casaco no cabide), a sensibilidade é morta a pauladas e os pais passam a ser entendidos como tormento, estorvo, tal como um Gregor Samsa quando deixa de ser humano, torna-se um enorme inseto e passa a produzir ojeriza em seu entorno.

A mãe, nesse sentido, é o único e frágil elo de sensibilidade que tenta, em vão, encontrar flores nas fendas de uma rotina concreta; é a única dali capacitada a entender o butô e os chamados dos montes, dos mares, dos ventos – a ponto de relevar quando o marido, interpretado por Elmar Wepper, diz achar bobagem uma viagem até Tóquio para ver um simples monte, porque, para ele, todos os montes eram iguais.

Não eram. Tanto não eram que é exatamente a percepção sobre o acaso, a morte e a solidão que o leva a descobrir naquilo tudo que rejeitara, e não via sentido (arte, natureza, infância) que, mesmo na mais sistemática rotina, não estamos imunes às dores, às perdas, às sutilezas a que somos submetidos o tempo todo e fingimos ignorar. Quando essa fragilidade se expõe, e as comportas se abrem de maneira ríspida, dor, culpa, saudade e compaixão – penduricalhos que os horários marcados parecem ofuscar – começam a fazer sentido. É como se todas as portas que represaram lágrimas de toda a vida fossem rompidas quando, do alto, passamos a compreender o que fizemos de nossas próprias vidas e a nos aproximar daquilo que um dia fatalmente será levado de nós.

“Aconteceu em Woodstock”

Só depois de ver “Aconteceu em Woodstock” que me dei conta: todos os filmes de Ang Lee (ao menos os que eu vi), de alguma forma, tocam nas feridas das revoluções sexuais que entraram em pauta durante parte expressiva do século 20.

Se em “O Segredo de Brokeback Mountain” os desejos e perigos – para parafrasear o penúltimo trabalho “angleeano” – são costurados entre nevascas imensas de orgulho, preconceito, afirmação e o tédio com a vida ordinária que tenta ser quebrada pelos cowboys retratados, em seu último longa o diretor teve o trabalho apenas de recriar um ambiente que em si funciona como pano de fundo de praticamente tudo o que aconteceria nos anos subsequentes. Um ensaio sobre a tolerância e a permissividade que, em parte, provocaram conseqüências importantes no comportamento das famílias-padrão americanas – elas, claro, não só dos EUA.

Em “Tempestade de Gelo”, meu favorito, Lee rasga de forma mais brutal a imagem dessa família-padrão americana, amedrontada pelas mudanças em curso (políticas mas sobretudo de comportamento) da revolução sexual e, ao mesmo tempo, fascinada e aparvalhada pelos desejos que começam a brotar como fendas, assumidos apenas em festas de trocas de casais e logo afogadas na ressaca repleta de culpa e hipocrisia em relação aos filhos no dia seguinte.

A exceção seria “Desejo e Perigo”, que retrata um período pré-Woodstock, em palcos não-ocidentais, mas onde os instintos atuam também como personagens principais, mas de uma forma contida, pontual e localizada histórica e geograficamente; o sexo, nesse caso, é o elo entre vítima e carrasco que se confundem num contexto de erotismo, dor e repressão – esta representada pelo chefe da polícia sanguinária que atua durante a dominação japonesa na China “subjugada” (palavra da moda), por quem a espiã se apaixona ao ser invadida sobre todos os ângulos e closes.

A ameaça, nesse caso, é o do rompimento das ideologias mais arraigadas (a liberdade?) e a transformação. Porque ninguém faz as vezes da personagem sem se envolver por completo com a missão. E o contato, nesse caso, é fatal.

Posto em ordem cronológica, o que se vê são filmes que desenham a história da liberação e seu represamento (o mundo do entre Guerras de “Desejo e Perigo”), o liberou geral de “Aconteceu em Woodstock”, e a culpa, preconceitos, conflitos e fantasmas que funcionam como pano de fundo de “Brokeback” e “Tempestade”.

O mais ingênuo e festivo deles, como não poderia deixar de ser, está no festival de White Lake, meio pelo qual Ang Lee se permite enquadrar suas imagens longas (e usualmente sérias) em brincadeiras ingênuas de adolescentes que trocam suas namoradas, brincam de nadar sem roupa, se divertem com ácido lisérgico, relevam as sujeiras e desorganizações que marcam o evento; mas que protagonizam, numa conversão histórica (em meio à Guerra do Vietnã) quase que mágica, o encontro entre ideias, desejos, sons e catarses apreendidos na cidade grande (Nova Iorque, Meca da modernidade, fica ao lado de White Lake, onde aconteceram os shows) com a paisagem bucólica, em que árvores, lama e mato dão às expressões psicodélicas um aparato transcendental.

