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	<title>The Pompéia Times</title>
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		<title>Lula teria direito a cota em universidade? Ou por que as cotas para negros criam desigualdades</title>
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		<pubDate>Thu, 11 Mar 2010 00:36:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Leandro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Coisas do Brasil]]></category>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Ika é da Geórgia. Não o Estado americano, mas o país onde nasceu Stálin (não é algo do qual ele se orgulhe). Ele joga futebol aos domingos comigo e, depois de mais ou menos cinco meses dividindo o mesmo campo sintético, tomou coragem para me perguntar: “Qual a porcentagem de italianos no Brasil?”. Não entendi a pergunta. “Você sabe, qual a porcentagem de italianos, alemães, negros, eslavos, japoneses na população brasileira?” Não tenho a menor idéia. “Como assim? Vocês não sabem qual a porcentagem por nacionalidade?” Não, ninguém faz essa conta até porque você pode pertencer a várias categorias ao mesmo tempo. “Como assim?” Casamentos mistos, você sabe: a pessoa é descendente de alemães e casa com um descendente de italianos. Ou, no meu caso: o lado paterno é todo italiano. Mas o lado de minha mãe tem brancos e mulatos. Na mistura, eu nasci branco de cabelo enrolado. Meu tio materno puxou meu avô, mulato da Paraíba, e casou com a minha tia, que é negra. Eu tenho dois primos de primeiro grau que são negros. “Seu país é muito complicado para mim.” É mesmo, e essa é a graça. Essa complexidade que deixa atônito o meu colega da Geórgia tem de ser levada em conta no torto debate sobre cotas, que mira o Brasil do século 19, não o Brasil do século 21.</p>
<p>O resultado desse anacronismo é a criação de novas formas de desigualdade social. Os setores organizados da sociedade ganham, deixando à margem uma multidão que simplesmente não se enquadra em nenhuma das categorias de 150 anos atrás. Por exemplo: o filho de um casal de bolivianos do Pari. Muitos bolivianos trabalham 14, 15 horas por dia e ganham menos de um salário mínimo por mês. Seus filhos teriam direito a pleitear emprego público por meio de cotas? No debate atual, não, porque não são negros, não estão no país por causa da escravidão. No debate atual sobre cotas, Lula, o presidente, não teria direito a entrar em uma universidade pública por meio de cotas porque é branco. Um branco que veio de uma família miserável, mas branca, toda misturada no interior do Nordeste. Obviamente alguma coisa está errada nessa equação. Obviamente é preciso ajudar as pessoas mais pobres a deixar a miséria, e a educação é uma arma poderosa. E obviamente os pobres organizados têm os mesmos direitos dos pobres desorganizados.  Mas o debate sobre as cotas se move como se o país estivesse dividido em categorias muito claras, bem delimitadas, claramente definidas, estáticas. Não há espaço para bolivianos nem para nordestinos no debate. </p>
<p>A sociedade é dinâmica, os problemas mudam, a mobilidade social é intensa. As cotas para negros em universidades, empresas e governos terão certamente um impacto profundo nessa mobilidade. Milhares de negros pobres vão, felizmente, ter mais oportunidades na vida do que tiveram seus país, e esse resultado certamente é muito positivo. O problema é que a criação de cotas para negros tem como pressuposto uma sociedade embalsamada, parada no tempo. A realidade é que o Brasil continua recebendo levas e levas de imigrantes pobres. Recentemente, o governo federal deu anistias a milhares de imigrantes ilegais, muitos deles asiáticos, latinoamericanos e africanos. A migração interna também é gigantesca. Poucas pessoas no Brasil podem dizer que sua família está no mesmo lugar faz 300 anos. Privilegiar um grupo da sociedade em detrimento de outros grupos é jogar o problema da desigualdade para frente. É como pagar o almoço com o dinheiro do jantar. E o problema é como garantir que as pessoas tenham dinheiro para pagar o almoço e o jantar. O problema atual do Brasil não é o rei africano que escravizou africanos nem as chibatas na senzala. O problema do Brasil é como tirar as pessoas da miséria, integrá-las à sociedade e torná-las parte da complexidade que meu colega da Geórgia não consegue entender.  Do jeito que está, o debate das cotas é uma fábrica de desigualdades. As favelas repletas de mulatos, hoje, serão as favelas tomadas por bolivianos amanhã. As cotas são necessárias, sim, mas para todos os pobres, e não apenas para os pobres organizados. </p>
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		<title>Existe almoço grátis</title>
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		<pubDate>Mon, 08 Mar 2010 22:54:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Leandro</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Escrevi faz uma semana, no blog da Carol Pietoso, um post sobre a vida gratuita em Londres. Está aqui. Com um pouco de esforço, dá até para usufruir de um almoço grátis. 
