Sobre a racionalidade no futebol

Antes de começar a escrever este post, gostaria de declarar que já fui diagnosticado por psicólogos com um sujeito extremamente racional. Posto o introito, segue o post.

Quarta-feira passada, a Sociedade Esportiva Palmeiras, vulgo meu time, entrou em campo pela partida mais importante do ano até aqui. O jogo era contra o Sport em Recife, pela Libertadores da América, e não tínhamos muitas opções: era vencer ou dar adeus a única competição que realmente importa no semestre.

Procuro recusar convites para ver jogo do Palmeiras no bar. Primeiro porque nunda dá pra ver muita coisa mesmo. Segundo, porque sempre que faço isso, meu time perde. 

Portanto, cheguei em casa na última quarta minutos antes de o jogo começar. Fui me trocar, mas acabei ficando só de cueca,  apesar do frio, enquanto preparei rapidamente o jantar. Sentei na frente da TV com o prato em mãos e… gol do Palmeiras.

Neste instante, ocorreu-me fazer a única coisa que um homem frio e racional como eu deveria fazer nessas horas: permanecer de cueca até o fim da partida, porque evidentemente tinha dado uma sorte tremenda.

Passei um frio do cão, espirrei como um gripado, mas não arredei o pé dali. O Verdão venceu por 2 a 0 e eu tenho certeza absoluta de que isso só ocorreu porque permaneci seminu até o fim da partida.

Acordei com dor de garganta e um sorriso de orelha a orelha.

Você me deve essa, Luxemburgo.

Breve história sobre o “A Nível de”

Só para não deixar no ar uma introdução – ui – ao nosso objetivo quando decidimos eregir – ui – um condomínio de blogs, explico: não queríamos muita coisa.

A maior parte dos que blogam aqui o fazem há uns cinco anos, alguns mais – eu comecei no News Associados (blog dos amigos de classe na faculdade que o blogspot fez o favor de deletar) em dezembro de 2002, quando ainda achava que blogs era coisa de menininha que queria colocar o diário na internet – não que eu fosse menininha, que fique bem claro.

Em 2004, após a falência do Associados, tal qual um Ricky Martin após os Menudos abri o meu blog solo chamado SorryPeriferia – primeiro no UOL zip.net (uma merda), depois no Blogger BR (um pouquinho menos  merda). 

Desde que trabalhávamos juntos na coordenadoria de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero (uma merda) , eu, Corazza e Leandro mantínhamos blogs. O Savarese, que não trabalhava lá mas era habitué ao ouvir músicas bregas no recinto, também mantinha o seu. Kátia, idem.

Também do jornalismo da Cásper vieram Zangari, Vinícius, Matheus e o Rodrigo, todos que mantinham ou, no passado, já tiveram blogs. Todo esse povo junto, mais outros desblogados, mantínhamos no blogspot o Melhores Manchetes, com as melhores frases da turma geralmente enquanto bêbados, e o Melhores Releases, uma compilação dos releases mais estapafúrdios que recebemos das assessorias de imprensa.

Há pelo menos dois anos comentávamos sobre a possibilidade de juntarmos todos em um mesmo espaço. A ideia não era ficarmos ricos, apenas dizer que a somos todos farinho do mesmo saco, o que é legal. Ano passado, quando Leandro e Vinícius foram trabalhar no IG, conseguimos um domínio ‘de grátis’ no IG Empresas e a ideia começou a sair do papel.

Convidamos o Raatz – do alemão, o rato do Mussum -, também jornalista, pra fazer parte do grupo, e as publicitárias Mirella e Claudinha, amigas de futura longa data.

Contratamos o Mateus Reis, do Ovelha Elétrica, pra desenhar e colocar no sistema. É ele o responsável pelo bom gosto vigente qui.

O grupo é um tanto homogêneo e as pessoas têm algumas histórias para contar. Leandro já entrevistou o papa e, suspeito, tem Bento XVI  lista do seu MSN.

Corazza morou o ano passado inteiro na China, onde hospedou, durante as Olimpíadas, o Savarese.

Zangari, por exemplo, largou o jornalismo esportivo para fazer seminário, e hoje estuda para ser filósofo. 

A Kátia é uma espécie de entidade mística das danceterias da região da Augusta- eu que sou anacrônico ainda uso ‘danceteria’ no lugar de ‘balada’ -, sempre atacando de DJ.

O Matheus já publicou dois livros de contos.

E por aí vaí.

Divirta-se.

