Lula teria direito a cota em universidade? Ou por que as cotas para negros criam desigualdades
Ika é da Geórgia. Não o Estado americano, mas o país onde nasceu Stálin (não é algo do qual ele se orgulhe). Ele joga futebol aos domingos comigo e, depois de mais ou menos cinco meses dividindo o mesmo campo sintético, tomou coragem para me perguntar: “Qual a porcentagem de italianos no Brasil?”. Não entendi a pergunta. “Você sabe, qual a porcentagem de italianos, alemães, negros, eslavos, japoneses na população brasileira?” Não tenho a menor idéia. “Como assim? Vocês não sabem qual a porcentagem por nacionalidade?” Não, ninguém faz essa conta até porque você pode pertencer a várias categorias ao mesmo tempo. “Como assim?” Casamentos mistos, você sabe: a pessoa é descendente de alemães e casa com um descendente de italianos. Ou, no meu caso: o lado paterno é todo italiano. Mas o lado de minha mãe tem brancos e mulatos. Na mistura, eu nasci branco de cabelo enrolado. Meu tio materno puxou meu avô, mulato da Paraíba, e casou com a minha tia, que é negra. Eu tenho dois primos de primeiro grau que são negros. “Seu país é muito complicado para mim.” É mesmo, e essa é a graça. Essa complexidade que deixa atônito o meu colega da Geórgia tem de ser levada em conta no torto debate sobre cotas, que mira o Brasil do século 19, não o Brasil do século 21.
O resultado desse anacronismo é a criação de novas formas de desigualdade social. Os setores organizados da sociedade ganham, deixando à margem uma multidão que simplesmente não se enquadra em nenhuma das categorias de 150 anos atrás. Por exemplo: o filho de um casal de bolivianos do Pari. Muitos bolivianos trabalham 14, 15 horas por dia e ganham menos de um salário mínimo por mês. Seus filhos teriam direito a pleitear emprego público por meio de cotas? No debate atual, não, porque não são negros, não estão no país por causa da escravidão. No debate atual sobre cotas, Lula, o presidente, não teria direito a entrar em uma universidade pública por meio de cotas porque é branco. Um branco que veio de uma família miserável, mas branca, toda misturada no interior do Nordeste. Obviamente alguma coisa está errada nessa equação. Obviamente é preciso ajudar as pessoas mais pobres a deixar a miséria, e a educação é uma arma poderosa. E obviamente os pobres organizados têm os mesmos direitos dos pobres desorganizados. Mas o debate sobre as cotas se move como se o país estivesse dividido em categorias muito claras, bem delimitadas, claramente definidas, estáticas. Não há espaço para bolivianos nem para nordestinos no debate.
A sociedade é dinâmica, os problemas mudam, a mobilidade social é intensa. As cotas para negros em universidades, empresas e governos terão certamente um impacto profundo nessa mobilidade. Milhares de negros pobres vão, felizmente, ter mais oportunidades na vida do que tiveram seus país, e esse resultado certamente é muito positivo. O problema é que a criação de cotas para negros tem como pressuposto uma sociedade embalsamada, parada no tempo. A realidade é que o Brasil continua recebendo levas e levas de imigrantes pobres. Recentemente, o governo federal deu anistias a milhares de imigrantes ilegais, muitos deles asiáticos, latinoamericanos e africanos. A migração interna também é gigantesca. Poucas pessoas no Brasil podem dizer que sua família está no mesmo lugar faz 300 anos. Privilegiar um grupo da sociedade em detrimento de outros grupos é jogar o problema da desigualdade para frente. É como pagar o almoço com o dinheiro do jantar. E o problema é como garantir que as pessoas tenham dinheiro para pagar o almoço e o jantar. O problema atual do Brasil não é o rei africano que escravizou africanos nem as chibatas na senzala. O problema do Brasil é como tirar as pessoas da miséria, integrá-las à sociedade e torná-las parte da complexidade que meu colega da Geórgia não consegue entender. Do jeito que está, o debate das cotas é uma fábrica de desigualdades. As favelas repletas de mulatos, hoje, serão as favelas tomadas por bolivianos amanhã. As cotas são necessárias, sim, mas para todos os pobres, e não apenas para os pobres organizados.



