Os três ramos

Durante alguns anos, os três ramos da minha família formaram três retas paralelas. Eu tinha dificuldades para me equilibrar em cada uma delas e só me preocupava em encontrar os pontos esparsos, e vazios, distantes das zonas de confronto e das sombras que se espalhavam, se encontravam e produziam atrito frio e severo, especialmente forte quando os dias eram tingidos de azul marinho, a cor do terno dos advogados, e duravam muito mais do que os dias de hoje porque as horas se alongavam ou se comprimiam de acordo com os encontros na Justiça, os brinquedos ganhos e abandonados, as pessoas que vinham e desapareciam e depois ressurgiam com expressões duras nos rostos, logo desmanchadas pelos meus sorrisos assustados. Até que o juiz distribuiu a minha vida em áreas rigorosamente demarcadas e decidiu que eu deveria ter apenas uma casa. Foi a época em que fui morar com meu pai.

Hoje eu sei que foi a melhor decisão, provavelmente a única possível entre dois pólos para os quais eu e minha mãe nos confundíamos. Meus avós maternos ainda choravam o dia do acidente, erguido com agonia contida e dois erros fatais, um do motorista e outro do médico. O ressentimento brotava no lado do meu pai e no da minha madrasta, em graus variados, pelo fato de eu existir. Eles não tinham raiva de mim, mas das circunstâncias em que eu nascera. Dia depois de dia, aos poucos, notei que o único jeito de dissipar aquela névoa cinza à beira do abismo era envolver as famílias em palavras e gestos. Eu mentia sobre minha adaptação à escola e aos meus novos amigos e familiares, sobre os jogos de futebol e o videogame recém-comprado nas visitas aos meus avós maternos. Não era uma questão de princípios, para preservar meu pai.   Não chegaria tão longe nem seria tão ambicioso. Eu precisava sobreviver (embora eu não soubesse como). Meu pai ergueu um muro de afetos ao meu redor. A construção era fina e firme, mas eu não ousei tocá-la. Ele pediu ao professor de educação física que eu fosse dispensado das aulas para não me machucar. Vetou que eu saísse do apartamento rumo à área de lazer sem estar acompanhado. Graças à minha madrasta, ele abriu os recursos da família aos meus amigos e, com alguns agrados distribuídos a crianças e adolescentes populares, fui aos poucos bem acolhido pelos colegas das escolas por onde passei. Aceitei cada decisão como quem atravessa um deserto salgado e amarelado com alguma encomenda preciosa, embora sem entender os sentidos ocultos daquela tábua de proibições. Meu pai nunca perguntou a minha opinião. Se perguntasse, diria “tudo bem”. Descobri que a mentira me vestia bem e me tornei ponto de equilíbrio e um tanto indiferente à medida em que os anos se acumulavam. Era seguro, de algum modo.

Aos poucos, a linha mais hostil, a da família da minha madrasta, esmoreceu. Coloquei a minha mãe em um compartimento que só era aberto diante dos meus avós maternos, quando comungávamos da falta dela. A única vez que os irritei, levemente, foi ao sugerir que felicidade e isolamento eram inseparáveis. Eu não tinha nem 16 anos completos e o acidente ocorrera há mais de 7 anos, mas eu poderia descrever em detalhes as cartas que trocávamos quando estávamos ressentidos, as tardes em que limpávamos a casa, as manhãs em que ela ia ao gol quando eu queria jogar bola na quadra do prédio, as noites em que eu desenhava nas paredes e ela tocava músicas no computador. Ela ia comigo à missa da escola e me comprava as revistas do Homem-Aranha. O atropelamento aconteceu um mês antes de nos mudarmos para Londres, onde minha mãe seria a maior DJ brasileira da Europa, eu acho. Por alguns sentimentos que não sei descrever, talvez uma mistura de respeito, medo e frieza, nunca contei essas histórias à minha madrasta e incorporei alguns hábitos dela, como a afeição por enciclopédias. Os livros supriram minha necessidade por um mundo, exceção ao planeta da minha mãe. Provavelmente minha madrasta começou a se ver em mim.

Nos livros não havia DJs, motoristas bêbados nem pais que traem a mulher em noites cuja cor desconheço. Por outro lado, conheci a história de Roma e dos bárbaros, especialidades da minha madrasta, aprendi a jogar xadrez e a calcular equações de segundo grau (antes dos meus colegas de sala) e fiquei confuso sobre se o Brasil tinha sofrido um golpe (tese de doutorado do meu pai) ou vivido uma revolução (com o apoio de meu avô materno) em 1964. Tentei inventar um imã elétrico, explodi o interruptor de casa e queimei a fiação do vizinho. Por sorte, na mesma noite caiu um raio no prédio e o velho para-raios foi dizimado. Nessa época, aprendi a acreditar em livros e em coincidências. Eu poderia fazer qualquer coisa:  desejar o gol da vitória do meu time aos 44 do segundo tempo, tomar banho com roupa de frio ou misturar laxante na comida da meia-irmã, travessuras encobertas pela minha madrasta nos poucos momentos em que esbocei descontentamentos, logo contidos. Minha madrasta não era apenas esforçada. Ela era a minha sorte, ela me explicava os verbetes da enciclopédia que eu não conseguia entender e não me forçava a sair do quarto para dar “oi” às visitas. Ela foi a única pessoa que soube do meu projeto de escrever um verbete sobre a minha vida. Enquanto a vida fluía no seu curso natural, meu pai nos observava à distância, entre papéis lidos e escritos. Eu tendia a achar que ele gastava seus dias em cartas para mim, que nunca chegaram.

O verbete começou a tomar forma no final da adolescência. Meu time estava prestes a ganhar um título depois de muitos anos, e cada uma das partes queria estar comigo, ao mesmo tempo, durante o jogo decisivo. Eu disse que sim, desde que eles estivessem reunidos em um único lugar. Não aceitaram, e eu ameacei torcer ou pelo São Paulo ou pelo Corinthians. Meu avô materno ficou furioso ao me imaginar vestido com a camisa tricolor, do time que, segundo ele, tentara roubar nosso estádio durante a guerra. Meus tios paternos não queriam perder um torcedor do Palmeiras na briga pela segunda maior torcida do Estado. A família da minha madrasta sofria em silêncio. A minha vontade lhes provocava impotência, e talvez por isso eles tenham sido os primeiros a ceder à minha proposta. Um a zero para mim. O próximo passo foi diluir a resistência do meu avô, que seguia esbravejando contra as pessoas que tinham lhe roubado o neto, não queria colocar os pés na casa do meu pai nem lhe passava pela cabeça deixar meu pai se acomodar em seu sofá. O pai da minha madrasta disse que eles poderiam assistir ao jogo com um casal de amigos, em um apartamento com as paredes pintadas de bege, de frente para o estádio do nosso time. Meu avô resistiu em nome de alguns princípios difusos, mas a minha avó o dissuadiu e nós fomos. Na verdade, acho que foi ele quem fez a minha avó convencê-lo. Dois a zero para mim, a vitória estava próxima, mas não era o suficiente para me levar ao título. O Palmeiras ganhou. Eu, não.

Meus tios paternos argumentaram com meu pai sobre a passagem do tempo, a urgência de superar os rancores, o meu isolamento e desconforto. Meu pai desferiu o contragolpe e disse que não poderia satisfazer aos meus desejos porque isso enfraqueceria o meu caráter. Ele disse que seu ato, no futuro, poderia forjar um bom temperamento. Eu era livre não só para escolher o time que quisesse, mas também para ir aonde quisesse, desde que ciente do peso das minhas decisões. Reforçou o argumento com a minha vida confortável, incomparável à sua juventude.  Por fim, das raras vezes em que o vi falando de si mesmo _ele e meus tios são feitos da mesma teimosia metalúrgica e discrição monástica_, meu pai disse que não gostaria de sofrer o desdém do meu avô paterno por causa do sotaque carregado ou relembrar de como a minha mãe o tinha arrancado da vida dela e da minha. Fui tomado de raiva e quase abri a porta para desmentir meu pai, mas fraquejei, sem argumentos. Meu conhecimento sobre o casal se esgota em mim.

Quando meus tios vieram me dar a notícia, aceitei em silêncio. Fomos ao apartamento e três partes das três famílias assistiram à partida com alguma gentileza, inclusive buscando cervejas uns para os outros. Fui erguido como troféu pela sala após o fim do jejum. Vi a distância entre eles diminuir quando combinaram de assistir a outros jogos decisivos e quando reparei que, nas três famílias, os homens continuavam conversando enquanto as mulheres lavavam os pratos. Cheguei em casa naquela noite e encontrei meu pai e a minha madrasta tomando vinho na sala. Ela me deu um beijo e meu pai, um oi. Fui ao quarto e comecei a escrever o rascunho do verbete. Relatei em linguagem solene os fatos mais importantes da minha vida até então e, na falta de um desfecho, só possível quando eu morresse, criei um fim variável, o qual poderia ser levemente modificado com o tempo, seguindo o curso da minha vida.

