Iron Maiden é o Túlio Maravilha do rock pesado

Bruce Dickinson, cantor

Não simpatizo com o Iron Maiden, mas devo reconhecer neles o mérito de ser uma espécie de Túlio Maravilha das bandas de rock pesado: o auge do sucesso ficou em algum lugar do passado, mas ainda fazem pose de maus, e agora percorrem o Brasil em turnê da mesma forma com que Túlio, aos 41 anos, ainda joga por clubes minúsculos em busca daquele que ele diz ser o milésimo gol da carreira.

Já que o Iron de novo está na área fazendo mais apresentações que o circo Vostok, incluindo-se aí uma visita do Bruce Dickinson a São Carlos (uma espécie de Jundiaí menos elegante), deixo aqui uma sugestão de grade para shows que mostram a fase do ícone do heavy metal britânico:

Iron Maiden – Turnê Brasil abril/2011

1/4 – Várzea Paulista

4/4 – Vila Clarice

6/4 – Club Homs (capital)

7/4 – Clube dos Metalúrgicos de Jundiaí

10/4 – Villa Country

11/4 – Fun House (festa de debutante de figurante de Malhação)

13/4 – Festa do Figo (Valinhos)

14/4 – Itatinga (Campinas)

18/4 –Itapecerica da Serra

19/4 – Entrevista – Istoé Gente

20/4 – Clube Piratininga – abertura do show do Agnaldo Rayol

21/4 – Baile do Havaí – Ilha Porchat Clube, São Vicente

22/4 – Colônia de férias Satélite – Funcionários do Banco do Brasil – Itanhaém

25/4 – Homenagem ao maestro Záccaro – Parque da Aclimação, São Paulo

26/4 – Gravação – TV Corinthians

27/4 – Feira da Amizade – Taboão da Serra

30/4 – Show no campo do Nacional – gravação do DVD Iron Maiden Live at Comendador Souza

1/5 – volta para a Grã-Bretanha, onde será preparada a nova turnê brasileira. Em junho.

E de repente, depois de alguns segundos em que sua mente, incapacitada de pensar, submerge numa espécie de vazio doloroso, recebe, por associação de ideias, a revelação: ele não veio procurar nada; voltou ao ponto de partida, mas não se trata de um regresso e muito menos de uma regressão. Veio não para recuperar um mundo perdido, mas para considerá-lo de outra maneira. Da série incalculável de transformações grandes e pequenas que sofreu desde o dia de sua partida, foi surgindo outro homem, que se modificava imperceptivelmente, sobretudo para si mesmo, em cada alteração. E quem se extasia agora com a banalidade se apoia numa escora que aflora na superfície e se estende por baixo na direção de um fundo inacabado e escuro. Parece ter atingido a suprema simplicidade, mas depois de ter feito um longo desvio pelo inferno. (…) O mundo que agora ele celebra, com uma exaltação discreta e quase constante, não é de modo algum o de sua juventude, mas o que ele foi encontrando ao longo suas sucessivas transformações, e o outro em que ele se transformou o vê agora pela primeira vez. Ele não voltou ao ponto de partida, mas a um lugar diferente, onde tudo é novidade. E embora ele talvez tenha perdido a inocência, reforçou sua capacidade de aceitação, inclinando-se diante das coisas simples sem idealização nem desprezo; deve ter pensado que, se conseguisse reconhecer e apreciar a simplicidade, se reconciliaria com o mundo. O ar distante, ausente mesmo, que às vezes se percebe nele talvez se deva ao fato de que, nesse exercício de reconciliação, a consciência e a vontade já se dissolveram há muito tempo nesa naturalidade benigna com que ele considera o mundo. Elaborou uma forma que parece lhe dar enorme satisfação e cuja multiplicidade de sentidos somente ele é capaz de entrever: Saiu de sua casa e teve de atravessar o universo inteiro para chegar à esquina, portanto agora sabe o esforço necessário para ir até a esquina e o que significa o imediato.

O Grande, Juan José Saer.

(este blogue voltou)

Considerações sobre considerações de fim de ano

2010 foi o ano em que passei cinco meses meses desempregado, roubaram meu carro que supostamente era pra ficar comigo por uns dez anos, arregacei meu joelho em caráter definitivo, desenvolvi três pinçamentos na coluna e quebrei o braço, fui assaltado pela primeira vez na vida, tive dinheiro pra fazer muito pouco do que gostaria de fazer, não consigo mais beber sem perder o dia seguinte, engordei e passei a ler muito menos do que lia.