Azar de quem, como nós, não viveu pra ver nem ousar nem tentar – nós, os míseros herdeiros dos que cresceram ouvindo que a AIDS era a punição devida ao orgasmos expressos e descontrolados de nossos contemporâneos, para quem sobrou apenas o pudor, os hormônios e as frustrações. Estas, imersas num mesmo palco, permitem nos dias atuais linchamentos públicos a quem se atreveu, por exemplo, a desfilar com vestidos “indecorosos” nos corredores da faculdade. Tempos de reacionarismo e intolerância.

Longe de ser triste, “Aconteceu em Woodstock” fez com que muitos deixassem as salas bem comportadas de ar condicionados com suspiros e lágrimas represadas. É porque o mundo, que prometia tanto em 69, ficou realmente banal com suas culpas e desperdícios depois que aqueles gritos resolveram se acomodar nos silêncios inóspitos de nossas casas – a vida real, alienante e reificada dos tempos modernos.

da nossa própria montagem

Antes de ver “Abraços Partidos”, fui alertado mais de uma vez pelo amigo Jairo Marques que o novo filme do Almodóvar não tinha nada de mais; que não fazia sombra aos melhores trabalhos dele, como o “Fale com Ela”; e fui avisado que a história era besta, sem sentido que valesse o ingresso. Uma amiga em comum, que acompanhava a conversa, ainda sacramentou: “Almodóvar me cansa”.

Bati o pé e encarei o ingresso.

Ganhei em troca algumas percepções, entre elas a de que Almodóvar pode cansar, mas é leitura obrigatória.

Primeiro, porque tem pleno domínio do que faz, e, quando o faz, é porque tem algo a dizer. Em “Abraços Partidos”, usa um personagem-diretor-de-cinema como fio-condutor que dará a mão ao espectador para mostrar de que maneira viver é também uma forma de contar o próprio filme.

No longa, é a interferência (ou a falta dela) do diretor no trabalho final e a capacidade dos atores em encarnar os próprios dilemas que influirão no destino da obra. E o destino, no caso, é o resultado de cortes, escolhas, falas sobrepostas, montagem, versões, edição, ensaio, descartes, adaptações. Nada muito distante dos discursos adotados, editados, montados, omitidos por nossos próprios personagens – os pais, os filhos, os alunos, os maridos, os amantes que vivemos ou com quem convivemos como um leque de personagens trocados como fugurinos.

Na trama, Mateo Blanco é um escritor e diretor de cinema que, após ficar cego ao se envolver em um acidente de carro, passa a se reconhecer apenas, e por imposição própria, como Harry Caine. É o nome como se apresenta ao fazer o check-in num hotel de uma praia distante em Lanzarote, para onde foge com Lena (Penélope Cruz) – uma cópia escancarada de Audrey Hepburn – para se proteger de uma rotina ameaçadora que o persegue como profissional e amante. É o grande momento de sua vida, interrompida por uma obra que, à primeira leitura, compete apenas ao acaso.

Lena é a atriz no papel e de si; na vida real, é a boa filha, a boa esposa, a boa profissional. Personagens que lhe provocam asco quando a cortina se levanta, que a levam a fugir em busca de um encanto só manifesto ao interpretar o que lhe é distante. E se envolve com o diretor do filme. Tal envolvimento alija o diretor das considerações finais do próprio trabalho. Longe da edição adequada (se é que ela existe), o filme perde o nexo e se torna presa fácil para crítica e público. O filme (do filme) é destruído, não pelo trabalho bruto, mas pelas escolhas e decisões sobre as falas e cenas que serão eternizadas na película.

Na vida real, um acidente de automóvel muda o rumo de toda história, mas não só.

A história é mudada constantemente pelas pequenas omissões de seus personagens e diretores que costuram as ações humanas inscritas ao acaso em seus discursos. É a agente literária e amiga que esconde segredos durante 14 anos, mas é também o personagem fictício que encarna o homem ao esquecer o passado e não procurar respostas.

“Eu não minto, apenas omito alguns fatos”, diz, em certo momento, a agente, vivida por Judith Garcia, ao reconhecer a fragilidade das versões que mudam por completo o desfecho de uma realidade consolidada.

“Abraços Partidos” é uma homenagem ao cinema, da arte de se contar histórias e de colocar as peças em seu devido lugar – isso quando é possível encontrar os lugares devidos para cada peça. Mas as histórias, anuncia Almodóvar, não são um fio condutor com começo, meio e fim; não são feitas de páginas em branco e inspiração; são, isso sim, sucatas de discursos e memórias espalhados como cacos desmontados, removidos de seu contexto original.