Oscar Niemeyer: “Vamos correr demais os riscos desta infinita highway”

Oscar Niemeyer, em seu escritório no Rio de Janeiro

Oscar Niemeyer, em seu escritório no Rio de Janeiro

Gancho é tudo nessa vida jornalística. Aproveitando o ensejo da re-arquitetura de SorryPeriferia, agora alinhado a nível de Condomínio, tivemos a liberdade de entrevistar moralmente o papa – ele é mais velho que o papa – da arquitetura, Oscar Niemeyer. Sem mais delongas:

Sorry Periferia: Fala aí, seu Niemeyer, é um prazer bastante arquitetônico tê-lo como entrevistado aqui, viu?

Oscar Niemeyer: Imagine, o prazer é meu. Saiba que discutíamos muito o SorryPeriferia com o Juscelino durante a construção de Brasília. Só não gostei destas linhas neoclássicas ao redor do lay out. Ao invés disso, o arquiteto deveria ter pensado nas curvas de um corpo de mulher.

SP: Ok, seu Niemeyer, mas o webmaster era bem bom, viu? Olha só, mudando de assunto: considerado que em 101 anos de vida dá pra acompanhar mudanças significativas no modus operandi da vida política; considerando que, quando o senhor nasceu, Karl Marx ainda estava adolescente e não padecia de furúnculos; considerando que o fim da história morreu outro junto com o 11 de setembro, mas o senhor taí inteirão, vale a pergunta: o homossexualismo é um vício de nossa sociedade?

O. N.: Olha, é uma pergunta bastante relevante esta, pois de fato essa história de homossexualismo é um ato burguês e contra-revolucionário que representa a decadência desse mundo capitalista. Imagine você que outro dia desses veio um menino aí na porta dizendo que a União Soviética tinha ruído, que a Rússia era agora capitalista – pra você ver como o governo do capitalista Getúlio está fazendo mal à educação desse povo. No meu tempo não tinha nada disso de pederastia. Inclusive o grande líder Stalin, um injustiçado pela História, que quando jovem gostava da cultura, das artes e da filosofia, sempre a cantar e dançar alegremente com seus amigos (aqui para assinantes da Folha ou UOL), já alertava para a promiscuidade entre homens e mandava essa rapaziada toda pra sala de massagem lá em Vladivostok.

SP: Mas não houve aquele lance entre você e o Burle Marx?

O. N.: Não, não, aquilo na verdade foi apenas um ato revolucionário entre amigos.

SP: Hum… dá pra explicar?

O. N.: Na verdade estávamos eu, o Burle e o Lúcio Costa num fim de tarde durante o projeto da Igreja da Pampulha. Brincávamos de Dança das Cadeiras com uma marchinha da Dalva de Oliveira. Quando a música parou, acabamos sentando ao mesmo tempo na mesma cadeira de maneira um tanto lasciva. Aí foi quando as flores voltaram mesmo – até porque o Burle era paisagista, sacomé. Mas foi um incidente isolado e revolucionário de nossa parte – lembre-se que todas as minhas obras foram baseadas nas curvas de um corpo de mulher brasileira, e não no bigode do Burle.

S.P: Entendi. Mas então se o critério para suas obras foi um corpo de mulher brasileira, o Memorial da América Latina foi baseado na Rebeca Gusmão?

O. N.: Aí você tocou num ponto importante, porque a Rebeca Gusmão é um exemplo salutar de mens sana in corpore sano ideal que o comunismo soviético apregoa. Nossos companheiros de Partido Comunista Francês têm verdadeiro apreço por ela. Jean Paul Sartre, nosso mestre que tinha um olho na filosofia e outro no gato, só se referia a ela como Rebecca, La Rouge. Mas respondendo sua pergunta, eu diria que, quanto mais, principalmente.

S. P.: Seu Niemeyer, uma outra indagação: o senhor confirma os boatos de que o Cassino de Funchal foi inspirado em uma enceradeira?

O. N.: Apenas tenho a lamentar este tipo de calúnia capciosa. Trata-se de uma provocação porque o povo que habita os países do bloco comunista soviético e libertário do qual faço parte não possuem enceradeiras nem outros bens de consumo facilmente adquiridos, assim como comida – como se comida e bens de consumo significasse alguma coisano índice de desenvolvimento humano.

S. P.: E pra encerrar: fala qualquer merda aí.*

O. N.: Gostaria de mandar um recado a todos os jovens comunistas-stalinistas revolucionários do mundo: resistam. Não perdemos a guerra. Ela só só começando. A guerrilha se espalha por todo Araguaia. Esse menino Fidel Castro chegou agora e veio pra ficar. Como diria meu grande amigo membro do Partido Comunista Francês do Rio Grande do Sul, Humberto Gessinger: eu sigo em frente, pra frentre eu vou. Vamos correr demais os riscos desta infinita highway.

* última pergunta inspirada nas últimas perguntas da extinta revista Casseta Popular.

