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	<title>The Pompéia Times &#187; chuvas</title>
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		<title>Kassab, por favor, passe o cafezinho</title>
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		<pubDate>Sat, 23 Jan 2010 16:30:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Leandro</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Sempre que um problema de proporções paulistanas atinge São Paulo, o prefeito (a), o governador,  até o presidente reagem como se fossem vítimas de um complô da natureza. Elencam estatísticas sobre a quantidade recorde de chuva que caiu sobre a cidade _como se todo o verão uma dessas estatísticas não fosse quebrada_ e seus olhos caídos, suplicantes, parecem dizer: “Não pergunte o que o seu prefeito pode fazer por você. Pergunte o que você pode fazer pelo seu prefeito”. Então surgem cifras malucas, sabe-se lá de onde saíram, para justificar a má administração de turno. Nascem tantos recursos da boca do prefeito que eu me pergunto se ele é um pretidigitador, capaz de materializar piscinões, drenagem e, quem sabe, uma miraculosa reforma urbana. </p>
<p>Mas não acontece nada. Todo verão a cidade é tomada um bocadinho mais pelas águas. Soube que a  ladeira da Cardeal Arcoverde parecia uma cachoeira. Uma ladeira, cachoeira&#8230; Daqui a pouco a Paulista, o Alto da Lapa, Perdizes e o Pico do Jarágua vão alagar. “Se não tem botes, que comam brioches”, parecem dizer os secretários que culpam as pessoas por estar em áreas alagadas, por jogar lixos nos rios, por emporcalhar a cidade. É óbvio que elas não deveriam estar às margens dos rios, arremessar geladeiras em córregos ou entupir o município com bitucas de cigarro. E é óbvio que alguém deveria ter feito alguma coisa para que a gente não chegasse a esse ponto. Geralmente, é o Estado. E isso não significa  uma paixão súbita pelo Estado. Longe disso. Mas tem algumas poucas e importantes coisas que só o Estado pode fazer (uma delas não é propaganda, por favor). </p>
<p>Vamos pegar o exemplo da cidade onde vou morar até o final deste ano. Não, os motoristas não vão deixar você cordialmente atravessar a rua sempre. As ruas são sujas. Vira e mexe você vê alguém arremessando uma bituca de cigarro no chão ou um pedaço de papel na calçada. Há poças d&#8217;água no passeio público. E, tal como São Paulo, há um grande rio que corta a cidade. Só que esse rio não transborda, mesmo quando chove uma enormidade. A diferença é que a limpeza pública é feita o tempo inteiro, há um sistema de drenagem, há diversos parques públicos (inclusive na periferia da cidade). De certa maneira, a diferença entre São Paulo e Londres é que a capital inglesa sabe que não vai poder resolver todos os problemas. Mas sabe como minimizá-los. Quando neva muito, por exemplo, o sistema de transporte pára, a BBC faz uma página detalhada com todos os detalhes que você precisa saber para não se meter uma enrascada, brotam placas pela cidade. Há transtornos? Sim. Mas poderia ser muito pior. Em São Paulo, a gente acha que vai acabar com os problemas. E não consegue minimizá-los. Os governantes posam de coitadinhos para disfarçar sua própria inapetência . Eles só tem apetite pelas próximas eleições. Eles têm uma relação predatória com a cidade. Nos últimos 20 anos, talvez só Luiza Erundina quisesse dar à cidade mais do que receber dela. E o que ela ganhou? Maluf, Pitta, Marta, Serra, Kassab como sucessores. </p>
<p>Obviamente, os governantes não são responsáveis por tudo. A nossa relação com a cidade é tão predatória quanto a dos prefeitos. Não dá para imaginar que uma horda de visigodos ( de todas as classes sociais) vá eleger um benemérito. A gente quer sugar da cidade tudo que ela tem a nos dar e ir embora o quanto antes. Somos mesquinhos e mimados. Isso não acontece só em São Paulo. Diversas grandes cidades do país tem esse mesmo pensamento médio. Eles se orgulham do que podem arrancar da cidade e de passear em meia dúzia de lugares onde podem usufruir de uma agradável tarde de sábado _mesmo que para isso tenham de colocar perfume dentro do carro para suportar o cheiro fétido que emana de rios e córregos. Não existe compromisso mínimo com o município. E sem compromisso não tem benefício, tigrão. Nesta terra da Rainha, o governo tem programas em todos os cantos do país para fomentar e manter organizações comunitárias (não confundir minha proposta com organizações comunitárias a serviço do PT, bem entendido). O objetivo não é terceirizar a administração para essas ONGs picaretas, como muitas vezes acontece no Brasil. A meta é que indivíduos se organizem para cobrar uns aos outros e, principalmente, o Estado.  Às vezes, dá resultado. </p>