Mas porém contudo entretanto todavia, completo a volta de 2010 sem ter qualquer gosto amargo. Vai ver que depende do estado de espírito que você passa por essas coisas e, olhando pra trás, parece que tudo foi muito legal. Imagino que parei de me preocupar com essa coisa de avaliar o ano que passou, que me parece cada dia mais coisa de menina de 15 anos. 

Há um único fato lamentável este ano: foi em 2010, aos 29 anos, que descobri que Tracy Chapman na verdade é mulher. Sorry is all that I can say.

No mais, 2010 foi ano de Copa do Mundo. E ano de Copa do Mundo é sempre sensacional.

Feliz Natal.

Precisamos superar a superação

Vocês falam em conspirações, vocês falam em câmeras que nos vigiam nas ruas, vocês falam em monitoramento da internet, no Google Street View que te filma de cueca no quintal de casa, mas vocês não se dão conta do real perigo da supressão da individualidade que está ali, na esquina à espreita, te olhando de soslaio, esperando um ínfimo gesto seu para se manifestar através da boca de outra pessoa ou da TV:  a praga da superação.

Talvez eu não tenha sido claro. Tudo leva a crer que hoje em dia as pessoas estão mais preocupadas em se superar do que em viver. Falta pouco para você espirrar e o seu colega de trabalho dizer “você precisa superar este resfriado”.

Perceba: uma boa notícia no jornal da TV é a história de dona Cafuzinha do Alentejo, viúva cega, manca e com varíola, que começou fazendo queijadinhas na sua vila, superou todas a dificuldades e hoje tem uma rede de padarias no Itaim.

É a história da perereca albina do zoológico de Rustemburg, que perdeu os pais ainda bebê, mas cujo sorriso cativa crianças do mundo todo e que deve ganhar um filme em Hollywood ano que vem.

Falando em Hollywood, é a história de 9 entre 10 filmes norte-americanos que perdem paulatinamente a capacidade de emocionar sem falar de outra coisa que não seja a superação de seus personagens – exemplo: um dos mais cotados filmes para levar o Oscar 2011 é que mostra Rei George, da Inglaterra, superando a gagueira para conduzir o povo britânico à vitória contra os nazistas.

Convém ressaltar que eu não sou contra superações de um modo geral. Todo mundo tem o que superar nessa vida, fator este que gera o apelo explorado pela mídia. O problema começa quando acopla-se esta particularidade da vida a uma receita do sucesso. Coloca-se a história da dona Cafuzinha do Alentejo no Jornal Hoje. Deu audiência? Então o negócio é achar gente que se superou na vida. E uma vez criada a receita, tudo gira em torno disso. Já vi manchete em grandes portais do tipo “Time X sai perdendo, se supera e consegue a virada”. Quando você quer tornar tudo épico, o épico se torna banal.

O que me incomoda nessa trolha toda é a profusão do marketing elevado a caráter pessoal. Voltemos, por exemplo, à dona Cafuzinha do Alentejo, viúva cega, manca e com varíola. O que me impede de ver beleza APENAS no fato de ela fazer queijadinhas? O que me impede de ver beleza APENAS no fato de ela esboçar seu sorriso banguela? O que me impede de ver beleza quando ela não estiver fazendo absolutamente nada? Mas não, tudo agora se enquadra no formato que dá certo, no empreendedorismo e na superação, tudo agora gira em torno da equação vencer ou perder. Um gesto, um olhar, um sorriso querem dizer muito pouco num mundo em que tudo é desafio, em que tudo deve ser superado, e as pessoas levam isso para o cotidiano de suas vidas.

Portanto, vocês pode me falar sobre os obstáculos que tenho que superar no meu trabalho, se é que você acha que isso vai me fazer mais produtivo (felizmente isso não ocorreu no meu emprego atual).  Mas não me venham dar receitas de superação na minha vida pessoal, sob o risco de ela se tornar um pastiche de receitas padrões e tendências formadas por pessoas que nunca vi na vida e que me dizem o jeito que devo viver melhor só pra eles ganharem dinheiro.

No mais, um dia ainda criou uma esquete ao estilo DeprêSHOW em que um escritor de autajuda ajuda pessoas a se livrar da autajuda. Aguarde.

