Serra na academia – he´s a maniac on the floor

Produção ->  @brunohuberman e @sorryperiferia

Movimento “Higienópolis no Suvaco do Povo”

Eu sempre quis começar um texto com a frase “Conheça o homem, o ator, o intelectual… o capixaba por trás de Fulano de Tal (qualquer personagem)”. Bem, não é agora que vou fazê-lo, pois este texto nada tem a ver com capixabas ou intelectuais – se bem que, de um jeito bastante controvertido, acabei começando este post com a tal frase, o que talvez implique que eu esteja bêbado em plena segunda-feira, ou não, não sei dizer ao certo.

Bem, eu queria é falar de Higienópolis, o bairro conhecido como a Recoleta Paulistana por alguns de seus moradores mais putões. No Higienópolis, um apartamento de três dormitórios pode ter um aluguel  de 4.5 mil reais mensais, fora o condomínio, nunca menor que mil dinheiros brasileiros. Portanto, seu pobre, a terra da Higiene é para poucos – basta lembrar que Fernando Henrique Cardoso, Aloisio Nunes Ferreira e Alberto Goldman, entre outros tucanos de alta plumagem, por lá vivem.

Eis então que o governo estadual anuncia que, sob o bairro, vai passar uma linha de metrô onde hoje fica o Pão de Açúcar da Av. Angélica, que – olha que coincidência! – vai ser chamar estação Angélica de metrô.

Com o anúncio do governo houve também a criação do Movimento Defenda Higienópolis, de caráter higienista e anti-pobre, feito por um grupo de moradores da região que não quer o metrô por perto. Motivo:  uma estação ali atrairia comércio ambulante e daria, a partir de apenas um bilhete único, acesso ao Higienópolis a toda essa gleba fedendo a trés marchand a quem o senso comum alcunhou de “populares”.

Veja bem:  a rapaziada do Higienópolis está disposta a deixar de valorizar seus apartamentos em até 300 mil reais só para evitar um contato, digamos, levemente mais suado com essa gente que é muito unida e também muito ouriçada brigam por qualquer razão mas vivem pedindo perdão…… peraí, isso aí é música do Dudu Nobre, pô. Onde eu tava?

O fato é que minha opinião não acrescenta nada ao que foi escrito no blog Fel e Limão. Só queria acrescentar exatamente isso: quando eu for prefeito deste planeta, vou criar o movimento popular Higienópolis no Suvaco do Povo,  de caráter majoritariamente popular e chacotístico.

Segue abaixo a lista de benesses que serão criadas pelo Movimento Popular Higienópolis no Suvaco do Povo:

1- Sim, o Pão de Açúcar da Avenida Angélica será desapropriado e dará lugar para a Estação Angélica, a qual terá, diariamente, um concurso de bandas cover do Calcinha Preta, com o som no último volume, com caixas de som voltadas para os prédios do entorno.

2- A ex-praça Buenos Aires (agora deram de chamá-la de Parque Buenos Aires, mas ela não cresceu um centímetro) será, no meu plano piloto, o novo Largo da Batata, com todo o comércio ambulante da região sendo deslocado até ali.

3- Na praça Buenos Aires, será erguido uma estátua com a fisionomia de um cearense típico em tamanho duas vezes ampliado com os braços para cima, como que valorizando suas axilas castigadas pela vida. A frente do monumento deverá contar com a inscrição Monumento ao pobre desconhecido.

4- Como a grande manifestação artística da classe média de nosso tempo é buzinar no congestionamento, a ex-Praça Buenos Aires seria equipada com um playground de buzinas, para que as crianças aprendam os sons as artimanhas de mandar o cara da frente acelerar mais rápido quando o sinal abre.  Todo dia também teremos atividades com babás para que ensinem os xingamentos corretos a serem utilizados na hora do rush.

Eis que Higienópolis ficará, mais que junta do povo, desgraçamente nos suvacos dele. E eu vou morrer de rir, este dia há de vir, antes do que você pensa.

Muito além da toupeirice 2.0

Chauncey Gardner = Lucas Celebridade

Normalmente acho um porre essa rapaziada inzoneira que masturba a decadência do mundo moderno, a falta de virtudes do ser humano, a idiotice a que chegamos, enfim, essas  ugogiorgettadas rancorosas e cansativas.

O problema é que às vezes eles têm razão.

Nesta segunda-feira, a bancada da desilusão da humanidade marcou mais um pontinho.

Ou, como diria Nelson Rodrigues, um gênio que, ao seu tempo, também ugogiorgettava bastante: os idiotas perderam a modéstia.

Primeiro, para contextualizar, conheça Lucas Celebridade. Trata-se de um sujeito que vive em Luzilândia,  interior do Piauí, que virou subcelebridade no twitter justamente porque queria ser… uma celebridade.