Decidi que a solidão se espalharia pela vida do casal à medida que eu crescia e a distância entre as retas diminuía. Meu pai e minha madrasta se aposentariam da universidade onde minha mãe fora aluna deles e atravessariam a América Latina, do Chile ao México, por seis meses, em um jipe vermelho. Eu alternaria as noites na casa de um dos meus tios paternos, que moravam em sobrados perdidos em uma vila de nomes engraçado uma hora distante do centro da cidade, no apartamento do meu avô materno, perto do Parque do Ibirapuera, ou na casa dos pais da minha madrasta, ao lado do estádio do time de três cores. Depois, meu pai e a minha madrasta viajariam pela Europa de mochila, pelos EUA de automóvel e morreriam em algum país da África ocidental, um mês antes de a minha filha nascer.

Eu os homenagearia em um texto no qual louvaria a solidariedade camponesa do casal, inclusive o desprendimento em comprar um jazigo ao lado da cova da minha mãe, e agradeceria pelas oportunidades recebidas. Quando todos os nossos convidados tivessem ido embora, eu iria até o ponto de ônibus em frente ao cemitério e desenharia um personagem disforme, como um herói das histórias em quadrinho inacabado, com um olhar triste, a mão alta em aceno e um balão em que se leria: “Tchau pai Tchau mãe Tchau madrasta”. Terminei de escrever e senti, pela primeira vez desde o último abraço materno, algo parecido com um final de tarde alaranjado de outono.

Design Mídia: jornalismo, inovação…e risco

Joi Ito é o chefão do Media Lab do MIT. É um dos institutos mais inovadores dentro de uma das faculdades mais inquietas do planeta. Sabe o Kindle, da Amazon? A tecnologia surgiu das pesquisas feitas nesse pedacinho gelado de Massachusetts. Hugo Barra, o brasileiro que se tornou chefe do Android, do Google, estudou lá. Eu poderia fazer uma lista telefônica de pessoas e invenções criadas nesses prédios com vista para o rio Charles. Mas não vem ao caso, porque o importante é que Joi Ito sabe o que fala –  e acertou bem, mas muito bem ao explicar por que jornalistas inovam pouco.

“O problema com jornalistas, acho, é que tanto jornalistas quanto advogados entendem muito bem o que é risco. Mas eles nunca correm riscos”, disse ele, numa conferência em setembro deste ano. “Mas, quando você está afundando, há dois caminhos. Um é apostar a casa ou algo desse tamanho e correr o risco de perder tudo ou ganhar. O outro é ficar cada vez menor, menor, até desaparecer”, completou.

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De fato, jornalistas são treinados para fazer algumas coisas muito, mas muito bem: apurar reportagens, narrá-las, editá-las e publicá-las. Ao longo dos anos, nos tornamos cada vez mais especializados em fazer apenas o que estava dentro do nosso escopo – o que já é bastante coisa, dadas as jornadas obscenas de trabalho. Mas aí veio uma enxurrada de mudanças, e o mundo ficou grande demais para uma função especializada demais. Viramos o torneiro mecânico que, nos anos 1990, descobriu que a fábrica já não precisava dele.

Não é o caso dos jornalistas, dado que a produção de informação e conhecimento nunca foi tão necessária – ainda mais em um mundo atordoado por ruídos cada vez mais altos, que atrapalham a compreensão dos problemas mais urgentes e das necessidades mais prementes das nossas vidas. Porém, o modo de manter esse negócio de pé e a forma tradicional de fazer jornalismo estão se desfazendo mais rápido do que as perspectivas de Veneza continuar existindo, sob o ritmo frenético de subida do nível do oceano. Coisas da vida.

“O problema com jornalistas, acho, é que tanto jornalistas quanto advogados entendem muito bem o que é risco. Mas eles nunca correm riscos”

Mas, como bem percebeu Ito, para resolver problemas é preciso correr riscos e se adaptar. Aí é que está o nó: “As pessoas foram treinadas durante muito tempo para ser boas em apenas uma coisa. Mas o custo de não fazer nada, de continuar fazendo as mesmas coisas, está ficando alto demais”. E fazer alguma coisa tem um preço: correr riscos que não estamos acostumados a correr.

Na OrbitaLAB, percebemos rapidinho a dor e a delícia de correr risco. Somos um venture lab (desculpem o inglês: ainda não encontramos uma boa expressão em português, mas estamos nos esforçando) de inovação digital, com foco em mídia, que nasce num momento em que:

1) A mídia está numa baita crise.

2) Porque a mídia está em crise, as fontes de financiamento para uma organização assim são escassas.

3) Há pouquíssimas organizações como a OrbitaLAB no mundo. Não temos exemplos claros para nos inspirar.

Incentivamos a inovação e a experimentação num momento em que a mídia está ferida, as pessoas, assustadas e o mercado vive de espasmos de verbas esporádicas e eventos de calendário. Mas achamos que, justamente por isso, vale a pena correr o risco de criar um espaço para aprender, inovar e colocar produtos de mídia no mundo. Afinal, não dá para esperar que o nada vire alguma coisa (obrigado pela ideia, Guimarães Rosa).

Nossos dois primeiros workshops foram um sucesso. Foi delicioso ver nossa caixa de emails lotada de pessoas querendo construir algo com a gente. É muito bom saber que confiam em nós, no nosso trabalho e na nossa capacidade de oferecer perspectivas e caminhos. Mas, ao construir o terceiro workshop, aprendemos que arriscar tem seu preço.

Nos dois primeiros workshops, resolvemos que não iríamos cobrar a nossa hora de trabalho. Iríamos trocar dinheiro por dinheiro, e não dinheiro pelo nosso tempo. Só iríamos repor o que saísse da nossa conta bancária. Nesse terceiro workshop, reformulado a partir das contribuições das nossas primeiras turmas, decidimos cobrar por nossa hora de trabalho. Mudamos o preço a partir das sugestões das primeiras duas turmas e colocamos a nossa hora de trabalho na conta.

“As pessoas foram treinadas durante muito tempo para ser boas em apenas uma coisa. Mas o custo de não fazer nada, de continuar fazendo as mesmas coisas, está ficando alto demais”

Afinal, uma de nossas premissas é que a OrbitaLAB tem de ser financeiramente viável ou não terá vida longa. Não é chantagem emocional nem nada do tipo: é apenas constatação, pois todos já fizemos projetos sem preocupação em fechar no azul e conhecemos pessoas que nunca cobraram pelo tempo delas. Mas a vida tem suas urgências e aí, amigos, aquelas longas madrugadas preparando o workshop ficaram caras demais.

Mas o que aconteceu? O preço, aparentemente, afastou as pessoas – jornalistas, desenvolvedores e todas as pessoas bonitas, alegres e bronzeadas que gostaríamos de ver no workshop do próximo sábado, dia 26/10. Por isso, assumimos o risco e baixamos o preço. É melhor fazer do que não fazer, lição número 1 do “Manual Prático da Inovação”. E, embora o preço seja um pouco mais alto do que o dos workshops anteriores, ainda não paga o tempo-trabalho das cinco pessoas da equipe. O preço aumentou, porque alguns dos nossos custos aumentaram. Ou, nas palavras da Adriana Garcia, idealizadora da OrbitaLAB:

“Perguntamos aos colegas quanto valeria o curso e quanto precisaríamos cobrar para pagar o nosso tempo. Mas, quando lançamos, o preço não funcionou. Então decidimos pivotar. E aprendemos que nem sempre o cliente faz aquilo que diz que vai fazer. Como sabemos da importância da nossa missão de levar inovação ao jornalismo, não vamos desistir!”

Mais uma vez, fizemos a preço de custo. Jogo jogado: a gente acredita que, com trabalho duro, prototipagem e teste, aprendendo com erros e acertos, vai encontrar um jeito de manter a OrbitaLAB forte, ativa e financeiramente viável.

Portanto, se você ainda não fez a sua inscrição para o Design Mídia, basta entrar no www.orbitalab.com.br. Essa experiência com o preço nos levou a incluir no programa do próximo workshop um capítulo sobre riscos. Afinal, é preciso transformar o teste em algo. Essa é a nossa missão : )

Se você ainda não tinha ouvido falar da OrbitaLAB, sem problema: é só navegar pelos dois posts anteriores deste blog. Um abraço e nos vemos no sábado!

PS: Nas próximas semanas, vamos anunciar novidades: nossa agenda de hangouts e de cursos e o lugar em que será a nossa sede.

Design Journalism 2, a Missão. Ou por que a OrbitaLAB desconfia de soluções mágicas

Em alguns vilarejos do interior do Maranhão, assim como em algumas vilas remotas dos confins de Portugal, ainda é possível encontrar gente que crave: o rei Dom Sebastião vai voltar e salvar os dois países de alguma coisa muito grave. Nós, jornalistas, somos mais céticos. Não acreditamos em Dom Sebastião, no Brasil, em Portugal e, às vezes, nem na nossa própria profissão. Mas, miseravelmente, diante da internet, muitos de nós voltamos a acreditar em “Abre-te Sésamo”: todo mundo já desejou, um dia, que uma solução mágica ou um modelo de negócio revolucionário chegasse e salvasse a profissão que amamos (amamos odiar, inclusive, claro).

Infelizmente, a magia mais comum dos últimos anos vem sendo o desaparecimento inacreditável da nossa capacidade de inovar em jornalismo. Estamos reféns de um presente incerto e de um passado que, além de perder o glamour, deixou poucas lições sobre como construir o futuro.

dom-sebastiao Dom Sebastião, de Portugal: “Desculpe, mas hoje não vamos salvar a sua redação. Foi mal ai”.