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Escrevi faz uma semana, no blog da Carol Pietoso, um post sobre a vida gratuita em Londres. Está <a href="http://mtv.uol.com.br/mindthegap/blog/mind-gap-existe-almoco-gratis">aqui</a>. Com um pouco de esforço, dá até para usufruir de um almoço grátis. </p>
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		<title>Música querida</title>
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		<pubDate>Thu, 25 Feb 2010 01:34:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Leandro</dc:creator>
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		<title>Antonio Carlos? Não!</title>
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		<pubDate>Fri, 19 Feb 2010 01:58:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Leandro</dc:creator>
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		<title>Estação Caieiras</title>
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		<pubDate>Thu, 11 Feb 2010 23:49:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Leandro</dc:creator>
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		<category><![CDATA[memórias]]></category>

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		<description><![CDATA[O primeiro computador que entrou na minha casa era maior do que um fogão. Provavelmente, esquentava mais do que um fogão. A tela era verde e preta e o sistema operacional, DOS. Foi uma sensação no começo da década de 1990. Era o único computador em um raio de muitos quilômetros. Computadores eram coisa de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O primeiro computador que entrou na minha casa era maior do que um fogão. Provavelmente, esquentava mais do que um fogão. A tela era verde e preta e o sistema operacional, DOS. Foi uma sensação no começo da década de 1990. Era o único computador em um raio de muitos quilômetros. Computadores eram coisa de São Paulo, havia pouquíssimos em Caieiras. Mas ainda não era muito útil. Para escrever, a melhor opção era a máquina de escrever elétrica _ela imprimia mais rápido do que o computador. E, naquela época, não dava para exigir de um computador muito mais do que processar textos e fazer algumas contas bastante simples. Meu pai o usava basicamente para transportar arquivos de textos e planilhas naqueles disquetes do tamanho de um livro de bolso entre a nossa casa e a empresa em que ele trabalhava. Depois que a empresa do meu pai foi privatizada, o departamento do meu pai foi reduzido de 50 para 2 pessoas (havia obviamente um inchaço bizarro. Talvez 15 pessoas fossem suficientes. Não mais. Porém, por mais de um ano, meu pai e um colega fizeram o trabalho de 15 pessoas). Para mim, o computador era um eletrodoméstico que ficava no quarto do meu pai e da minha mãe. Eu preferia machucar meus pés jogando bola na rua de paralelepípedos na frente de casa. Aliás, eu comemorei mais o asfaltamento da minha rua do que a chegada do computador _e não só porque o asfalto significou mais conforto aos pés. O asfalto permitiu que a gente jogasse futebol sem esgoto. Como não tinha encanamento, às vezes a gente tinha de parar de jogar bola para que a água podre escorresse pela sarjeta.<br />
<div class="wp-caption alignleft" style="width: 510px"><a href="http://www.estacoesferroviarias.com.br/c/fotos/caieiras061.jpg"><img alt="" src="http://www.estacoesferroviarias.com.br/c/fotos/caieiras061.jpg" width="500" height="375" /></a><p class="wp-caption-text">Estação Caieiras</p></div></p>
<p>Depois dele, vieram mais três computadores, mais úteis e menores. Então eu descobri o computador e o uso da máquina mudou. Eu poderia corrigir meus textos, armazenar trabalhos escolares e até vadiar, instalando joguinhos, fuçando, tentando entender como o danado funcionava. Meu pai ficava muito preocupado com a conta de energia e, depois do advento da internet, com a conta telefônica. Tínhamos hora exata para usar o computador, e só podíamos usar x horas por dia. Isso era controlado com disciplina férrea porque os tempos não eram fáceis. Os anos 90 são os anos do racionamento. Livros e máquinas com uso estritamente educacional eram os únicos extras de uma vida espartana. Cada um de nós só podia comer dois bifes por refeição, refrigerante, só aos finais de semana, chocolate, só no final do mês, se o balanço fechasse no azul. Ficamos com o mesmo carro por cerca de 13 anos. Mais tarde soube que o dinheiro que sobrava era guardado em um fundo destinado a financiar a minha educação e a das minhas irmãs. A gente nunca sabia o que poderia acontecer no mês seguinte. Crises mundiais, desvalorização do real e aumento do desemprego fizeram da minha adolescência um exercício de desapego e controle. Se eu quisesse comprar algo fora do orçamento, tinha de usar o dinheiro do ônibus e voltar a pé do colégio para casa, cerca de meia hora subindo e descendo morro. Em média, eu ia ao cinema uma vez por ano. </p>