Jundiaí, a Los Angeles paulista

Fazia tempo que eu não tinha sonhos bizarros, então posso dizer que sentia falta. Pois no sábado, eles voltaram: sonhei que foi anunciado por geólogos uma grande mudança na estrutura da crosta terrestre. Basicamente as coisas iriam mudar de lugar, mas sem grandes prejuízos físicos – o único agravante maior seria a mudança dos pólos magnéticos da Terra. Pois eu dormia num fim de tarde na casa de Jundiaí quando o chão começou a tremer.  Fui pra porta da frente e vi que o prédio que fica ao lado da casa tinha mudado para a frente, e as casas da rua estavam todas com disposição nova. Liguei a TV e a CNN anunciava que as mudanças geológicas estavam se concretizando no mundo inteiro, e que o Google Maps ia demorar pra mapear tudo de novo.

Mas essa foi só a primeira parte. Após isso, descobri que, no sonho, Jundiaí era Jundiaí mas era também Los Angeles. Uns amigos desconhecidos – eles não existem na vida real – me levaram pra uma casa no alto de um morro que era a casa de um amigo deles, o Sylvester Stallone, que estava morando (ou apenas hospedando, não ficou claro) o Robert Downey Jr.. Então chegamos lá e os dois estavam completamente bêbados e usando cocaína sem parar. Começaram a achar mais drogas na casa, e eu, a me sentir mal com a situação. Eu tentava achar uma saída da casa, mas parece que todas as portas estavam escondidas, e eu aflito com tudo aquilo. De repente o Stallone começou a tentar bater em mim, eu queria evitar a treta, mas o negócio ficou feio e eu falei pra um dos amigos imaginários que ia ter que partir pra porrada, que ele era maior que eu, mas estava velho, então eu teria chances.

Antes de partir pras vias de fato, eu achei uma escada que descia até uma porta, que deveria dar pra rua. Eu abri e vi que a casa estava flutuando a quilômetros de altura, e via Jundiaí-Los Angeles lá embaixo. O amigo imaginário disse que a casa tinha ido pros ares por conta das mudanças geológicas da crosta terrestre e dos pólos magnéticos. E aí veio o Stallone de novo tacando coisas em mim, querendo me quebrar.  Foi quando acordei.

A primeira parte eu interpreto que tenho assistido demais aos programas da Discovery e History Channnel, aqueles que falam de fim do mundo ou da formação da Terra. A segunda parte eu atribuo ao fato de que há canais subterrâneos de esgoto na minha cabeça que, quando acionados, simplesmente não fazem sentido.

As verdades descontinuadas

Uma vez eu ouvi dizer, ou li nalgum lugar, que nós nos apegamos a quem damos a alcunha de ídolos com maior frequência nos momentos complicados. Quem não é ateu, joga a brincadeira pra Deus, mas quem o é apela pra Karl Marx, Nietzsche, enfim, esses caras. E já faço aqui meu primeiro adendo: um dia vou escrever minha grande obra de literatura jundiaiense – sim, é uma vertente, como realismo fantástico ou modernismo de primeira fase – e esta obra se chamará A Era dos Anões Besuntados em Mel, cujo personagem central será o iconoclasta e estroina Oswaldo Montenietzsche. Fecha o primeiro adendo.

Lembrei onde vi essa história sobre os ídolos: foi meu professor de geografia do cursinho, o Novaes. A vida do Novaes era geografia e cigarro. Ele tinha o carisma de um Geraldo Alckmin, mas era ótimo professor, embora quem estivesse acostumado às piadas dos professores do cursinho tendiam a odiá-lo – e como odiavam o Novaes.

Lembro que um dia eu prestei Administração de Empresas na GV – sim, hoje parece bizarro isso – e o Novaes descobriu. Num fim de aula, ele discretamente chegou perto de mim e perguntou, de canto de boca: “E aí, foi bem na GV?”. Eu disse que tinha ido pra segunda fase, e ele, ainda de canto de boca: “Que bom. Você é um dos que eu torço pra passar num bom vestibular”. O Novaes não era meu ídolo, mas acho que um apoio inesperado de alguém que eu respeitava muito meu deu um gás naquele momento. Ao Novaes eu registro minha homenagem, seja lá onde ele esteja hoje.