<p>Como vossas senhorias sabem, a Inglaterra está na pior recessão desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Mas a taxa de criminalidade continua em queda. Diminuíram os casos de homicídios, roubos e furtos entre 2008 e 2009 _e essa taxa já vem caindo faz um tempão. Gente do governo, da oposição, analistas independentes apontaram como principal fator para essa redução a participação da comunidade em programas de auxílio mútuo. Se eles podem fazer, a gente também pode. Basta que a gente se convença de uma vez por todas que a cidade não é de petistas, tucanos, malufistas, kassabistas, o que seja. Nós os elegemos para fazer o serviço pesado, eles são nossos empregados por tempo determinado. Mas uma parte do serviço é nosso. Podemos começar falando para o prefeito de turno: Kassabão, ninguém pediu para você ser candidato à reeleição. Mas, agora que você já está ai, por favor, tire essa cara de coitado, diminua a propaganda e desentupa os bueiros? Depois, por favor, passe o cafezinho enquanto a gente tenta descobrir um jeito de tirar o Jardim Pantanal do atoleiro. </p>
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		<title>Chuvas na Pompéia, Lapa, Perdizes</title>
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		<pubDate>Mon, 09 Feb 2009 23:22:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Leandro Humberto</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O porteiro usou uma capa amarela para abrir e fechar o portão de carros. O prédio onde moro fica no meio da colina conhecida como avenida Pompéia, em uma rua paralela e de paralelepípedos que, na tarde de sábado, lembrou um riacho ancestral até o momento em que uma árvore caiu na esquina e bloqueou [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O porteiro usou uma capa amarela para abrir e fechar o portão de carros. O prédio onde moro fica no meio da colina conhecida como <a href="http://www.dicionarioderuas.com.br/LOGRA.PHP?TxtNome=AVENIDA%20POMP%C9IA&amp;dist=61&amp;txtusuario=&amp;%20TxtQuery=1">avenida Pompéia</a>, em uma <a href="http://www.dicionarioderuas.com.br/LOGRA.PHP?TxtNome=RUA%20BAR%C3O%20DO%20BANANAL&amp;dist=61&amp;txtusuario=&amp;%20TxtQuery=1">rua paralela</a> e de paralelepípedos que, na tarde de sábado, lembrou um riacho ancestral até o momento em que uma árvore caiu na esquina e bloqueou parte do volume de água que descia.</p>
<p>Quando a árvore caiu, a luz acabou. E o som da tempestade se impôs sobre o rádio que tocava indiferente no meu quarto. Nem as buzinas desencontradas dos carros que avançavam pela contramão ameaçavam a gravidade da ventania que zumbia entre as frestas da cortina de ferro que protege os vidros da minha casa. A mim só restou observar pelos vãos a cidade que parecia sucumbir. A ventania, a difusão de trovões e o negrume do céu tornavam a paisagem homogênea, com a exceção do porteiro solitário que saia de sua cabine cinza de concreto para permitir que os moradores entrassem no prédio.</p>
<p>A chuva não foi embora.  Só amainou o ritmo, o que me permitiu descer a rua até os cruzamentos da avenida Pompéia com a <a href="http://www.dicionarioderuas.com.br/LOGRA.PHP?TxtNome=RUA%20TURIASSU&amp;dist=61&amp;txtusuario=&amp;%20TxtQuery=1">rua Turiassu</a> e a <a href="http://www.dicionarioderuas.com.br/LOGRA.PHP?TxtNome=AVENIDA%20FRANCISCO%20MATARAZZO&amp;dist=6&amp;txtusuario=&amp;%20TxtQuery=1">avenida Francisco Matarazzo</a> e ver o lago fétido que se se esvaia entre as grades vermelhas do Shopping Bourbon Pompéia. Dei meia volta e fui até a estação Água Branca, da CPTM, onde dois trens aguardavam a ordem de partida. A locomotiva com destino à minha cidade conseguiu sair do lugar, mas a outra, ao menos durante a meia hora em que fiquei ali, não. A linha do trem entre a Barra Funda e Água Branca estava debaixo d&#8217;água.</p>