Por outro lado, temos alguns motivos para ter esperança. Quando nós, da OrbitaLAB, fizemos nosso primeiro workshop de Design Journalism, no dia 3 de agosto, não sabíamos muito bem o que esperar. Como eu expliquei nesse texto sobre o que é a OrbitaLAB e por que estamos promovendo esses workshops, estamos navegando por um período turbulento, em que não existe receita de bolo. Para cada situação, uma solução. Para cada necessidade, uma nova possibilidade. E, para cada encontro com pessoas interessadas em comunicação, jornalismo e inovação, um frio desce da cabeça e congela a barriga: Quem são as pessoas que vão, junto conosco, construir soluções viáveis, sólidas e adaptadas ao Brasil para os problemas do jornalismo e da comunicação vividos no país?

“Quem são as pessoas que vão, junto conosco, construir soluções viáveis, sólidas e adaptadas ao Brasil para os problemas do jornalismo e da comunicação vividos no país?”

Para nossa felicidade, pessoas excelentes, inquietas, preparadas e cheias de disposição para quebrar o “mimimi na era da sua reprodutibilidade técnica”, como escreveria Walter Benjamin se estivesse no Brasil e perdesse sua vaga em uma redação durante um passaralho. O primeiro workshop da OrbitaLAB foi um sucesso. Mas não um sucesso daqueles passageiros: é um sucesso consistente, que aponta um caminho. Em vez de nos colocar na zona de conforto, ele serviu para aumentar a nossa área de desconforto: é possível ir mais longe. Mais fundo. E fazer mais e melhor. O jornalismo e a comunicação no Brasil estão preparados para inovar. O mimimi ficou para trás. O time do nosso primeiro workshop nos deixou até meio tímidos: como surpreender e somar algo a gente tão boa? Felizmente, conseguimos. E, claro, aprendemos muito também.

Por isso, pelo compromisso que assumimos com nós mesmos e com todas as pessoas que se inscreveram para o nosso primeiro workshop, estamos fazendo a segunda edição do workshop de Design Journalism: introdução ao método do Design Thinking para pessoas interessadas em inovar em comunicação. Se você já se inscreveu, veja se recebeu o email de confirmação. Se não recebeu o email de confirmação para pagamento, entre em contato com a gente no email orbitalmidia@gmail.com. Já pagou? Então mande um email também, só para avisar.

“Infelizmente, a magia mais comum dos últimos anos vem sendo o desaparecimento inacreditável da nossa capacidade de inovar em jornalismo”

 O programa desse workshop é igual ao do primeiro. Vamos fazer uma introdução ao método do Design Thinking, mostrar como ele pode ser útil para inovar, trazer exemplos de quem está criando um mundo novo em jornalismo e apresentar dois conceitos fundamentais para quem pensa em inovar neste maravilhoso mundo de possibilidade grandes e incertezas constantes: modelo de negócio (afinal, a conta precisa fechar no final do mês) e experiência do usuário (não adianta construir uma plataforma maravilhosa que ninguém consegue usar).

walter-benjaminWalter Benjamin: “Para, mano. Para de mimimi”.

Estamos fazendo esses dois primeiros workshops a preço de custo, porque queremos construir junto com as primeiras pessoas que acreditaram em nós. Não há sebastianismo que possa salvar o jornalismo. Mas método, reflexão e trabalho em conjunto apontam um caminho. Sem mimimi, sem soluções desesperadas. É hora de trabalhar.

 E, para deixar tudo claro e organizado, coloco algumas informações práticas. Curtiu? É só escrever para a gente!

 Abaixo, o passo a passo:

Nosso segundo evento será no dia 14 de setembro. Caso você queira uma explicação formal, ela está neste link. Para se inscrever, basta ir a este link. Ah, e antes, é bom responder a algumas dúvidas:

1) Por que vocês vão cobrar neste segundo evento?

Primeiro, porque a experiência ensina que a maior parte das pessoas só vai a um workshop quando paga por ele. E, para nós, o mais importante é que as pessoas escolhidas para participar deste segundo evento realmente participem conosco. Segundo, porque, assim como os projetos que a gente quer tirar do papel, a conta tem de fechar. Se não cobrássemos, a conta não iria fechar para a gente.

2) O que vou aprender neste dia?

É uma introdução ao Design Thinking e à modelagem de negócios. É para ajudar você a estruturar a sua ideia.

3) Vocês farão mais eventos?

Sim! Este é só o segundo encontro. A gente já vem planejando os próximos módulos, cursos e workshops, mas nosso objetivo é mapear necessidades e criar workshops para necessidades bem específicas – redes sociais, contabilidade, conversa com o desenvolvedor. Além disso, há uma série de coisas prestes a sair do papel, mas a nossa política é clara: a gente só coloca o bloco na rua quando o bloco já tem os músicos. Nada de falsas promessas, nada de falsas expectativas.

4) E, afinal, o que é a OrbitaLAB?

É uma organização que pretende reunir jornalistas, desenvolvedores, designers e gente de negócios para tirar ideias de mídia do papel – e vai ter as contas no azul, questão de honra. Se, no futuro, grandes ideias, inovadoras e sustentáveis nascerem da OrbitaLAB, olha, amigos, a gente não vai caber dentro da gente de satisfação. Nossa missão é simples: menos mimimi, mais mão na massa. Menos voluntarismo, mais planejamento. Menos “receita pronta”, mais “vamos entender direitinho o que a gente pode oferecer de valor para as pessoas”. É isso.

5) Quero participar das listas de vocês, acompanhar as discussões.

Entre no nosso grupo no Facebook! É só clicar neste link. Pode entrar sem bater : )

Dúvidas? Escreva pra gente: orbitalmidia@gmail.com  Dá um frio na barriga lançar um negócio, mas, olha, garanto que a gente se preparou muito para sentir isso agora.

OrbitaLAB, Design Journalism e o fim do mimimi

Faz mais ou menos dois meses, escrevi um texto chamado “Crise no Jornalismo? Que crise?” No texto, eu argumentei que as demissões nas redações não podem ser vistas como uma crise no jornalismo. É preciso dissecar a crise para entender o que está acontecendo e descobrir as oportunidades em vez de ceder ao mimimi. Porque o mimimi, a gente já sabe, não leva ninguém a lugar algum.

As demissões são resultado de múltiplos fatores, que passam por modelos de negócio superados, relação complicada com a audiência, mudanças profundas no mercado publicitário e transformação rápida no padrão de consumo de informação. Há fatores sob controle das redações e outros fatores na linha “adapte-se ou morra”. Por outro lado, o conteúdo nunca esteve tão bem. As pessoas leem mais, veem mais vídeos, consomem cada vez mais informação. O problema é como pagar quem produz essa informação. Informação boa não é barata.

“Esse é o nosso papel, a partir de agora: difundir o espírito “vá lá, estude, teste, coloque no mundo e mantenha de pé” entre jornalistas. E nosso primeiro evento é 3 de agosto”

Depois do post, muita gente me escreveu perguntando sobre o que fazer, que modelos seguir, quais são os próximos passos. Eu pensei em escrever um post sobre isso, mas desisti. O motivo é simples: eu e mais um grupo de amigas decidimos criar a OrbitaLAB, uma organização para ajudar jornalistas a tirar suas ideias do papel – e a mantê-las de pé. Eu vou voltar a escrever sobre soluções neste blog, mas agora eu vou debatê-las e ajudar a implementá-las. Chega de ficar vaticinando sem colocar a mão na massa.

A OrbitaLAB nasceu quando a Adriana Garcia, que criou o online da Reuters no Brasil, foi para Stanford. Lá, ela estudou como as maiores empresas de tecnologia e as startups mais promissoras se organizam para criar produtos relevantes e fechar as contas. Ela viu aquilo, pensou, refletiu e, um dia, escreveu: Por que não adaptar e aplicar esse modelo ao jornalismo?

“Nossa missão é simples: menos mimimi, mais mão na massa. Menos voluntarismo, mais planejamento. Menos receita pronta, mais vamos entender direitinho o que a gente pode oferecer” 

mimimi

Na sequência, ela convidou a Cris Zahar, jornalista que faz muitos anos se especializou em administração de produtos editoriais. Ou, sem rodeios: como a conta fecha no final do dia. Na mesma época, a Patricia de Cia também se incorporou ao time. Jornalista de formação, a Patricia se especializou ao longo dos anos em experiência do usuário. Eu jamais conseguiria ser tão elegante quanto as interfaces que ela desenha, mas a missão dela é simples e bem, mas bem difícil: como criar interfaces que soem naturais, simples e funcionais para as pessoas. Eu, que fui aluno da Adriana Garcia na Cásper Líbero, fui o penúltimo a me juntar à equipe. A minha bagagem é de quem já lançou vários produtos digitais nos últimos anos e teve de aprender, na marra, como colocar um negócio de conteúdo multimídia no ar: falar com quem entende de negócio, com quem sabe tudo de código, com as pessoas fantásticas do design. Eu descobri, na prática, a importância de trabalhar bem perto de gente de áreas diferentes, e aprendi como articular pessoas de áreas diferentes para montar um projeto digital comum. Finalmente, a Anielle Guedes, uma jovem brilhante, graduada em física, estudante de economia e especialista em montar times para empreender, se somou à equipe. Ela é craque em montar modelos de negócios e pedidos de financiamento.

