Kassab, por favor, passe o cafezinho

Sempre que um problema de proporções paulistanas atinge São Paulo, o prefeito (a), o governador, até o presidente reagem como se fossem vítimas de um complô da natureza. Elencam estatísticas sobre a quantidade recorde de chuva que caiu sobre a cidade _como se todo o verão uma dessas estatísticas não fosse quebrada_ e seus olhos caídos, suplicantes, parecem dizer: “Não pergunte o que o seu prefeito pode fazer por você. Pergunte o que você pode fazer pelo seu prefeito”. Então surgem cifras malucas, sabe-se lá de onde saíram, para justificar a má administração de turno. Nascem tantos recursos da boca do prefeito que eu me pergunto se ele é um pretidigitador, capaz de materializar piscinões, drenagem e, quem sabe, uma miraculosa reforma urbana.

Mas não acontece nada. Todo verão a cidade é tomada um bocadinho mais pelas águas. Soube que a ladeira da Cardeal Arcoverde parecia uma cachoeira. Uma ladeira, cachoeira… Daqui a pouco a Paulista, o Alto da Lapa, Perdizes e o Pico do Jarágua vão alagar. “Se não tem botes, que comam brioches”, parecem dizer os secretários que culpam as pessoas por estar em áreas alagadas, por jogar lixos nos rios, por emporcalhar a cidade. É óbvio que elas não deveriam estar às margens dos rios, arremessar geladeiras em córregos ou entupir o município com bitucas de cigarro. E é óbvio que alguém deveria ter feito alguma coisa para que a gente não chegasse a esse ponto. Geralmente, é o Estado. E isso não significa uma paixão súbita pelo Estado. Longe disso. Mas tem algumas poucas e importantes coisas que só o Estado pode fazer (uma delas não é propaganda, por favor).

Vamos pegar o exemplo da cidade onde vou morar até o final deste ano. Não, os motoristas não vão deixar você cordialmente atravessar a rua sempre. As ruas são sujas. Vira e mexe você vê alguém arremessando uma bituca de cigarro no chão ou um pedaço de papel na calçada. Há poças d’água no passeio público. E, tal como São Paulo, há um grande rio que corta a cidade. Só que esse rio não transborda, mesmo quando chove uma enormidade. A diferença é que a limpeza pública é feita o tempo inteiro, há um sistema de drenagem, há diversos parques públicos (inclusive na periferia da cidade). De certa maneira, a diferença entre São Paulo e Londres é que a capital inglesa sabe que não vai poder resolver todos os problemas. Mas sabe como minimizá-los. Quando neva muito, por exemplo, o sistema de transporte pára, a BBC faz uma página detalhada com todos os detalhes que você precisa saber para não se meter uma enrascada, brotam placas pela cidade. Há transtornos? Sim. Mas poderia ser muito pior. Em São Paulo, a gente acha que vai acabar com os problemas. E não consegue minimizá-los. Os governantes posam de coitadinhos para disfarçar sua própria inapetência . Eles só tem apetite pelas próximas eleições. Eles têm uma relação predatória com a cidade. Nos últimos 20 anos, talvez só Luiza Erundina quisesse dar à cidade mais do que receber dela. E o que ela ganhou? Maluf, Pitta, Marta, Serra, Kassab como sucessores.

Obviamente, os governantes não são responsáveis por tudo. A nossa relação com a cidade é tão predatória quanto a dos prefeitos. Não dá para imaginar que uma horda de visigodos ( de todas as classes sociais) vá eleger um benemérito. A gente quer sugar da cidade tudo que ela tem a nos dar e ir embora o quanto antes. Somos mesquinhos e mimados. Isso não acontece só em São Paulo. Diversas grandes cidades do país tem esse mesmo pensamento médio. Eles se orgulham do que podem arrancar da cidade e de passear em meia dúzia de lugares onde podem usufruir de uma agradável tarde de sábado _mesmo que para isso tenham de colocar perfume dentro do carro para suportar o cheiro fétido que emana de rios e córregos. Não existe compromisso mínimo com o município. E sem compromisso não tem benefício, tigrão. Nesta terra da Rainha, o governo tem programas em todos os cantos do país para fomentar e manter organizações comunitárias (não confundir minha proposta com organizações comunitárias a serviço do PT, bem entendido). O objetivo não é terceirizar a administração para essas ONGs picaretas, como muitas vezes acontece no Brasil. A meta é que indivíduos se organizem para cobrar uns aos outros e, principalmente, o Estado. Às vezes, dá resultado.

Como vossas senhorias sabem, a Inglaterra está na pior recessão desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Mas a taxa de criminalidade continua em queda. Diminuíram os casos de homicídios, roubos e furtos entre 2008 e 2009 _e essa taxa já vem caindo faz um tempão. Gente do governo, da oposição, analistas independentes apontaram como principal fator para essa redução a participação da comunidade em programas de auxílio mútuo. Se eles podem fazer, a gente também pode. Basta que a gente se convença de uma vez por todas que a cidade não é de petistas, tucanos, malufistas, kassabistas, o que seja. Nós os elegemos para fazer o serviço pesado, eles são nossos empregados por tempo determinado. Mas uma parte do serviço é nosso. Podemos começar falando para o prefeito de turno: Kassabão, ninguém pediu para você ser candidato à reeleição. Mas, agora que você já está ai, por favor, tire essa cara de coitado, diminua a propaganda e desentupa os bueiros? Depois, por favor, passe o cafezinho enquanto a gente tenta descobrir um jeito de tirar o Jardim Pantanal do atoleiro.

1 comentário

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  • hahaha a imagem do café é ótima, todo mundo fala que isso só acontece nos últimos meses de governo e a gestão do Kaxab mal começou. Mas me diga se você chegou a ver isto: http://noticias.uol.com.br/cotidiano/2009/12/17/ult5772u6678.jhtm O Ministério Público foi acionado por essa matéria. E sabe onde está o cara que deu a informação? Nem nós.

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