<p>Agora, experimente clicar nas ruas que estão neste post. Elas levam ao Dicionário de Ruas, uma página que conta parte da história de São Paulo por meio do nome dos seus logradouros. A região era uma imensa fazenda, um mar de morros que foi descampado e, no século 20, deu lugar a uma comunidade onde imigrantes italianos ergueram suas casas e deram o nome  de Vila Romana e Perdizes. Agora, o bairro passa por uma devotada verticalização, com   resíduos de pedras, areia, cimento e cal que se acumulam lentamente na beira da sarjeta, entopindo galerias e bocas-de-lobo: eles voltam à superfície quando um temporal desaba sobre a cidade. Não é questão de ser algo bom ou ruim. Nem é questão de culpa, é de responsabilidade.</p>
<p>Enquanto o bairro cresce e se desenvolve nos morros, a área da baixada, alagada, vai se transformando em um cortiço. As pessoas que trabalham como faxineiros do shopping, porteiros e diaristas dos novos prédios, especialmente os jovens como o porteiro da capa amarela do meu prédio,  moram em casas insalubres na esquina baixa do novo shopping ou nas ruazinhas atrás do Sesc Pompéia. Quando eu era pequeno, morei durante um ano em Franco da Rocha. Vi a água subir até a porta da cozinha (meu avô construíra uma escada que parecia incompreensível nas estações secas e às vezes insuficiente na época de chuvas). Não há espetáculo de trovões cortando o céu que pague o pavor da água mórbida invadindo sua casa.</p>
<p>Falta, além de um piscinão na região, um pouco de dignidade no crescimento imobiliário. Que, nesse caso, só pode advir da intervenção da Prefeitura e de algum senso de comunidade, utópica diante do isolamento dos condomínios e urgente a cada tempestade. Uma região que nasceu como bairro de operários está vendo, da sacada do apartamento, seus pobres ficarem debaixo d&#8217;água .</p>
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		<title>O dia em que a chuva não parou</title>
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		<pubDate>Wed, 28 Jan 2009 02:08:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Leandro Humberto</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Estávamos eu e a minha mochila caminhando pela avenida Francisco Matarazzo, sem guarda-chuva, lenço ou documento. Ah, e havia os carros também, todos parados, comportados, um atrás do outro. Buzinavam, claro. Mas quem não reclama paradão, aquela água, aquele tédio? Os carros são uns excluídos. Não usam guarda-chuva. Eu também, sozinho, enquanto a cabeça martelava [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Estávamos eu e a minha mochila caminhando pela avenida Francisco Matarazzo, sem guarda-chuva, lenço ou documento. Ah, e havia os carros também, todos parados, comportados, um atrás do outro. Buzinavam, claro. Mas quem não reclama paradão, aquela água, aquele tédio? Os carros são uns excluídos. Não usam guarda-chuva.<br />
Eu também, sozinho, enquanto a cabeça martelava na cabeça [um adendo: enquanto escrevo esse post, a Last Fm me presenteia, depois de uma música do Caetano, com "Medo de Avião", do Belchior] a frase extraída dos sermões do Padre Vieira, os quais recomendo vivamente: no Brasil, até o céu mente. Eu ainda vou fazer um post sobre os sermões do Padre Vieira.<br />
Sai de manhã, olhei, fiz todos os rituais apreendidos [e agora toca Ronnie Von na Last Fm, que antes de cantar recita um poema elegante à moda Zé Bonitinho: "Esqueci meu rosto em espelhos por ai". A música se chama "Meu novo cantar"] na cidade recheada de Pinheiros.<br />
Falhei miseravelmente, enquanto meu médico me olhava abismado: Onde você deixou o carro? E eu tenho de repetir pela enésima vez: doutor, eu não dirijo. Não? Não, doutor, não nasci para isso.<br />
Chega de escrever. A Last FM tá de sacanagem. Lula Santos canta Asa Branca.<br />
Boa noite.</p>
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