Nós todos partilhamos das mesmas inquietações: como criar produtos editoriais relevantes para as pessoas, como tirá-los do papel, como mantê-los e como financiá-los. Esse é o nosso papel, a partir de agora: difundir o espírito “vá lá, estude, teste, coloque no mundo e mantenha de pé” entre jornalistas.

Nosso primeiro evento será no dia 3 de agosto. Caso você queira uma explicação formal, ela está neste link. Para se inscrever, basta ir a esse link. Ah, e antes, é bom responder a algumas dúvidas:

1) Por que vocês vão cobrar neste primeiro evento?

Primeiro, porque a experiência ensina que a maior parte das pessoas só vai a um workshop quando paga por ele. E, para nós, o mais importante é que as pessoas escolhidas para participar deste primeiro evento realmente participem conosco. Segundo, porque, assim como os projetos que a gente quer tirar do papel, a conta tem de fechar. Se não cobrássemos, a conta não ia fechar para a gente.

2) O que eu vou aprender neste dia?

É uma introdução ao Design Thinking e à modelagem de negócios. É para ajudar você a estruturar a sua ideia.

3) Vocês farão mais eventos?

Sim! Esse é só o primeiro. A gente já vem fazendo isso, mas nosso objetivo é mapear necessidades e criar workshops para necessidades bem específicas – redes sociais, contabilidade, conversa com o desenvolvedor. Além disso, há uma série de coisas prestes a sair do papel, mas a nossa política é clara: a gente só coloca o bloco na rua quando o bloco já tem os músicos. Nada de falsas promessas, nada de falsas expectativas.

4) E, afinal, o que é essa OrbitaLAB?

É uma organização que vai reunir jornalistas, desenvolvedores, designers e gente de negócios para tirar ideias de mídia do papel – e vai ter as contas no azul, questão de honra. Se, no futuro, grandes ideias, inovadoras e sustentáveis nascerem da OrbitaLAB, olha, amigos, a gente não vai caber dentro da gente de satisfação. Nossa missão é simples: menos mimimi, mais mão na massa. Menos voluntarismo, mais planejamento. Menos “receita pronta”, mais “vamos entender direitinho o que a gente pode oferecer de valor para as pessoas”. É isso.

5) Eu quero participar das listas de vocês, acompanhar as discussões.

Entre no nosso grupo no Facebook! É só clicar nesse link. Pode entrar sem bater : )

Dúvidas? Escreva pra gente! orbitalmidia@gmail.com  Dá um frio na barriga lançar um negócio, mas, olha, garanto que a gente se preparou muito para sentir isso, agora.

Crise no jornalismo? Que crise?

O lugar em que passei os primeiros anos de vida moldou mais as minhas crenças, valores e opiniões do que todas as outras experiências que tive ao logo da vida. Eu cresci numa cidade da Grande São Paulo, nos anos 1990, e tudo o que eu tenho vivido, lido, assistido e escrito desde então acontece em relação àqueles anos – às vezes na superfície, às vezes em algum porão da consciência. Tudo insiste em ter alguma relação com ruas de paralelepípedos, trens lotados e placas que deveriam anunciar vagas de trabalho, mas passavam meses vazias. Eu cresci morrendo de medo dessas placas.

Os velhos dias do jornalismo já se foram. É hora de escancarar a crise e buscar soluções.

A crise não é do jornalismo. É do negócio

Sou de uma família que nunca pode se sentir segura no trabalho. Meus avós viveram a crise na agricultura, meus pais experimentaram todas as mudanças na indústria e eu estou vivendo a crise no jornalismo – embora com um conforto que eles jamais tiveram. O trauma de uma geração deixou a seguinte mais preparada para sobreviver. Guarde todo o dinheiro que puder. Tenha sempre um plano B e, de preferência, um plano C. Prepare-se para ter emigrar (ou imigrar), nunca se sabe. E, principalmente, estude, estude o máximo que puder: Você pode perder tudo na vida, menos o que carrega na cabeça. No momento mais difícil, é isso que separa quem passa fome de quem não passa. A vida não era fácil para quem vinha do interior da Paraíba, do Paraná ou do norte da Itália.

“O risco é trazer a crise das empresas de jornalismo para o próprio jornalismo – e ai, sim, teríamos uma crise de grandes proporções. Um jornalismo que fala de si para si. Sim, eu sei que há setores que funcionam assim, hoje. Mas não deveriam – para o bem deles mesmos”

Parece exagero, eu sei. Mas lembre-se: em algum momento dos anos 90, uma a cada cinco pessoas da Grande São Paulo estava desempregada. Todo mundo conhecia alguém que vivia de bicos, de ajuda de parentes, de cestas básicas da comunidade – ou do crime. Ali, na região mais rica do Brasil, o Estado era um conjunto vazio. Não havia o mínimo de estrutura para que as pessoas pudessem resolver, por si mesmas, os próprios problemas. Em casa, tivemos muita sorte. Consegui uma bolsa de estudos na escola onde minha era professora. Meu pai sobreviveu a uma demissão em massa que dizimou o departamento da fábrica em que ele trabalhava como analista financeiro e, portanto, conseguiu pagar pelos livros que eu precisava ler. Tínhamos alguma segurança num bairro em que todos os meus amigos de infância mal terminaram o ensino médio porque, na idade em que eu me preparava para o vestibular, eles tinham de fazer bicos para complementar o orçamento da família. Do meu lado, só restaram algumas esquisitices difíceis de contornar: não consigo deixar comida no prato e escondo doença porque plano de saúde, nessa época, era luxo. Nada comparável a um dos meus amigos, o mais inteligente do bairro, que sonhava em ser advogado porque não aguentava mais tomar batida da polícia – era negro e rapper. Esse meu amigo virou segurança de supermercado e continua tomando batida da polícia.

Eu decidi ser jornalista porque eu me sentia invisível e sentia que as pessoas ao meu redor eram invisíveis. Ao mesmo tempo em que estávamos ao lado de uma das maiores cidades do mundo, o que nós éramos, fazíamos, criávamos e sofríamos entrava num grande limbo chamado “problemas sociais brasileiros”. Ser invisível é muito doloroso porque seus problemas, na prática, não existem. Você não vê saída e o resultado é um acúmulo de rancor e ressentimento que pode ter consequências imprevisíveis. Eu já fui muito rancoroso, admito. Hoje sou uma pessoa melhor – espero. Mas às vezes, em dias como hoje, o rancor volta.

“O meu ponto é que, ao mesmo tempo em que as empresas vão mal, o conteúdo vai bem”

A profissão que escolhi não vive seus melhores dias. As grandes redações, sustentadas por publicidade, venda de assinaturas e concentração nas grandes cidades do Brasil, não conseguiram reinventar seu modelo de negócios. Elas não resistiram às mudanças na audiência, agora com centenas de fontes de conteúdo gratuito à disposição, e à fragmentação do bolo publicitário para novas mídias – especialmente as redes sociais, que são fundamentais para distribuir o conteúdo, mas que não geram conteúdo. Poderia ser diferente? Poderia. As empresas tiveram chances de fazer outras escolhas, mas talvez não fosse tão simples mudar o rumo naquele determinado momento, talvez as empresas tenham outras prioridades hoje. Enfim. Essa é uma grande discussão, mas não é o ponto desse texto. O meu ponto é que, ao mesmo tempo em que as empresas vão mal, o conteúdo vai bem.

Nunca jornalistas foram tão lidos, vistos e assistidos. Há ponto e contraponto para qualquer assunto que atraia o mínimo de interesse. Há conteúdos interessantíssimos sendo criados. Fazendo um paralelo com a indústria de música, no começo do século: as gravadoras quase acabaram, mas isso não significa que as pessoas tenham parado de ouvir música. Pelo contrário. Em vez de viver de discos, quem faz música passou a viver de shows.

Os jornalistas ainda não encontramos (com o perdão da concordância) um modelo semelhante ao dos músicos. Claro, há muitos colegas que estão muito bem fazendo conteúdos de nicho muito bons. Alguns conseguem publicidade e pagam suas contas. Muitos estão fazendo conteúdos para marcas que não devem nada ao que é produzido em boas revistas. Outros se organizaram em coletivos, em pequenas empresas e estão muito melhor do que estavam antes, nas redações. Isso é ótimo. Há muita coisa acontecendo em uma parte da profissão. Mas há uma parte do jornalismo que depende muito de grandes estruturas empresariais: reportagens relevantes que demoram meses entre apurar e publicar, conteúdos de interesse público que podem contrariar interesses poderosos. Por isso que boa parte do conteúdo intenso em trabalho ainda é feito por grandes redações. Fazer esse tipo de jornalismo custa caro – e é preciso arrumar um modelo para financiá-lo.

“Opinião é fácil. Informação é bem mais difícil. A informação quer ser livre, mas alguém precisa receber alguma coisa para libertá-la. A conta não fecha”

Isso vale tanto para aquele para aquele guia incrível de viagem pelo interior da Rússia quanto para o mensalão. Infelizmente, nem as médias e pequenas empresas nem jornalistas independentes podem produzir esse tipo de conteúdo com a frequência necessária – mesmo que o custo de distribuição, na internet, seja muito baixo. Podem produzir vez ou outra, como fez o Congresso em Foco no caso dos escândalos em Brasília. Mas quem vai pagar pelos advogados que precisam defender o site quando ele for processado por algum interesse contrariado? Ou quem vai visitar um site que produz um grande guia de turismo por ano? No Brasil, hoje, há mais opinião do que informação sendo produzida em veículos de comunicação. Opinião é fácil. Informação é bem mais difícil. A informação quer ser livre, mas alguém precisa receber alguma coisa para libertá-la. A conta não fecha.