A história de amor entre o diretor e sua linda atriz dirigida é o que menos importa na obra. O que importa é a porta aberta a machadadas e com as “cores de Almodóvar” ao espectador a quem é dada a possibilidade de dar ordem ao o caos e encontrar um formato, numa versão final de fatos, a eventos que, sozinhos, não fazem sentido algum.

Ele é também, afinal, personagem e diretor de sua própria montagem.

aos que saíram de casa

 

Meu pai gostava (ainda gosta, mas o colesterol…) de comer lanche no prato, fritar o próprio bife na velha e gastada frigideira e untar o pão que se escurecia pelo lado de dentro – para logo mais ser novamente embranquecido pela maionese –, unido para sempre às fatias de alface e tomate que se grudavam.

A fumaça se espalhava pela casa, nós todos (meu irmão, minha mãe e eu) já jantados, mas despertos pelo cheiro que marcaria os finais de tarde que, no verão, ainda tinha como companhia uma rasante luz do dia que se extinguia.

Ficávamos espalhados pelo tapete da sala de TV, e dormiríamos, naquele apartamento, infinitas vezes mais vezes naquela sala do que nos nossos quartos montados para acolher nossos sonos.

A mãe chamava de muquifo onde todos nos espalhavam; e dava preguiça recepcionar o pai, ajudar no jantar, e ajudar sobretudo a recolher, parte a parte, os relatos de um dia intenso de trabalho que parecia sempre o mesmo. Tudo na mesma paisagem: ele sem camisa, a meia preta enrolada nos pares de sapato que abandonava pelo quarto antes de seguir para o banho, rápido feito os 100 metros rasos.

Não tínhamos o hábito de dormir tarde, e quando a noite enfim chegava, puxada na tração de cordas vermelho e rosa que arranhavam os céus da nossa cidade, nos recolhíamos de frente pra TV, à espera da programação do dia. E cada dia da semana tinha uma graça, era o filme na segunda – todos gostavam até então dos mesmos filmes –  o escracho na terça, o jogo na quarta, a comédia na quinta, a grande reportagem na sexta (esta sempre desfalcada de algum aniversário no salão de festas do prédio ou de amigo ou de parente que enchia a casa de cachorro-quente, guaraná, batata frita, coxinha, risoles e empada e naquele tempo soava bastante chique juntar a tropa em torno da mesa, uma toalha de renda branca excepcionalmente estendida, para apreciar o estrogonofe de carne empapado de champignon e flamado com conhaque e mais chique ainda servir aos convidados pizza de quatro queijos com borda recheada feita em forno à lenha, novidade na cidade), o consolo no sábado depois da missa ao ouvir a sirene do Supercine que anunciava que a noite estava perdida, melancolia só superada em decibéis pela apresentação do Fantástico fazendo a roda girar, alçando a mente para a segunda-feira, o despertador materno tocando minha face logo às 6h de segunda-feira com café pronto, já esfriando, num bule que envelhecia como o terço amiudado numa mão fervorosa que pedia para que tudo permanecesse como tal.

Frágeis como casa de ovos, permaneceram cientes de que nada em volta se desfaria até que os rumos se anunciaram diferentes; a rotina destronada por missões e desafios que impelem à distância e se resumem em encontros fugazes, embora rotineiros aos fins de semana atolados em compromissos – já não ouvimos a sirene do Fantástico tocar porque estamos na estrada, os sons do caminho agora é o dos pneus beijando o asfalto. Tudo tão nítido como o vento que modela o novo som-ambiente.

Essa tarde que hoje termina mais tarde, e que tanto se parece com os finais de dia na nossa cidade, traz de volta o alerta de que uma vida se renova, que é hora de descer para brincar de bola, e depois subir para o último banho, a última janta, vestir o pijama e lamentar. Só parece: de onde estou não sinto o cheiro da carne mal passada deslizando pela panela, avisando que a proteção de nosso pai, tão presente naquela circunstância, estava pestes a ser saciada pelo simples murmúrio de que nossas presenças seriam para sempre exatas e seguras.

Breu

Pontos luminosos, como vagalumes, guiam meu caminho até o ponto de ônibus, mais ou menos uma hora depois de saber que o blackout que me pegou desprevenido, à beira do bar, não estava circunscrito só à região contornada pela minha vista.

Recebo a ligação de meu irmão, na Paulista, que dizia estar fodido, sozinho em casa e sem luz. E eu “que, estranho, mas a Santa Cecília também esta fodida”. E logo soube que fodido estavam também todos na região de Campinas, e no Sul, e na Bahia, e em boa parte do Brasil.