<p>Apesar disso, nossa família tinha uma das situações mais confortáveis do nosso bairro. Éramos uma família de classe média-média que se mudara no final da década de 80 para a zona rural de Caieiras. Meu pai queria um lugar com terreno grande para plantar. Meu pai gosta muito de plantar. Mas ele teve de vender o sítio para comprar a nossa casa. Aos poucos, o bairro foi crescendo e eu notei que havia algo realmente estranho comigo. Eu jogava basquete na quadra do bairro e meu apelido era &#8220;yellow&#8221;. Eu era o &#8220;amarelo&#8221;. Na verdade, eu e um outro meninos éramos os únicos brancos a jogar basquete em meados dos anos 90 naquela região. Todos os meus amigos poderiam usar uma camiseta escrita &#8220;100% negro&#8221;. Menos eu e o meu outro amigo. Quase todos escutavam Racionais. E eu peguei trauma de Racionais porque eles significavam cotovelada nas minhas costelas adolescentes. Aos poucos, à medida em que eu ficava mais folgado e partia para cima dos caras, apesar das cotoveladas, com a bola dominada rumo à cesta, o respeito aumentou um bocadinho. Então eu fui convidado a jogar basquete em &#8220;contras&#8221; em outras cidades da região, como Franco da Rocha. Eram jogos para caras durões. Uma vez, houve tiro. Mas tiro de ordem. O tempo fechou, uma briga medonha na quadra. Então um policial que jogava conosco andou até a mochila dele e deu alguns tiros para o alto, furando o teto da quadra. Todo mundo foi embora. </p>
<p>Essas lembranças emergiram por conta de três fatos fortuitos. Na terça-feira, um dos meus professores explicou como o computador foi incorporado à rotina dos britânicos. A história da minha família batia bastante com o caso britânico _mas com o caso dos britânicos mais pobres, que viviam de auxílio governamental ou de subempregos. As crises não colocaram no cenário britânico de classe média a preocupação com a conta de telefone ou de luz. O professor perguntou sobre mais alguns casos em que o exemplo britânico fosse diferente dos nossos países de origem. Então eu contei que, no final de década de 1990, 2 milhões de casas no Brasil tinham televisão, mas não tinham geladeira. As pessoas repartiam o refrigerador com os vizinhos porque a maquininha de esfriar era bizarramente cara para quem ganhava salário mínimo. A minha sala entrou em choque (incluindo chineses e indianos, que conhecem as privações dos países em desenvolvimento). </p>
<p>Ainda nesta semana, numa roda com três americanos, no pub da faculdade, conversávamos sobre lembranças da infância. A vida roda entre guerra do Iraque, atentados nos EUA. E dai eu citei que, em um espaço de 15 anos, meu país teve seis moedas diferentes (cruzeiro, cruzado, cruzado novo, cruzeiro (de novo), cruzeiro real, real) e que a gente tinha de correr ao supermercado para fazer as compras do mês antes que o dinheiro não valesse mais nada. Novo choque. Parecia que eu tinha dito que tinha lutado no Iraque. Eles não entendem como um país pode ter seis moedas e inflação de 200%. &#8220;Pois é&#8230;&#8221; E desce mais um gole&#8230;</p>
<p>O terceiro fato fortuito foi a descoberta, no meu iPod, de um CD dos Racionais. A <a href="http://anivelde.org/pesdeamora/">Pés de Amora</a> trouxe as músicas do Brasil. Eu resisti o quanto pude. Até hoje. Eu já ouvira aquelas músicas no passado, mas não sabia que eram dos Racionais. Hoje eu queria escutar músicas de São Paulo. Primeiro, Premeditando o Breque. Depois, Racionais. Aquelas músicas raivosas me despertaram lembranças fraternas. Eu me lembrei das noites sentados na ladeira, conversando, das caminhadas de  uma hora entre a nossa quadra e a quadra do bairro dos Pinheiros, de tubaína, de Del Rey, dos meus amigos que queriam ser advogados e professores. E as letras dos Racionais me lembraram que os meus amigos, talentosos, inteligentes, se tornaram seguranças da Febem, pedreiros, seguranças de supermercado porque tinham de pegar o primeiro trabalho que aparecesse. Não existia a opção estudar. Alguns morreram. Eu também lembrei que uma vez estávamos andando todos juntos, a polícia nos parou e os revistou_ eu não fui revistado. Lembrei de uma vez que uma amiga minha, do colégio, ligou para a minha mãe e disse que eu estava andando com bandidos. Minha mãe pediu que ela descrevesse os bandidos. Minha mãe fez voz muito séria, disse que ia conversar comigo. Quando cheguei em casa, rimos juntos. Os bandidos eram meus amigos de bairro _e não eram bandidos coisa nenhuma. Só não eram brancos como eu nem eu vestia as roupas que eles vestiam _camiseta de rap e calça larga nunca combinaram comigo. Eles tinham crescido comigo, minha mãe foi nossa professora de catequese. </p>
<p>Sentei na cadeira, olhei pela janela e os muitos quilômetros entre Caieiras e Londres derreteram por alguns instantes. Eu não concordo com os Racionais. Longe de mim fazer coro à apologia ao crime ou ao machismo vergonhoso de algumas das suas letras. Mas eu entendo um pouco melhor o Brasil no qual eles nasceram e no qual eu cresci, um país miserável, violento e racista. </p>
<p>PS: Obviamente, muita coisa mudou em muito pouco tempo. Até os <a href="http://www.rollingstone.com.br/edicoes/39/textos/mano-brown-eminencia-parda/">Racionais mudaram e, vejam só, fizeram propaganda da Nike</a>.   </p>