Por isso que não gosto de algumas iniciativas voluntaristas com a pretensão de salvar o jornalismo. O jornalismo multimídia, em rede, abriu um mar de possibilidades. Mas ainda é preciso encontrar um jeito de manter esse negócio sustentável, capaz de produzir com a constância e a qualidade que a nossa audiência merece. Nesses dias de demissões em massa, algumas pessoas sugeriram que as pessoas se reunissem para escrever grandes reportagens porque, finalmente, elas estariam livres da redação (o argumento do ficaralho está aqui). De fato, é verdade que a redação tem seus limites – como qualquer outro trabalho. Também é verdade que quem fica nessas redações vai ter de fazer muito mais – o que, no final das contas, é ruim tanto para elas quanto para o futuro do produto que elas fazem. Quem trabalha em redação sabe que a espiral em que os veículos de comunicação estão metidos vem provocando uma queda na qualidade que, dia após dia, tem afastado a audiência – agravando a crise que já existe. Portanto, organizações de jornalistas poderiam reunir talentos livres, fora das amarras das empresas. Ai é que está o problema. Jornalismo empresarial não é sinônimo de mau jornalismo. Jornalismo cidadão não é sinônimo de bom jornalismo. Austeridade nem sempre é sinônimo de gestão responsável  (pelo contrário, em alguns casos). Colaboração e cooperativa não se confunde com inclusão e gestão democrática. As palavras escondem mais do que revelam. Pode parecer bonito fazer jornalismo em coletivos, mas não é viável nem na forma como os coletivos são organizados hoje nem no tamanho da responsabilidade que os jornalistas temos. O jornalismo precisa de mais empresas e precisa olhar mais para o cidadão – que é quem permite que o jornalismo exista.

Muita gente não pode se dar ao luxo de fazer jornalismo sem remuneração ou com baixo salários em coletivos. Essas soluções, por mais progressistas que pareçam à primeira vista, são altamente discriminatórias – involuntariamente, é bom ressaltar. Se elas prevalecerem, apenas pessoas com um bom cobertor familiar vão poder praticar o jornalismo. Afinal, as outras pessoas têm necessidades mais urgentes para contemplar (preencha a sua própria lista de contas a pagar). Então, uma nova espiral é formada: a da irrelevância. Pessoas de uma parte da sociedade falando sobre o mundo em que elas vivem como se esse mundo, no final das contas, fosse o mundo de todo mundo. Eu adoraria que tivesse mais amor em Francisco Morato, que fica ao lado de Caieiras, cidade onde cresci. Mas é difícil falar de amor em um município a 50 quilômetros de São Paulo onde esgoto encanado e rua asfaltada são substantivos abstratos. Acho ótimo que esses coletivos existam, mas eles não podem ser a forma dominante de produzir conteúdo. O risco é trazer a crise das empresas de jornalismo para o próprio jornalismo – e ai, sim, teríamos uma crise de grandes proporções. Um jornalismo que fala de si para si. Sim, eu sei que há setores que funcionam assim, hoje. Mas não deveriam – para o bem deles mesmos.

“Muita gente não pode se dar ao luxo de fazer jornalismo sem remuneração ou com baixo salários em coletivos. Essas soluções, por mais progressistas que pareçam à primeira vista, são altamente discriminatórias – involuntariamente”

Quais são as soluções, então? Em vez de listar as centenas de boas iniciativas que já existem, prefiro olhar para o que faz do jornalismo algo relevante. É preciso olhar para o centro do jornalismo e entender por que as pessoas gostam do que produzimos. Precisamos continuar entregando conteúdos nos quais as pessoas vejam valor. Precisamos produzir textos, vídeos e áudios que façam alguma diferença – econômica, política, cultural, espiritual, esportiva, o que for – na vida de quem nos cede tempo e atenção. Não importa se essas pessoas são o Brasil inteiro, fãs da Nascar ou pessoas viciadas em bons restaurantes. Precisamos surpreender as pessoas. E, finalmente, abrir o jogo com a audiência e mostrar que o nosso trabalho, tão importante para a vida delas, precisa ser remunerado para continuar existindo. Fora do Brasil, há veículos e pessoas que já conseguiram convencer setores da sociedade de que o jornalismo é muito maior do que o papel impresso que ela costumava receber pela manhã. Isso vem acontecendo na política, na economia, na cultura, na moda. Dá para reproduzir no Brasil? Aos poucos, sim. Mas de uma maneira muito tímida. É preciso começar a dizer às pessoas que todo trabalho precisa ser remunerado – mas esse trabalho precisa ser digno de ser remunerado. Ninguém vai pagar por algo que não serve para nada.

“Precisamos surpreender as pessoas. E, finalmente, abrir o jogo com a audiência e mostrar que o nosso trabalho, tão importante para a vida delas, precisa ser remunerado para continuar existindo”

O jornalismo tem um patrimônio a zelar. O nosso maior desafio é mostrar às pessoas que o jornalismo precisa da ajuda delas para continuar existindo, para ser forte, para ser relevante. Eu gostaria muito de fazer por outras pessoas o que os jornais disponíveis na escola, nos anos 1990, fizeram por mim. Por mais que hoje eu goste de comida indiana, vinho argentino e tenha tido o privilégio de estudar fora do país, eu nunca vou achar que consegui a vida que tenho (e que gosto) apenas pela soma dos meus méritos com incentivo familiar. Claro que são pontos importantes, mas não funcionam sozinhos. Além da generosidade de estranhos que inventaram bolsas de estudos, leis trabalhistas (que deram alguma estabilidade aos meus pais) e universidade públicas ou filantrópicas, eu também devo boa parte do que sou a rostos muito conhecidos. Se eu estou aqui, escrevendo esse texto, é porque jornais, revistas, rádios e redes de TV me mostraram que o mundo era muito maior do que placas sem emprego, trens lotados e casas perfuradas por balas. Jornalismo, no final das contas, é tornar visível aquilo que passa despercebido.  Inclusive, seus próprios problemas. Em vez de esconder a crise, é necessário mostra-la, discuti-la e, finalmente, superá-la. Como se diria em Caieiras: Chega de lamber as feridas dentro da casinha. Passaralho é um negócio muito sério para ficar apenas entre jornalistas.

Um último ponto: obrigado pela sua atenção. O texto estava longo. Mas, se você chegou até aqui, é porque acha essa discussão relevante. Se quiser continuá-la aqui no blog, deixe seu comentário. Se quiser continuar via Twitter, estou aqui. Quer saber quem eu sou antes de debater, para não perder seu tempo? Sem problema. É só dar uma olhada aqui. Por fim: gostou da discussão e quer entender melhor o que, afinal, está acontecendo no jornalismo?  Eu reuni vários links sobre isso aqui.

Os trens, os papas e o conclave

A teoria da relatividade, de Albert Einstein, sofre do mesmo mal da Igreja Católica: é muito comentada, pouco compreendida e só aparece em momentos de grande crise – um meteoro na Rússia, a renúncia de Bento 16. Mas, para entender o conclave e o que significa o que dentro da Igreja Católica, é preciso apelar para ele, Albert Einstein, o bigodudo mais genial que o mundo já viu – depois do vilão de “O Bom, o Mau e o Feio”, o meu filme de faroeste favorito.

Uma das metáforas usadas por Einstein é muito conhecida por qualquer pessoa que já tenha usado um trem. Quando você emparelha dois trens na mesma velocidade, a impressão é que os dois estão parados. Você só nota que um deles está em movimento quando as velocidades mudam. Cansei de me iludir na estação Barra Funda achando que ia chegar em casa mais cedo. Pois bem: é possível usar a teoria da relatividade para analisar o conclave que começou nesta terça-feira.

Há várias discussões sobre o perfil do próximo papa: conservador, progressista ou reformista? O ponto é: conservador, progressista e reformista em relação ao quê? Vendo de dentro da igreja, o que distinguiria esses cardeais? Parados, lado a lado, eles parecem todos iguais. É difícil imaginar um papa que pregue a liberação do aborto e permita o casamento de pessoas do mesmo sexo dentro das paróquias católicas. Nesse sentido, a ampla maioria dos cardeais está na mesma velocidade. Porém, imagine que os cardeais não sejam apenas um trem. Imagine que a posição de cada cardeal sobre um determinado tema seja um trem diferente. Melhor: imagine que cada cardeal é um pátio do metrô de São Paulo. Agora, sim, o retrato do conclave é mais preciso.

As posições dos cardeais estão em velocidades diferentes. Alguns são vigorosamente contra o aborto. Outros acham que a caridade cristã se sobrepõem à condenação e provavelmente já absolveram, no silêncio do confessionário, uma mulher que declarou ter feito aborto. Outros são a favor de fazer uma campanha contra o divórcio. Outros, como uma parcela dos bispos brasileiros, acham que o divórcio é um fato da vida e que a melhor coisa a fazer é acolher essas pessoas. Existe, no Brasil, uma pastoral apenas para abrigar casais divorciados e dizer a eles: você se separou do Tadeu, não da missa de domingo. Pode vir tranquila.