Fodido estava eu, pensava comigo, porque àquela hora o metrô já tinha pedido arrego, e deixara de funcionar. Perto da 0h, tinha que torcer para que o ônibus, raro de se ver já em horário comercial, me rendesse. Cortamos a Canuto do Val, eu e minha amiga Silvia, com um medo que aos poucos se dissipava ao ver a aglomeração de fodidos e/ou curiosos que desciam às ruas para testemunhar de perto a fodeção da cidade. E logo souberam que não eram privilegiados, que a mancha escura se espalhava por outros Estados, como num ensaio real sobre a cegueira – eram 18, diria o governo, no dia seguinte.

Parecia feriado de fim de ano. Todos à rua, em roupas leves e sorrisos invisíveis mas perceptíveis, tentando piadas – até os bombeiros contavam com certa graça que já tinham resgatado uma penca de fodidos que se engavetaram em elevadores na hora errada.

Eu me livrava de elevadores e túneis de metrô, mas estava com fome e levemente embriagado por duas garrafas de cerveja que se esquentavam numa mesa sem ar refrigerado.

Desistimos de esperar o conserto, e seguimos para casa. Guiados por faróis e pontos luminosos de aparelhos celulares, cuja utilidade, até ontem, pensava estar encerrada em ligações, fotos, vídeos, agenda, serviços de despertador, jogos, música, programas de televisão. Mas não: a tecnologia é também a luz, o guia e a estrela…

Foi por sua tela, já a metade da bateria consumida, que me guiou até o ponto, de onde um ônibus com cara de nave-mãe, engravidada de uma rara luminosidade, me sugara para seu ventre. Dentro, pude conferir a noite que se desenhava, assustadora e bela, por vidros reluzentes. Eram insistentes luzes que indicavam o caminho para casa. Caminho com desfalques consideráveis, como o Extra 24 horas, os bares e TVs que deveriam estar ligados àquela hora.

Pela luz do aparelho pude esquentar a sopa, num fogão envolto ao breu, consumida sob luzes inconstantes que reluziam à beira de uma única janela, colada à cama. O fósforo faiscava uma dançarina que serpenteava pelo corredor, mas a luz azulada do aparelho era reta e confiável, embora fugaz.

Por ela pude finalizar o trajeto e me colocar em segurança, estomago cheio e olhos alimentados, à espera de que, pela manhã, quando se abrissem, as luzes já tivessem feito as pazes com seus conterrâneos e explodido na primeira gargalhada incontida de um raio de sol.

Caretice mata a cena – SP-09

Em seu clássico “Fantasma Sai de Cena”, Philip Roth descreve, em certa altura, a volta de um velho escritor, Nathan Zuckerman, à sua Nova Iorque depois de viver anos em um auto-exílio num pequeno vilarejo, próximo mas quase sem conexões com a grande metrópole.

O retorno é marcado pelo estranhamento: a cidade já não parecia a mesma, ainda que continuasse igualmente hiperbólica e fervente num cenário de luzes e cores pouco alterado. É porque a mudança não estava no cenário, mas nos vestuários, formas de aproximação, gírias, regras e, sobretudo, nos hábitos que marcavam os passos das pessoas que tomavam o ambiente que antes lhe era tão comum. Hábitos, por exemplo, como o de as pessoas falarem sozinhas – ou aparentemente sozinhas, com esses pequenos aparelhos, presos na palma de mão e colados ao ouvido, chamados de celular.

A presença desses pequenos aparelhos mudaria para sempre a imagem guardada pelo velho sobre uma cidade que decidira abandonar.

Pois é essa cena que vem à cabeça quando imagino o que aconteceria com o sujeito, paulistano ou aqui crescido, e que eventualmente voltasse à sua São Paulo após um possível exílio de 15 anos, por exemplo, numa cidade qualquer, de um país qualquer.

Seria, decerto, preso ou defenestrado caso resolvesse cumprir por estas bandas as regras a que estava acostumado em 1994.

Regras daquele pobre Brasil da primeira metade dos anos 90, que ainda não vira um presidente eleito cumprir um mandato até o fim desde a redemocratização; que (a depender do mês em que falamos) já desconfiava se a síndrome de vira-lata estava mesmo liquidada se ao final da Copa do Mundo, agendada para julho daquele ano, não fosse encerrado o jejum de 24 anos sem títulos mundiais no futebol.

Um Brasil do “Aqui Agora” e do novo Monza, do pagode e do axé, de novelas um tanto mal acabadas, com menos roupas e menos recalques, de “A Viagem” e Tieta”; de fichas telefônicas e PCs 386; de literatura em hibernação, de filmes envelhecidos, de salas de cinemas bombardeadas pela profusão de locadoras e fitas de vídeo cassete; um país sem cabos de transmissão ou textos de mensagens instantâneas, de Raí e Müller e das Tartarugas Ninja; de Mega Drive e Super Nintendo; de adoração a “Street Figther”, Spielberg, parques e famílias dinossauros; de calças e bermudas largas, xadrez estampados, de chapéu de sol; de chinelos Rayder e bicicletas Moutain Bike, ainda novidades.