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		<title>Ser cego, no futebol, é ser rei</title>
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		<pubDate>Tue, 02 Feb 2010 18:15:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Leandro</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Eu tendo a desconfiar de quem acredita demais em si mesmo. O excesso de segurança causa cegueira. As pessoas olham tanto para a frente que não enxergam uma pedra saltada na calçada. Cedo ou tarde, caem com a boca no chão, estupefatas. Atônitas, alguns nunca mais se recuperam, ficam  perdidos após o tropeção. Outros [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eu tendo a desconfiar de quem acredita demais em si mesmo. O excesso de segurança causa cegueira. As pessoas olham tanto para a frente que não enxergam uma pedra saltada na calçada. Cedo ou tarde, caem com a boca no chão, estupefatas. Atônitas, alguns nunca mais se recuperam, ficam  perdidos após o tropeção. Outros sequer entendem o que aconteceu. E ainda há quem se dedique, com milhões de teorias da conspiração na cabeça, a procurar quem colocou a pedra no caminho. O problema nunca está nele, está nos outros. Esse excesso de segurança é um perigo.</p>
<p>Paulo Vanzolini costuma dizer que mais importante do que dar a volta por cima é reconhecer a queda. Eu concordo com ele. Vanzolini poderia dar palestras gratuitas a jogadores de futebol, técnicos, comentaristas, repórteres de campo, torcedores. Poderia conversar com todas as pessoas que de alguma maneira fazem o futebol ser tão apaixonante. Com a parca experiência de consumidor de informações esportivas, eu me assusto com as verdades definitivas estampadas nos jornais, nos programas esportivos, nos blogs da internet. E o pior é que elas são estampadas em papel de seda. Bate o vento e rasga. A experiência parece não ensinar nada. O caso do Flamengo campeão brasileiro de 2009 me parece um dos casos mais marcantes dessa cegueira coletiva.</p>
<p> Durante boa parte do campeonato, as pessoas simplesmente se esqueceram de que o Flamengo existia, não acompanhavam o que estava acontecendo no clube. As vitórias do Flamengo eram tratadas com um pouco de deboche e outro tanto de desdém. Não era possível que no futebol moderno, planejado, organizado, o campeão fosse o Flamengo. E foi o Flamengo. E o melhor jogador do Flamengo só foi para o clube por causa de um acordo surreal: ele queria jogar de qualquer jeito. Em troca, perdoava parte da dívida que o clube tinha com ele. Foi assim que Petkovic renasceu. Só bastava estar nos treinos, conversar com os outros jogadores, com o técnico. Enfim, fazer jornalismo, entender Petkovic e o Flamengo. Não. Boa parte do planeta futebol se concentrou apenas no que não via. Se baseou num mundo fabricado por conceitos e preconceitos ditos e repetidos na vida cotidiana. </p>
<p>O resultado é desinformação. Boa parte dos comentaristas esportivos diz que os estaduais não valem nada. Apesar disso, com base em meia dúzia de jogos de janeiro, decretam quem vai vencer tudo e quem vai perder tudo na temporada. Juca Kfouri, por exemplo, disse que o Palmeiras é a quarta força do Estado de São Paulo. Eu me pergunto: com base em quê? Comparado com quê? Em que perspectiva? É uma boa frase, mas vazia, oca, tão oca e previsível quanto as suas previsões, ano após ano, de que o São Paulo vai ganhar alguma coisa na temporada. Assim é fácil. Você pega o histórico do time e aplica para o presente. Se der certo, você diz que acertou. Se deu errado, coloca a culpa em meia dúzia de passos errados que o clube teria dado , ou no acaso, ou no destino, sei lá. Se o Palmeiras ganhar tudo esse ano, você diz que alertou os dirigentes. Se não ganhar tudo, diz que avisou, no começo do ano. Kfouri usou essa estratégia quando anunciou a venda de Valdívia para o São Paulo. Ele disse que o chileno só não vestiu tricolor porque ele publicou a informação no blog. É a profecia que não se cumpre porque o oráculo a anunciou ao mundo. Não tem base, não tem dada. É achismo. Quantas vezes por semana Kfouri vai a um treino do São Paulo, conversa com jogadores, vê os jogos? </p>
<p>A mesma coisa vale para as contratações. Os comentaristas dizem que os clubes estão endividados, embora a gente nunca saiba exatamente o tamanho da dívida. Às vezes parece que o Corinthians está à beira do abismo, mas o clube segue a sua vida, arruma patrocinadores e paga jogadores. Às vezes, é o Palmeiras. Quando os dados contradizem o comentarista, o comentarista ignora os fatos. Recentemente, uma empresa de auditoria revelou que o Palmeiras é o clube menos envididado de São Paulo. Apesar disso, qualquer análise sobre o cenário político e financeiro do Palmeiras pinta o  clube como uma filial do Lehman Brothers. Ok, então vamos admitir que o Palmeiras está prestes a quebrar. O clube decide fazer contratações para suprir apenas posições absolutamente carentes no elenco. Também arruma patrocínio para a camiseta do técnico. E o que os comentaristas fazem? Anunciam aos ventos que o clube não tem competência para contratar ninguém, que onde já se viu fazer de Muricy um outdoor ambulante, como escreveu o Cosme Rimoli. Pois é. Engraçado.  Contratar bem virou, neste começo de ano, contratar muito. Daqui a alguns meses, dependendo dos resultados, contratar bem vai ser ter contratado o jogador X ou Y. Não tem critério. Não tem base na realidade. É um castelo de papel marchê na tempestade. </p>