Isso acontece porque a Igreja Católica, assim como outros grupos organizados, tem uma agenda. O coração dessa agenda permaneceu mais ou menos o mesmo ao longo dos anos. É difícil imaginar um sindicato, por exemplo, defendendo a retirada de direitos trabalhistas ou empresários defendendo o fim do lucro.  O que vem mudando é a ênfase que se dá a cada ponto da agenda.  Essa é a grande discussão do conclave.

João Paulo 2º e Bento 16 são dois capítulos do mesmo papado. São dois homens que, sem mudar a agenda católica, mudaram a ênfase que se dá a cada item dela.  O item defesa da família, que inclui aborto, casamento de pessoas do mesmo sexo e divórcio, ganhou ênfase sobre outros pontos da Igreja Católica. Deixou a periferia para se tornar central. Por isso, é possível dizer que os dois papas, grosso modo, tiraram o foco das grandes questões da humanidade para as questões do dia a dia dos fieis. A Igreja parou de conversar com os governos para bater um papo com os cidadãos. É uma mudança e tanto: até a metade do século 20, as missas eram em latim. Conversar com as pessoas não era uma grande prioridade.  É uma evolução inegável  – embora possa se questionar o conteúdo dessa conversa.

A agenda de João Paulo 2º e Bento 16 fazia sentido tanto no mundo em que a guerra fria estava prestes a acabar quanto no mundo que se formou logo após a queda do muro de Berlim. Não havia mais um grande inimigo vermelho para combater. A diversidade religiosa era um fato da natureza. Algumas escolhas políticas dos líderes católicos no passado tinham se mostrado claramente erradas.

Como não tenho elementos suficientes para dizer “isso é causa disso”, vou poupar o leitor que chegou até aqui de uma avaliação de causa e consequência. Não dá para saber, ainda, se essa ênfase serviu ou não aos objetivos da Igreja Católica. Até porque a Igreja Católica não tem controle absoluto sobre os seus fieis nem sobre o mundo que a rodeia. Os seus líderes podem dizer “façam isso”, mas o resultado pode ser completamente diferente. Por isso, dizer que esse papado impulsionou o catolicismo na África, onde a religião mais cresce, e derrubou a fé na Europa, onde igrejas são fechadas e viram apartamentos, é apressado demais. O tempo, como diria Einstein, é relativo. Algumas mudanças nas nossas vidas demoram mais do que a atualização dos aplicativos dos nossos celulares. Porém, elas acontecem devagarzinho, imitando o movimento das placas tectônicas.  E o que se aplica à vida, claro, se aplica ao conclave.

João Paulo 2º e Bento 16 estavam muito preocupados com a vida dos fieis, em pautar a vida dos fieis. Um era um pastor. O outro, um intelectual. Nenhum dos dois era um executivo. Nenhum dos dois se concentrou em alguns assuntos que, hoje, estão pautando o conclave: a burocracia barroca da Cúria Romana, a falta de agilidade da estrutura eclesiástica, a formação pavorosa de padres e bispos. Esses itens estão ganhando força na pauta interna da igreja pela declaração de alguns cardeais. Está evidente que um grupo significativo, formado por europeus e americanos, defende uma reforma administrativa. Hoje, a igreja é como uma grande empresa que funciona mal, com uma estrutura grande demais, que vive em função de si mesma. Está cheia de diretores, gerentes e supervisores desmotivados, desorientados e mal formados.  Não é à toa que a Cúria Romana, da qual o brasileiro Dom Odilo Scherer é próximo, está sob ataque desse grupo. Ela está incapaz de fazer com que a igreja funcione minimamente bem.

Portanto, vendo os cardeais em velocidades diferentes, é possível distinguir dois grupos de prelados: os ligados à máquina administrativa e os que querem mudar essa máquina. Os ligados à máquina administrativa vão insistir na agenda familiar adotada por João Paulo 2º e Bento 16. Manter essa agenda é ocultar os problemas que permitiram que esse grupo ganhasse a força e a relevância que tem hoje. Os reformistas, eventualmente, vão diminuir o peso destes itens porque, claramente, não será uma tarefa fácil mexer em cargos, salários, vaidades. Os dossiês do Vatileaks deixam isso bem, mas bem claro. Obviamente, eles vão continuar se opondo ao aborto, ao casamento entre pessoas do mesmo sexo e ao divórcio. Mas é bem provável que, caso eles vençam a disputa, o peso destes itens na agenda da igreja, nos discursos e documentos do próximo papa, diminua consideravelmente. O que virá no lugar? Qual será o discurso público? Ainda não dá para saber. Vai depender de uma série de fatores que ainda não estão muito claros. Pode até ser que, daqui a alguns anos, a gente se espante com a falta de menção ao casamento entre pessoas do mesmo sexo nas aparições públicas do próximo papa. O que NÃO aparece em um discurso, no caso da Igreja Católica, importa tanto quanto o que aparece. Catolicismo básico um.

De qualquer forma, uma coisa é clara: não adianta comparar a velocidade de um trem com a velocidade de uma bicicleta. Para compreender o que está acontecendo na Capela Sistina é preciso entender a agenda da igreja hoje, ano da graça de 2013. Há um grupo de cardeais que quer brigar com o mundo de qualquer jeito. E há um grupo que acredita que, para dialogar com o mundo, é preciso arrumar a casa antes. Einstein, amigos, nunca foi tão útil para entender o Vaticano.  Não é possível entender a igreja sem olhar bem de perto para o que está acontecendo nos seus trilhos.

PS: esse texto deve muito a conversas com padres e bispos que me ajudaram muito durante o tempo em que cobri religião para a Folha de S.Paulo. Muitos deles têm visões muito diferentes entre si. Discordo muito de alguns deles, especialmente porque Jesus nunca se importou muito com que as pessoas dormiam ou deixavam de dormir. Mas devo dizer, a favor deles, que a fama que eles têm nas redes sociais é absolutamente injusta. São algumas das pessoas mais decentes que eu já tive o prazer de conhecer.

Bento 16, Yoani Sanchéz e as lições da culinária

Eu gosto muito de cozinhar, embora a cozinha ainda esteja aprendendo a gostar de mim, como num casamento arranjado. Meus acertos acontecem mais por repetição e sorte do que por conhecimento. A insistência faz com que algumas vezes por ano, quando acontecem coisas estranhas, como um gol do Vinicius ou um meteoro da Rússia, eu consiga preparar uma refeição que faça com que as pessoas tenham vontade de me abraçar.

Quando cozinho, me policio para evitar o erro bizarro. Mas é muito fácil cometer um erro bizarro. Às vezes você se empolga e coloca mais pimenta do que deveria. Ou esquece o ponto do arroz. É curioso porque a cozinha é um pouco a vida: muitos erros acontecem por erros de medida. Nunca acertei o ponto do molho do macarrão da minha avó porque ela sabia exatamente o que colocar, quando colocar e a quantidade a colocar. Não é fácil fazer aquele molho vermelho e saboroso. Quando leio os textos sobre o papa ou a Yoani Sanchéz, para ficar em dois casos recentes, flagro muitos erros de medida. É como deixar o macarrão cozinhando até virar uma bola úmida de carboidrato amarelo.

No caso do papa, vejo gente boa chamando a igreja de corrupta, o papa de amarelão e os cardeais de políticos malvados.  E vejo muita gente igualmente boa louvando o papa como se ele tivesse feito um sacrifício de super-herói de quadrinho ao renunciar. Elas estão tão presas à receita que mal conseguem ver os ingredientes. Algumas parecem aquelas pessoas que estão tão acostumadas à comida de casa que nunca conseguem apreciar um bom prato num restaurante legal. Ou, para fugir da cozinha e ir para um tribunal: agem como juízes que julgam sem ler as provas do processo. Estão mais preocupadas com a sentença do que com o processo. O resultado está ai: um festival de banalidades, lugares-comuns e desinformação. É um desperdício de talento ver tanta gente inteligente tentando cozinhar uma omelete em cima de uma bacia d’água.

Yoani Sanchéz também é um caso complicado. Os caras da UJS têm direito de protestar? Tem, e essa é a graça de viver numa democracia. Eu acho que todo mundo tem direito de se manifestar. Ponto. Mas é bizarro ler declarações de pessoas ligadas ao PC do B pedindo que ela explique quais são suas fontes de renda. Até o asfalto que cobre a Vila Olímpia sabe que, durante a sangrenta ditadura militar, governos de esquerda financiaram partidos e políticos brasileiros que estavam na resistência. E é difícil, apesar de todos os esforços retóricos, negar que Cuba é uma ditadura. Além disso, as pessoas estão tentando impedi-la de falar. É outro caso de falta de medida: elas cobram espaço para falar nos veículos de comunicação no Brasil e negam o direito de uma pessoa palestrar. Imagine se um grupo de cristãos fundamentalistas entrasse em uma palestra da filha do Che Guevara e a impedisse de falar…

Poderiam simplesmente ter organizado um debate com ela: exponha seus pontos, deixe com que ela exponha os pontos dela. As pessoas parecem acreditar mais no volume com que as ideias são ditas do que nas ideias em si. E isso vale também para os apoiadores de Yoani Sanchéz: alguns a canonizam em vida assim como alguns petistas acham que Lula deveria ser declarado santo súbito pelo Vaticano. Muitos deles a defendem das críticas e dos questionamentos da mesma forma como alguns petistas acham falta de respeito perguntar qualquer coisa que deixe o ex-presidente chateado. Pressioná-la ou pressioná-lo vira ofensa tão grave quanto reclamar da comida na frente da cozinheira.

