Homenagem ao Vertigus
Houve um tempo em que eu e os meus amigos escrevíamos para nos divertir. Nessa época, a gente tocava Magal nas festas da turma e éramos viciados nos contos de Jorge Luis Borges. A ponto de criarmos um blog apenas com resenhas de escritores imaginários, e cada texto ecoava o nosso argentino predileto depois do Camaronesi (que era argentino, mas desistiu a tempo e decidiu jogar pela seleção italiana). Nem todos eram petistas, mas quase a maioria era de algum nicho de esquerda. Parecíamos céticos e até cínicos: colocamos em um de nossos professores, academicamente falando, a pecha de inimputável, tal como as crianças e os índios, porque ele desonestamente agia.
Nessa época surgiu o Vertigus, de vida curta, alguns meses apenas, mas talvez um dos exercícios mais legais que cada um de nós já fizemos. Era uma época em que a gente realmente não podia se importar menos.
Reparto, agora, um dos meus textos no Vertigus, que o Google nem mais aponta:
17.2.05
Ode ao grande argentino!
Por Carlos Miguel Bianchinni
Colaborador de VERTIGUS
Poucas pessoas no mundo são dignas de esculpir a resenha definitiva da obra deste grande mestre da literatura policial argentina. Uma delas sou eu. Não sucumbo a qualquer pedido, ainda que todos me honrem, mesmo os mais desaforados. Imaginem, porque trabalhei numa empresa de aço para pagar meus estudos literários na Universidade de San Diego, que o Instituto Brasileiro do Aço me pediu para escrever uma série de artigos sobre a poética dos metais. Recusei, é claro. Mas indiquei um amigo, que precisava do dinheiro.
Não foi o caso deste grande argentino nascido em Tucuman. Um caipira, nascido fora do cosmopolitismo de Buenos Aires. Um orgulho para um homem como eu, sempre carinhoso com os outros, um diferente que se porta como igual entre os iguais, ainda que ciente de sua genialidade. Quero dar a este grande argentino uma resenha que me orgulhe. E ele é um dos que mais podem se dar a este luxo, justamente porque admiro algumas de suas qualidades. Entre elas, a aversão completa ao que não seja nosso, genuíno, latino: ele tinha um dos mais impiedosos olhares sobre seus contemporâneos. Não é por outro motivo que retratou Jorge Luis Borges como um pistoleiro fracassado. Ele odiava Borges e seu cosmopolitismo empoeirado. Porque odiava, deu a ele um papel secundário, detalhesco, em sua única e maior obra, objeto desta resenha. Borges é o pistoleiro que desperta piedade em Juan Camiño, o herói do livro, na cena em que Camiño estupra a mãe de Borges e este tenta matá-lo, mas erra os tiros porque já estava ficando cego.
Mas, para que eu aceitasse escrever sobre sua obra, não bastava o ódio comum contra Borges e o nosso apego às coisas nacionais, ao jeito do povo. Há algo fonético que nos amalgama, no bom e belo sentido do amalgamar: a delicadeza com a qual ele retrava a democracia em seus escritos. Aliás, muito me agrada a campanha publicitária da rede americana de lanchonetes, a Burger King, e seu precioso slogan: “A democracia é grelhada”. Nada mais apropriado para um país tropical como o nosso, em que as bases de nossas peculiaridades foram forjadas sob um sol de submeter mamonas. Mandei até uma carta aos donos do Burger King elogiando a bela profissão poética na escolha das palavras “democracia” e “grelhada”. Outra campanha que muito me chamou a atenção foi a da cerveja Skol. Mais uma vez, o gênio criativo do brasileiro foi atingido por uma flecha galáctica de proporções nunca vistas, e o verso “a democracia é redonda” me fez parar de pensar por alguns instantes. Fascínio igual, só quando terminei de folhear “Babel de poemas – uma antologia multilíngüe”, de Carlos Freire. Ninguém nunca fez uma tradução do eslavo tão bela quanto a dele. Muito boa a escolha da LPM em publicá-lo. Freire é um amigo muito querido. Proporei a Freire um outro livro, em português, apenas com a tradução de grandiosos slogans publicitários e manchetes jornalísticas que elevem o caráter nacional. Não me importa que tenham sido escritas por mentes russas, desde que orem ao caráter brasileiro.