<p>Hoje, ler os textos de nomes consagrados da crônica esportiva é entrar num jardim de veredas que se bifurcam. Bobagem entrando e saindo por tudo quanto é lado, uma confusão sem tamanho, uma enxurrada de platitudes, de afirmações vazias. Só que os resultados podem ser catastróficos. Antes que Robinho estourasse no mundo, era tratado por técnicos e comentaristas como a maior revelação santistas desde Pelé, o novo Ronaldo, o novo Garrincha. Ele acreditou. Deu no que deu. Denilson foi a contratação mais cara do futebol brasileiro, incensado por seu futebol de dribles preciosos. Ele acreditou. Deu no que deu. A Lei Pelé transformaria o futebol brasileiro num paraíso europeu. Deu no que deu. Em vez de entender, os comentaristas vaticinam em cima do vazio. Eles anunciam algo como se existisse. E depois ficam esperando para ver se acontece. </p>
<p>Esse mundo cheio de verdades, muito seguro de si, é um moedor de almas. As pessoas estão cegas pelo próprio brilho, não enxergam que até no futebol o mundo é um tantinho mais complicado e que as portas não se abrem simplesmente com um “Eu quero!” Muita gente se perde no caminho, há diversas histórias tristes de jogadores incensados que enlouqueceram após a aposentadoria, incapazes de perceber que o estrelato não dura para sempre. Luxemburgo não é a exceção no futebol. Sua história de glórias e seu presente errante são a personificação de uma esfera muito particular da atividade humana.  Ser cego, no futebol, é ser rei. </p>
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		<title>As idéias e os cachorros</title>
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		<pubDate>Tue, 02 Feb 2010 03:43:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Leandro</dc:creator>
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		<category><![CDATA[estudante]]></category>
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		<category><![CDATA[universidade]]></category>

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		<description><![CDATA[A vida de estudante tem uma série de desvantagens óbvias, mas prefiro deixar o leitor descobrir por si mesmo. Não vou falar do incrível apartamento que encolheu, das barras de chocolate a 28 centavos de libra nem da burocracia do passe de estudante. Prefiro falar das vantagens da vida de estudante. E não me refiro [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A vida de estudante tem uma série de desvantagens óbvias, mas prefiro deixar o leitor descobrir por si mesmo. Não vou falar do incrível apartamento que encolheu, das barras de chocolate a 28 centavos de libra nem da burocracia do passe de estudante. Prefiro falar das vantagens da vida de estudante. E não me refiro ao fato de as onze da manhã ser a nova sete e meia. Sou nerd. Do tipo que joga bola, é um dos piores do gramado, mas corre. Como todo bom nerd que joga bola em domingos ensolarados, eu gosto de ler compulsivamente. Ter tempo para ler é a maior vantagem da vida de estudante. Essas longas horas dedicadas a um livro, a uma tese, a um artigo acadêmico têm aumentado meu desapego pelas idéias. Faz algum tempo que não cuido de algumas idéias como se elas fossem  a minha casa com dois quartos, sala, cozinha, banheiro. Não me apego mais a algumas idéias como se elas fossem meu cachorro. Eu uso as idéias como se elas fossem livros em uma biblioteca. Ou uma chave de fenda para parafusar a cadeira empenada.  </p>
<p>Posso dar alguns exemplos. A The Economist perguntou em seu último número por que o Brasil, socialmente liberal, não é economicamente liberal. A revista colocou o assunto como uma contradição. Eu acho que não é. Primeiro, porque eu não acho o Brasil tão socialmente liberal assim (momento Uniban). Segundo, porque eu acho que vários setores da economia estão realmente regidos pelo livre mercado (bancos?). Terceiro: se a revista estiver certa e o Brasil for socialmente liberal e economicamente estatista, não é o caso de mudar a chave de pensamento? Talvez o Brasil só seja economicamente estatista porque é socialmente liberal. Ou só é socialmente liberal porque é economicamente estatista. Em vez de contraditório, os dois movimentos seriam complementares. É uma hipótese a ser testada. De todo modo, é preciso exercitar o desapego: a realidade não cabe dentro das nossas caixinhas. Os comunistas sabem muito bem disso. Mas muitos deles não esqueceram nada nem aprenderam nada. </p>
