A seleção brasileira não é filha de chocadeira
A seleção brasileira é como um pai distante, com o qual não temos muito contato. Sabemos que devemos gostar dele, mas não como. Comemoramos as grandes datas, mas a rotina é plena de indiferença contida, cheia de frustração e mágoa. Só vemos o pai e a seleção em intervalos espamódicos.
Essa distância sobre a qual os cronistas reclamam entre a seleção e os craques é natural. Com uma família nova, o velho, mesmo que seja o filho, não exerce a mesma atração do desafio. A diferença é que, na velhice, estes pais procuram um acerto de contas. A seleção brasileira não envelhece. Ao menos não enquanto o Brasil tiver tantos jogadores famosos, globais, que são conhecidos por qualquer audiência. Os melhores jogadores vão para a Europa como os pais trocam o convívio dos filhos por uma proposta de emprego. São valores.
Os mesmos cronistas esportivos que reclamam da mercantilização da camisa verde-e-amarela atacam os clubes pela ausência de jeitos de ganhar dinheiro. Mas a CBF, como uma empresa, funciona bem. Descobriu seu filão nos amistosos ao redor do planeta. Faz um bom marketing. Ganha dinheiro, fecha as contas, sobra para investir até em Copa do Mundo.
São as mesmas pessoas que elogiam, em nome do profissionalismo, clubes que tomam jogadores em final de contrato de outros times. Ou que admiram a capacidade de os times fazerem amistosos na Índia ou no torneio de Dubai. Como são capazes de vender bem seus atletas para a Europa. Exigimos da seleção o romantismo que extirpamos de nossas vidas. Quem não aceitaria uma boa proposta, vitaminada por milhões de euros? Por que com a seleção seria diferente?
A mercantilização do time me incomoda, claro. Mas o que me incomoda mesmo é que os críticos da seleção não notem a sua própria contradição. A seleção frutificou desta maneira, ora bolas, dentro dos valores que cultivamos. Não é filha de chocadeira.

Mas é fato que mesmo para os padrões atuais essa seleção brasileira não tem craque nenhum. Concordo com o Lula: naturalizemos o Herrera. Pelo menos esse tem brio.