Mas não era do Novaes que eu queria falar, e sim dos ídolos de ateus e não ateus. Eu não sou ateu, mas também não sou lá tão crente – enfim, quase neutro, uma espécie de Marina Silva da espiritualidade. No começo deste blogue, eu falava muito de meus ídolos, e o principal deles era o Fausto Wolff. Reli agora dois livros antigos dele e a imagem de escritor fodaço que entendia tudo da experiência humana caiu um pouco por terra. Acho que envelher apodrece um pouco os ídolos na nossa cabeça.

No entanto, mesmo sendo absolutamente decadadente no fim de sua vida – o que incluiu até uma acusação bem fundamentada de plágio de um blogue – muito do Fausto Wolff segue sendo diretrizes do que eu queria ser nessa vida. A maior delas é a história da livraria de Porto Alegre, do romance À Mão Esquerda (meu livro de cabeceira), que meus amigos já me viram contar bêbado no bar umas oitenta vezes, e que vou recontar agora.

Quando criança, o pequeno Fausto era paupérrimo, mas gostava de ler. Um dia ele entrou numa livraria, mexeu nos livros e ficou todo aguado, porque queria levá-los, mas não tinha dinheiro para comprar. Então ele viu o dono da loja distraído, escondeu um livro aqui, outro ali e saiu da livraria, sem chamar a atenção do dono. Com o sucesso da empreitada, toda semana ele ia até a livraria e, ao ver o livreiro distraído, malufava uns dois livros e ia pra casa lê-los.

Um belo dia, anos depois, o Fausto Wolff começou a fumar. Então, na livraria, ele pegou seus dois livros habituais , mas decidiu também afanar uma caixa de cigarros. Só que, na saída da loja, o livreiro pegou-lhe pelo braço, e disse: “Livro pode. Cigarro não”.

Li o À Mão Esquerda no pior momento da minha vida, e esse trecho foi meio que uma catarse, quase aquela coisa marxista de achar que sempre haverá uma saída – e a saída, ali, pra mim, era sempre tentar ser esse livreiro, porque, afinal de contas, viver é ter boas histórias pra contar no bar, e esse livreiro merecia todo um tratado etílico sobre a experiência humana.

E hoje, depois de três doses de Black Label e umas duas de vinho, a gente pensa nos caminhos e descaminhos dessa vida. Perto dos 30 anos, me pintou uma acachapante noção – inédita, no meu caso – de que a vida real não tem Control + Z. Há dez anos, eu poderia dar roll back se tudo estivesse dando errado. Aos 30, você toma grandes decisões na vida que vão te influenciar até o fim dela. Você tinha dez caminhos diferentes pra seguir, e adoraria seguir todos, mas só pode ter um. E, ao escolhê-lo, o negócio é esquecer de que está perdendo os outros nove, sob o risco de broxar no único que de fato vai viver.

E pra completar a ciranda, às vezes surge uma Roda Viva que, como consolo, te dá a certeza de que por ela passaria se escolhesse absolutamente qualquer um dos caminhos e que vai fazer da tua vida um hiato momentâneo – e que hiato, amigo. Independentemente do caminho que vai vir, o que importa é se lembrar do livreiro do Fausto Wolff. No fundo, são de coisas assim que valem a experiência dessa vida.

Fevereiro de 1964

Se você acompanha a reta final das eleições pelos jornalões Folha, Globo e Estadão ou pela Veja, já está sabendo que o Brasil vive um cerceamento da liberdade de imprensa patrocinado pelo governo, cujo partido instituiu a corrupção em nível nacional, acobertada pelo carisma do presidente da República que, por sua vez, é analfabeto e quer ser substituído por uma terrorista ladra de banco.

Se você acompanha a reta final das eleições pelos colunistas Merdal Pereira, Miriam Porcão, Eliane Galisteu Cantanhêde e Lúcia “Telefone Piscante” Hippólito,  já entendeu que o povo é ignorante o bastante para se deixar seduzir pela boa fase da economia, que é mérito exclusivo do governo FHC, este sim um democrata (não é de bom tom citar esse negócio de compra de votos para a reeleição em 1998).

O fato é que as eleições 2010 viraram uma pataquada por conta do clima artificial de risco à liberdade e provável fim da humanidade como desfecho em caso da vitória de Dilma Roussef nas eleições, como se estivéssemos em fevereiro de 1964 e a Ditadura estivesse aí, tropeçando na esquina – e convém não esquecer que aquela Ditadura, que veio para desinfetar a ameaça esquerdista, foi saudada pelo Estadão com uma chuva de papel picado no então prédio do jornal, ali na Major Quedinho.