<p>Faz muito tempo que Hugo Chávez não é apenas mais um fanfarrão. Ele está criando milícias paramilitares para intimidar opositores. Ele está mudando a divisão política do país para alijar a oposição. Ele controla os meios de comunicação e nega o direito de expressão a quem se opõe a ele. Chávez segue o típico manual do ditador. A fórmula é tão batida que poderia ser replicada em um curso à distância do saudoso Insituto Universal Brasileiro. Nem humor Chávez tolera (capítulo 7 do manual do Instituto Universal Brasileiro, se existisse). Não se pode fazer piada com o presidente sob a pena de ser chamado de fascista a serviço dos setores reacionários da sociedade. Aliás, até a lucidez está em risco (capítulo 10 do manual imaginário): o ditador in progress disse que o terremoto no Haiti foi provocado pela Marinha dos EUA e pediu que as meninas não comprem Barbie. Mas uma boa parte das esquerdas latinoamericanas transformou Chávez no novo Frank Sinatra, a voz doce que canta &#8220;This is my way&#8221;.</p>
<p>Alguns, porque auferem benefícios pecuniários do meninão: afinal, sempre há um serviço de consultoria em Caracas ou um emprego aos camaradas  do bolivarianismo. Outros, e são muitos, infelizmente, porque compram o pacote chavista sem olhar o conteúdo. Ele não gosta dos EUA? É contra o mercado? Estatiza? Então é dos nossos. Pois é. O problema é que vários fascistas do começo do século 20 também não gostavam dos EUA e do mercado: algumas pessoas preferem perder o juízo a perder o apego às idéias (carcomidas). Muitas delas, mais tarde, fazem ficção ruim. Depois que as atrocidades são reveladas, se dedicam a reinventar a própria história para mostrar suas milimétricas discordâncias com o regime. Será triste ver esse espetáculo deprimente dentro de alguns anos ser repetido em relação a Chávez.</p>
<p>Porém, ter tempo para ler pode provocar o efeito contrário. Pode provocar idolatria por algumas idéias. É duro ter de escutar de uma colega de sala, nascida em um país bastante desenvolvido, que às vezes a censura é necessária para preservar os direitos humanos. Ou ver uma multidão achar natural jogar bombas em Israel. Ou outras tantas pessoas justificarem a tortura no governo Bush. Talvez essas pessoas devessem ler mais. Talvez, não. É melhor que algumas pessoas nunca mais leiam. Ler, em alguns casos, pode ser muito perigoso. Algumas pessoas acreditam que o mundo se revela em algumas poucas palavras. Elas crêem que o mundo está aqui dentro, com capa dura e papel bege.  Antes de ler, elas deveriam aprender que a leitura é, sempre, um ato de desconfiança. Eu aprendi isso a duras penas&#8230; Alguns anos atrás, eu bem poderia ser chamado de &#8220;o caieirense tranquilo&#8221;.</p>
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		<title>Kassab, por favor, passe o cafezinho</title>
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		<pubDate>Sat, 23 Jan 2010 16:30:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Leandro</dc:creator>
				<category><![CDATA[São Paulo]]></category>
		<category><![CDATA[chuvas]]></category>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Sempre que um problema de proporções paulistanas atinge São Paulo, o prefeito (a), o governador,  até o presidente reagem como se fossem vítimas de um complô da natureza. Elencam estatísticas sobre a quantidade recorde de chuva que caiu sobre a cidade _como se todo o verão uma dessas estatísticas não fosse quebrada_ e seus olhos caídos, suplicantes, parecem dizer: “Não pergunte o que o seu prefeito pode fazer por você. Pergunte o que você pode fazer pelo seu prefeito”. Então surgem cifras malucas, sabe-se lá de onde saíram, para justificar a má administração de turno. Nascem tantos recursos da boca do prefeito que eu me pergunto se ele é um pretidigitador, capaz de materializar piscinões, drenagem e, quem sabe, uma miraculosa reforma urbana. </p>
<p>Mas não acontece nada. Todo verão a cidade é tomada um bocadinho mais pelas águas. Soube que a  ladeira da Cardeal Arcoverde parecia uma cachoeira. Uma ladeira, cachoeira&#8230; Daqui a pouco a Paulista, o Alto da Lapa, Perdizes e o Pico do Jarágua vão alagar. “Se não tem botes, que comam brioches”, parecem dizer os secretários que culpam as pessoas por estar em áreas alagadas, por jogar lixos nos rios, por emporcalhar a cidade. É óbvio que elas não deveriam estar às margens dos rios, arremessar geladeiras em córregos ou entupir o município com bitucas de cigarro. E é óbvio que alguém deveria ter feito alguma coisa para que a gente não chegasse a esse ponto. Geralmente, é o Estado. E isso não significa  uma paixão súbita pelo Estado. Longe disso. Mas tem algumas poucas e importantes coisas que só o Estado pode fazer (uma delas não é propaganda, por favor). </p>
