Ser cego, no futebol, é ser rei
Eu tendo a desconfiar de quem acredita demais em si mesmo. O excesso de segurança causa cegueira. As pessoas olham tanto para a frente que não enxergam uma pedra saltada na calçada. Cedo ou tarde, caem com a boca no chão, estupefatas. Atônitas, alguns nunca mais se recuperam, ficam perdidos após o tropeção. Outros sequer entendem o que aconteceu. E ainda há quem se dedique, com milhões de teorias da conspiração na cabeça, a procurar quem colocou a pedra no caminho. O problema nunca está nele, está nos outros. Esse excesso de segurança é um perigo.
Paulo Vanzolini costuma dizer que mais importante do que dar a volta por cima é reconhecer a queda. Eu concordo com ele. Vanzolini poderia dar palestras gratuitas a jogadores de futebol, técnicos, comentaristas, repórteres de campo, torcedores. Poderia conversar com todas as pessoas que de alguma maneira fazem o futebol ser tão apaixonante. Com a parca experiência de consumidor de informações esportivas, eu me assusto com as verdades definitivas estampadas nos jornais, nos programas esportivos, nos blogs da internet. E o pior é que elas são estampadas em papel de seda. Bate o vento e rasga. A experiência parece não ensinar nada. O caso do Flamengo campeão brasileiro de 2009 me parece um dos casos mais marcantes dessa cegueira coletiva.
Durante boa parte do campeonato, as pessoas simplesmente se esqueceram de que o Flamengo existia, não acompanhavam o que estava acontecendo no clube. As vitórias do Flamengo eram tratadas com um pouco de deboche e outro tanto de desdém. Não era possível que no futebol moderno, planejado, organizado, o campeão fosse o Flamengo. E foi o Flamengo. E o melhor jogador do Flamengo só foi para o clube por causa de um acordo surreal: ele queria jogar de qualquer jeito. Em troca, perdoava parte da dívida que o clube tinha com ele. Foi assim que Petkovic renasceu. Só bastava estar nos treinos, conversar com os outros jogadores, com o técnico. Enfim, fazer jornalismo, entender Petkovic e o Flamengo. Não. Boa parte do planeta futebol se concentrou apenas no que não via. Se baseou num mundo fabricado por conceitos e preconceitos ditos e repetidos na vida cotidiana.
O resultado é desinformação. Boa parte dos comentaristas esportivos diz que os estaduais não valem nada. Apesar disso, com base em meia dúzia de jogos de janeiro, decretam quem vai vencer tudo e quem vai perder tudo na temporada. Juca Kfouri, por exemplo, disse que o Palmeiras é a quarta força do Estado de São Paulo. Eu me pergunto: com base em quê? Comparado com quê? Em que perspectiva? É uma boa frase, mas vazia, oca, tão oca e previsível quanto as suas previsões, ano após ano, de que o São Paulo vai ganhar alguma coisa na temporada. Assim é fácil. Você pega o histórico do time e aplica para o presente. Se der certo, você diz que acertou. Se deu errado, coloca a culpa em meia dúzia de passos errados que o clube teria dado , ou no acaso, ou no destino, sei lá. Se o Palmeiras ganhar tudo esse ano, você diz que alertou os dirigentes. Se não ganhar tudo, diz que avisou, no começo do ano. Kfouri usou essa estratégia quando anunciou a venda de Valdívia para o São Paulo. Ele disse que o chileno só não vestiu tricolor porque ele publicou a informação no blog. É a profecia que não se cumpre porque o oráculo a anunciou ao mundo. Não tem base, não tem dada. É achismo. Quantas vezes por semana Kfouri vai a um treino do São Paulo, conversa com jogadores, vê os jogos?
A mesma coisa vale para as contratações. Os comentaristas dizem que os clubes estão endividados, embora a gente nunca saiba exatamente o tamanho da dívida. Às vezes parece que o Corinthians está à beira do abismo, mas o clube segue a sua vida, arruma patrocinadores e paga jogadores. Às vezes, é o Palmeiras. Quando os dados contradizem o comentarista, o comentarista ignora os fatos. Recentemente, uma empresa de auditoria revelou que o Palmeiras é o clube menos envididado de São Paulo. Apesar disso, qualquer análise sobre o cenário político e financeiro do Palmeiras pinta o clube como uma filial do Lehman Brothers. Ok, então vamos admitir que o Palmeiras está prestes a quebrar. O clube decide fazer contratações para suprir apenas posições absolutamente carentes no elenco. Também arruma patrocínio para a camiseta do técnico. E o que os comentaristas fazem? Anunciam aos ventos que o clube não tem competência para contratar ninguém, que onde já se viu fazer de Muricy um outdoor ambulante, como escreveu o Cosme Rimoli. Pois é. Engraçado. Contratar bem virou, neste começo de ano, contratar muito. Daqui a alguns meses, dependendo dos resultados, contratar bem vai ser ter contratado o jogador X ou Y. Não tem critério. Não tem base na realidade. É um castelo de papel marchê na tempestade.
Hoje, ler os textos de nomes consagrados da crônica esportiva é entrar num jardim de veredas que se bifurcam. Bobagem entrando e saindo por tudo quanto é lado, uma confusão sem tamanho, uma enxurrada de platitudes, de afirmações vazias. Só que os resultados podem ser catastróficos. Antes que Robinho estourasse no mundo, era tratado por técnicos e comentaristas como a maior revelação santistas desde Pelé, o novo Ronaldo, o novo Garrincha. Ele acreditou. Deu no que deu. Denilson foi a contratação mais cara do futebol brasileiro, incensado por seu futebol de dribles preciosos. Ele acreditou. Deu no que deu. A Lei Pelé transformaria o futebol brasileiro num paraíso europeu. Deu no que deu. Em vez de entender, os comentaristas vaticinam em cima do vazio. Eles anunciam algo como se existisse. E depois ficam esperando para ver se acontece.
Esse mundo cheio de verdades, muito seguro de si, é um moedor de almas. As pessoas estão cegas pelo próprio brilho, não enxergam que até no futebol o mundo é um tantinho mais complicado e que as portas não se abrem simplesmente com um “Eu quero!” Muita gente se perde no caminho, há diversas histórias tristes de jogadores incensados que enlouqueceram após a aposentadoria, incapazes de perceber que o estrelato não dura para sempre. Luxemburgo não é a exceção no futebol. Sua história de glórias e seu presente errante são a personificação de uma esfera muito particular da atividade humana. Ser cego, no futebol, é ser rei.

Todo ano é a mesma coisa. Ano passado foi o Milton Neves quem falou isso. http://anivelde.org/blogdoraatz/2009/02/10/o-palmeiras-contratou-mal-diziam-os-ignobeis.htm
É isso aí. O exemplo do Flamengo é ótimo.