Naquele país havia um bar, numa certa viela do centro de São Paulo, em que boêmios jornalistas, boêmias prostitutas, boêmios bicheiros e boêmios boêmios se reuniam ao fim da noite; e bebiam o que desse e viesse, até horas que bem quisessem.

Saíam, às vezes de carro, sob risco de aprontar horrores, mas não de serem parados, avaliados, processados após exalar índices calculados em etilometros, ainda que pudessem ser algemados, hoje ação fora do tom.

E a volta quase sempre era colorida em luzes e cores, dia em plena noite em neons e painéis generosos, cravados em letreiros ainda não banidos sob pseudônimo de “sujeira”.

Naquele país não seria execrado quem acendesse cigarros em bares cujos donos não se importavam com barulhos e controles, com psius ou chaminés. Uma época em que, bem lembro, professores podiam flertar com alunos sem a égide de uma vigilância politicamente correta; pais podiam expressar abraços e beijos em filhas sem que uma velhinha recalcada, ou a polícia, o acusasse de crimes impronunciáveis.

Um tempo em que reformatório não tinha eufemismo; não eram casas nem transitórias com o mesmo pano de fundo sem os mesmos rodeios.

Época esquecida em que podia se estampar cores e heróis em caixas de sucrilhos Kelog’s sem ser acusado de tentar manipular a verve consumista de infantes imbecis. Uma cidade calórica mas ainda livre de Talebãs anunciadores da gordura trans.

Um tempo, é bom lembrar, em que a rua Augusta era só a rua dos puteiros, em que os playboys, hoje reinantes, só ousavam colocar os pés depois de velhos, pançudos e carrancudos. Um período em que sucesso de público no futebol eram 60, 70 mil loucos vibrantes; e que provocar adversário era festa, não ofensa fadada a punição.

Duas cidades, dois países, expostos em fraturas em quase 15 anos; com avanços consagrados sob a contrapartida do aperfeiçoamento das formas de controle e punição, morais e estatais. Sem saudosismo nem pretensão, aquele Brasil que me abrigava aos 11 anos não era mais puro nem mais feliz.

Só desconfio que, sem tantas regras e vigilância, sem também tanto melindre, a rotina soaria mais divertida entre tragos, goles e risos em alto som. Altos enquanto durasse a madrugada.

RES: RES: RES: à deriva

E-mail 1

De Matheus P.
Para Fabrício M.

 

Assunto:  à deriva *

 

(PS: essa conversa pode ser um possível post de blog, tudo bem?)

 

Depois de duas ou três cervejas, acho que as conclusões não fluíram tão bem entre gôndolas de supermercado, nem entre chilenos, nem entre a fuga dos meninos batmans da Brigadeiro.

Mas, pelo que conversamos ontem depois do cinema, deu pra ver que você fez uma leitura mais voltada para a totalidade da história (tanto no sentido da produção, conceito, ideia até arte-final), e eu de algo inserido na história, que é o drama de uma menina que começa a enxergar as rupturas de um modelo familiar que não existe, a não ser nas fotos.

Essa figura de linguagem, e o jogo de imagens (o segredo à vista, mas observado por detrás dos cactos espinhentos; o mar que traga e devolve; o jogo de interesses que percorre a relação entre amigos; a absorção dos vícios comuns aos adultos; a fingida inocência usada como recurso quando o mundo nos cobra posicionamento, combate e conflito) me fizeram perceber o filme como um bom trabalho, ainda que seja atemporal, deslocado, sem propósito – a princípio, a não ser relatar um drama sem que para isso tentasse inserir uma compreensão nova sobre o país.

Sobre isso, a caminhada pela av. Paulista na madrugada ontem teve muito mais a nos ensinar em relação ao medo e absurdos dos dias em que vivemos.

 

E-mail 2

De Fabrício M.
Para Matheus P.

 

Assunto: RES:  à deriva

 

 

Isso é um embate antigo que me vem, o descolamento de realidade. Eu compreendo uma metáfora temporal e espacial que se faz, por exemplo, montando peças de Shakespeare. Em Hamlet, por exemplo, escolhe-se falar de um reino da Dinamarca como desculpa pra falar de política, relações de poder, amor, teatro e até psicologismo, se esse for o seu interesse.