As eleições, ou ao menos o primeiro turno delas, chega ao fim com um cenário desolador. Quem esperava propostas viu a metástase dos marqueteiros se espalhar pelos candidatos.

O programa de Dilma Rousseff vendeu a candidata como se fosse integrante do Friends.

José Serra, por sua vez, apelou pra qualquer coisa que conseguisse frear sua queda nas pesquisas, o que valeu até a chorar no bloco final de um debate e insistir no papel de coitado ao dizer que era filho do quitandeiro pobre da Mooca. Não colou. Como bem notou Jânio de Freitas,  Serra é o único candidato a entender a eleição como um projeto pessoal, não de seu partido, não de seu viés ideológico.

Marina Silva, a outsider verde, apostou na imagem “Eu sou legal” para maquear sua falta de abrangência de propostas para tudo o que não fosse Meio Ambiente.

Como cereja do bolo, tivemos Plínio de Arruda Sampaio, a quem coube o papel de Grêmio Barueri em um campeonato de Barcelonas e Manchester Uniteds. Teve a graça de destroçar a estrutura montada por marqueteiros dos outros candidatos nos debates, mas não foi muito mais que isso.

A oposição encabeçada pelo PSDB apelou, jogou os ratos do esgoto no ventilador pra tentar tirar uns pontinhos da candidata do PT. Mas este não é o lado pior: no desespero, candidatos apelam. É horrível, mas acontece. O problema mesmo é quando a classe média e, acima de tudo, setores da imprensa usam de todos os meios para evitar o que não desejam. Extrapolar o bom senso é perigoso. Evocar o cerceamento da liberdade de expressão é vergonhoso.

Dilma Rousseff não é terrorista. Dilma Rousseff não é ladra. Dilma Roussef não é lésbica (e se for?). Ela tem motivos para ser uma boa presidente da República, da mesma forma que os têm para fazer uma gestão fraca. Os argumentos estão aí, mas não foram usados na imprensa. Que Diógenes apareça com sua lanterna iluminando o bom senso nas redações para as eleições de 2012.

Mais:

Blog do Corazza: O cachorro assado, as eleições e o “estado policial”

Paulo Moreira Leite: Quando os tucanos pedem censura

“Deitado sobre o meu vexame (a cama está toda vomitada e eu tenho certeza de que não comi nada; é o estômago se iludindo) vou tentando fugir à análise que se me apresenta. O momento mais uma vez exige um gesto. Lá fora, ao som de uma subconsciente música circense, os homens vencem na vida. Aqui dentro, luto contra o inevitável. E o mais terrível é que neste instante vem-me a certeza de que o inevitável sou eu. (…) O momento exige um gesto. Ora, não finjamos. É preciso descer ao circo, escrever. Mas, se preciso escrever, por que fico pensando em seios gigantes e em gibis? Se preciso trabalhar, por que fico assim deitado? Por que não saio de cima desta cama, deste fedor, destas moscas que andam por cima da minha cara? Todas as mulheres que conhecerei no futuro, depois da foda dirão ‘Mas você não se esforça? Todas estão trabalhando, todos estão tentando, e você?’ Será possível que elas jamais compreenderão que me custa muito ficar deitado sobre o vômito? Que me custa muito ficar imaginando se a mão que está presa ao meu braço, realmente, me pertence? Mas não – isso aos já habituados ao canil – deve ser preguiça. Interessante, sempre há alguém para o cargo de herói e para me dizer que eu não sou herói. Quando desmaiei, um bravo cidadão, acompanhado de outro bravo cidadão, carregou-me, provavelmente, até minha casa. Os comentários gerais: ‘Mas que homem humano. Está carregando o infeliz nos braços.’ Ora, pois se fui eu que desmaiei de fome, fui eu que consegui fazer com que a vida do bravo cidadão tivesse algum sentido. Se eu não houvesse desmaiado, ele não poderia ter alimentado o seu superego com os comentários sobre o seu humanismo. Depois o bravo cidadão de merda ainda diz que eu só dou vexame. Pergunto: meu vexame fere a ele ou fere a mim? Quem é o benfeitor? Ele ou eu? Quem está ao lado de sua mulherzinha, enquanto ela raspa as pernas, contando como ajudou um infeliz? Eu sou o bravo cidadão de merda? Quem é o infeliz, porra? Logo, alguém deveria pagar-me alguma coisa pelos atos de heroísmo que proporciono aos bravos cidadãos, ou não?

