26 de dezembro de 2009
O que o Boxing Day me ensinou
Enquanto eu esperava a Bárbara, uma mulher testava combinações de lenço sobre o rosto. Fazia laços, examinava as formas e tecidos, comparava com a cor da roupa que lhe cobria o corpo todo, exceto uma pequena parte do rosto. Quando a Bá chegou do provador, perguntei à minha antropóloga de plantão no Boxing Day: por que mulheres de burca se preocupam com moda? “Porque a moda é liberada dentro de casa, entre as amigas”, me contou a heróica dona do “Pés de Amora”, que não sucumbiu diante de casacos com 70% de desconto e resistiu a um sem número de cotoveladas na Primarck, uma espécie de Galeria Pajé mais barata, mais bonita e com dois andares, e nas outras lojas que liquidavam seus estoques neste 26 de dezembro, a data que marca a Independência dos consumidores de todo o mundo.
O dia depois do Natal, feriado na Inglaterra, reúne em alguns parcos quilômetros do centro de compras de Londres mais nacionalidades do que a ONU. A nação de compradores anda em marcha pela Oxford Street, presta reverência aos preços baixos das lojas de departamento, demonstra gana enquanto voa sobre roupas absurdamente baratas e canta seu próprio hino: a pechincha. Inglês é a língua dos negócios, do interior das lojas. Na rua se ouve uma orquestra de sotaques: yen e yuan fazem filas na frente da Swarovski ou da Gucci, petrodólares compram 30 bolsas em promoção na Zara, reais enchem malas para revender meias em Bento Gonçalves e libras compram jaquetas de rappers americanos e cuecas com frases como “Blow me. It is my Birthday”. A cerimônia das oferendas flui em filas na direção do caixa, incrivelmente parecidas com um congestionamento na Marginal Tietê (com a diferença de que você pode comprar uma meia na fila). A cerimônia termina quando o caixa (um imigrante como você) passa seu cartão.
O “Choque de Civilizações”, como dizia o Samuel Hutington, é sentido apenas nas costelas ou no empurra-empurra das lojas de departamento. Era comum ver nas ruas um trio no qual a mãe usava burca, a filha deixava ver o rosto e a filha se vestia como a Madonna do Iêmen (sem muito otimismo, por favor: a Madonna do Iêmen é uma moça bem comportada do Brasil). São pessoas que se adaptam ao mundo ocidental e também o moldam um bocado. Há tantos restaurantes indianos em Londres como italianos em São Paulo, e não seria exagero dizer que há tantos restaurantes afro-caribenhos na periferia da cidade quanto há restaurantes japoneses em São Paulo. O consumo e a imigração são grandes inimigos do terrorismo e das tensões entre potências, como China, Rússia e EUA. Com dinheiro no bolso, as pessoas descobrem a liberdade. Com liberdade para deixar seus países, descobrem a diversidade, a justiça e a tolerância. Mas é preciso que muita gente tenha dinheiro no bolso, que governos e eleitores não tratem imigrantes como inimigos para dissolver o caldo de tensões, preconceitos e rancores acumulados por gerações. Não é de repente. O rapaz nigeriano que tentou explodir um avião rumo aos EUA morava em Londres, estudava engenharia em uma faculdade bem perto de casa e era filho de banqueiro poderia ser citado como contraexemplo. Longe disso. Para cada rapaz como ele há milhares de outros que estão muito confortáveis nas grandes cidades do Ocidente. Eles se deixaram seduzir pelo norte assim como nossos antepassados, oriundos do que tinha restado de uma Europa destruída, abraçaram o Brasil. A imigração não é uma ameaça. É uma chance.

PERGUNTA
Laço cacto abraço. Londres é um poste de bronze? É uma esquina, Leandro? É um circo armado? É a pele de uma ovelha, Loba? É um picado? É uma batata?
RESPOSTA
O lenço manuseado, Laércio, não é um parágrafo frouxo. Soletra as tranças de Rapunzel. O lenço. França, Oropa e Bahia.
o estado é mais tenso, né? só de pensar na discussão de proibir ou não o uso do lenço nas escolas públicas a gente já vê isso muito claramente. acho que foi o salihns (quando eu lembrar, te conto, laura) que fez essa discussão: das diferentes posturas que os estados inglês e francês adotaram em relação a isso. ele queria mostrar os efeitos reais do que cada estado entende por integração e, bom, acho que pelos seus exemplos podemos ter uma idéia do resultado das políticas aplicadas aí e aqui. mas é aquela coisa: no brasil a gte não teve apartheid, mas tb não teve democracia racial… =(
quando vc vier pra paris, vai notar uma faceta diferente. londres é bem mais cosmopolita e a cultura inglesa/americana, não sei pq (pergunta pra Bá! e me conta a resposta q eu tb quero saber) assimila estrangeiros com mais facilidade que a francesa. nos EUA, por exemplo, o cara é ‘ítalo-americano’, ‘afro-americano’. aqui é comum os filhos de famílias portuguesas nascidos na França não falarem mais português, ou falarem muito mal, pq os pais preferem q eles saibam bem o francês e fiquem ‘mais integrados’. na televisão no UK a gente vê gente de toda cor. na tv por aqui, raramente entra alguém com cara fora dos padrões ‘do q é francês’. é uma cultura q assimila anulando o q veio antes. e mesmo q vc tenha cara q passe por francês, o sotaque é sempre a primeira coisa apontada em qq conversa. e olha q em paris tem gente do mundo inteiro. muita gente do sri lanka, da costa do marfim, da nigéria, da argélia, da china. mas o clima em relação a isso é bem mais tenso q em londres.