O BRASIL, O PISCA-ALERTA E A LEI DO MAIS TOSCO

Uma das coisas que mais me assustam é notar que aquele velhinho ranheta que distribui bengaladas nas crianças no parque um dia pode ter sido um doce de pessoa. As razões que transformam jovens tranquilos em idosos insuportavelmente chatos vão desde a questão hormonal e física – as coisas começam a funcionar mal conforme vamos envelhecendo e isso não é legal – até as desilusões que a vida nos presenteia: aos 20 você sonhava em mudar o mundo, plantar uma árvore e ter um filho; aos 60 você se dá conta que o mundo te mudou, você comprou um casaco de pele Taillissime pra sua mulher e constantemente surpreende a si mesmo perguntando ao espelho do motivo de não ter comprado um cachorro ao invés de ter 3 filhos.

Agora que estou prestes a completar 28 anos e as três décadas de idade já começam a me acenar ali da esquina, as primeiras desilusões começam a aparecer – e, acima de tudo, espero que não sejam muitas até o (distante) final da minha vida. Acho que minha primeira grande desilusão foi com esse nojoso e pusilânime costume a que a subnitrato de pó de repórter Glória Maria tanto vangloria: o jeitinho brasileiro.

Quero explicar para o simpático leitor que porventura tenha a honra de não conviver com o que estou falando: jeitinho brasileiro é quando você burlar leis ou regras para se dar bem, sorri marotamente para os outros e fica extremamente bem consigo mesmo por ter obtido êxito na empreitada, mesmo quando isso prejudique outra pessoa, ou um conjunto de pessoas, ou uma sociedade inteira. O jeitinho brasileiro é a pequena corrupção, é a vitória do “eu” sobre o “nós”. Teve origem quando a única lei da terra de Veracruz era a Lei do Mais Forte. Tornou-se hoje a Leia do Mais Tosco.

O ambiente mais aconchegante para o brasileiro demonstrar sua incrível habilidade em ser um filhodaputa é o trânsito. E vou mais longe: a alma do brasileiro está no pisca-alerta. Você pode julgar o caráter de uma pessoa pela forma como ela utiliza o pisca-alerta do carro.

Assim sendo, aquela senhora não tem o menor pudor em ligar o pisca-alerta do seu Fiat Dobló e parar em fila dupla na frente da escola dos filhos, mesmo que isso cause um congestionamento de 15 quilômetros em toda região. Você passa ao lado dela, xinga, e ela ergue o vidro, liga o ar-condicionado e finge ouvir a Alpha FM enquanto os filhos não chegam. Não importa que os 10 minutos que ela passou ali, observando o pisca-alerta acender e apagar, acender e apagar, acender e apagar, piorou a vida de um bairro inteiro num fim de tarde. O que importa é que os filhos dela não precisaram dar mais que dez passos para sair da escola e entrar no carro. Ela sabe que a chance de um marronzinho passar ali naquele período é pequena e ela permanecerá impune e fará de novo. Esta senhora é uma corrupta monumental.

Perceba: o brasileiro típico crê piamente que o pisca-alerta lhe dá a autoridade de um tzar russo. Você liga o pisca-alerta e, tchanans!, pode fazer qualquer coisa, burlar todas as leis, rasgar o código de trânsito. Assim sendo, quando um engarrafamento ocorre na estrada, o que faz o brasileiro típico de qualquer classe social? Liga o pisca-alerta e, tchanans!, se transforma no Super-Brasileiro Típico, o que corresponde a cair para o acostamento e acelerar, às vezes rindo dos trouxas que estão obedecendo as leis parados ali na pista. Então quando o Super-Brasileiro Típico passa no acostamento do seu lado com o pisca-alerta acendendo e apagando, você grita “Que você morra com sucessivas cãimbras nas partes íntimas, seu filho de um tatu-anão com um fusca!”, ele esboça um sorriso, debochado. Ele sabe que a chance de ser multado é ínfima e fará de novo, porque compensa. Este sujeito não pode falar mal de Paulo Maluf. Esse sujeito é Paulo Maluf. Esse sujeito é um corrupto monumental.

Sabe, fino leitor, essas pequenas grandes coisas cansam e só as vejo aumentar, nunca diminuir. Lembrei de uma coisa que dará o desfecho final deste post: a CartaCapital publicou no último carnaval uma ótima reportagem sobre os arquivos de Charles Darwin de quando ele passou aqui em Terra Brasilis. Entre outras pouco edificantes palavras, disse Darwin sobre os brasileiros: “Ignorantes, covardes e indolentes ao extremo; hospitaleiros e bem-humorados enquanto isso não lhes causar problemas; temperados, vingativos, mas não explosivos”. Era 1831 e o biólogo inglês descrevia ali o jeitinho brasileiro. O homem era um gênio mesmo. E nós, desconsoladamente corruptos.