O acrobata pede desculpas e cai, Fausto Wolff (1966). Editora Coderci (2ª edição, 1982).

A vida dos outros (e as nossas próprias)

Provavelmente sou menos culto do que eu próprio acho que sou, e seria irrelevante se eu tentasse engatar uma discussão sobre o papel que a arte exerce na vida das pessoas. Não vou ter essa pretensão.

Experiências pessoais são válidas, no entanto. Há alguns anos fui ao teatro ver Gota D´Água, do Chico Buarque, com a atriz Georgette Fadel. Era um sábado à noite no Teatro Fábrica, na Consolação. Na porta do teatro, estacionaram dois ônibus lotados de pré-adolescentes vindos de alguma região bem periférica da cidade. A molecada falava alto e não parava de cutucar uns aos outros, de modo que eu, com o pensamento automaticamente imbuído da empáfia que a ocasião facilitava, fiquei irritado com a possibilidade daquele povo começar a gritar e atrapalhar minha peça. Sentei nas primeiras cadeiras, perto do palco, pra evitar ao máximo o contato com a turma do fundão daquela escola.

E então veio a peça, e o silêncio de todos me surpreendeu. Foram quase três horas de espetáculo absoluto de Georgette Fadel, que fez seu um metro e meio de altura tomar os espaços do palco. Ao término, quando a angústia crescente do enredo tem seu estouro de boiada, a plateia caiu em êxtase, e eu não acreditava ao ver aquela molecada-povão da perifa aplaudindo demais, muitos aos prantos, emocionadíssimos por ter participado daquilo, simplesmente da mesma maneira como o bocó da classe média aqui. Foi a grande peça da minha vida – não, eu não vou a muitas – e por certo foi a grande peça da vida de muita gente ali.

A mesma vertigem emocional que vivi ao ver Gota D´Água eu tive em alguns filmes que transformam uma ida ao cinema ou duas horas na frente da TV em um moinho que revolve toda a razão de existir. Por acaso vi esta noite que passava na TV Cultura o filme alemão A Vida dos Outros, que conta a história de um funcionário da Stasi que espia um intelectual reprimido da Alemanha Oriental prestes a arriscar a vida para denunciar as atrocidades do regime do país.  E o fim do filme é daquelas coisas que se reaver todas as crenças no ser humano, de achar que Deus existe mesmo e adora tomar umas cervejas num fim de tarde.

A Vida dos Outros é daqueles filmes que as pessoas deveriam ser obrigadas a assistir antes de poderem tirar o RG, tão marcantes na minha vida quanto O Filho da Noiva, Casablanca, Hotel Ruanda, Perfume de Mulher, por exemplo. Parece que esses filmes tocaram um ponto em meu cérebro que soa um alarme que retumba a questão na minha cabeça: “E aí, tua vida tá indo nalgum caminho assim também?”.

É o mesmo ponto do cérebro que desmoronou ao terminar Os Detetives Selvagens, do Roberto Bolaño, ou quando, nos raros momentos que vou a Jundiaí, vejo meu pai botar Al di la na vitrola só pra agradar minha mãe, porque eles estão há 44 anos juntos e é também nestas pequenas coisas que fazem sentido eles estarem há tanto tempo assim.

No fundo, acho que era isso que eu queria dizer: todas as manifestações artísticas que nos dizem alguma coisa estão aí para lembrar que dá sempre pra melhorar. É isso que nos difere da barbárie, é isso que nos difere dos animais. Sem isso, a arte, como a própria vida, não tem razão de existir.

No rastapé da Poppovic em POA

Sonhei que eu e o Corazza fomos convocados para cobrir a festa de aniversário da Silvia Poppovic, que ocorreria numa segunda-feira à tarde no Shopping Praia de Belas, em Porto Alegre. Seria um café da tarde comemorativo. Até onde sei, a Poppovic tem a mesma relação com Porto Alegre do que eu, ou seja, nenhuma, mas tudo bem.

Fomos, portanto, para Porto Alegre e, chegando ao shopping, descobrimos que eu, Corazza e a Glória Maria éramos os únicos que tinham topado a empreitada, para constrangimento da assessora e da própria Silvia.

Comemos bolo de chocolate, tiramos algumas fotos, conversamos bastante com a Silvia Poppovic e a Gloria Maria e a coisa felizmente terminou por aí.

Acho que foi o sonho mais aborrecedor que tive nos últimos anos.

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