Mas quando você parte pra uma obra, você faz escolhas explícitas e implícitas. Ao contar uma história da classe média isolada numa praia no meio do nada (sim é uma paisagem natural linda, a gente infere que é próximo de São Paulo, mas não se sabe onde é), num tempo ali pelos anos 1980 (algo nostálgico?) e sem pobres…

A única questão financeira por que a família passa é a de vender ou não os direitos autorais da obra do patriarca. A salvação da família é a venda de direitos autorais! Está se discutindo isso em 2009! E há outros alheamentos deliberados feitos pelo diretor, como, por exemplo, a escolha do Vincent Cassel. Que tipo de família é essa que ele está discutindo? Um autor francês que escreve do Brasil (e não se sabe se pro mercado brasileiro ou francês), com uma família e uma vida estabelecida no Brasil. Jesus, o que se está querendo discutir com essa exceção da exceção da exceção?

Ok, existe uma crise e a menina se defronta com a dificuldade de ver os pais se separando, descobrindo que todos são adúlteros (e não se explica o adultério, que também é uma construção histórica no Brasil) e ela própria se vê no limite de “debutar”. Essa história, como já te disse, não me interessa. Há lapsos no filme de riscos que a menina sofre. O risco de estupro. O risco do contato com uma arma. O risco de olhar para o abismo e ele olhar de volta…Mas são TÃO banais, que mesmo se ela morresse ou se matasse, ainda assim a história não me interessaria. Ela não anda com laptop do bar até o mercado pra comprar iogurte e passa medo por essa opção. Ela é só uma adolescente que vai passar por uma crise e vai sobreviver.

Com ou sem núcleo familiar constituído?

Não me interessa saber.

O que o diretor deliberadamente não colocou na cena, isso sim me interessa discutir. Pra resguardar uma culpa-classe-média dos casais inconsequentes que acham que vão ser felizes para sempre e resolvem ter filhos e descobrem que não se sustentam como família em meio a adultério e incompletude da própria vida em família (um vida que se define por concessões). A culpa de quem tem filhos e vai chorar ao ver o filme. A culpa de uma parcela da população que vai ver a cadeira, novamente, e não vai ver o trabalho por trás da cadeira. O dinheiro público colossal que foi captado pra fazer o filme que não tem interesse público. Interessa, por opção do diretor, somente à classe média. Pega esse núcleo familiar e faz uma projeção do filme na Daslu. Aposto que não haverá interesse. Aí faz uma projeção na favela que fica colada à Daslu. Aposto que também não haverá interesse.

É um produto, com público específico definido no roteiro, edição, trilha melosa, galã francês e Debora Bloch.

 

 

E-mail 3

De Matheus P.
Para Fabrício M.

 Assunto: RES: RES:  à deriva

 

A gente já gostou dos mesmos filmes por motivos diferentes, mas esse é o primeiro que a gente discorda mesmo. Quer dizer: concordo com todos os pontos que vc colocou, só não acho que isso faz do filme uma história ruim. Realmente, vendo o filme de uma forma isolada, ele está desconectado a qualquer grande questão. Pelo tema, poderia ser lançado em qualquer época de qualquer década dos anos 70 pra cá e, mesmo assim, não despertar interesse num nicho específico. Politicamente é um filme ruim. Mas esteticamente, não.

Não entendo de produção, nem acho que o estético esteja descolado do político. É algo agrupado, integrado; faz parte da totalidade, pra usar um jargão do marxismo, bem oportuno aqui. Posso estar discursando como Poliana nessas horas, mas vi uma beleza bastante consistente nas cenas. Por exemplo, na indiferença da mãe ao saber, pela filha e por meio de uma foto, que o marido tem amante. Ela pega a foto e joga no meio do bolo de fotos. Eram só fotos. Vistas por ali, eram uma família perfeita, risonha, leve. Fora das telas, o conflito surgia. É possível se unir pelo amor, mas também pelo ódio. O que os levou a se odiarem daquele jeito? É curioso ver como a personagem olha para o pai com ódio no princípio, compaixão no segundo momento e devoção (ou admiração), por fim. São pais heróis. Os pés de barro, mas heróis (Gosto quando a menina fecha os olhos e deixa ser guiada pela correnteza, pela motocicleta ou pelos barcos que a levam para lugares que não sabe onde vai dar, mas muda a expressão do rosto quando confrontada com o que é real).

Entendo que não seja uma história de adultério, nem que haja uma implicação moralista ali. Acho que o Dhalia pensou em como seria levar à tela uma flor que desabrocha; e argumenta que esse desabrochar é solitário, é doloroso, mas também é atraente.

Durante o filme, fiquei pensando qual teria sido o último verão meu, porque, como aquelas crianças, também descobri cedo que os adultos à minha volta eram extremamente incompletos e infelizes e auto-destrutivos. Percebi no momento em que tinha também minha roda de amigos. Foi exatamente na época em que deixava minha casa para passar as tardes num clube em Araraquara, onde os meninos começavam a beber, fumar, falar sobre putarias, descobertas. É um mundo tenebroso, porque é exatamente quando descobrimos que estamos sós: os pais já não são heróis, e o mundo que se apresenta atrai, mas também machuca.