NA CALADA DA NOITE, UMA CHULETA MAL SUCEDIDA

Nitidamente irritado por conta do gol que Ronaldo Picanha marcou contra o meu time aos 47 do segundo tempo, após o goleiro ter saído a caçar borboletas em uma bola aérea, saí do meu plantão em busca de vingança, o que, no meu caso, consiste em comer uma chuleta ao alho e tomar um porre em plena meia-noite. Eu realmente sou um cara moderno.

Estacionei Wantuir, meu carro, na frente da Esquina do Fuad, no Santa Cecília, que é pertinho de casa e é um dos meus bares prediletos, embora seja caro, sujo, exibe um festival de erros de português no cardápio e mantenha retratos na parede do dono com figuras espúrias da política brasileira: Maluf, Conte Lopes, etc.

Enquanto tomava um açude de cerveja para combater o calor e a mágoa que Ronaldo Picanha me causou, raspava pão no azeite a esperar que a chuleta ficasse pronta. Foi quando Pedro Bial e sua cara de intelectual que toma um porre de Smirnoff Ice enquanto lê O Monge e o Budista deu as caras na TV que tive um pressentimento avassalador: “essa chuleta vai descer quadrada esta noite”.

Menos de dois minutos depois de eu saborosamente passar a garfar a chuleta, silêncio no bar. Todos os rostos se voltavam para a calçada. O braseiro saiu de seu posto e foi junto dos outros garçons na porta do bar para ver uma briga entre um cara sem camisa e um de regata. Passei a ouvir gritos de “Filhodaputa! Cê vai morrer, lazarento!”, e outras frases de extrema expressão artística.

Nestas horas eu gosto é de filosofar. Virei para minha chuleta e, com olhar reluzente, citei uma frase do maior de todos os cantores, Nelson Ned: “E tudo passa, e tudo passará”, o que, naquele contexto, quis dizer que eu iria continuar a nababescamente digerir minha chuleta porque em poucos minutos os bêbados da calçada parariam de brigar.

Ledo engano. Dez minutos de briga, correria no bar. Uma mulher gritava “DANILÃO, PÁRA COM ISSO, DANILÃO!!!”, enquanto aqueles “PLOFTS!” típicos do seriado do Batman apareciam ao redor da porta. Duas adolescentes correram para o banheiro chorando. Um japonês velho entrou mancando gritando pra todas as mesas: “O cara tá armado! O cara tá armado!”, e todos passaram a pedir a conta ao mesmo tempo. Não que os garçons fossem trazer: eles estavam ocupados na calçada a observar o briga das toupeiras.

Os tiros, se acaso ali estivessem, certamente saíram pela culatra, uma vez o silêncio voltou à tona e, em poucos minutos, passei a ouvir uma fantástica manifestação de ironia coletiva: os dois caras discutiam na calçada e o bar inteiro cantava, em coro: “BEIJA! BEIJA! BEIJA! BEIJA!”.

Pois bem, a polícia chegou, o Danilão continou tentando matar o outro sujeito, eu terminei minha chuleta e pedi a conta. Na hora de pagar, cheguei perto de um garçom que é a cara do Marcelinho Carioca:

– É por causa de mulher?

E ele, simplório:

– Mulé? Há! O negócio aí deve ser pinto. Tudo bichona, seu Alemão, tudo bichona!

Depois da conta paga, fui em direção ao meu carro, na esquina contrária de onde estava a correria. Foi quando um sujeito bêbado sem camisa – seria o Danilão? – começou a tentar tirar algo da cueca. Alguém gritou “ELE VAI TIRAR A ARMA!”. Os policiais se abaixaram atrás da porta igualzinho nos filmes americanos. Eu, por minha vez, me atirei atrás do carro e esperei o sujeito descarregar a arma, o que não aconteceu. Quando olho de volta, a namorada do sujeito tava tirando a mão dele dali e colocando-o dentro do carro. Ele não tinha arma, e sim tentou – não sei se conseguiu – tirar sua parafernália genital para fora e mostra-la ao sujeito com quem estava brigando.

Enquanto eu entrava no carro, com a chuleta já dando indícios de nervosismo em meu estômago, olho para o mesmo garçom, que me sorri:

– Não falei, seu alemão? O negócio ali é pinto! Tudo bichona!

Na próxima vez, afogo as mágos num restaurante vegetariano. Deve ser mais seguro.

A DITADURA ABRANDADA, E DE COMO A ESQUERDA BABOU NA GRAVATA MAIS UMA VEZ


Legenda a la Folha de S. Paulo: De maneira branda, policiais espancam um ativista de esquerda em 1968

O Brasil é o país do Fla-Flu, e não é só de futebol que eu estou falando. Não sei como costuma ser em outros países, mas o fato é que aqui no Salvelindo Pendão os diálogos políticos de tendências opostas terminam num grande carnaval do qual a razão vai embora mais cedo, de ressaca.

