Chico Buarque envelhece bem — os fãs, nem tanto

Vi ontem no cinema o “Chico: Artista Brasileiro”, doc sobre o Chico Buarque, de Miguel Faria Júnior. Sou suspeito pra falar do Chico — não há ninguém que eu goste tanto na música quanto ele. Bom ver que ele segue com a cabeça boa. Não sei se posso dizer o mesmo dos fãs da sua própria geração.

Alguns pontos interessantes:

— O impacto que Chico Buarque causa nos fãs daria um bom estudo de psicologia, se é que já não existe. Fui a um show dele em 2006, As Cidades. O show foi, digamos… ruim. Ele não é um cara de palco, as canções eram inferiores aos grandes sucessos e, a voz que nunca foi grande coisa, já estava uma taquara rachada. Era mais um show “aqui está Francisco Buarque de Hollanda, estamos vendo o mito na nossa frente”. E mesmo assim todo mundo esteve numa catarse coletiva, aos prantos. Ou seja, a ideia de Chico Buarque é muito maior do que ele próprio ao vivo. Lembrei disso no cinema pra ver o documentário. Foi a primeira vez que, ao fim do filme, apenas agradável, o cinema aplaudiu num estouro, como se fosse um teatro e o próprio estivesse ali na frente. Surreal. Mas talvez todo nome gigantesco seja assim: cada um cria o personagem na própria cabeça e ele vira uma coisa gigantesca, muito maior que o ser humano.

— O documentário tem o mérito de mostrar Chico Buarque a envelhecer bem, o que, ao menos pra mim, era uma incógnita. Cena chocante pros fãs xiitas da MPB cânone: o próprio dizendo que a Bossa Nova hoje seria impossível porque foi o retrato de um tempo em que a classe média/alta dominava o discurso do povão. Hoje temos uma música que é mais a cara do Brasil. Isso quer dizer que o Brasil é melhor hoje que há 60 anos (mesmo que a música não seja melhor, mas isso é comentário meu). Ouvi urros de dor nas poltronas ao lado. Poderia ser um rancoroso dizendo “bom mesmo era no meu tempo”, como muita gente da geração dele. Inclusive essa é uma frase que ele odeia. E insiste que o Brasil é melhor hoje. É mesmo. Chico também revelou ter ganho disco de rock progressivo dos anos 70 de seu neto (não revelou a banda), algo que lhe passou batido à época, e achou muito bacana, e que isso de alguma forma pode influenciar como ele faz música hoje.

— A relação de Chico com a Literatura tem um grande mérito que revela um problema, ao meu ver. O mérito: ele diz ter começado a escrever porque gostaria de fazer novas coisas, não ficar parado na música, onde ele já tinha domínio total. Pra um cara do tamanho dele, sair dessa zona de conforto é uma virtude que egos gigantescos não tentariam. O outro lado: li dois livros dele: Estorvo e Leite Derramado. O primeiro, seu livro de estréia, até gostei. O segundo, esquecível, ruim mesmo. Preciso ler Budapeste, que, dizem, é o melhor, mas a impressão de momento é que, se o Chico Buarque da Literatura é o Machado de Assis, Chico escrevendo me parece não ser nem um Ivan Lins. Aí está o preço a pagar: Caetano Veloso prosseguiu na música e segue fazendo os melhores discos brasileiros no século 21. Desde Paratodos (1993), os discos que Chico faz são claramente pra cumprir tabela com as gravadoras.

— Sempre pensei que ter a Ditadura como inimiga foi fundamental pra ter a fase gloriosa da música brasileira nos anos 1970 – pra mim, a mais completa de todas. Chico quebrou esse mito. Ele diz que poderia ter ido mais longe não fossem os militares pra combater e ele pudesse simplesmente pensar em fazer música. Muita coisa ele escreveu com raiva. E, pro que ele se propunha a fazer, raiva não era bom.

— As duas senhoras que sentaram do nosso lado no cinema diziam ou terem lido ou conhecerem alguém que mandou carta pra Folha xingando o filme porque o Chico aparece com um blazer vermelho, o que seria uma referência velada ao PT. “O povo tá maluco, o vermelho existe antes do PT e o tucano existe antes do PSDB. Não sei mais o que acontece com as pessoas, que clima horrível”. Eu e minha mulher quase abraçamos as senhorinhas. O mínimo de bom senso que elas demonstraram já é muito. Nem todo mundo que ouviu Chico Buarque entendeu o que disse.

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