Futuros amantes

Sai do cinema cantarolando “Não se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios
No ar”.

“Amantes”, de James Gray, com Joaquin Phoenix, Gwyneth Paltrow e Vinessa Shaw, é um elogio à rotina. O filme é emoldurado pelo fantasma de um suicídio que nunca acontece e de felicidades que mal se desenvolvem. Seus personagens estão sob a sombra dos amores tranqüilos e a luz dos amores frustrados. É um atestado charmoso de conformismo. Bem fundamentado também: os momentos emocionantes, grandiosos, se desvelam poucas vezes nas nossas vidas. A balela de auto-ajuda de que “cada momento é único” é isso, uma balela, uma aspirina contra as nossas frustrações acumuladas. Um dia é sempre parecido com o dia anterior. O trânsito não vai sumir de repente nem seu chefe vai te chamar na frente dos colegas e dizer: “Esse é o cara!”. Os minutos são parecidos entre si e o tédio é um sentimento constante, irrefreável, incontrolável. O mérito do filme é enfrentar a nossa necessidade de sucesso barulhenta ou frustração redentora. Não, não adianta esperar: o mais provável é o que o nada não vire alguma coisa.

Mas esse também é o nó da história. Falta fantasia. Falta um pouco de esperança de saber que o amor não tem pressa, ele pode esperar, mas que “amores serão sempre amáveis / Futuros amantes, quiçá / Se amarão sem saber / Com o amor que eu um dia / Deixei pra você”. Por isso o filme não saiu da categoria de “bom” para “excelente”. Todos nós ansiamos por uma alegria arrebatadora. E sabemos que o amor traz dessas coisas. Todos vivemos histórias inexplicáveis onde o improvável acontece. E sabemos que elas não são tão raras assim: encontramos o amor das nossas vidas em festas em dias chuvosos e grandes amigos em bares sujos, ordinários, dias antes de um grande sofrimento começar. Nós assoviamos, escrevemos emails fofos e gastamos um tempão com bobagens tão inúteis quanto essenciais, que colorem os espaços vazios cortados pela rotina extenuante. Ao extirpar o imponderável, “Amantes” se afasta da vida real e dorme nas gavetas onde depositamos nossas tristezas distorcidas pela amargura. O mundo real é feito de um bocado de fantasia. O ceticismo exagerado não extrai a verdade sobre as nossas vidas. Apenas lhe acrescenta doses amazônicas de banalidade, um defeito imperdoável. É possível filmar um negócio desses sem ser piegas? É. “La Dolce Vita”, de Fellini, por exemplo.

2 Comentários

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  • “Eu quero a sorte de um amor tranquilo, com sabor de fruta mordida…e algum veneno antimonotonia”

    É! A grande sacada de qualquer artista é colocar em palavras aquilo que a maioria dos mortais sequer consegue entender que sente, cérebros toscos, quadrados, vendados pela praticidade, preconceitos e fiéis ao ‘modus operandi’ das cartilhas de ‘como a vida deve ser vivida’

    Veja essa outra pérola do Drumond:

    ‘A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos,na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade.
    A dor é inevitável. O sofrimento é opcional.’

    Quando a gente deixa de se preocupar em viver o ideal, e se frustrar constantemente por não conseguir atingi-lo, bem , aí sim a gente se dá a chance de entender que o amor não tem pressa e pode esperar, e deixar doer um pouco porque isso também é bom e ajuda a gente a descobrir que amores são sempre amáveis e se reciclam e voltam e se transformam e não há porque ser prudente, egoísta e sem fantasia. Caramba! Sem fantasia é outra música do Chico!

  • São as bobagens q nos fazem acordar no dia seguinte, meu velho, O amor é feito de conversas inúteis em lugares irrelevantes. Ou talvez eu seja um desses românticos incorrigíveis. Abs!

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