Certamente criado na frente da TV e com uma forte dose de infantilidade que escapou-lhe da infância e atravessou sua idade adulta, Lucas Celebridade é um cara que atingiu a glória expondo-se ao ridículo – nada mais celebridade do que isso, diga-se. Menos que 15 minutos de fama, sua megalomania causa três ou quatro risos. E é isso, ou, ao menos, era isso que era pra ser.

No entanto, o boletim de ocorrência da babetice 2.0 registrou, nesta segunda-feira, que um grupo de blogueiros resolveu abrir uma campanha na internet para que uma casa fosse construída para Lucas Celebridade. O motivo: ele postou uma foto (ou seria um vídeo?) em que aparece em sua muito pobre casa, o que causou dó em alguém (ou alguéns).

Registra-se: o dito cujo vive em uma penúria de lugar que, no mundo ideal, faria políticos suicidarem-se de culpa por permitir que arrabaldes assim ainda existam no país.

Acontece que Lucas Celebridade mora num lugar terrivelmente pobre, cercado de pessoas pobres, e de repente existe uma campanha para que se construa uma casa para ele sob a alegação de que ele dá duro e é pobre demais.

Veja bem: todos os vizinhos de Lucas Celebridade são paupérrimos e provavelmente a maioria dá um duro ali, mas ele, figura infantilóide que nos faz dar risada de seu esforço em ser ridículo, é que é agraciado. Tem-se, portanto, o ridículo como mérito, e a chamada trollagem do bem pegando a usual carona publicitária. Parabéns a todos os envolvidos.

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Em 1979, Peters Sellers participou de seu penúltimo filme: Muito Além do Jardim (Being There). Talvez seja o melhor dele. Sellers vivia o personagem Chauncey, que era um jardineiro – Gardner, em inglês – de um casarão. Não sabia ler nem escrever, só jardinar e ver TV. Quando morre o dono da mansão em que ele vive, Chauncey cai pelo mundo e, por mil circunstâncias, vira amigo de um ricaço que acha que o nome dele é Chauncey Gardner – este o sobrenome de uma família tradicional. E o personagem de Peter Sellers começa a ficar famoso porque, sempre que perguntado sobre qualquer coisa, responde sobre jardinagem. E todos acham que ele é tã0 sábio que só se comunica por metáforas, quando, na verdade, ele é só um coitado que fala de sementes de plantas.

Eu já sabia que Chauncey Gardner tornara-se realidade quando comecei a ler, por puro mórbido prazer, o blogue do Paulo Coelho, que insiste em falar sobre um tal guerreiro da luz – mesmo que eu ainda ache que o Coelho esteja falando, na verdade, somente sobre um cara briguento que costuma trocar lâmpadas.

Agora, o caso de Lucas Celebridade é a prova de que a teoria da epidemia de estupidez de Muito Além do Jardim é mais avançada do que parecia. As pessoas do filme confundiam o que Chauncey Gardner queria dizer. Já o rapaz de Luzilândia é tão infantil quanto Gardner, com a diferença de que, pelo brasileiro, as pessoas fazem campanha para premiar o enorme espaço ocupado por seu vazio. Vai entender.

Da primeira vez em que fui assaltado

Cansei de ver amigos sendo assaltados e, logo a seguir, contarem em seus blogues sobre a experiência, mas nunca imaginei que um dia eu estaria na mesma situação. Contemos, pois, sem contornos melodramáticos, pois não há motivos pra isso, e cheguemos às causas no final.

Moro perto da praça Marechal Deodoro, bairro de Santa Cecília, fim da região central e comecinho da Zona Oeste paulistana.  Dirigia o carro da minha namorada (com ela ao lado) quando parei no semáforo da Rua das Palmeiras, ao lado da praça. Um sujeito saiu de trás da árvore e encostou no carro. Pensando que era um pedinte, não dei muita bola. Na terceira vez que ele falou comigo, quase gritando, eu entendi finalmente que era pra eu passar o celular. Pedi pra ele mostrar a arma, e ouvi como resposta:

Só mostro a arma se for pra estourar tua cabeça.

Era negro, tinha bigode ralo e olhos muito vermelhos, esta última característica de quem estava chapado, como você já presume. Se estava armado (duvido que estivesse), era, no máximo, com um canivete ou pedaço vidro, mas eu não pagaria pra ver, sobretudo com minha namorada ao lado. Passei o meu celular (que custa 50 reais, caindo aos pedaços), mais dez reais e ele foi embora.

Estando onde estava, o assaltante certamente trocou o aparelho por crack a três quadras dali. Fui à polícia, que disse que não tinha ninguém para ir atrás e pediu para eu fazer o boletim de ocorrência em casa, coisa que, aliás, até hoje não fiz.