Não sei por que tanta gente boa fica tão seduzida por debates extremos, vazios e desmesurados. Minha única suspeita também é culinária: às vezes, a gente disfarça a falta de ingredientes com sal e pimenta. Dá para enganar por algum tempo, mas não dá para enganar para sempre. Porque, afinal, não dá para empurrar comida goela abaixo – assim como não dá para empurrar um monte de avaliação equivocada na cabeça das pessoas como se elas tivessem a obrigação de aceitar um ponto de vista simplesmente porque ele está sendo proclamado (ui!) com ênfase. A cozinha, amigos, tem sempre uma lição de democracia e tolerância para quem vive de batucar teclados de computador.

O Palmeiras, a jabuticabeira e o silêncio

Meu avô André plantou uma jabuticabeira nos fundos da casa dos meus pais. Isso foi algumas semanas antes de morrer, no outono de 1998, e ainda me lembro de ele chegar com a muda, abrir o terreno, aconchegar a planta e regá-la. Ele tinha uma mão preciosa para plantas, comidas, instrumentos musicais e ferro. Meu avô foi colono em uma fazenda em Atibaia, cozinheiro do Hospital Psiquiátrico de Franco da Rocha, trompetista da banda de Jarinu e ferroviário, um destes homens braçudos que ajudaram a construir a estrada de ferro que um dia ligou Atibaia a outras cidades da região de Bragança Paulista. Mas o negócio dele sempre foi plantar. Plantas não falam. Logo, plantas são boas companhias.

Durante os 11 anos posteriores à morte do meu avô, meu pai, que também se chama André, podava a jabuticabeira antes que ela se mostrasse. A árvore ficava no toco, o mínimo para se manter viva, e desconfiei que ela nunca mais fosse crescer. Ela mal tinha tempo de brotar. Uma folha, uma tesoura. Um galho, uma poda. Durante a maior parte do ano, para mim, a planta estava morta. Mas outubro e novembro sempre mostravam a importância da teimosia: a árvore voltava a brotar. Pouco tempo depois, meu pai a podava. Porém, nos últimos três anos, meu pai deixou a jabuticabeira crescer. Sem explicação, sem uma palavra, sem nada. Ela cresceu, ele cuidou. O tronco encorpou rápido, ele adubou. Os galhos e as folhas já oferecem sombra para uma parte razoável do quintal.

Meu avô, certa vez, mandou que duas das minhas tias parassem de brigar. Conta a lenda que ele disse “você são irmãs” três vezes. Na quarta, amarrou uma em cada árvore, uma de frente para a outra, e disse: “Vocês só vão sair daí quando aprenderem a se comportar como gente”. Meu pai e eu passamos três meses sem nos falar, morando na mesma casa, depois de uma discussão, quando eu era adolescente. Nos comunicamos por bilhetes e pela minha mãe: eu dizia algo para a minha mãe, ela repetia para o meu pai, meu pai respondia e minha mãe passava a resposta para mim. Estávamos todos na mesma sala. Talvez tenha sido em um destes dias que eu resolvi, talvez, ser jornalista. Se dava para se comunicar daquele jeito…

Por outro lado, meu avô, quando meus pais se casaram, me promoveu de neto postiço a neto sem adjetivo. Na verdade, nunca houve promoção de fato porque nunca houve adjetivo de direito. Para deixar tudo bem claro, ele forjou uma enxada pequena, para que eu o ajudasse a capinar a horta que ele mantinha na frente da casa dele. Aos colegas da Vila Bazu, em Franco da Rocha, ele me apresentava com um “esse é meu neto”, curto, claro e definitivo, e me deixava mexer na horta. Era uma honra que só compreendi mais tarde. No caso do meu pai, algumas pessoas, tão logo eram apresentadas a mim e a ele, me perguntavam por que eu era louro e alto e ele era moreno e baixo. Meu pai dizia que eu tinha puxado ao pai dele e que ele tinha puxado à mãe. Também dispensou os adjetivos – em tudo, do carinho à mensalidade da faculdade. É por essas e outras histórias que, ao ver a jabuticabeira crescida, eu tive certeza de que, finalmente, meu pai tinha superado o luto pela morte do meu avô.

Foi assim também quando o Palmeiras caiu pela primeira vez, em 2002. Meu pai construiu um orquidário ao lado da jabuticabeira. Quando o Palestra foi rebaixado, meu pai entrou no orquidário com um rádio de pilha e uma garrafa de vinho. Só deixou a companhia das plantas por volta de 22h, 22h e pouco da noite, quando a garrafa secou e a pilha do rádio acabou. Ai ele saiu, tomou banho e dormiu. Nunca mais falamos sobre a segunda divisão. Desde então, a relação dele com o futebol e com o time que herdou do pai (e passou para mim) é semelhante à que mantém com a jabuticabeira. Por enquanto, está na fase de poda. Às vezes, deixa brotar. No aniversário de 50 anos dele, em 2005, ganhou uma camisa do Palmeiras. Eu dei. Ele sempre usa a camisa nos churrascos. Mas é isso.

Meu avô tinha um periquito com a camisa do Palmeiras, feito de gesso, de uns 50 centímetros de altura, na sala, ao lado do telefone e de um quadro da família. Eu não me lembro muito bem de vê-lo torcer, jamais o vi gritar, mas me lembro do sorriso dele quando eu disse que era palmeirense. Nesse dia, meu avô fez um dos meus pratos prediletos e ficou sentado comigo, à mesa, enquanto me via comer. Depois, me levou na horta e ficamos lá, durante um bom tempo, mexendo na terra. Às vezes eu me pergunto como ele teria reagido aos jogos da Libertadores de 1999 e 2000 e aos rebaixamentos de 2002 e de 2012. Mas a minha imaginação não ajuda, porque me falta essa ligação com as coisas concretas da vida. De todo modo, meu pai me dê algumas pistas. Ele ficou mudo no domingo do rebaixamento. Liguei para ele, não falamos do jogo. Mal falamos, na verdade, porque não havia nada o que falar. A partida pesava na linha, mas seu nome não podia ser pronunciado. Se estivesse entre nos, talvez meu avô passasse esses dias complicados capinando a horta, recitando as partituras do Bona ou ouvindo Vicente Celestino. É provável. E é engraçado e curioso ao mesmo tempo.

No domingo passado, uma semana depois do rebaixamento, eu fui cumprir o ritual de passagem. Faz parte do luto. Fui uma cinco mil pessoas que se espalharam pelas vastas arquibancadas do Pacaembu e assistiram ao jogo entre Palmeiras e Atlético-GO. O Palmeiras perdeu, alguns meninos estrearam e eu, assim como meu pai e meu avô, passei a maior parte da partida em silêncio. Voltei para casa a pé, com dois amigos. Subimos o morro que liga o Pacaembu à Paulista e depois descemos a montanha sentido Pinheiros. As árvores na avenida Rebouças estavam decoradas com as luzes de Natal. A garoa era sutil o suficiente para molhar e, ao mesmo tempo, fazer do guarda-chuva um objeto ridículo, pelo exagero. Voltar a pé, sem que um de nós precisasse dizer isso, fazia parte do ritual. Terminei o trajeto pela rua dos Pinheiros, sozinho, e pensei em ligar para o meu pai. Mas desisti. Ele soube que eu fui ao jogo e, no outro dia pela manhã, me mandou um vídeo de uma jornalista brava. Havia uma bronca ali, que não precisava dizer seu nome. Poderia ser uma bronca pela chuva tomada, já que eu estava com gripe. Como poderia ser um desabafo pela situação do Palmeiras. Poderia ser qualquer coisa.

Quando alguém insiste demais, fala demais que a personalidade passa pelos genes, eu me lembro do Palmeiras e do silêncio. Eu, meu pai André e meu avô André não compartilhamos o mesmo sobrenome, os traços físicos e um punhado significativo de opiniões. Mas o fundamental, no final das contas, não é transmitido pelo DNA. Uma enxada em miniatura, uma jabuticaba podada, um gol do Evair rompendo o silêncio da casa são mais fortes do que qualquer traço de sangue. Shakespeare dizia que o resto é silêncio. No meu caso, é silêncio e futebol, duas entre as linhas mais firmes que interligam cada uma das pessoas da minha família. Horta? Eu ainda chego lá. Já comecei com meu próprio manjericão.

Mano deixou o segundo pior emprego do mundo

Ao anunciar a demissão de Mano Menezes, agora ex-técnico da seleção brasileira, o diretor de seleções da CBF, Andrés Sanchez, usou um punhado de palavras vagas: métodos, tecnologias, orientações, princípios. Nem tinha como ser diferente. Uma demissão executada na tarde desta sexta-feira, em uma reunião às pressas, mal deixa tempo de preparar um discurso convincente sobre as razões que levaram à queda do gaúcho no seu melhor momento à frente do time nacional. De qualquer forma, há outro ponto a ser levado em conta. Mano Menezes tinha o segundo pior emprego do mundo justamente porque o escopo do seu trabalho é tão vago quanto as palavras usadas por Andrés. Mas o grau de exigência é bem alto – e concreto.