Diante dessa minha abundância de critério, não é por outro motivo que alonguei durante meses e meses de negociação exaustiva com os herdeiros, com a editora, com os jornais desta capital a publicação da resenha definitiva do homem que, aos 20 anos, era o único que tomava a defesa de Pablo Neruda contra as investidas covardes de Borges em difamá-lo como um autor sem nenhum talento, afora o de marketing. Um argentino contra um argentino, por um chileno. Mas um chileno de alma argentina, ao contrário de Borges, um argentino que aprendeu inglês antes do espanhol: quando leu o maravilhoso Dom Quixote na língua em que fora escrito por Cervantes, achou que se tratava de uma tradução mal feita do inglês, suprema heresia! O resultado é que vocês, leitores deste precioso site de divulgação restrita, dedicado às pessoas de bom gosto, têm o privilégio de ler, pela primeira vez em português, algumas palavras sobre a vida e a obra de um homem que passou boa parte de sua vida na Universidade de Buenos Aires, entrincheirado contra os homens e mulheres que objetavam transformar a Argentina em uma enorme Suíça, sem identidade, perdida nas cordilheiras e separada da consciência comum de seus irmãos uruguaios, chilenos e brasileiros. Desculpem-me os paraguaios, mas nada me tira da cabeça que vocês são a nossa Taiwan: não passam de uma província rebelde que Duque de Caxias não conseguiu anexar.
Estabelecidos os critérios, os que unem este vigoroso torcedor do Boca Juniors a mim, um fanático botafoguense, façamos algumas ressalvas aos outros brasileiros que quiseram tirar de mim a prioridade em comentar o escrito de dois volumes de mil páginas sobre as façanhas de Juan Camiño. Um dele é Carlos Heitor Cony – sim, eu sou um dos únicos neste mundinho literário que tem a salutar mania de dar nome aos bois – que fez o prefácio do livro daquele comediante de quinta categoria chamado Renato Aragão. Fica aqui a indicação: Cony, leia “Conselhos aos escritores de meu tempo”, onde estabeleço as normas cultas da resenha e do comentário e onde professo os dogmas de brilhantismo que unem os escritores os mais diversos. Basta ver que todos, ao contrário de você, escrevem com sujeito, verbo e predicado.
Vamos, não nos demoremos mais, falemos deste grande escritor. Porém, sou afeito a idéia de que o escriba deve ser o mais honesto possível com seus leitores. Como não pressuponho que todos os leitores deste site tenham tido a oportunidade de me conhecer, já que fui banido dos livros escolares e da grande mídia pelas resenhas contra Machado de Assis e a sua mania de defender o adultério, o homossexualismo e o aborto, falarei um pouco de mim.
Nasci em Copacabana, donde, aos 5 anos de idade, eu já sabia de cor as flexões verbais e recitava alguns poemas de Tomas Antônio Gonzaga. Minha carreira foi meteórica. Fundei o “Coletivo de Escritores pela Liberdade”, em que pretendíamos pedir ao presidente Dutra para que o governo subsidiasse a publicação de novos autores. Li Beckett e Joyce, me convenci do desfacelamento do mundo com Deleuze, amei a alteridade de Foucault e criei um dos primeiros movimentos de contestação contra a ditadura militar, o “Movimento dos Poetas”, simples assim, que pretendia espalhar poesia pelo Planalto Central para sufocar o espírito castrense dos mandatários da nação. Obviamente fomos bem sucedidos. Dias depois assumiu o presidente Figueiredo, e a democracia, a bela e doce democracia, já raiava sobre nós. Minhas amizades são as mais díspares, e variam entre Saramago e Tayeb Salih, passando por J.M. Coetzee e os herdeiros de Kafka.
Um homem de bom gosto, sim, este sou eu. Podem ficar tranqüilos. Comprem o livro do maior mestre da literatura policial argentina e terão feito uma das melhores aquisições culturais de vossas vidas. Recomendo, a vocês também, a compra do meu livro: “A democracia tostada”, em que reflito sobre a dialética entre o popular e o poético nas obras de Piazzola e Chico Buarque.