Veja o caso do já famoso editorial da Folha de S. Paulo do dia 17 de fevereiro. Para criticar o esculacho que virou a revolução bolivariana de Hugo Chavez, o referido jornalão usou a expressão “Ditabranda” para se referir à nossa querida Ditadura Militar que tantas saudades deixou nos porões do inferno. Segue o trecho:

Mas, se as chamadas “ditabrandas” -caso do Brasil entre 1964 e 1985- partiam de uma ruptura institucional e depois preservavam ou instituíam formas controladas de disputa política e acesso à Justiça-, o novo autoritarismo latino-americano, inaugurado por Alberto Fujimori no Peru, faz o caminho inverso. O líder eleito mina as instituições e os controles democráticos por dentro, paulatinamente.

Talvez nunca em momento algum na história recente da Folha de S. Paulo houve uma brecha tão profunda, tão merecedora de uma estupenda traulitada moral sobre o cocuruto dos editorialistas e do próprio Tavinho Frias, que comanda o lojinha herdado de seu pai. Aliás, durante a Ditabranda a Folha era famosa por ceder carros aos milicos durante operações da Oban, que visavam caçar esquerdistas.

Os manda-chuvas folhudos tratam como brando um regime que colocou no pau-de-arara meia esquerda brasileira de então, fossem guerrilheiros, terroristas, guerrilheiros e terroristas ao mesmo tempo, ou simplesmente nenhum dos dois. Torturou e assassinou mulheres grávidas, pagou para camponeses do Araguaia matarem guerrilheiros ali instalados e fez com que os mesmos trouxessem as cabeças deles como prova de que de fato tinham assassinado-os. Jogou o corpo de muitos deles no mar. E eis aqui alguns poucos exemplos da candura com a qual os milicos agiram quando mantinham o puder nos quartéis.

Se mesmo assim o Brasil teve menos ataques às instituições e contra as esquerdas do que seus vizinhos de América Latina, isso se deve menos a meiguice dos quartéis do que a falta de união das esquerdas e sua tradicional capacidade em amarelar na hora H, além, é claro, dos muitos membros dito engajadíssimos que normalmente pregam a revolução socialista sentada na Mercearia São Pedro com uma capirinha de saquê nas mãos.

A resposta ao editorial folhudo veio do ambiente acadêmico e foi mandado via carta para o próprio jornal. Maria Victoria de Mesquita Benevides, professora de Ciências Políticas da USP, e Fabio Konder Comparato, advogado defensor dos direitos humanos desde os tempos da Ditadura, mandaram suas versões, mas não foram publicados. O motivo dado pela Folha: ambos apóiam a ditadura de esquerda em Cuba e, portanto, não merecem muito crédito.

Foi então que a versão de Maria Victoria de Mesquita Benevides acabou publicada em forma de carta aberta na revista CartaCapital (que, juro, já foi uma grande revista). E é aí então que cientista política perdeu a chance única que tinha em mãos ao usar o seguinte argumento:

O que explica essa inacreditável estupidez da Folha? A meu ver, três pontos devem ser levantados: (…) 3. A possível derrota eleitoral do esquema PSDB-DEM, em 2010 (um quarto ponto fica para “divã de analista”: os termos da nota – não assinada – relevam raiva e rancor, extrapolando a mais elementar ética jornalística).

Toda a razão que ela tinha acabou ao reduzir um editorial infeliz em planfeto tucano, o que nem de longe é o caso. Até as ossadas de Perus sabem que Tavinho Frias morre de amores pelos tucanos, mas não foram poucos os peessedebistas perseguidos e cassados pela tal ditabranda. Como praxe nos editoriais da Folha, eles só tentaram um novo rótulo para estar na crista da onda do mundo acadêmico, e mais uma vez terminaram com a pecha de ridículos. Não já qualquer resquício eleitoral neste texto.

No entanto, Maria Victoria foi como um centroavante que teve a chance de cobrar um pênalti contra um arco sem goleiro e chutou para fora. E o exemplo futebolístico não é gratuito: de novo, uma discussão política nesse país acabou como um Fla-Flu. Entre mortos e feridos, morreu todo mundo nesta discussão.

* Foto: Evandro Teixeira (achei no site do PT).

EU QUERO QUE VOCÊ SE… TOP TOP UH

Sonhei que havia uma cidade portuguesa no litoral paulista, bem no meio de onde hoje é Ubatuba. Os portugueses que lá viviam eram todos vestidos como em Portugal dos Quinhentos, bem no estilão Pedro Álvares Cabral, mas os brasileiros eram maioria e usavam roupas convencionais de quem está em Ubatuba para veraneio.