Vamos lá. O que se espera de um técnico da seleção brasileira? Um time que vença todos os adversários e dê show. Desde que o Brasil foi anunciado como sede da próxima Copa do Mundo, uma exigência adicional foi somada: vencer o torneio em casa. Essa exigência possui várias cláusulas não-ditas: ter uma campanha invicta, fazer jogos espetaculares e golear Espanha, Uruguai, Inglaterra, Holanda e Argentina.

Pronto, vamos descer ao planeta Terra. É uma missão impossível. O Brasil não tem os melhores jogadores do mundo. Não tem os melhores técnicos. Não tem os melhores times. O Brasil tem uma geração de jogadores médios para bons. Nenhum jogador brasileiro é o melhor de uma das equipes mais importantes do planeta: Barcelona, Real Madrid, Chelsea, Manchester City, Manchester United. Temos uma geração de coadjuvantes.  Apenas Neymar entraria num eventual top 10 dos melhores jogadores do planeta.

Mas, por um instante, vamos aceitar que um excelente técnico pode transformar um conjunto de bons jogadores em um excelente time. É verdade. Basta ver o que Luiz Felipe Scolari fez com o Grêmio e o Palmeiras nos anos 1990. Ou que Tite fez com o Corinthians vencedor da Libertadores de 2012. Ou o trabalho de Muricy Ramalho à frente do São Paulo três vezes campeão brasileiro. É possível. Mas como?

Quantos dias o técnico tem para treinar a seleção? Ele pode se concentrar com a equipe durante quantos dias? O óbvio nunca é óbvio. Portanto, é sempre bom lembrar: o futebol, hoje, é um esporte de clubes. Não é um esporte de seleções. O calendário é organizado para as competições disputadas pelos clubes. Os salários dos jogadores são pagos pelos clubes. Faz sentido que os atletas se dediquem mais aos clubes. E faz sentido que os clubes exijam que os atletas passem a maior parte do tempo com eles.

Pior emprego que esse? Só o de presidente dos EUA, que tem de reaquecer  a maior economia do mundo, mas não tem dinheiro para isso. Há alguns (muitos) anos atrás, o cargo de treinador da seleção brasileira vinha impregnado pela frase célebre do tio do Homem-Aranha: “Grandes poderes trazem grandes responsabilidades”. Hoje, só restaram as grandes responsabilidades. Treinar a seleção é como ser um cão sem dentes.

50 tons de azul e vermelho

Cresci na área vermelha da cidade de São Paulo, me mudei para uma área que foi vermelha, ficou azul e voltou a ser vermelha. Hoje, moro numa área majoritariamente azul – mas muitos dos meus vizinhos são vermelhos. Quando o resultado do segundo turno da eleição foi divulgado, o mapa da cidade gritava: na periferia, vermelho do PT. No centro, azul do PSDB. Olhei para aquilo e achei que tinha alguma coisa errada. Não com o mapa, mas com as conclusões que ele sugere.

Para os petistas, esse padrão prova que a sigla é quem faz mais pelos pobres. Para os tucanos, a votação no centro mostra que, quanto mais educado o leitor, mais ele tende a votar no PSDB. Isso ficou claro nas redes sociais, onde as pessoas digitam primeiro e pensam depois. É muito intrigante porque esse raciocínio, majoritário nos eleitores dos dois partidos, está completamente descolado da realidade.

Neste excelente mapa do jornal O Globo, a situação fica mais clara. É possível ver a votação por colégios eleitorais. É o máximo de informação disponível por área da cidade. Esse mapa mostra que a divisão da cidade não é assim, tão chapada. Existem 50 tons de azul e vermelho. Ou mais. Tirando os extremos da zona sul, onde o PT bate o PSDB em alguns colégios por 90% a 5%, e nos confins do Jardim Paulista, onde Serra venceu Haddad por 80% a 20% em alguns centros de votação, a situação da cidade é muito mais complexa.

No Morumbi, por exemplo, os colégios dos prédios e condomínios votaram em Serra. Na favela de Paraisópolis, ao lado destes prédios e condomínios, no Haddad. No geral, deu Serra. Em Pirituba, no entorno urbanizado e bonito perto da estação de trem, Serra venceu. Quanto mais as zonas eleitorais se afastavam da linha de trem, mais votos davam a Haddad. No geral, deu Haddad. Na Lapa, Serra venceu em todas as zonas eleitorais, com exceção da Lapa de Baixo, uma área com muitos cortiços e fábricas próximas à linha do trem da CPTM. Outro exemplo interessante acontece na Berrini, na zona sul. De um lado do rio, com seus prédios novos e complexos empresariais, deu Serra. Do outro lado do rio, no Real Parque, Haddad. Esse padrão se repete em vários pontos da cidade. Dos rios para cá, Serra. Dos rios para lá, Haddad.  Outro ponto interessante: a vitória de Haddad sobre Serra foi maior no colégio eleitoral da Sé, no coração de São Paulo, do que na Cohab José Bonifácio, nos extremos da zona leste. Serra massacrou Haddad tanto na Vila Mariana quanto em alguns extremos da zona norte, como o Tremembé, muito além da última estação de metrô, o Tucuruvi. Não é uma zona rica, ultraeducada.

Conclusão óbvia: não adianta baixar os investimentos no Morumbi e na Berrini porque são “bairros de rico”. Nem adianta investir só em Pirituba porque é um bairro de pobre. Não adianta dizer que só tem gente esclarecida no Jardim Paulista. E que só tem ignorante em São Matheus. São Paulo não é tão simplista.

O mapa eleitoral de São Paulo (fonte: O Globo)

O mapa eleitoral de São Paulo (fonte: O Globo)

O que se pode tirar dessa situação? Mais perguntas do que certezas. Eu tenho algumas hipóteses. Uma delas é que a desigualdade em São Paulo não se dá apenas na base centro-periferia, no macro. Essa divisão também se dá dentro de cada área da cidade, no micro. Em cada periferia há um centro urbanizado, com uma classe média ou média alta que prefere ficar nestes bairros por razões que só as pessoas que moram l[a sabem. Além disso, em algumas áreas do centro expandido, delimitadas pelos rios, há regiões e famílias muito pobres que moram em cortiços, prédios antigos, mas trabalham perto das casas delas.

Outra hipótese é a dependência das pessoas do Estado. Quanto mais dependente do Estado, mais as pessoas tendem a votar no PT. Quanto menos dependentes do Estado, mais tendem a votar no PSDB – e isso não necessariamente está ligado à renda, mas a uma percepção sobre a vida , sobre valores.

Observo muito isso quando vou ao Jardim Nardini, na periferia de Pirituba, onde passei muitas férias na vida, na casa dos meus avós. Quem podia trabalhar de carro tendia a votar nos candidatos tucanos. Quem tinha de trabalhar de ônibus, nos petistas. Muitas das pessoas com carro que conheci não valorizavam os estudos, mas ganhos imediatos com a renda do trabalho. Muitas das pessoas sem carro tinham obsessão com a escola e preferiam economizar dinheiro para investir na faculdade ou na escola particular dos filhos.  Isso fez com que, em muitos casos, os destinos fossem diferentes: as pessoas sem carro se mudam para áreas centrais e levam com elas o voto petista. E as pessoas com carro continuam na periferia, com seus votos tucanos.

Eu poderia listar uma série de outras hipóteses. Já vi bairros inteiros votarem em um candidato por causa de uma obra. O Nardini, por exemplo, foi malufista durante muito tempo, por causa da canalização do córrego fétido que cortava o bairro. E se tornou petista com o bilhete único. O vermelho da Baixa Augusta também pode ter explicação nas leis dos prefeitos Serra e Kassab, que colocaram a diversão de adultos no limite da sobrevivência. E há, claro, os valores. Em algumas regiões operárias antigas da cidade, como Mooca, Lapa, Santo Amaro, Ipiranga, há uma certa obsessão, saudável, em vencer pelo trabalho, não pela malandragem. Isso talvez explique por que o PT terá dificuldades por longos anos para voltar a vencer nestas áreas. O mensalão é visto como um atalho, uma maneira de ter uma vida fácil, sem trabalho.

O fato é que esse mapa do Globo tem muitas pistas tanto para o PSDB quanto para o PT. Para os petistas, há caminhos para manter a hegenomia na cidade. Para os tucanos, dicas preciosas para reconstruir um discurso para São Paulo. Não adianta dividir a cidade entre bairros de ricos e bairros de pobres. Não adianta dividir entre centro e periferia. A pobreza e a riqueza se misturam nesta cidade em que o cortiço e o condomínio são separados por um punhado de metros, em que as percepções de imigrantes e migrantes sobre o que é vencer na vida e como conseguir uma vida digna têm um peso considerável em como a cidade se vê.  Olhar São Paulo como um bloco de conservadores, de liberais, de moderados tampouco é útil. Em São Paulo, as pessoas são conservadores em algumas áreas, liberais em outras. São Paulo precisa de mais pesquisa sobre ela do que conclusões precipitadas. Uma cidade tão grande quanto muitos países cria seus próprios padrões, manias e particularidades. É preciso ter olhos para ver, e não apenas repetir um discurso que mais atrapalha do que ajuda a resolver os problemas desta metrópole.

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