Somos tomados por sentimentos contraditórios sobre com quem nos relacionamos; aquela repulsa repentina que a invadia todas as vezes que se deixava ser tocada. Aquilo existe.

Eu, aos 14 anos, sonhava com certas meninas, e depois fugia, porque não entendia pra onde aquilo me levava. Por ter vivo isso, tudo aquilo, no filme, pareceu bastante verossímil.

É preciso uma dose de sensibilidade por parte do autor para lembrar desses movimentos-chave-ruptura na vida de uma criança para fazer com que o espectador se lembre de tudo isso diante da obra. Crescer tem seu preço, parece dizer o Dhalia, e talvez essa seja a única pretensão do filme. Mostrar como a verdade é escancarada, mesmo quando tentam escondê-la – a verdade sempre esteve ao alcance da menina, muito facilmente, mesmo quando ela não queria enxergar.

Os 14 anos são os anos da mudança. É um tempo onde guardei muitos cadáveres insepultos, que tento revisitar quando penso, leio, escrevo. Por isso me identifiquei tanto com a personagem. Me senti na pele dela, e alimentei uma certa compaixão também, porque, como ela, também me foi dado aos 14 anos o “dom”, se assim se pode chamar, de perceber ruínas onde meus familiares ainda enxergavam flores. Quando a gente se dá conta disso, não tem outra alternativa que não enfrentar ou se dar o luxo de tentar resolver, canalizar as questões, para que as pessoas que se odeiam, mas que amamos, não se destruam à nossa frente. Acho que isso é uma espécie de unidade familiar universal. Uma espécie de estrutura elementar: a gente constrói as coisas, mas também é capaz de destruir. Ao mesmo tempo, me aproximei, durante um tempo, de uma menina que começou a enxergar a fissura da relação dos pais, prestes a se separar. E, como a personagem, alimentava ódio dos pais, ao mesmo tempo que usava o artifício de ter acabado de sair da adolescência para, em vez de assumir o conflito, fingir que não via as mudanças para não doer nem se machucar. Isso a atriz conseguiu captar.

 

ADENDO: Antes de responder: vc viu “A Casa de Alice”? É um filme também que se pretende a ser um retrato da estrutura familiar brasileira. Mas a família é longe de ser estruturada; não tem casa de praia muito menos lancha. Tudo com cores pesadas, sem figurino do Hercovich. Se sim, vc gostou?

 

E-mail 4

De Fabrício M.
Para Matheus P.

 

Assunto: RES: RES: RES  à deriva

 

Sim, discordamos deveras sobre as conclusões de “À Deriva”. E me vejo tentando desviar dos clichês de argumentação em que caio na “Bacante”. Mas é que tem algumas coisas que eu começo a riscar giz, saca? Meio radical ao extremo, mas é que me cansam um tanto. Tentando pegar por uma perspectiva histórica, acho que a obra do Dhalia chega na era do ultra-indivíduo. Tudo é centrado no eu. A base da sociedade de consumo: “você merece”, “feito pra você”, “porque a vida é agora”.

É impossível fugir das questões do indivíduo quando se parte para um filme ou qualquer obra de arte. No entanto, não consigo ver o filme do Dhalia ao menos tentando colocar aqueles indivíduos em contraste com qualquer coletivo, senão aquele coletivo descolado da realidade, uma classe média em dias de verão.

 Pensando por esse lado, discordo de você quanto a uma “unidade familiar universal”, acho que aquela unidade ali apresentada nos é muito cara. Somos da classe média. Nos sentimos culpados pelo esfacelamento das estruturas familiares (em boa medida, as estruturas mais arcaicas da sociedade), identificamo-nos com o que nos é apresentado.

Por essa via, o filme do Dhalia é muito verdadeiro: provavelmente ele trata das questões dele. Mas veja, não há nada de universal nisso. A mesma menina bonitinha seria feia se tivesse nascido no lugar errado. Talvez não tivesse pai (e nem vou voltar ao ponto de que ter um pai francês e autor de livros é algo beeeeeem específico). A mãe não seria professora. As crises da classe média se explicitam ali por conta dessas escolhas e, como te disse no primeiro e-mail, essas crises conjunturais não me interessam. Quero ver estruturas. É claro que se pode fazer um filme sobre o indivíduo, mas contextualize minimamente sua realidade. Coloque-o em relação com seu coletivo. Se aquele for o único coletivo possível a uma adolescente, vamos ter que ouvir muito mais vezes “essa geração está perdida”.

