O mensalão libertou o PT do compromisso com o óbvio

É tão fácil reconhecer uma idéia pronta ou uma roupa velha que a Lake Superior State University organiza, faz 35 anos,  uma bem-humorada lista de palavras banidas por mau uso, excesso de uso ou inutilidade. Palavras, como se sabe, merecem nosso respeito e admiração. Elas não são apenas a porta de entrada para as idéias de outras pessoas. Elas são as próprias idéias, e essa idéia nem é nova. Eu peguei emprestada do Wittgenstein. Entre as palavras e expressões maltradas em 2009 estão transparência, “nestes tempos econômicos”, czar, “ativos tóxicos” e qualquer neologismo que tenha Obama como sufixo ou prefixo, para classificar alguma medida adotada pelo novo hóspede da Casa Branca. Elas mostram nossa obsessão pela crise econômica e a nossa esperança de que uma eleição ou um pequeno número de medidas altere o nosso destino radicalmente, para usar um advérbio bem gasto. Nestes primeiros dias do ano eleitoral, cabe bem tomar pelas mãos uma idéia surrada pelos ocupantes da vez do Palácio do Planalto.
O Partido dos Trabalhadores nasceu de várias costelas. É uma confederação de interesses diversos que aprendeu, em algum momento dos anos 90, que a vitória eleitoral é um monstro de três pernas: unidade interna, bandeira clara e muito dinheiro. Só assim foi possível colocar de pé e na estrada o plano, legítimo, que faz parte dos sonhos de qualquer partido em qualquer país democrático do mundo, de ocupar a Presidência da República. Só que o monstro cobra a fatura a juros de cartão de crédito. O dinheiro, todo mundo já sabe, deu em mensalão. A bandeira clara deu em PAC e Bolsa Família. E a unidade interna, muito cara à narrativa que o PT construiu para si, de partido “concentrado em nome de um projeto de transformação do Brasil”, deu na criação de inimigos comuns.
Na década de 90, eram os políticos corruptos, os banqueiros, os empreiteiros e todas as pessoas e instituições que pudessem, de alguma maneira, ser associadas negativamente ao governo de Fernando Henrique Cardoso. Porém, quando o PT e Lula foram eleitos para o Palácio do Planalto, a equação, que já não fechava faz tempo, ruiu como um balanço do Lehman Brothers. Os petistas passaram a confraternizar com políticos de currículo tão extenso quanto duvidoso e a mimar com taxa Selic e licitações alguns banqueiros e empreiteiros. Nada de  muito novo para quem acompanhava as administrações do partido país afora. O PT tinha alguns projetos diferentes dos outros partidos, mas suas práticas, não. Porém, o efeito foi devastador quando elas foram expostas à luz do dia, em escala federal, provocando grita e baixas nos quadros da sigla.
Por isso, olhando no retrovisor, o mensalão foi uma benção para Lula e para o público interno do PT. As contradições, os discuros dúbios e inseguros desapareceram. Em vez de explicar os fatos, o PT mirou no mensageiro e forjou uma nova unidade em tempos de crise. Basta passar os olhos pelos principais sites de militantes do PT para ver que eles só falam naquilo: mídia. Caixa dois? É por causa da mídia, que criminaliza as doações legais. Alianças espúrias? Culpa da mídia, que não defende a reforma política. Obras paradas? Culpa da mídia, que só vê o lado ruim das coisas. Veículos de comunicação e jornalistas são vilanizados, e o estoque de falácias transforma crítica em conspiração. O único jeito de não ser classificado como golpista, vendido, reacionário, derrotista ou mau caráter é rechear o seu texto de crítica ao governo com apostos de reconhecimento às qualidades do governo Lula e pedidos de desculpas por todos os erros que já foram cometidos contra Lula e o PT. Como se todos os textos tivessem de pagar pedágio a quem nada mais é do que uma pessoa a quem damos um cargo público  _por período determinado_ para desempenhar algumas funções. A diferença entre Lula e o fiscal da Receita, além do óbvio escopo das funções, é que o fiscal tem estabilidade no cargo. Lula e o PT não merecem tratamento especial da mídia. Eles não compõem uma corte a quem os súditos devem prestar deferência, humilhados diante da sua grandiosidade e benevolência. Lula não é maior do que o Brasil. Ter de escrever isso é triste porque tudo isso deixou de ser óbvio. E é ainda mais deprimente notar que o mensalão libertou grandes alas do PT do mínimo compromisso com o óbvio. A criação do inimigo comum deu nesta nova idéia. O único black-tie que saiu, fresquinho, do armário ideológico do lulo-petismo nestes últimos anos foi feito com retalhos de flanela dos anos 90.

2 Comentários

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  • Meu Deus, não tinha visto que esse comedor de cocô do Paulo Henrique escreveu que o Lula é maior do que o Brasil! Que lixo! Seu texto é daquelas obviedades inteligentes que as pessoas esquecem de notar. Ainda mais aquelas que por muito tempo dividiram anseios nossos e que agora comungam com tudo aquilo que continuamos detestando. Abraço

  • Essa do PHA foi de doer, hein? Quando o financiador do PHA (LRDemarco) ordenou, ele mesmo alcunhou Lula de “o presidente que tem medo”. Abram as comportas!

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