E é tudo.

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Quando cheguei em São Paulo há nove anos, a Praça Marechal era um ponto de prostituição. Naquele mesmo ano de 2001, vi prefeitura e governo estadual trabalharem juntos e bem. A prefeitura reformou a praça e o governo estadual colocou um trailer quase fixo da polícia dentro dela. E em pouco tempo havia adolescentes jogando bola madrugada adentro na quadrinha da Marechal Deodoro.

Por volta de dois anos atrás, o trailer da polícia partiu e nunca mais voltou. Agora, às vezes há um trailer da Guarda Municipal, somente em horário comercial, provavelmente porque este é o horário que as pessoas estão nas ruas e notam o trailer ali. De noite, que é quando mais se precisa de vigilância por conta do natural maior número de assaltos, ele vai embora.

Simultaneamente a isso, Gilberto Kassab assumiu a prefeitura e resolveu colocar em prática a revitalização da região da Luz, o que significava acabar com a chamada Boca do Lixo, tradicional ponto de tráfico de crack do centro paulistano. A ideia, no papel, era linda, mas que acabou apenas espanando os traficantes e usuários por todo o centro. Ou seja: mudou-se, gastou-se com publicidade para revelar o “feito” ao mundo, mas tudo ficou na mesma.

Mais recentemente, Kassab adotou a estratégia de tirar os albergues para mendigos do centro de São Paulo e reabrí-los na periferia. Como qualquer mauricinho sabe, mendigo não vai à periferia, prefere ficar no centro nem que para isso tenha que dormir sempre embaixo da ponte. E é o que passou a acontecer. Sob o Minhocão agora vemos uma quantidade impressionante de mendigos disputando espaço na porrada.  Começo a suspeitar de tráfico na própria Praça Marechal. E a boca de crack que há dois anos está confortavelmente instalada na rua Gen. Júlio Marcondes Salgado, onde provavelmente o viciado que me assaltou foi trocar meu celular por droga, fica a um quarteirão do 77º DP da Polícia, na Alameda Glete, onde ouvi que não havia policiais disponíveis para ir atrás do cara que me assaltou.

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O que menos me incomoda nesta história é ter tido o celular roubado e gastar dinheiro para comprar um novo. Quanto a mim, desde então tenho me esforçado para não entrar na nóia de achar que posso ser assaltado a qualquer momento, de olhar para trás a cada cinco minutos, ou de dirigir o carro somente com vidros fechados. Ceder a isso é perder completamente a liberdade de ir e vir. E, para mim, pouca coisa é mais importante que isso.

De resto, mais que o incômodo de ver a deterioração de um local do qual se gosta muito e que teria tudo para dar certo, é ver o prefeito e sua equipe privarem os mendigos do pouco de dignidade que podem ter, que é dormir nos albergues no centro. Tudo começou aí. Situações como essa lidam com a dignidade humana e isso independe da atuação política de cada um. Mais que um prefeito fraco, Kassab prova, pra mim, que é fraco também como ser humano.

Veja mais:

-> Guardas-civis denunciam pressão para retirar mendigos do Centro de SP

-> Corte de albergues faz mendigos improvisarem barracas de camping

-> Prefeitura tenta expulsar mendigos jogando água nos colchões

ATUALIZAÇÃO EM 29/7: Na noite em que fui assaltado, o atendente d0 77º DP me disse pra fazer o B.O. via internet. Via internet (e via telefone) descobri que só  “furto de celular” é que dá pra ter o B. O. online, e não “roubo de celular”, que é meu caso. Como eu havia explicado que havia sido assaltado e isso ficou bastante claro na ocasião, presumo que o atendente da delegacia não estava disposto a trabalhar. Parabéns a todos os envolvidos.

Desvalorizem as criancinhas

Exemplo de criança superprotegida quando adulta

Criança superprotegidas ficam assim quando adultas

Ao contrário da maioria dos meus amigos, sou muitíssimo a favor de leis que regulamentam a maneira de se viver em sociedade, que têm, no Brasil, exemplos mais recentes na lei anti-fumo, em São Paulo, e a lei que proíbe beber antes de dirigir, em todo território nacional.

Não fumo e fiquei muito feliz com a primeira. Com a segunda, fui a vítima clássica da nova diretriz, pois sempre dirigi e bebi e nem por isso saí por aí atropelando a rapaziada. Mas a considero ótima mesmo assim. Os índices de morte no trânsito caíram drasticamente com ela e é isso o que importa. Só lamento que esta lei seja tão mal fiscalizada.

Agora, há, claro, leis bastante estúpidas, como é o caso da nova Lei das Palmadas, que o Lula mandou ao Congresso para que os parlamentares, nos raros momentos em que não estão em campanha, discutam e votem a favor ou contra.

