A vida secreta das burcas
Uma amiga minha, nascida e criada em uma vila de 60 pessoas no interior da Dinamarca, contou dia desses sobre um jantar na casa de uma das colegas dela, do mestrado em uma grande universidade de Londres. A anfitriã era muçulmana. Como alguns dos convivas eram homens, muitas moças, também muçulmanas, estavam de véu. Outras, de burca. Depois do jantar, as meninas foram para o quarto da anfitriã, que queria mostrar a elas algumas aquisições recentes. Os meninos ficaram na sala, conversando. Normal. Minha amiga pensou que sua colega fosse mostrar sapatos novos, roupas, qualquer coisa. Fazia sentido, a menina vinha de uma família abastada de algum país do Oriente Médio. Enquanto ela listava o que imaginava encontrar, suas faces coraram. Ela sorriu, envergonhada, e pediu desculpas por ficar tão vermelha. “Eu sou da Dinamarca, nasci em uma cidade pequena, mas estudei na capital. Eu e minha amigas, mesmo em Copenhague, nunca fizemos o que as meninas fizeram ali.”
No quarto, as meninas foram logo tirando o véu. A anfitriã abriu os armários. Havia uma vasta coleção de vibradores e roupas íntimas, assim, no genérico. Segundo a minha amiga, a coleção de roupas criativas da menina era maior do que o guarda-roupas da dinamarquesa, em geral _incluindo calcinha e sutiã. Exibida a coleção, a anfitriã não só provou roupa por roupa como mostrou o funcionamento de cada um dos vibradores e convidou as meninas a experimentar os brinquedos. As meninas de véu aceitaram _minha amiga recusou, achou melhor não, despistou. Segundo ela, a recusa foi vista com espanto. Faz sentido. A história da Dinamarca, como disse o Sorry Periferia dia desses, também é a história da pornografia moderna. Talvez as meninas tenham convidado a minha amiga imaginando que ela pudesse dar algumas dicas bastante interessantes, produtos novos no mercado, essas coisas, esses clichês que a gente tem na cabeça quando imagina alguns países. O fato é que a minha amiga ficou atônita. Eu também.

Seria fácil dizer que achamos tudo normal. Afinal, por que teríamos de esperar que elas fossem jovens senhoras recatadas? Mas não dá. Quando caminho pelas ruas da cidade e vejo mulheres de burca, de véu, roupas que cobrem o corpo inteiro, sinto um grande desconforto. É difícil imaginar que debaixo daquele véu está a Madonna do Iêmen, a Lady Gaga dos Emirados Árabes, a Beyoncé do Paquistão, a Ivete Sangalo do Irã. O véu e a burca impõe a distância. No mercado, quando a moça que me atende está usando o véu ou a burca, fico sem saber o que fazer: cumprimento? Não cumprimento? O que é ofensivo? O que não é ofensivo? É um curto-circuito momentâneo. É sempre a mesma sensação, um incômodo, de lidar com uma pessoa estranha a mim e, supostamente, aos meus valores.
Porque é óbvio que algumas moças são obrigadas a usar o véu. É óbvio que nem todas as moças vestidas com a burca têm uma coleção de vibradores. E também deveria ser óbvio que algumas moças querem usar o véu E ter uma coleção de vibradores. O problema é esse “E”, esse aditivo. Ele não é óbvio, mas é importante. Ele faz a conexão entre o nosso mundo e o mundo das moças de véu. Ele certamente é um dos milhares de “Es” entre o meu mundo e o mundo delas. São esses “E” que, no final, mostram que temos muito mais coisas em comum do que coisas que nos separam. Deveria ser óbvio, mas não é.
Há algum tempo, eu nunca imaginaria que esse “E” fosse tão óbvio, apesar de eu ter visto Persépolis e ter lido “Passionate Uprisings: Iran’s Sexual Revolution”. Filmes como Persépolis e livros como “Passionate Uprisings” mostram como as pessoas vivem, desejam, imaginam em uma ditadura islâmica que proíbe o consumo de álcool, diz que mulheres despidas provocam terremotos e chicoteiam adúlteras. Mostram que essas pessoas não são zumbis. Mas existe uma longa distância entre os relatos de um país distante e a história que uma amiga conta num bar, que poderia ter acontecido em qualquer lugar desta cidade.
É por isso que a decisão francesa de proibir o uso dos véus é tão problemática. A lei parte do princípio de que o véu ou a burca são chibatadas, símbolos de opressão. Ao mesmo tempo, o argumento dos relativistas, de que temos de respeitar a cultura do véu, da burca e da mutilação genital é abominável. Com palavras mais bonitas (e às vezes incompreensíveis, juntas), os relativistas simplesmente dizem: “eles que são selvagens que se entendam”. Na realidade, esses dois princípios são muito próximos, embora com conseqüências diversas. Eles enfatizam as diferenças entre nós e as moças de véu. Eles nos distanciam, nos afastam, realçam aquilo que nos separa. Reafirmam o “nós” e o “eles”. Por isso que o melhor princípio é garantir que ninguém seja obrigado a fazer o que não quer (ou vestir o que não quer): Quer usar burca? Use. Quer ser a Madonna do Iêmen? Ok. São princípios como esses que separam o que, de fato, é irreconciliável: a civilização da barbárie. Quando governos como os da França fazem leis como essas, o planeta caminha um pouco mais para a barbárie. Quando o presidente do Brasil se recusa a condenar uma chibatada, a barbárie bate à porta. Quando o Irã chicoteia uma mulher supostamente adúltera, a barbárie está consumada.
PS: Acabei de voltar de um jantar com um amigo, que trabalha num país muçulmano. Ele conta que as moças comparam o tecido das burcas: “Cadê o brilho da sua burca?” “Que tecido ruim…” Faz sentido. No Chelsea, um dos bairros mais ricos de Londres, com as lojas mais caras da cidade, a paisagem é dominada por mulheres de véu fazendo compras.
