Cheguei lá em meio a um toró torrencial daqueles que caem todos os dias em Ubachuva no verão. Qual não foi meu espanto ao checar a cidade estava em ritmo de eleições municipais. Duas eram as candidaturas: Vinícius de Moraes – ele mesmo, o poeta bêbado – e uma regência trina, como nos tempos do império, composta pelos Mutantes Arnaldo Baptista, Sérgio Dias e Rita Lee.

Vinícius de Moraes pegou um whisky e cantou Eu sei que vou te amar num showmício no centrinho da cidade, e todos os presentes – os brasileiros veranistas e os portugas quinhentistas – aplaudiam e choravam emocionados.

Assistindo ao show estavam os Mutantes, que reclamavam que um velho pinguço como o Vinícius não poderia governar a cidade, uma vez que ele era muito velho e também estaria sempre bêbado. Lembro do Sergio Dias apontando pras poças d´água pra dizer: “Velho cachaceiro dá nisso: um monte de buraco na cidade”. Sim, eu também não entendi o que ele quis dizer com isso.

De qualquer forma, para evitar um confronto, Vinícius de Moraes saiu do palco com um copo de whisky na mão e vários assessores em volta dele. Os Mutantes o xingavam de velho bêbado e foi assim que o sonho acabou.

Acho que eu anularia meu voto.

ENLARGE YOUR PENIS – OS MELHORES SPAMS DE VIAGRA E AFINS

Segue aqui uma pequena coletânea com alguns dos melhores títulos de e-mails com propaganda de soluções para a disfunção erétil e a pequenez fálica.

Todo o conteúdo abaixo foi recebido nas últimas duas semanas. A tradução é aproximada:

Embarassed with your lovestick size?
Embaraçado com o tamanho do seu bastão do amor?

Women hate men with tiny tools
Mulheres odeiam homens com ferramentas pequenininhas

Does your manhood look shrivelled?
Sua masculinidade parece encolhida?

She’ll suck it like a popsicle
Ela vai chupá-lo como a um pirulito

No stupid exercises, just a miracle tablet
Nada de exercícios estúpidos, apenas um comprimido milagroso

6 inchs of steel
6 polegadas de aço

Chicks dig big dick guys
Garotas se empolgam com rapazes de pinto grande

So hard and long even when flaccid
Tão grande e comprido mesmo quando flácido

A bazooka in my pants
Uma bazuca em minhas calças

Making her beg for more
Fazendo-a implorar por mais

Forget the vibrator when you have this
Esqueça o vibrador quando tiver isto

Get armed for a new love battle
Esteja armado para mais uma batalha do amor

Be the biggest boy in the locker room
Seja o maior garoto do vestiário

She’ll be instantly wet once she sees this
Ela vai ficar instantaneamente molhada quando vir isso

Double your bedroom partners today
Dobre suas parceiras de cama hoje

Show off your new longer rod ASAP
Exiba sua nova verga rapidão

Pop her cherry
Estoure a cereja dela

Perceba como a estratégia para cativar o público-alvo vai da sutileza – “Get armed for a new love battle” – ao escracho – “A bazooka in my pants” -, passando pelo trauma do adolescente americano médio – “Be the biggest boy in the locker room”.

Os spammers inteligentemente se lembram que as mulheres também recebem estes e-mails: ao menos um deles é um recado àquelas que têm parceiros nesta situação – “Forget the vibrator when you have this”.

Na opinião deste modesto avaliador de spams, a melhor frase é “Pop her cherry”. Tenta – mas não consegue – ser sutil (“cereja”) e, ao mesmo tempo, tem um rompante tosco (“estoure”).

Dar título a spams de viagra e afins deve ser uma profissão muito divertida.

TESTE A SUA PERSONALIDADE

Já que o mundo acadêmico-científico faz tanta questão de divulgar pesquisas nababecamente inúteis, as Faculdades Integradas Anhembi-Jundiaí – agora com os novos cursos de quiropraxia marsupial, administração de panificadoras e turismo – resolveu não ficar atrás. O laboratório de psicologia avançada da F.I.A-J. desenvolveu um rigoroso estudo de personalidade humana utilizando-se de um questionário com identificação de pessoas famosas.

Responda as perguntas abaixo, anote as alternativas que você escolheu, conheça o seu perfil e, na seqüência, se mate:

QUESTIONÁRIO CIENTÍFICO

1) Você quer provar para sua nova namorada que tem amigos legais, simpáticos e divertidos e, conseqüentemente, provar que também é assim. Quais dessas pessoas você apresentaria para ela?

a) John Neschling
b) Eduardo Suplicy
c) Maísa, a apresentadora
d) Túlio Maravilha
e) Alugaria um salão no McDonalds e chamaria os quatro para confraternizar com ela.

