As torcidas organizadas não são o futebol

Eu já estudei em uma escola de lata. Ou pelo menos em algo bem parecido com essa invenção do governo Pitta que atravessou os governos Marta e Serra/Kassab. As salas de aula do Departamento de História da USP são grandes e quentes, as carteiras são pixadas, as paredes são sujas e a única coisa em que você pensa é “aula, por favor, acabe logo porque eu vou derreter”. Era um convite à desertiificação do pensamento: muito calor, sexta-feira, História Ibérica e o mundo inteiro lá fora cantando “Como uma coisa assim machuca tanto / tomou conta de todo o meu ser”. Ninguém estava muito ai para a História de Portugal e Espanha. Mas essa é uma das poucas coisas que posso garantir: História Ibérica, na USP, com a Vera, foi uma das melhores aulas que eu já tive na vida. Dava para suportar o calor por causa dessa aula. Boa parte do se chama de clássicos, incluindo heterodoxos, como Ortega y Gasset, li nesta aula. Também íamos direto à fonte. Em vez de ler o sujeito que comentou o texto de fulano, íamos aos originais. Foi assim que conheci José Antonio Primo de Rivera, o fundador da Falange Espanhola, o partido fascista espanhol.

O texto de Rivera é um dos manifestos políticos mais bem escritos, bem elaborados e bem assustadores que eu já li na vida. Vera pediu que lêssemos só a parte em que ele atacava o liberalismo. Muitos dos marxistas da minha sala ficaram bastante incomodados quando perceberam a semelhança do argumento do fascista espanhol com o dos marxistas ortodoxos (mas logo passou quando o Rivera passou a atacar os marxistas). Ele oferece o pacote fascista plus _eliminação das liberdades invididuais, poder absoluto para o Estado sobre os cidadãos, perseguição às minorias, o seguimento ao líder_ como uma consequência e como solução das falhas, que ele aponta como fundamentais, da democracia. Para ele, a democracia não para em pé e precisa ser substituída por um Estado corporativista para assegurar uma vida decentes aos cidadãos.

Pois bem, vocês já repararam no número de torcidas de futebol país afora que se denominam Falange? Tem um monte, só na primeira página do Google. Não é coincidência. Muitas compartilham os mesmos métodos dos fascistas _e não apenas as que se denominam falanges. São intolerantes, racistas, intimidam os adversários, seguem o líder, espancam, tem aquele famoso espírito de corpo “mexeu com um, mexeu com a família toda”. Diversas organizações são banidas e seus membros, processados e presos, por muito menos. Por que uma torcida de futebol tem salvo conduto? Futebol não precisa ser o reino irracional onde as piores paixões são expressas. O que é intolerável na vida precisa ser intolerável no futebol. Não dá para admitir no futebol o que a gente não admite em nenhum outra parte da nossa vida.

O problema é como enquadrar as torcidas na lei. Já ficou clara que simplesmente decretar seu fim, como foi feito em São Paulo, não funciona. As torcidas continuam se encontrando clandestinamente e a ação do Estado só reforça o espírito de corpo. Além da vigilância da polícia, absolutamente importante, é preciso fechar o cerco financeiro sobre essa turma. Torcidas organizadas vendem diversos produtos a seus afiliados e no mercado, em geral: camisetas, passagens de ônibus, carteirinhas. Elas não são igrejas, portanto têm de pagar impostos. As torcidas pagam impostos? Como estão as contas das torcidas? Outro ponto: quem doa dinheiro para torcida organizada registra a saída no Imposto de Renda? Os clubes que dão dinheiro à torcida registram a saída no balanço? De onde vêm o dinheiro das torcidas? Esses são alguns dos primeiros passos para fechar a fonte de financiamento, para atingir a vida real das torcidas. Tem de mirar nas transações financeiras, nos intermediários, nos mantenedores. Foi assim, por exemplo, que o Estado de Nova York conseguiu acabar com o jogo online. Era impossível impedir que as pessoas jogassem em cassinos virtuais no Caribe. Mas era bastante possível impedir que as operadoras de cartão de crédito transferissem dinheiro aos cassinos virtuais do Caribe. É difícil acabar com uma torcida organizada. Mas é possível fechar o cerco financeiro sobre ela. E sobre os times também.

É claro que fechar o cerco sobre a torcida não impede que os malucos entrem nos estádios. Mas é viável multar os clubes por pregação à violência, ao racismo, à homofobia dentro das suas cercanias. Se uma torcida, por exemplo, defende aos gritos o espancamento de adversários, a morte de oponente, se ofende negros, nordestinos e gays dentro de um estádio e o clube não faz nada, é conivente. Portanto, o clube e seus diretores são co-responsáveis. É preciso doer no bolso da pessoa física (diretor) e jurídica (o clube), fazê-los pensar duas vezes antes de uma declaração transloucada. Os diretores precisam ter um “incentivo” para fazer algo contra o discurso intolerante das torcidas nos estádios. Os clubes poderiam, quem sabe, negociar anúncios conjuntos na TV ou ações em comum nos intervalos da partida para minar as organizadas.

É impossível acabar com o extremismo, obviamente. Ainda existe uma célula da Falange na Espanha, neonazistas na Alemanha e fãs do paredão do Fidel Castro no Brasil. Mas é possível tirar as torcidas da zona de conforto em que estão hoje e reduzi-las a grupelhos barulhentos e inofensivos. Antes que cresçam demais, comandem os clubes e tenham acesso a uma quantidade nociva de dinheiro…

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  • Fui ao Pacaembu ontem e no intervalo um grupo de organizados pegou bumbo e foi até a grade do setor de cadeiras numeradas. Começaram a cantar: roxo é o caralho/preto e branco é a cor do centenário. Uma bobagem mobiliza esses manés. É por causa de gente como eles que os Médicis da história são possíveis.

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