HISTÓRIAS QUE AS NOSSAS BABÁS NÃO CONTAVAM I

Brasil, África. Estamos em Buenos Aires, a capital. Crise no alto escalão do governo federal. Envolvidos: o ministro que tem a chave da caixa forte do tesouro, seu ex-assessor e amigo dos tempos de interior, e uma dessas moças da noite que cheiram a álcool e fumam sem parar.
Sucedeu-se que o ministro freqüentava exatamente uma dessas casas que cheiram a álcool e onde as pessoas fumam sem parar, e que, quando você entra, as moças do recinto sentam no teu colo e prometem abaixar o decote caso você pague um whisky 12 meses a elas.

Uma dessas moças, a que foi citada no primeiro parágrafo, era tão competente em suas atribuições que o ministro – que na época ainda não era ministro – resolveu tê-la como “frila fixa”. A cada vez que ele freqüentava reuniões com lobistas, a dita cuja ganhava uma dose de whisky 12 meses e dava uma abaixadinha no decote só pra ele. Ocorriam outras coisas mais, mas agora não vem ao caso.

O tempo passou e o ministro se tornou, enfim, ministro. Mudou-se para a capital e a dita cuja teve que procurar outro para lhe pagar whiskys vagabundos. É então que entra em cena o ex-assessor do agora ministro, que se apaixona irremediavelmente pela dita cuja. Primeiro, faz dela sua “frila fixa”, para depois efetivá-la até que a morte os separe.

A paixão é tanta que o ex-assessor pega raiva do ministro. “Esse safado punha a mão no decote da minha mulher!” Sem contar que o ministro, ao mudar para a capital, esqueceu da existência daquele que um dia foi o seu assessor, e que muitos podres sabe dele.

Por essa e por outras questões financeiras ainda não bem explicadas que a caixa forte do país deve mudar de mãos a qualquer momento.

É COMO UM ESPIRRO, SÓ QUE MELHOR

A grande tara do japonês é a adolescente vestida de colegial. Não precisa ser adolescente, em verdade. Bastam as vestimentas. Uma Hebe Camargo de lacinho no cabelo, pasta debaixo do braço, mini-saia e meias até os joelhos transformam todo a famigerada sisudez de um japa em vigoroso impulso sexual.

Um filme pornô clássico não cativa um japonês. Não adianta uma loira com busto enorme e cinturinha fina não ter troco para dar ao entregador de pizza – partindo daí o mote para que ela dê o troco em outra moeda. O japonês pode até sentir prazer vendo o batom vermelho da boca da atriz arrancando o zíper da calça do moço do delivery, mas o japa típico, aquele que trabalha dez horas por dia de terno e gravata e toma sopa com palitinho, não vai se descontrolar por causa disso. A saia, a pasta debaixo do braço e a maria-chiquinha é que enchem suas veias e provocam os mais baixos instintos.

Nove ou dez horas de vôo separam não só o Japão dos Estados Unidos, mas também um outro nível de recalque. Sexo é pecado, ereção é blasfêmia, tira essa mão daí, menino!, ouve o molecão do Oregon o dia inteiro. Não deseje sua vizinha, não deseje sua colega, simplesmente não deseje. É feio. Então, o ponto de convergência entre seu cérebro, sua mão e sua parafernália sexual é acionado por qualquer coisa: uma calça levemente apertada, uma sugestão de decote, uma piada maliciosa. Daí aqueles filmes pornôs bizarros obterem tanto sucesso, mesmo que a qualidade de rigorosamente tudo na produção seja de tirar o apetite sexual de um coelho em lua-de-mel.

Aliás, uma definição de fime pornô vagabundo: é regulamentado como produção erótica de péssima qualidade todo e qualquer filme cujo ator coloque a mão na cintura na hora do ato e comece a se balançar freneticamente, fazendo caretas lamentáveis de suposto prazer.
Onde eu queria chegar com isso: Geraldo Alckmin é o tipo do sujeito que não nos permite imaginá-lo tendo uma reles ereção. Mas ele tem, óbvio. E são pessoas desse tipo que, na hora H, pedem para chupar o dedão ou exigem que a parceira seja espancada. Ele tem a marca do recalque da Opus Dei.

Tenho a impressão de que atitudes políticas e atitudes sexuais não ficam tão distantes assim. Como diria Regina Duarte há quatro anos: eu tenho medo.

MATEM O GOOGLE E CHAMEM O WEBMASTER

Juro que ia escrever algo da mais absoluta relevância neste post, mas perdi a inspiração depois que dei um google em meu nome completo e, na última ocorrência, encontrei o link para o site Minha fimose, minha vida – o Filme.