O projeto proíbe palmada, beliscão ou qualquer tipo de castigo físico que provoque dor em crianças, adolescentes e emos. No entanto, segundo Paulo Vannuchi, Ministro da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, não é qualquer pai que vai pra cadeia por bater no filho. Disse ele que o alvo principal do projeto não é o “beliscão ou palmadinha”, mas casos como de Isabela Nardoni, em que o pai e/ou a madrasta acharam que a criança era um pogobol e a arremessaram da janela do apartamento, só pra ver se ela voltava quicando. Não voltou.

Bom, o caso dos Nardoni foi resolvido na esfera criminal, como era de se supor em situações como esta. Problemas de espancamento de crianças normalmente vão parar nas delegacias – ora os vizinhos, ora professores ou colegas da vítima denunciam e a coisa vai parar no colo das autoridades.  Espancar crianças já é crime, como, aliás, espancar qualquer pessoa também o é.

Teríamos, pois, uma novidade se a diretriz fosse feita para coibir as palmadinhas, e, como lembrou o próprio Paulo Vannucchi, seria impossível fiscalizá-la se assim fosse, além de consideravelmente inútil. E, não sendo assim, tem-se uma lei completamente redundante e populista. O Estatuto da Criança e do Adolescente completa 20 anos agora em julho, e o governo pega carona na efeméride para emitir a lei que causa alvoroço por nada só para barganhar uns votinhos a mais na eleição que se aproxima.

Maquiavelicamente pensando, com este lei o governo investe para tirar uma boa meia dúzia de votos  daquela classe média conservadora superprotetora em relação aos filhos, aquele povo que pára o carro em fila dupla na frente da escola só para o filho não ter que dar dez passos pra entrar o carro na próxima esquina. É esta classe média que supervaloriza o papel da criança na sociedade e que transforma os pequenos humanos em seres mimados e pouco capazes de se virarem sozinhos, que hoje infestam as escolas e faculdades, e em bem pouco tempo dominarão os postos de trabalho.

E este zelo excessivo para com as crianças não é um fenômeno brasileiro, diga-se. Talvez tenha começado nos Estados Unidos, onde todo mundo tem medo de tudo e os pais escondem armas em casa para o caso de o filho ser acordado na madrugada por um muçulmano terrorista que, claro, que vai querer explodir o filho dele com uma bomba atômica. E essa maluquice se espalhou.

Na Copa do Mundo da África do Sul, a Seleção Francesa caiu fora na primeira fase e acabou implodida por vários conflitos internos entre jogadores e comissão técnica. Após a desclassificação, os jogadores cinicamente emitiram um comunicado público no qual pediam desculpas às crianças francesas pelo mau exemplo.

O golfista Tiger Woods foi pego em escândalo sexual, anunciou ser viciado em sexo e também emitiu comunicado desculpando-se  perante todas “as crianças de todo o mundo que me admiram”. Porra, velho, criança também pensa em sexo, ao contrário do que muito gente imagina. As que não pensam, um dia vão pensar. Não tem nada que se desculpar. A vida é sua e você a usufrui da maneira que melhor lhe convir.

Há pouco tempo, fui à Curitiba visitar parentes em um condomínio fechado. Ao entrar nele com o carro, vi placas com a inscrição: DIRIJA A 20 KM/H. NOSSAS CRIANÇAS BRINCAM NESTAS RUAS. É claro que eu também passaria devagar ali se a placa tivesse apenas a inscrição DIRIJA A 20 KM/H e não o restante brega da sentença que é digna daqueles e-mails pseudo-poéticos em power point, mas não pude deixar de imaginar crianças daquele condomínio fitando o carro com seus sorrisos remelentos e prepotentes a pensar “Você vai devagar porque aqui eu posso tudo. Minha mãe e a síndica me falaram”.

Enfim, há uma febre de superproteção às crianças, endossada por adultos que andam perdendo a noção do ridículo, o que só acaba gerando crianças que se transformarão em adultos mimados, despreparados para lidar com problemas e, consequentemente, ridículos. Tratemos, pois, bem as crianças e valorizemo-as com o devido valor sempre, mas nunca se esquecendo de que brincar na rua, levar pontos em acidentes banais, chegar em casa imundo, ouvir eventualmente a palavrão “não” e tomar umas palmadas na bunda de vez em quando fazem parte do aprendizado de tornar-se adulto. Grandes seres humanos têm menos chances de serem formados no playground.

Por que a Copa 2010 foi legal

Luiz Puyol Caldas não foi feito com a costela de Adão. É zagueiro-diabo, é a própria tentação.

