01 de janeiro de 2010
Cantando May Way e o Taj Mahal nupcial
A caixa de cereal, as xícaras e as tijelas estão em cima da mesa. A mesa está coberta pelo pano de prato quadriculado em vermelho e branco. Gotas d’água escorrem pelo lado de dentro da janela enquanto tomamos o café da manhã. Viro a cabeça e olho para a cozinha. As panelas estão em cima da pia, ao lado da rice cooker e da kettle. O armário, a geladeira, o forno/microondas/assadeira, o exaustor, as duas bocas do fogão. Perfazem todos o mesmo bloco compacto e branco que deixa a casa com cheiro ora de alho poró ora de toucinho ora de lingüiça alemã ora de berinjela recheada ora de tikka masala ora de cebola ora de arroz-com-cenoura, e sempre cheira bem, mas nunca deixa cheiro de chocolate (embora não falte chocolate, chocolate quente, muffin e qualquer coisa feita de cacau, qualquer coisa que me dê alergia, qualquer coisa que eu coma até o fim, qualque coisa que faça a Bárbara perguntar “Sério que já acabou? Sério, respondo”).
Moramos em um quarto estilo “com-tudo-dentro”. A cama é daquelas de filme japonês. Fica dentro de um armário, guardada o dia inteiro. Antes de dormir , abrimos as portas da felicidade e puxamos a cama abaixo. A mesa do café da manhã tem dobradiças, é bom dizer. Se a cama está aberta, a mesa está fechada, e as duas cadeiras devem ficar dentro da escrivaninha, nos espaços onde não há gavetas: porque há gavetas até onde o olhar alcança. Os ouvidos também vão longe. Escutamos todos os barulhos que vem do banheiro _sem perder lo encanto jamás (sem pôsters do Che Guevara também, faça me o favor, mas com fotos dos nossos amigos em um porta-retratos com seis entradas que ganhamos dos nossos amigos. Aliás, por causa do Ano Novo, temos fotos novas em casa: um monte de cartões postais, presente de uma madrugada gelada, três horas da manhã, enquanto caminhávamos pela cidade barulhenta, decorada com garrafas vazias jogadas pelo chão e filas de gentes no Súbito atrás de um lanche digno por duas libras no primeiro dia de 2010. Fomos atrás de neve, vejam só, e ganhamos cartões postais. Acho justo. Gostei ainda mais).
Nossos amigos de cá são parecidos com os nossos amigos do Brasil. Especialmente quando eles dançam “Na Boquinha da Garrafa” (peruanos conhecem a Bahia selvagem), “Jorge Ben Jor” (italianos), “Tribalistas” (os dinamarqueses merecem nosso perdão) e acham Sidney Magal um sujeito mui interessante _alguns poderiam até fazer a dança do ventilador. A única coisa que nos separa é o requebrado. O tipo, não a qualidade _provavelmente a mesma. Mas a gente sabe cozinhar. Faz tutu de feijão com couve e lingüiça genéricos. E a gente também está aprendendo a apreciar: tomamos cachaça húngara, comemos polpetone italiano, purê peruano e temos a sensação de que aquilo tudo é muito familiar.
Depois de três meses, amigos e, principalmente, do calorzinho bom direto de Campinas, uma brisa Bárbara, já posso chamar Londres de casa. Já mudei de saudades. Não sinto mais aquela que corta e amassa, mas a que joga adiante, a que faz a gente ter vontade de andar, andar, andar e sentir saudades das coisas boas que fizemos pelo caminho e que nos faz abrir um sorriso quando recordamos, que nos faz andar, andar e andar para reencontrar as pessoas das nossas vidas e contar as histórias que vivemos e escutar as histórias que viveram. Da casa sem copos ao futebol abaixo de zero.

e dinossauros e cafunés e atalhos e chuva fina na cabeça e pé que não esquenta nunca e galochas e horas e horas procurando o cobertor ideal e as promoções da amazon e as promoções da argos e as coisas todas que a gente quer levar na mala pro coração não esquecer e o henry, dear henry… nossa primeira casa. de muitas. cheia de vida. cheia de amor. cheia da gente =)
ciúmeee dos amigos daí!
e saudade tanta. dos dois.