O anti-clímax foi inevitável, a catatonia me domina. Agora só se fala bem de FV em terrenos baldios, na presença única e discretíssima de uma cabra vadia (copyright N.R.). O post que ia escrever fica pra quando me recuperar do trauma.

Besouro, quando cai de costas, não se levanta nunca mais.

A NAÇÃO QUE ACABOU EM DÍZIMA PERIÓDICA

Marechal Tito, um iugoslavo.

Slobodan Milosevic morreu e a pergunta que não quer calar é: foi com a mão ou impedido? Vão-se os slobodans, ficam os kosovos, após quase uma década de quando Mônica Lewinsky foi pega com a boca no Bill Clinton, que teve que inventar algo genial para disfarçar a mancha no vestido da estagiária. Como invadir a Iugoslávia, por exemplo. E agora, com Milosevic encontrado em cima do telhado, o mundo volta a se questionar: o que é a Iugoslávia além de um país que a cada cinco anos se divide em dízimas periódicas cada vez menores? Sérvios mataram bósnios com a ajuda de croatas, que ajudaram os nazistas na Segunda Guerra, mas que perderam para os sérvios com a ajuda dos comunistas. Um tal Marechal Tito passou a vida tentando juntar os caquinhos, mas aí veio o orangotango do Slobodan a jogar cadáveres de muçulmanos em valas comuns vingando rixas que datam a partir de 1300. E lá se foi mais um país para a lixeira da História.

E hoje, para sanar as diferenças, bota-se uma fronteira na esquina por razões irracionais. Fiquemos longe dos sérvios porque eles são carnificidas, e também dos croatas porque ajudaram os nazistas, e também dos bósnios porque são feios. Tem também os kosovares que são pobres, e os albaneses que só sabem criar ovelhas. Então, onde ficava a padaria do Zulic agora fica a divisa de nosso povo, independente desde semana passada e reconhecido pelo sobrinho do Bora Milutinovic, composto por nós, o vizinho da direita e o bigodudo da banca de jornal ali da frente. Temos ascendência eslava mas com um pé na cozinha da Albânia, e brigamos com os mouros, os curdos, os surdos, os mudos, os barenitas e os sodomitas. Não gostamos de ninguém, somos maus, dedamos um, dedamos geral.

Tudo isso incentivado pelo Slobodan, que foi preso, sim, mas que vinha sendo julgado com o patrocínio de chefes-de-estado da linha Tony Blair, que não conseguem tomar qualquer atitude política sem antes consultar os lobistas das empresas que o colocaram no poder em seus países, que precisam saber se vão ter algum lucro na situação.

Moral da História: se Big Ben tivesse dado certo, não estaria ocorrendo até hoje em alguma galáxia por aí. Volta Big Ben. Vem acabar com o mal que você começou.

THE BIBLE IS A LOCOMIA

SALMO 23: 1: O Senhor é o meu pastor, nada me faltará. Porque Deus está comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam.
Ui.

DECIFRA-ME, MAS NÃO ME DEVORE

Não sou nada
Nunca serei nada
Não posso querer ser nada

A parte isso, minha unha está encravada.

(não foi Álvaro de Campos)

E NA QUARTA-FEIRA SEMPRE DESCE O PANO

Todo final de carnaval tem um quê espiritual. Bêbados se desentendem com suas garrafas e caem nas sarjetas, que se desentendem com as calçadas, que não chegam a um acordo com as poças dos diversos líquidos que por elas pairam. O Almeidinha que passou cinco dias imitando Nero incendiar Roma se vê obrigado a voltar para seu mundo tatibitati, onde a mulher e a sogra novamente o confudirão com a cômoda antiga da sala. Putas invariavelmente voltam para casa cansadas e chorando pelas vielas vazias. É batata: puta que é puta volta para casa chorando na manhã da quarta-feira de cinzas.

Entendo essas putas porque gosto de carnaval. São 360 dias por ano batendo o maldito ponto do submundo do cais da vida. E onde é que ela vai ser uma normal, dançando com outras mulheres com decotes maiores que o seu, com as coxas para fora mais que as suas, sem que sejam todas chamadas de putas? Na avenida, no bloco, no salão. Lá ela não é puta, é mulher, e pode se atrair e se atracar com um homem e não esperar a gorjeta, mas sim imaginar que ali pode estar o rapagão com quem ela vai juntar os trapos e, enfim, deixar de esperar o trem que o Pedro Pedreiro do Chico passou a vida a esperar também.