É, amigo, não tem mais bobo no título mundial. Para os inóspitos, incautos e impuros como eu,  Espanha campeã do mundo é mais ou menos como o Cumpadi Washington erguendo troféu na dança flamenca: faz nenhum sentido, viu?

Não que a Espanha não tenha merecido, muito pelo contrário. Mas nunca na história desse país isso havia acontecido antes, pode se gabar o Vicentão do Bosque, que é técnico da Espanha, mas que bem poderia ser aquele tiozão que joga bocha aos domingos no Clube Juventus.

A Copa do Mundo da África do Sul foi tão surpreendente que o Pelé e um molusco chamado Paul  acertaram o campeão na lata. Mas se alguém disser que esse Mundial foi ruim, chame-o imediatamente de corneteiro reacionário. Pois resolvi voltar a este blogue para argumentar que esta Copa ocupa, no Ranking Vives de Copas do Mundo Legais entre as seis que acompanhei (desde 1990). Só a da França, de 1998, foi mais interessante, e mesmo assim rolou quase um empate técnico.

Ranking Vives de Copas Legais

1º) 1998, França – Zidane surgiu para o mundo em Mundial com duas semifinais sensacionais.

2º) 2010, África do Sul – 14 partidas emocionantes em 16 possíveis a partir das oitavas de final.

3º) 1994, EUA – Romário, Gheorge Hagi, Hristo Stoichkov, Roberto Baggio, Michel Preud´homme. Bônus: Maradona pego no anti-doping. Foi legal, vai.

4º) 2002, Coreia do Sul e Japão – França, Argentina e Itália caindo logo no começo. Arbitragens corruptas. Copa chatinha, com o agravante de ser de madrugada. Só Ronaldo, Rivaldo, Marcos e uma Turquia legal salvaram.

5º) 1990, Itália – Pior média de gols na história e um festival de placares em 0 a 0. Alemanha, Colômbia e Camarões foram a pequena parte boa.

6º) 2006, Alemanha – Quando o futebol virou experiência degradante e desagradável. Sou contra.

Argumentemos, pois. Lembro de muita gente dizendo, há quatro anos, que a Copa 2006 foi muito legal para quem gosta realmente de futebol, é apegado a estudar esquemas táticos, etc. E isso é verdade mesmo, embora eu tenha achado o Mundial da Alemanha consideravelmente horrível. Explico: o cara fanzoca de esquemas táticos não é o genuíno torcedor de futebol, e sim o nerd do esporte. Ele não representa o que de melhor o futebol mostra. Para o cidadão que adora ver um joguinho de futebol e pela Copa aguardou ansiosamente nos últimos quatro anos, o Mundial de 2006 foi ruim. Esse sujeito só queria ligar a TV em um fim de semana de Copa, abrir sua caixa de Heineken ao lado do sofá e passar o dia vendo todas as partidas. Esse cara não se divertiu em 2006.

No entanto, apesar do começo estapafúrdio, a Copa da África d0 Sul engrenou na fase de mata-mata tal qual o goleiro do Flamengo. Dos 16 jogos a partir das oitavas de final, só Paraguai x Japão e a final entre Espanha e Holanda foram chatas.  No resto, dane-se os nerds dos esquemas táticos: meu fígado ficou podre e feliz ao comemorar tantas partidas emocionantes, este Uruguai incrivelmente humano, este time de Gana heroicamente falível, esta Alemanha provando que dá pra jogar bonito explorando contra-ataques.

No mais, os figuraças da Copa: o técnico alemão Joachin Löw comendo bolota de nariz, Luiz Puyol Caldas, o atacante uruguaio Suarez colocando a mão na bola embaixo do gol, o árbitro banana da final que é sósia do Sargento Pincel, o Felipe Melo provando que é um imbecil e, claro, o polvo adivinho, que tornou a Copa do Mundo ainda mais sensacional do que deveria ser.

No mais, segue minha seleção da Copa, no 4-3-3: Casillas (Espanha); Lahn (Alemanha), Lúcio (Brasil), Luiz Puyol Caldas (Espanha) e Von Bronckhorst (Holanda); Scweinsteiger (Alemanha), Iniesta (Espanha) e Snejder (Holanda); Robben (Holanda), Villa (Espanha) e Forlan (Uruguai). Téc: Joachim Catota Löw.

Por que torço contra a Argentina no futebol

Tal qual faz a maioria dos turistas brasileiros pobres quando querem dar uma de ricos, juntei uns tostões e fui para Buenos Aires entre janeiro e fevereiro deste ano. Ao contrário do que ouvi dizer a minha vida inteira, posso afirmar com alguma tranquilidade que a maioria dos argentinos não são sujos, arrogantes, insuportáveis nem passam gomalina no cabelo comprido. Não. Pasme, os argentinos são legais, ao contrário do que ouvi a vida inteira.

