As idéias e os cachorros
A vida de estudante tem uma série de desvantagens óbvias, mas prefiro deixar o leitor descobrir por si mesmo. Não vou falar do incrível apartamento que encolheu, das barras de chocolate a 28 centavos de libra nem da burocracia do passe de estudante. Prefiro falar das vantagens da vida de estudante. E não me refiro ao fato de as onze da manhã ser a nova sete e meia. Sou nerd. Do tipo que joga bola, é um dos piores do gramado, mas corre. Como todo bom nerd que joga bola em domingos ensolarados, eu gosto de ler compulsivamente. Ter tempo para ler é a maior vantagem da vida de estudante. Essas longas horas dedicadas a um livro, a uma tese, a um artigo acadêmico têm aumentado meu desapego pelas idéias. Faz algum tempo que não cuido de algumas idéias como se elas fossem a minha casa com dois quartos, sala, cozinha, banheiro. Não me apego mais a algumas idéias como se elas fossem meu cachorro. Eu uso as idéias como se elas fossem livros em uma biblioteca. Ou uma chave de fenda para parafusar a cadeira empenada.
Posso dar alguns exemplos. A The Economist perguntou em seu último número por que o Brasil, socialmente liberal, não é economicamente liberal. A revista colocou o assunto como uma contradição. Eu acho que não é. Primeiro, porque eu não acho o Brasil tão socialmente liberal assim (momento Uniban). Segundo, porque eu acho que vários setores da economia estão realmente regidos pelo livre mercado (bancos?). Terceiro: se a revista estiver certa e o Brasil for socialmente liberal e economicamente estatista, não é o caso de mudar a chave de pensamento? Talvez o Brasil só seja economicamente estatista porque é socialmente liberal. Ou só é socialmente liberal porque é economicamente estatista. Em vez de contraditório, os dois movimentos seriam complementares. É uma hipótese a ser testada. De todo modo, é preciso exercitar o desapego: a realidade não cabe dentro das nossas caixinhas. Os comunistas sabem muito bem disso. Mas muitos deles não esqueceram nada nem aprenderam nada.
Faz muito tempo que Hugo Chávez não é apenas mais um fanfarrão. Ele está criando milícias paramilitares para intimidar opositores. Ele está mudando a divisão política do país para alijar a oposição. Ele controla os meios de comunicação e nega o direito de expressão a quem se opõe a ele. Chávez segue o típico manual do ditador. A fórmula é tão batida que poderia ser replicada em um curso à distância do saudoso Insituto Universal Brasileiro. Nem humor Chávez tolera (capítulo 7 do manual do Instituto Universal Brasileiro, se existisse). Não se pode fazer piada com o presidente sob a pena de ser chamado de fascista a serviço dos setores reacionários da sociedade. Aliás, até a lucidez está em risco (capítulo 10 do manual imaginário): o ditador in progress disse que o terremoto no Haiti foi provocado pela Marinha dos EUA e pediu que as meninas não comprem Barbie. Mas uma boa parte das esquerdas latinoamericanas transformou Chávez no novo Frank Sinatra, a voz doce que canta “This is my way”.
Alguns, porque auferem benefícios pecuniários do meninão: afinal, sempre há um serviço de consultoria em Caracas ou um emprego aos camaradas do bolivarianismo. Outros, e são muitos, infelizmente, porque compram o pacote chavista sem olhar o conteúdo. Ele não gosta dos EUA? É contra o mercado? Estatiza? Então é dos nossos. Pois é. O problema é que vários fascistas do começo do século 20 também não gostavam dos EUA e do mercado: algumas pessoas preferem perder o juízo a perder o apego às idéias (carcomidas). Muitas delas, mais tarde, fazem ficção ruim. Depois que as atrocidades são reveladas, se dedicam a reinventar a própria história para mostrar suas milimétricas discordâncias com o regime. Será triste ver esse espetáculo deprimente dentro de alguns anos ser repetido em relação a Chávez.
Porém, ter tempo para ler pode provocar o efeito contrário. Pode provocar idolatria por algumas idéias. É duro ter de escutar de uma colega de sala, nascida em um país bastante desenvolvido, que às vezes a censura é necessária para preservar os direitos humanos. Ou ver uma multidão achar natural jogar bombas em Israel. Ou outras tantas pessoas justificarem a tortura no governo Bush. Talvez essas pessoas devessem ler mais. Talvez, não. É melhor que algumas pessoas nunca mais leiam. Ler, em alguns casos, pode ser muito perigoso. Algumas pessoas acreditam que o mundo se revela em algumas poucas palavras. Elas crêem que o mundo está aqui dentro, com capa dura e papel bege. Antes de ler, elas deveriam aprender que a leitura é, sempre, um ato de desconfiança. Eu aprendi isso a duras penas… Alguns anos atrás, eu bem poderia ser chamado de “o caieirense tranquilo”.

Se for para lerem Gramsci (ou a Carta Maior, ha), melhor que não leiam nada mesmo…