<p>Vamos pegar o exemplo da cidade onde vou morar até o final deste ano. Não, os motoristas não vão deixar você cordialmente atravessar a rua sempre. As ruas são sujas. Vira e mexe você vê alguém arremessando uma bituca de cigarro no chão ou um pedaço de papel na calçada. Há poças d&#8217;água no passeio público. E, tal como São Paulo, há um grande rio que corta a cidade. Só que esse rio não transborda, mesmo quando chove uma enormidade. A diferença é que a limpeza pública é feita o tempo inteiro, há um sistema de drenagem, há diversos parques públicos (inclusive na periferia da cidade). De certa maneira, a diferença entre São Paulo e Londres é que a capital inglesa sabe que não vai poder resolver todos os problemas. Mas sabe como minimizá-los. Quando neva muito, por exemplo, o sistema de transporte pára, a BBC faz uma página detalhada com todos os detalhes que você precisa saber para não se meter uma enrascada, brotam placas pela cidade. Há transtornos? Sim. Mas poderia ser muito pior. Em São Paulo, a gente acha que vai acabar com os problemas. E não consegue minimizá-los. Os governantes posam de coitadinhos para disfarçar sua própria inapetência . Eles só tem apetite pelas próximas eleições. Eles têm uma relação predatória com a cidade. Nos últimos 20 anos, talvez só Luiza Erundina quisesse dar à cidade mais do que receber dela. E o que ela ganhou? Maluf, Pitta, Marta, Serra, Kassab como sucessores. </p>
<p>Obviamente, os governantes não são responsáveis por tudo. A nossa relação com a cidade é tão predatória quanto a dos prefeitos. Não dá para imaginar que uma horda de visigodos ( de todas as classes sociais) vá eleger um benemérito. A gente quer sugar da cidade tudo que ela tem a nos dar e ir embora o quanto antes. Somos mesquinhos e mimados. Isso não acontece só em São Paulo. Diversas grandes cidades do país tem esse mesmo pensamento médio. Eles se orgulham do que podem arrancar da cidade e de passear em meia dúzia de lugares onde podem usufruir de uma agradável tarde de sábado _mesmo que para isso tenham de colocar perfume dentro do carro para suportar o cheiro fétido que emana de rios e córregos. Não existe compromisso mínimo com o município. E sem compromisso não tem benefício, tigrão. Nesta terra da Rainha, o governo tem programas em todos os cantos do país para fomentar e manter organizações comunitárias (não confundir minha proposta com organizações comunitárias a serviço do PT, bem entendido). O objetivo não é terceirizar a administração para essas ONGs picaretas, como muitas vezes acontece no Brasil. A meta é que indivíduos se organizem para cobrar uns aos outros e, principalmente, o Estado.  Às vezes, dá resultado. </p>
<p>Como vossas senhorias sabem, a Inglaterra está na pior recessão desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Mas a taxa de criminalidade continua em queda. Diminuíram os casos de homicídios, roubos e furtos entre 2008 e 2009 _e essa taxa já vem caindo faz um tempão. Gente do governo, da oposição, analistas independentes apontaram como principal fator para essa redução a participação da comunidade em programas de auxílio mútuo. Se eles podem fazer, a gente também pode. Basta que a gente se convença de uma vez por todas que a cidade não é de petistas, tucanos, malufistas, kassabistas, o que seja. Nós os elegemos para fazer o serviço pesado, eles são nossos empregados por tempo determinado. Mas uma parte do serviço é nosso. Podemos começar falando para o prefeito de turno: Kassabão, ninguém pediu para você ser candidato à reeleição. Mas, agora que você já está ai, por favor, tire essa cara de coitado, diminua a propaganda e desentupa os bueiros? Depois, por favor, passe o cafezinho enquanto a gente tenta descobrir um jeito de tirar o Jardim Pantanal do atoleiro. </p>
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		<title>As torcidas organizadas não são o futebol</title>
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		<pubDate>Fri, 22 Jan 2010 02:22:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Leandro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Futebol]]></category>
		<category><![CDATA[torcida organizada]]></category>

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			<content:encoded><![CDATA[<p>Eu já estudei em uma escola de lata. Ou pelo menos em algo bem parecido com essa invenção do governo Pitta que atravessou os governos Marta e Serra/Kassab. As salas de aula do Departamento de História da USP são grandes e quentes, as carteiras são pixadas, as paredes são sujas e a única coisa em que você pensa é “aula, por favor, acabe logo porque eu vou derreter”.  Era um convite à desertiificação do pensamento: muito calor, sexta-feira, História Ibérica e o mundo inteiro lá fora cantando “Como uma coisa assim machuca tanto / tomou conta de todo o meu ser”. Ninguém estava muito ai para a História de Portugal e Espanha. Mas essa é uma das poucas coisas que posso garantir: História Ibérica, na USP, com a Vera, foi uma das melhores aulas que eu já tive na vida. Dava para suportar o calor por causa dessa aula. Boa parte do se chama de clássicos, incluindo heterodoxos, como Ortega y Gasset, li nesta aula. Também íamos direto à fonte. Em vez de ler o sujeito que comentou o texto de fulano, íamos aos originais. Foi assim que conheci José Antonio Primo de Rivera, o fundador da Falange Espanhola, o partido fascista espanhol. </p>