Além de agradáveis, os argentinos têm o mérito de fazer e tomar bons vinhos e de terem construído esta magnífica cidade que é Buenos Aires. Eu que não conheço o mundo, e pra fora do país só fui para Miami (a trabalho, diga-se) e Buenos Aires, digo que a capital argentina é a cidade mais instigante que conheci. Logo, meu caro leitor, adoraria que a Argentina saísse desta crise eterna em que vive e se tornasse um Brasil de possibilidades.

No entanto, quando falamos de futebol, torço radicalmente contra a Argentina. Quando nossos vizinhos tomaram estes quatro nabos a zero da Alemanha na Copa do Mundo, na partida que entrou para a história como o Nabo da Cidade do Cabo, tive um verdadeiro orgasmo moral.

Mas como ter tanta simpatia pelo país Argentina, mas torcer para que o time de futebol deles tenha sucessivas cãimbras nas partes íntimas ao entrar em campo?

Explico.

O futebol tem na paixão que desperta a sua força motriz. Como bem relembrou o filme (argentino) O Segredo de Seus Olhos, você pode seguir os passos de uma pessoa, pode tentar agir como ela agiria para tentar entrar na cabeça dela, mas nunca vai compreendê-la de verdade se não souber também quais são as paixões que permeiam sua vida. E tenho comigo que as grandes paixões são aquelas que nos levam ao limite da loucura, que nos façam testar nossa capacidade de discernir entre o bem e o mal.

Alguém já disse, e eu concordo, que o futebol é o microcosmo da vida, e é nele que podemos depositar nossas esperanças e frustrações. Nasci brasileiro e se pudesse escolher um único dia para voltar no tempo, não tenho dúvidas de que escolheria 21 de junho de 1970, quando o Brasil goleou a Itália por 4 a 1 na cidade do México e transformou em lenda a mais mágica tarde da história do futebol.

O pólo-negativo do futebol brasileiro é o futebol argentino, da mesma forma que o polo negativo do futebol argentino é o brasileiro. São parecidos, mas opostos, e, como reza o clichê dos opostos, se atraem.

Da mesma forma, sou palmeirense e nutro verdadeira ojeriza pelo Corinthians, mesmo que eu tenha amigos corintianos tão queridos quanto Maurício Savarese, e que durante os dérbis entre Corinthians e Palmeiras eu considere Savarese e todos os outros corintianos como pessoas sujas, arrogantes, insuportáveis e que passam gomalina no cabelo, e mesmo que o Corinthians enfie um nabo no Palmeiras, eu passe pela experiência infernal de deglutir essa derrota e tenha a dignidade de mandar uma mensagem para ele parabenizando-o pela vitória. Porque talvez a experiência definitiva da vida humana, a que nos separa da barbárie dos animais, é esse discernimento.

Entendo e respeito quem torce para o futebol argentino, pois motivos para isso existem aos borbotões. Mas entendo diferente. Futebol é rivalidade. Que o Corinthians, como a seleção argentina, continue forte e conquiste muitos títulos. O pólo positivo das minhas paixões depende disso.  E que bom que existe o futebol para revigorar estes sentimentos de maneira tão profunda, duradoura e saudável.

As reportagens ululantes

marcio-canuto-brasilA cena é tradicional na cobertura das copas do mundo. Vale para jogos da Itália, de Portugal ou de qualquer outro país outrora exportador de pobres para o Brasil.

Sucede-se exatamente o seguinte:  Portugal, digamos, joga contra alguém. No intervalo do jogo, o Galvão Bueno chama rápido um repórter em São Paulo que está devidamente incomodando um restaurante português nalgum canto da cidade.

O dito repórter entra ao vivo à frente de meia dúzia de bigodudos e bigodudas sentados à mesa, envoltos por bandeiras de Portugal e do Brasil. À mesa, bolinho de bacalhau, azeite, um vinho. Um dos bigodudos, com a camisa da Portuguesa, sorri e mostra a salsinha sentada na arquibancada de sua arcada dentária para as câmeras. E o repórter começa a expelir as palavras, enquanto a câmera vai abrindo dele para um plano geral do ambiente:

– Estamos aqui em um restaurante português tradicional de São Paulo, onde centenas de portugueses e descendentes vibram com a partida da seleção de Portugal…

Neste instante o repórter faz um sinal para a meia dúzia atrás dele para que se agite, finja emoção. Os bigodudos e bigodudas – o ancestral português mais próximo do povo da mesa é, no máximo, a avó de alguém ali – fingem estarem assistindo ao jogo. Alguém bota o Roberto Leal na vitrola pra animar. E o repórter continua a fala, enquanto você começa a suspeitar que ele vai soltar a grande frase clichê sobre Portugal:

– … muita comida, muito vinho, muitas lembranças da terrinha (não, repórter, você não vai soltar essa frase), a expectativa para um bom segundo tempo é boa, porque… (puta merda, é agora que ele vai dizer) você sabe, Galvão… É UMA FESTA PORTUGUESA COM CERTEZA!