2) Seu chefe diz que a empresa está passando por um processo de otimização de resultados e que vai estar descontinuando o trabalho de alguns funcionários – dentre os quais, você está cotado. Ele pergunta qual dos profissionais abaixo você mais se identifica. Assinale a alternativa escolhida:

a) Vanderlei Luxemburgo
b) Luísa Mel
c) José Celso Martinez Corrêa
d) Paulo Henrique Amorim
e) Cita Jung e diz que o importante é ter um pouco de cada um e se adaptar conforme às necessidades de momento. Deixe estar, mestre.

3) Você acaba de jogar uma pelada com os amigos no clube. Todos descem ao vestiário, começam a dar tapinhas nas costas uns dos outros e a tirar a roupa para entrar no chuveiro. É quando você percebe que todas as pessoas do recinto têm a parafernália sexual maior do que a sua. Neste momento, qual personalidade lhe vêm à cabeça?

a) Bernardinho
b) Marcelo Camelo
c) Reinaldo Azevedo
d) Chico Anysio
e) Flashes de diversas personalidades surgem em sua mente. É então que você simula uma pressão baixa, pede sal e só vai tomar banho em casa.

4) Você pagou 300 reais para assistir ao show do U2. Eis que, durante a execução de With or Without You, o vocalista Bono Vox te puxa para o palco, te dá um selinho e pergunta: “Você quer mandar um beijo para quem?”. Para qual das personalidades abaixo você mandaria este beijo?

a) Heloísa Helena
b) Ricardo Macchi, o Cigano Igor
c) Gerald Thomas
d) Benito de Paula
e) “Pra minha mãe, pro meu pai e pra você”: muá (esquerda), muá (direita).

5) Seu carro furou o pneu de madrugada na Avenida Indianópolis. Você entra no hotel Deliryu´s para pedir ajuda e encontra as cinco personalidades listadas abaixo fazendo uma orgia com transexuais. Qual delas você não vai denunciar para a imprensa?

a) Carlos Minc
b) Kaká
c) Qualquer articulista da Ilustrada
d) Orestes Quércia
e) Não denuncia nenhum e cai de boca no clima da azaração.

Análise de sua resposta:

Se a maior parte das suas respostas for da alternativa:

a) VOCÊ TEM PROBLEMAS DE AUTO-ESTIMA. Talvez as pessoas desta alternativa não sejam melhores que você, mas elas têm certeza disso e vão querer provar tal coisa nem que seja na porrada. Você vai ficar ouvindo até acreditar nisso. Solução: 10 anos de terapia freudiana ou viciar em ópio, pra esquecer. Referências: John Neschling, Vanderlei Luxemburgo, Bernardinho, Heloísa Helena, Carlos Minc.

b) VOCÊ É CHATO E NÃO TEM AMIGOS. Acreditar no romantismo do e-mail Power Point e lacrimejar quando Mariah Carey canta I can´t live (with living is without you) em propaganda de carro faz de você uma pessoa pouco interessante. Dissertar sobre o nada para todo mundo é sempre uma opção em sua vida, o que é péssimo. Solução: pregação religiosa, com ênfase em igrejas evangélicas pentecostais, católica canção-nova ou budismo (este só entre empresários). Referências: Eduardo Suplicy, Luísa Mel, Marcelo Camelo, Ricardo Macchi, Kaká.

c) VOCÊ QUER SER UM GÊNIO, MAS AS PESSOAS SÓ TE ACHAM CANSATIVO. Não pegou bem aquela festa em que você ficou distribuindo band-aids entre os participantes, nem aquele discurso pelado em cima de uma Variant defendendo que Happy Mondays é melhor que os Beatles. Alguém pode te achar genial, enquanto umas cinco pessoas vão dizer que te acham original só pra você ficar quieto um pouco. Porém, a grande maioria vai fingir falar no celular só pra não entrar no mesmo elevador que você. SOLUÇÃO: monte um blog que de repente alguém te publica. Referências: Maísa (a apresentadora), José Celso Martinez Corrêa, Reinaldo Azevedo, Geraldo Thomas, qualquer articulista da Ilustrada.

d) VOCÊ PERDEU O BONDE DA HISTÓRIA. Os últimos 20 anos passaram tão depressa que você sequer abriu uma página de jornal neste período. SOLUÇÂO: freqüentar bailes da saudade nos domingos à tarde. Besamêêê, besame muuuuu-chooooo…. Referências: Túlio Maravilha, Paulo Henrique Amorim, Chico Anysio, Benito de Paula, Orestes Quércia.

e) VOCÊ É INDECISO. Após apoiar o Mario Covas nas eleições de 89 até o final, virar sãopaulino depois do bi-mundial em 93 e ler a Veja porque todo mundo lê fazem de você uma pessoa volúvel. SOLUÇÂO: sempre tenha alguém por perto para poder imitar e, conseqüentemente, ser feliz. Mas nunca fique perdido numa selva. Caso contrário, a influência das árvores pode querer fazer você tentar produzir seiva e dar flores e frutos.