Carnaval é coisa de pobre, e, lamento informar, eu gosto de pobre. Gosto de carnaval não só dos porres e das mulheres peladas, mas porque ali no fundo existe essa capacidade de nos permitir ser algo que não somos, mas que gostaríamos um dia poder ser. Mas Chico Buarque (de novo) explicou isso melhor que qualquer no longínquo ano de 1965, em sua primeira composição, Sonho de um Carnaval. Eu deixo pra ele, porque, no fundo, dessas coisas da vida eu não entendo nada:

No carnaval, esperança
Que gente longe viva na lembrança
Que gente triste possa entrar na dança
Que gente grande saiba ser criança

NOSSOS ÍDOLOS AINDA SÃO OS MESMOS, E AS APARÊNCIAS NÃO ENGANAM NÃO

Odair José é feio, mas já esteve na moda

Houve uma época em que até as músicas ruins eram boas, mas isso foi no tempo em que a camada de ozônio ainda existia. O hit do Largo da Batata de ontem muitas vezes guardava alguma sensibilidade musical, coisa que já não ocorre no mesmo de hoje em dia. Tirando alguns casos em que é possível rir para não chorar – como naquela música do Alexandre Pires que começa com a frase “Tô fazendo amor com outra pessoa” – a regra geral é, como diria Fausto Wolff, matar o cantor e chamar o garçom, tanto na letra quanto na música. Veja o Frank Aguiar, o sujeito que mais vende discos no Brasil, que, para disfarçar que esqueceu a letra, emenda um gritinho pra lá de esquisito, que lhe rendeu o apelido de “Cachorrão”. Pois a classe média, que outrora se vangloriava de estar um nível cultural acima da plebe, hoje vê seus filhos ouvindo Inimigos da HP em sua Saveiro tunada na avenida principal da cidade no domingo de tarde.

Mas antigamente as empregadas domésticas ouviam Odair José. Eram os anos 70 e 80 e o Brasil assumia sua derrota vivendo sem medo de ser infeliz. As músicas de Odair José e congêneres falavam de paixão por putas, amores desastrados, dor de corno, sexo sujo, briga de bar, conhaque Palhinha e cachacinha em lata, enfim, do Brasil, esse país que o FHC não cita em suas conversas com seu amigo Bill Clinton.

São engraçadíssimas, mas, se ouvirmos com mais atenção e tentando entender o contexto, dá pra entender que elas tem lá sua profundidade, apesar do caráter aparentemente único grotesco. Gosto de ouvir duas do Odair José: Vou tirar você desse lugar, onde Odair – olha só a intimidade com o ídolo – relata a experiência de ir a um meretrício “só para me distrair”, mas se apaixona perdidamente pela moça. Aí ele volta ao recinto para prometer uma vida digna a ela, e ambos organizam seus sonhos e compartilham suas frustrações em busca de um futuro melhor.

Outra música dele muito peculiar é a Revista Proibida. O sujeito compra “uma revista proibida, uma revista só para homens”. E, provavelmente no banheiro, pronto para descabelar o palhaço, ele dá de cara com a ex-namorada nua na primeira página, o que o faz sentir saudades dela e descobrir o quanto ainda a ama. Agora perceba a sutileza do refrão:

Quando você foi embora, não quis me dizer
Vendo você na revista, eu consigo entender

Musicalmente, essas duas canções não devem muito aos Lionel Ritchie e Barry White da mesma época. Fossem cantadas em inglês, a classe média as engoliria com facilidade, e então seria comum ouvir Odair José na Alpha FM, Antena 1 e outras rádios que fazem sucesso nos elevadores por aí.

Mas, sinceramente, o maior legado desses músicos para nós, estrangeiros de classe média rodeada por um país de favelas, é saber que as pessoas desse mundo ao mesmo tempo perto e distante possuem mais coisas parecidas conosco do que gostaríamos de saber. É pra parar de achar que temos que tampar o nariz para entender a mulher que limpa o nosso banheiro às quintas-feiras, como se ela estivesse abaixo do nosso cachorro. Mude o contexto, mude o cenário, e eles estão ali, iguaizinhos a você, com os mesmos sentimentos. Ouvindo música brega, eu entendi. Mas, com o perdão do trocadilho com a música, vendo na revista Veja eu não consigo entender.

O ETERNO RETORNO À IDENTIDADE NACIONAL

Com este post dou por encerrado o especial “Semana da pátria fora de época, ou como definir meu país em quatro fotos esdrúxulas”. Sociologia do Ibotirama é isso aí.

A ESSÊNCIA DO HOMEM CORDIAL

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