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Baseando-me nesta estapafúrdia experiência que é ver jogos de colônias, deixo neste hebdomadário virtual algumas sugestões de pautas lamentáveis para a próxima Copa do Mundo, a ser realizada no Brasil.

1) Intervalo do jogo da Alemanha. Márcio Canuto entra ao vivo:

– Clééééééééber Machado, a Alemanha vai massacrannnnnndo  a Inglaterra e por isso eu estou aqui, no Museu de Memória do Holocausto, pra conversar com quem maaaaaaais entende de massacre alemão: rabino Jacó Hizerevitz, como parar essa artilharia pesada da Alemanha?

Pastor Hizerevitz voa no pescoço de Canuto, imagem some. Dias depois, Marcio Canuto é jogado pelado de uma Veraneio em alta velocidade em viela de Higienópolis. Há uma suástica tatuada em sua nádega esquerda.

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2) Intevalo de jogo da Nigéria. Chico Pinheiro, ligeiramente pra lá de Bagdá após tomar uma meia dúzia de doze canjibrinas, entra ao vivo no centro de São Paulo. Ao lado dele, dois núbios gigantes com dentes e correntes de ouro maciço e vestimentas de rapper americano:

– Galvão, estou aqui na esquina da rua Aurora com a Bento Freitas, acompanhando este jogaço da Nigéria. Tenho aqui do meu lado o traficante Emakulelê Bikila. Emakulelê,  você vende mais pó quando a Nigéria tá jogando, ou os clientes, se a mercadoria for boa, vão torcer pra qualquer time que você mandar?

Dias depois, já com a Nigéria desclassificada, Chico Pinheiro é interceptado no aeroporto de Cumbica com um carregamento de heroína acoplado em seu sistema digestivo inferior.

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3) França e Bélgica fazem um jogo horrível. O jogo vai para o intervalo. Cleber Machado chama a repórter Ananda Apple, ao vivo:

– Olá, Cléber, em comemoração às equipes que estão em campo, estou aqui com o chefe Luc Van der Maide, a nutricionista Vandinha da Silva e a doceira Maria das Dores de Souza para mostrar como se faz um legítimo pão francês recheado com couve-de-bruxelas.

Horas depois, Ananda Apple é encontrada entalada dentro de uma lata de extrato de tomate Elefante na última prateleira da vendinha da Rua dos Franceses.

Da primeira vez em que fui um covarde

Conheci muita gente que tivesse tomado porrada e nem todos os meus conhecidos tentam ser campeões em tudo, felizmente. Sempre tive dificuldades em reconhecer um “vencedor” porque, afinal, nunca entendi a vida como um jogo em que se ganha ou se perde em definitivo. Acho que por centenas de vezes já fui vencedor, já fui perdedor e normalmente sou ambos várias vezes ao dia – não que faça questão de ser só vencedor. Se assim um dia eu agir, por favor, me chute. Isso não é importante.

Há fatos na vida da gente que delimitam o que você vai ser no futuro, e isso você vai descobrir pra valer mais tarde. No meu caso, entre tantos outros fatores, o dia em que fui um covarde mudou minha vida para sempre e, para o bem ou para o mal, está dentro do que sou hoje, aos 29 anos.

Aos 14 anos, minha vida era futebol e revista de mulher pelada. E aos poucos eu tentei ser uma espécie de fodão de turma, constrangedoramente ao pior estilo Kevin Arnold. Sabe-se lá o que colocaram na minha cabeça quando criança, mas eu acreditava que, por ter 1.90 de altura aos 14 anos, eu tinha uma espécie de obrigação masculina, uma missão messiânica de ser um fodão, um líder, um cara que mandava soltar e mandava prender em um grupo de pessoas – no caso, meus amigos de classe de oitava série.

Qualquer psicólogo de botequim sabe que a maneira mais fácil de ser aceito em um grupo é fazendo piadas, e foi mais ou menos isso que eu identifiquei na prática. Éramos uns oito moleques, todos punheteiros que passávamos o dia jogando e discutindo futebol, e eu passei a ter o respeito deles pela quantidade oceânica de piadas e apelidos que eu despejava em seus ouvidos, pelas interpretações cômicas que fazia das pessoas que não gostávamos, pelas macaquices que eu fazia para ser aceito – mas não eu não queria ser aceito apenas. Eu queria ser um líder.

Em determinado momento,  talvez eu tivesse me tornado uma espécie de líder daquele grupo, mas não estou certo. Intermediava briguinhas, promovia festas, incentivava xavecos (mas não pegava ninguém), servia de conselheiro e tinha liberdade para falar verdades.