O PMDB, A JACA E A MARI ALEXANDRE

O ato de desmoralizar é, em todos os seus sentidos, como a jaca: não é originário do Brasil, mas aqui veio e aconchegou-se tão confortavelmente que até já faz parte da nossa cultura. Não fosse verdadeiro este fato e as jacas não teriam tornado-se um problema ambiental – onde a jaca nasce, acaba com tudo ao seu redor. Da mesma forma, quando o mundo tenta usar a internet para difundir o conhecimento humano através da Wikipedia, eis que aqui no Salvelindo Pendão o que faz sucesso mesmo é a Desciclopédia que, por essência, desmoraliza qualquer coisa. E eu, como brasileiro e patriota, declaro: a Desciclopédia é muito melhora que a Wiki. Este é um país que vai pra frente – sorry, Jimmy Wales.

E, como diriam os Mamonas Assassinas, na política está o futuro do país (cala a boca e tira o dedo do nariz). Tudo que chega ao poder por estas bandas automaticamente se desmoraliza. O PT, que um dia já agiu como o arauto da moralidade política, hoje não poucas vezes caminha pelos esgotos. Antes do PT tivemos oito anos de reinado do PSDB, que foi fundado pelos “puros” do PMDB que não admitiam o pé atolado na jaca (olha ela aí de novo) do partido e resolveram caminhar por conta própria – e, no entanto, beberam da mesma água até ficarem completamente bêbados.

Antes do PSDB (e também antes da dobradinha Collor e Itamar, tão esquecidos pela História quanto Pepê e Neném), quem surgiu com tudo e terminou com nada foi o PMDB. Ele é a Mari Alexandre do Congresso Nacional. Lembra da Mari Alexandre? Por ela, jogadores de futebol e cantores de segunda linha eram capaz de estapearem-se na baixa imprensa. Toda vez que, em final de temporada, são realizados aqueles amistosos do tipo “Amigos do Denílson contra Amigos do Carlos Alberto”, da qual participam cantores e similares, eu sempre sugiro o amistoso “Namorados jogadores da Mari Alexandre contra Namorados cantores da Mari Alexandre” (e, que fique claro, ela que namore quem e quantos quiser). Pois imagine que, para conquistar títulos, os jogadores dependessem de namorar ou não a Mari Alexandre. Este é o caso da situação e da oposição em relação ao PMDB na política.

Em Brasília, todo mundo quer o PMDB por conta de uma herança indireta da ditadura militar. Quando os generais estavam por colocar o pijama, todo mundo que era contra eles (e muitos que por muito tempo foram a favor) acabaram migrando para o novo Partido do Movimento Democrático Brasileiro, que, por isso, politicamente ganhou músculos de pitbull. Formou-se ali um tremendo aparato partidário sem direção política alguma, com facções divididas em senhores feudais: o marimbondo de fogo José Sir Ney no Maranhão, Quercião e seu queixo de tótem da Ilha de Páscoa e Michel Temer em São Paulo, Joaquim Roriz no Distrito Federal, Renan Calheiros nas Alagoas, Garibaldo Alves, Jáder Barbalho e todo uma corja deselegante espalhada pelo resto do país.

O resultado é que, desde então, quem governa o país é obrigado a submeter-se a humilhações perante este partido, que sempre dá o jeito de, tendo a mão estendida em sua frente, abocanhá-la até chegar aos ombros. Quem consegue aglutinar o maior número de caciques, conquista duas coisas fundamentais: primeiro, o apoio regional – se o Quercião não quer dizer muito aqui, o Garibaldo Alves no Rio Grande do Norte é garantia de popularidade – e, segundo e mais importante, apoio para decisões no Congresso. Durante as eleições, ter a sigla PMDB em sua coligação significa alguns minutinhos diários a mais na propaganda eleitoral gratuita, o que faz toda diferença desse mundo.

O problema é que, para agradar aos caciques, negocia-se cargos em ministérios, segundo escalão de governo, estatais. Você não vai ouvir falar de nenhum projeto do PMDB para o país, mas ele estará lá, mamando nas tetas de tudo que render publicidade na imprensa e, conseqüentemente, votos.

Sempre achei que o pior da política nacional fosse o PFL. Ledo engano. O atual DEM está lá, quietinho, reacionário como sempre. O PMDB é que é o pé de jaca moral da nossa política, a Mari Alexandre com músculos de pitbull que precisa ser eternamente alimentada sem nada dar em troca para o país. A todos os filiados ao PMDB eu peço, do fundo do coração: façam do Brasil um país melhor. Apodreçam como jacas.

* Mari Alexandre com cara de Sarney produzida por Fê Nakaza.

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