O futebol, o certo e o errado

Razoável
Hoje, às 16h40, olhei pela janela e estava escuro. Os postes, os ônibus de dois andares, os carros e os anúncios publicitários iluminavam as árvores e suas folhas, iguais ao desenho na bandeira do Canadá. A noite caiu enquanto eu tinha uma aula sobre um assunto tão chato que não vou entediá-los e entendiá-las logo nos primeiros parágrafos. Mas tenho de fazer a ponte. Basicamente, a discussão versou sobre normas, valores, e sua aplicação ao mundo real. O mundo como ele e como deveria ser. E, claro, se essa discussão faz algum sentido.
No meu “mundo como ele deveria ser”, o sol jamais desapareceria antes das 18h. Mas não há meios de mudar o movimento da Terra ao redor do sol e seu movimento de rotação. Não é uma questão de justiça. É irremediável. Só que as comparações com a natureza enganam. Nem tudo é natural. Alguns movimentos da vida não imitam o movimento da Terra. Podem ser freados. Devem ser repensados. Como dizer que o futebol é apenas emoção, que vale tudo pela vitória, que tribunais tendenciosos são um fato da vida. Não são. Esse discurso maroto encobre o irracionalismo, o arrivismo, o conformismo que muitos torcedores não aceitamos na nossa vida cotidiana. E não vejo o porquê de aceitarmos a sacanagem no futebol. E, pior do que aceitar a sacanagem, é justificar a sacanagem porque ela foi feita contra seu adversário.
Sim, sou um moralista. Acho que, para a maior parte das decisões nesta vida, existe o certo e o errado. Matar é sempre errado. Roubar é sempre errado. Mas é preciso dar um passo antes de reconhecer que existe o certo e o errado. É preciso chamar as coisas pelos nomes que elas têm. Só isso permite distinguir o certo do errado. Procurar as últimas definições no dicionário para justificar um ato vergonhoso é um ato vergonhoso e dá margem às relativizações tolas. Nesta quarta, o atacante da França ajeitou a bola com a mão e tirou a Irlanda da Copa do Mundo. É errado, não importa o quão mais legal é ter a França na Copa do que a Irlanda. O Superior Tribunal de Justiça Desportiva fez mais uma das suas lambanças. Me dói reconhecer, mas o São Paulo (que foi severamente beneficiado pela arbitragem neste campeonato) foi prejudicado. O tribunal não tem critério. É preciso dizer isso. É preciso reconhecer isso. Foi errado e ponto.
Talvez eu seja um chato. É bem provável. Nunca fui o cara mais legal da sala. Nunca tive essa pretensão. Provavelmente vou escutar que a discussão razoável não cabe no futebol. Que o primeiro compromisso de um torcedor é com o seu time. Que o time é a única base da moralidade e que cada um tem a sua verdade (essa frase, aliás, ativa meu modo preguiça e tampa, automaticamente, os meus ouvidos. Quem usar essa frase vai direto para a caixa de spam). Desculpe, mas time de futebol não é o sol e terra. Não segue uma jornada imutável pelo universo. A gente já tentou fazer de outro jeito? É possível fazer de outro jeito? Eu acho que é. E  pode ser bem mais agradável do que essa discussão tola, como se os torcedores encarnassem tucanos e petistas na sua batalha cada vez mais bem sucedida em torturar as palavras, os valores, as normas, até que eles confessem o que eles bem entendem. O mundo pode até ser um Fla-Flu de domingo, um Palmeiras e Corinthians. Desde que as arquibancadas possam ser misturadas. O único esporte que o esporte não pode ser é o vale-tudo. E isso vale para a vida também.

Hoje, às 16h40, olhei pela janela e estava escuro. Os postes, os ônibus de dois andares, os carros e os anúncios publicitários iluminavam as árvores e suas folhas, iguais ao desenho na bandeira do Canadá. A noite caiu enquanto eu tinha uma aula sobre um assunto tão chato que não vou entediá-los e entendiá-las logo nos primeiros parágrafos. Mas tenho de fazer a ponte. Basicamente, a discussão versou sobre normas, valores, e sua aplicação ao mundo real. O mundo como ele e como deveria ser. E, claro, se essa discussão faz algum sentido.

No meu “mundo como ele deveria ser”, o sol jamais desapareceria antes das 18h. Mas não há meios de mudar o movimento da Terra ao redor do sol e seu movimento de rotação. Não é uma questão de justiça. É irremediável. Só que as comparações com a natureza enganam. Nem tudo é natural. Alguns movimentos da vida não imitam o movimento da Terra. Podem ser freados. Devem ser repensados. Como dizer que o futebol é apenas emoção, que vale tudo pela vitória, que tribunais tendenciosos são um fato da vida. Não são. Esse discurso maroto encobre o irracionalismo, o arrivismo, o conformismo que muitos torcedores não aceitamos na nossa vida cotidiana. E não vejo o porquê de aceitarmos a sacanagem no futebol. E, pior do que aceitar a sacanagem, é justificar a sacanagem porque ela foi feita contra seu adversário.

Sim, sou um moralista. Acho que, para a maior parte das decisões nesta vida, existe o certo e o errado. Matar é sempre errado. Roubar é sempre errado. Mas é preciso dar um passo antes de reconhecer que existe o certo e o errado. É preciso chamar as coisas pelos nomes que elas têm. Só isso permite distinguir o certo do errado. Procurar as últimas definições no dicionário para justificar um ato vergonhoso é um ato vergonhoso e dá margem às relativizações tolas. Nesta quarta, o atacante da França ajeitou a bola com a mão e tirou a Irlanda da Copa do Mundo. É errado, não importa o quão mais legal é ter a França na Copa do que a Irlanda. O Superior Tribunal de Justiça Desportiva fez mais uma das suas lambanças. Me dói reconhecer, mas o São Paulo (que foi severamente beneficiado pela arbitragem neste campeonato) foi prejudicado. O tribunal não tem critério. É preciso dizer isso. É preciso reconhecer isso. Foi errado e ponto.

Provavelmente vou escutar que a discussão razoável não cabe no futebol. Que o primeiro compromisso de um torcedor é com o seu time. Que o time é a única base da moralidade e que cada um tem a sua verdade (essa frase, aliás, ativa meu modo preguiça e tampa, automaticamente, os meus ouvidos. Quem usar essa frase vai direto para a caixa de spam). Desculpe, mas time de futebol não é o sol e terra. Não segue uma jornada imutável pelo universo. A gente já tentou fazer de outro jeito? É possível fazer de outro jeito? Eu acho que é. E  pode ser bem mais agradável do que essa discussão tola, como se os torcedores encarnassem tucanos e petistas na sua batalha cada vez mais bem sucedida em torturar as palavras, os valores, as normas, até que eles confessem o que eles bem entendem. O mundo pode até ser um Fla-Flu de domingo, um Palmeiras e Corinthians. Desde que as arquibancadas possam ser misturadas. O único esporte que o esporte não pode ser é o vale-tudo (inclusive no gramado, como o Palmeiras mostrou contra o Grêmio). E isso vale para a vida também.

3 Comentários

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  • matar é sempre errado? matar em legitima defesa é errado? se alguém for matar seu filho e você puder salvar a vida dele matando o assassino você não faria isso?

  • Peter, claro que sim, eu tentaria salvar a vida do meu filho. No entanto, por mais justa que seja a causa, e por mais que as pessoas me compreendam, nao diminui o valor do ato em si: matar ‘e sempre errado. Compreender alguma coisa nao significa aceita-la.

  • recomendo pra você este link: http://www.justiceharvard.org/

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