<p>O texto de Rivera é um dos manifestos políticos mais bem escritos, bem elaborados e bem assustadores que eu já li na vida. Vera pediu que lêssemos só a parte em que ele atacava o liberalismo. Muitos dos marxistas da minha sala ficaram bastante incomodados quando perceberam a semelhança do argumento do fascista espanhol com o dos marxistas ortodoxos (mas logo passou quando o Rivera passou a atacar os marxistas). Ele oferece o pacote fascista plus _eliminação das liberdades invididuais, poder absoluto para o Estado sobre os cidadãos, perseguição às minorias, o seguimento ao líder_ como uma consequência e como solução das falhas, que ele aponta como fundamentais, da democracia. Para ele, a democracia não para em pé e precisa ser substituída por um Estado corporativista para assegurar uma vida decentes aos cidadãos. </p>
<p>Pois bem, vocês já repararam no número de torcidas de futebol país afora que se denominam Falange? <a href="http://www.google.com.br/search?hl=pt-BR&#038;source=hp&#038;q=falange+torcida&#038;btnG=Pesquisa+Google&#038;meta=&#038;aq=f&#038;oq=">Tem um monte, só na primeira página do Google. </a>Não é coincidência. Muitas compartilham os mesmos métodos dos fascistas _e não apenas as que se denominam falanges. São intolerantes, racistas, intimidam os adversários, seguem o líder, espancam, tem aquele famoso espírito de corpo “mexeu com um, mexeu com a família toda”. Diversas organizações são banidas e seus membros, processados e presos, por muito menos. Por que uma torcida de futebol tem salvo conduto? Futebol não precisa ser o reino irracional onde as piores paixões são expressas. O que é intolerável na vida precisa ser intolerável no futebol. Não dá para admitir no futebol o que a gente não admite em nenhum outra parte da nossa vida. </p>
<p>O problema é como enquadrar as torcidas na lei. Já ficou clara que simplesmente decretar seu fim, como foi feito em São Paulo, não funciona. As torcidas continuam se encontrando clandestinamente e a ação do Estado só reforça o espírito de corpo. Além da vigilância da polícia, absolutamente importante, é preciso fechar o cerco financeiro sobre essa turma. Torcidas organizadas vendem diversos produtos a seus afiliados e no mercado, em geral: camisetas, passagens de ônibus, carteirinhas. Elas não são igrejas, portanto têm de pagar impostos. As torcidas pagam impostos? Como estão as contas das torcidas? Outro ponto: quem doa dinheiro para torcida organizada registra a saída no Imposto de Renda? Os clubes que dão dinheiro à torcida registram a saída no balanço? De onde vêm o dinheiro das torcidas? Esses são alguns dos primeiros passos para fechar a fonte de financiamento, para atingir a vida real das torcidas. Tem de mirar nas transações financeiras, nos intermediários, nos mantenedores. Foi assim, por exemplo, que o Estado de Nova York conseguiu acabar com o jogo online. Era impossível impedir que as pessoas jogassem em cassinos virtuais no Caribe. Mas era bastante possível impedir que as operadoras de cartão de crédito transferissem dinheiro aos cassinos virtuais do Caribe. É difícil acabar com uma torcida organizada. Mas é possível fechar o cerco financeiro sobre ela. E sobre os times também.</p>
<p>É claro que fechar o cerco sobre a torcida não impede que os malucos entrem nos estádios. Mas é viável multar os clubes por pregação à violência, ao racismo, à homofobia dentro das suas cercanias. Se uma torcida, por exemplo, defende aos gritos o espancamento de adversários, a morte de oponente, se ofende negros, nordestinos e gays dentro de um estádio e o clube não faz nada, é conivente. Portanto, o clube e seus diretores são co-responsáveis. É preciso doer no bolso da pessoa física (diretor) e jurídica (o clube), fazê-los pensar duas vezes antes de uma declaração transloucada. Os diretores precisam ter um “incentivo” para fazer algo contra o discurso intolerante das torcidas nos estádios. Os clubes poderiam, quem sabe, negociar anúncios conjuntos na TV ou ações em comum nos intervalos da partida para minar as organizadas.  </p>
<p>É impossível acabar com o extremismo, obviamente. Ainda existe uma célula da Falange na Espanha, neonazistas na Alemanha e fãs do paredão do Fidel Castro no Brasil. Mas é possível tirar as torcidas da zona de conforto em que estão hoje e reduzi-las a grupelhos barulhentos e inofensivos. Antes que cresçam demais, comandem os clubes e tenham acesso a uma quantidade nociva de dinheiro&#8230;</p>
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		<title>Ice land, or United Kingdom</title>
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		<pubDate>Fri, 08 Jan 2010 22:08:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Leandro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Londres]]></category>
		<category><![CDATA[frio]]></category>
		<category><![CDATA[United Kingdom]]></category>

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Mais, aqui
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			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone" src="http://rapidfire.sci.gsfc.nasa.gov/gallery/2010007-0107/GreatBritain.A2010007.1150.1km.jpg" alt="" width="425" height="550" /></p>
<p>Mais, <a href="http://news.bbc.co.uk/1/hi/uk/8446942.stm">aqui</a></p>
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