Até que houve um jogo de futebol.

Na quadra da escola, o melhor time era da sexta série, uma classe que só tinha repetentes. Todos ali tinham uns 15 anos. O fodão deles era o Osmar, o melhor no futebol, mas feio pra caralho. O melhor do meu time era o Marcel, amigo meu baixinho, adorado pelas meninas. O Osmar não gostava do Marcel porque a menina pela qual ele era apaixonado era apaixonada pelo Marcel – enfim, essas miscelâneas hormono-sentimentais que todos temos aos 14 anos.

No jogo, demos um baile naquele time da sexta série. O Marcel marcou uns quatro golaços, e até eu, zagueirão rude que gritava “Tonhão!” quando conseguia chutar a bola, joguei bem e, acho, marquei um gol. O Osmar odiava o Marcel, que começou a provocar o Osmar, e os nossos gols foram saindo, o Osmar putaço da vida até que, claro, os dois partiram pra porrada. A turma do deixa-disso apartou a briga, eu incluso, e o Osmar jurou o Marcel.

No dia seguinte, não se falava de outra coisa na escola: Osmar chamara os amigos dele do morro pra dar uma coça no Marcel. Antes da saída, quem foi confirmar pra ver se tinha gente voltou com os olhões arregalados: tinha, de fato, uns 15 manos na porta da escola juntos do Osmar para pegar o Marcel.

O Marcel, claro, pediu ajuda para os amigos. Três ou quatro de nosso grupo se ofereceram pra sair da escola junto com ele e iriam para o pau, mesmo estando em minoria absoluta.

Eu neguei.

Todos olhavam pra mim e diziam coisas como “porra, você é o maior aqui, caralho, como vai deixar a gente na mão?”.  O fato é que eu silenciei e não fui. Saí correndo na aula anterior, vi a movimentação na frente da escola e fui pra casa.

E em casa, claro, eu desabei. Lembro de sentar no sofá da sala, pegar o fone e ligar pro Marcel pra saber como tinha terminado aquela treta. E ele, seco: “Os caras preensaram a gente na parede, falaram umas merdas, mas não fizeram nada. E você não estava lá”.

Parece que a menina apaixonada pelo Marcel, e pela qual o Osmar era apaixonado, chegou para este último e disse que algo acontecesse ao primeiro, nunca mais ela olharia pra ele. Foi a imunidade do meu amigo.

Já era fim de ano, a oitava série estava por acabar. Eu me isolei do grupo muito mais do que fui isolado – aliás, não fui. O Marcel ficou puto uns dias, depois voltou a falar normalmente, mas, claro, não era a mesma coisa. E nem eu deixei que fosse. Havia um mecanismo auto-punitivo tão forte que eu lembro de noites em claro pensando em quão covarde eu fui naquela oportunidade, que deveria ter dado a cara pra bater, ter ido junto com eles, e ter apanhado horrores se preciso fosse. Era isso que um homem faria, era a hora da hombridade à prova, era o que em inglês eles  identificam como manhood. Mas não, tirei meu corpo de 1.90 de tudo aquilo. Era o touro que, na hora da tourada, se escondia embaixo da arquibancada em vez de tentar chifrar o toureador, por mais difícil que isso fosse.

Me isolei de todo mundo da escola à época, e fiz questão de não comentar a respeito com os amigos da minha rua, embora eles tivesse ouvido a história de outras bocas. Aquela turma da oitava série continuou a se ver por mais uns dois, três anos, mas depois, naturalmente, perderam contato. Eu já quis perder o contato de antemão. Ninguém entendia meu sumiço, ninguém passou a me odiar pela minha ( falta de) atitude. Mas era minha auto-punição por ser um covarde. Fui para outra escola e praticamente não fiz amigos. Eu não dava muita confiança e preferia ficar isolado, quieto, com aquela história encrostada na alma.

Demorou uns bons dez anos para que essa história deixasse de contrair a bile do meu superego. Hoje eu a conto no bar como anedota e sempre penso nela quando vejo matérias sobre grandes líderes de corporações, testes ao estilo “saiba se você tem espírito de liderança”, livros sobre tornar-se um vencedor. Quem persegue essas metas não entendeu absolutamente nada dos preceitos dessa vida – não que eu saiba quais são.

Como não torcer para a Argentina depois dessa?

É difícil, pra não dizer impossível, eu ficar emocionado com uma propaganda. Mas esta, sobre a Copa do Mundo em uma TV argentina, é de verter lágrimas. Eu que torço contra os argentinos até em concurso de tango estou quase torcendo para eles no Mundial, contra este antipático time dunguista que veste a camisa do Brasil.

Veja:

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