Cara, meu parágrafo se soltou e foi prum lado que não queria. Mas outros pontos: beleza consistente. Pelo parâmetro que você colocou, de estética e política conectadas (ou por outra, a política como parte de uma estética), não vejo beleza consistente em nada dali. Ao contrário, vejo uma inconsistência nas próprias escolhas do filme. Por isso não vejo beleza. Ah, enfim, sabe quando você sente que já falou demais? Eu acho que já falei demais.

Vamos beber?

 

Ps: Não vi Alice, mas verei.

 

 

 

* À DERIVA

Direção: Heitor Dhalia
Produção: Brasil, 2009
Com: Debora Bloch, Laura Neiva, Vincent Cassel
Onde: em cartaz no Espaço Unibanco Pompeia, Reserva Cultural e circuito

a chupeta que mudou a história

Na última quinta-feira, mergulhei e saí estarrecido com a história do jovem personagem de “Indignação”, livro mais recente de Philip Roth.

Faz exatamente um ano (lembro disso por causa da data de aniversário do meu irmão – 3 de agosto) que li pela primeira vez algo dele – “Homem Comum”, que já tinha me impressionado pela capacidade de me lançar à sensação mais cruel e exata do que deve ser morrer.

Pouco depois, ganhei de presente o “Fantasma Sai de Cena”, livro sobre o qual há tempos quero escrever neste espaço, mas até agora não fiz. Fato é que, dos três, “Indignação” é de longe o melhor.

Em menos de 170 páginas, Roth conseguiu montar um romance áspero e inquietante, vertiginoso, capaz de levar à perda de juízo, com a mesma facilidade, tanto personagem como leitor.

Nos Estados Unidos de 1951, o jovem Marcus Messler, filho de tradicionais açougueiros judeus de Newark, resolve sair de casa para fugir da paranóia sufocante do pai, que teme perder o filho para uma vida desregrada. O filho, ateu, metódico, obediente, atento, melhor aluno das escolas por onde passou – desses tipo “não bebo, não fumo, não fodo” – mesmo não querendo, já planejou sua vida a ponto de se manter, com os estudos, longe da possibilidade de ser mandado para a guerra da Coreia, estourada por aqueles anos, como soldado raso. Planeja também a fórmula de se manter distante do açougue em que se criou, onde sangue, abate, carcaças e serviço sujo (”mas que alguém tinha de fazer”) são imagens que emporcalham as memórias da infância e do destino já traçado pelos pais – sem resignação. 

O medo, enfim, de um mundo imenso e intenso fora das grades de casa, ora trancadas pelo pai quando o filho se atrasava, como punição, está presente em todos os lados. Leva seus atores às reações mais bestiais e torturantes, e acaba sendo trasmitido como herança, como um dom.

Para fugir dessa paranóia, o jovem Messler deixa a cosmopolita Newark para estudar numa universidade da provinciana Ohio, que existiu de fato e se tornou conhecida pela rigidez com que sua direção conduzia normas estabelecidas havia décadas. Exemplo: homens e mulheres separados e com espaços e horários delimitados, aulas jurássicas com pastores batistas que vomitavam moralismo e intolerância e regras para se vencer na vida.

Neste espaço, retrógrado mesmo para os padrões dos anos 50, os ares de mudanças que começavam a penetrar nas trincas de uma sociedade enraizada na cultura do medo e do controle eram combatidos e vigiados sob formas de punição e coação física e psicológica, como a que o personagem mergulha quando descobre que, mesmo a quilômetros de distância, não consegue se livrar da paranóia da família nem das instituições por que passa e – pior – sequer dele mesmo.

É nessa parte que entra o boquete. Na primeira vez que sai com a primeira mulher que se envolve, pega emprestado o carro de um amigo e leva a amiga, colega de classe nas aulas de história, para jantar. Ganha um boquete na saída, e a passagem só de ida para um mundo que lhe cobra respostas: por que ela fez isso? Será que já fez antes? Quem é essa menina? Por que age assim?

A procura o leva a esbarrar no próprio moralismo, que tenta sufocar, mas é trazido à tona pelas pessoas que o cercam – pais, colegas, direção da escola – e transforma o desejo mais primitivo que um jovem de sua idade pode ter como experiência na armadilha que possibilita ao autor ligar, num lance, um boquete com a tão temida guerra da Coreia. Seria um puta exagero, não fosse magistralmente conduzido pela narração límpida e comovente de um dos grandes escritores da atualidade.

“Indignação” é a mais cruel demonstração de como a desproporção de respostas e reações estão presentes em uma sociedade atormentada por fantasmas da guerra e da ausência do controle – isso em todos os poros e nas mais triviais manifestações. Essa grande e intrigante realidade cujo pano de fundo é nada mais que uma cínica e micro-cósmica associação de pais e mestres – só para parafrasear o amigo Graciliano Rocha –  chamada Estados Unidos.

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