Essa bronca com quem se diz socialista

Foi em 2013 o primeiro ano em que um grupo de amigos que se conheceu via Twitter se organizou pra fazer um bloco de carnaval que percorresse a distância entre os dois bares em que a turma se formou, o Tubaína, próximo da Paulista, ao Coco, um cai-pra-dentro no Santa Cecília. Como todo mundo era meio-intelectual-meio-de-esquerda (obrigado, Antônio Prata), chegou-se ao nome de Bloco Soviético.

Este ano, na terceira edição, a coisa tomou proporções bem maiores. Foi muita gente que não tinha nada a ver com o grupo inicial, e parece mesmo que se consolidou como um bloco de carnaval paulistano. Mas antes, durante e depois do bloco apareceu uma rapaziada que, com uma empáfia de quem folheia a Veja no dentista e automaticamente vira pós-doutor em História, cismou que o grupo homenageia a União Soviética. Chegaram a usar uma foto da libertação de um campo de concentração em 1945 como se fosse um assassinato em massa causado pelo Exército Vermelho.

Então é triste ter que fazer isso, mas vou explicar a piada. Parece ter ficado claro pra maioria (mas não pra todo mundo) que Bloco Soviético é o trocadilho entre bloco de carnaval e o Pacto de Varsóvia. A coisa pega no ponto a seguir: a maioria ali é de esquerda, alguns se dizem socialistas, outro sociais-democratas, muitos petistas, e praticamente todos chamados de comunistas pela grande média leitora de Veja que acha que Lula, Dilma, Stalin, Marx, Aldo Rebelo, Ho Chi Minh, Boris Yeltsin, Rasputin, Jean Wyllys, Eric Hobsbawn, Sibá Machado e a cadela Laika são tudo a mesma coisa. Daí a “homenagem”. Há também liberais, apolíticos e até tucanos no meio do bloco. É o que acontece quando as pessoas se importam mais com a relação que existe entre elas do que com opções políticas.

Houve gente de direita que zoou o bloco porque a maioria ali é de esquerda. Até aí, tudo bem. Inclusive deveriam organizar um Bloco Viúvas de Roberto Campos pro carnaval seguinte, com todo mundo vestido de rei do camarote. Carnaval é isso aí. Mas também houve um povo que demonstrou um incômodo sincero com o sucesso do Bloco Soviético, dizendo que fazia apologia de ditadura e assassinatos em massa. Outros pegaram fotos dos integrantes pra tirar sarro no Twitter. Piadas com “gorda”, “gente feia” outros recursos da velha misoginia da solidão, que diz muito apenas sobre quem faz a piada. 

Importante frisar o plus a mais do bloco: ao contrário do que normalmente acontece, as mulheres ali estiveram muito mais tranquilas quanto ao assédio masculino do que em outros blocos (os misóginos ficaram em casa xingando muito no Twitter).

Então vamos contextualizar: conheço umas 50 pessoas do bloco. Umas 30 se dizem socialistas. NENHUMA delas quer uma ditadura no Brasil. Nenhuma delas é stalinista ou coisa do tipo. Todas elas estavam tirando um sarro de você que acha isso. 

Não digo que sou socialista porque considero utópico uma condição de igualdade total entre seres humanos. Acho que somos bichos que tendemos a nos organizar em elites, o que me faz ter mais simpatia pela social-democracia — e, mesmo assim, cada vez menos. Mas socialismo não é só a ditadura stalinista soviética. Todos que conheço que se definem comunistas/socialistas acreditam em democracia radical, justiça social, intervenção direta do Estado para diminuição da miséria, reforma agrária, acesso universal a educação e saúde, sociedade menos desigual em raça, gênero, credo e condição social. Não há fantasma nenhum disso. E é incrível que em pleno 2015 ainda se ouça argumentos do tipo “é comunista mas usa iPhone”. Como se comunismo fosse voto de pobreza. 

Então funciona assim: não sei se o socialismo dá certo, mas o aquecimento global já mandou avisar que o capitalismo nos empurra para o abismo. Então temos duas opções: ou a gente pensa numa nova alternativa, porque o que está aí não está rolando, ou fica em casa xingando o carnaval dos outros e esperando o mundo acabar. Literalmente.  

9 Comentários

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  • TEM ANARQUISTA NO BLOCO TMB QUEREM CALAR OS ANARQUISTAS PELO JEITO =D

  • Foi tão ridículo que até me deu vontade de eu, qualquer coisa menos um intelectual de esquerda, ir no bloco. Eu achei uma piada sensacional o nome.

    A gente tem que saber reconhecer o gênio alheio até quando não compartilha de opiniões ideológicas.

  • “Então funciona assim: não sei se o socialismo dá certo, mas o aquecimento global já mandou avisar que o capitalismo nos empurra para o abismo” ♥

  • Calunias, leio apenas calunias

  • Triste mesmo ter de explicar piada, mas como o brinquedo cura arma na mão de intransigente, esse texto é um felicíssimo serviço à diversão, à amizade, ao pluralismo ideológico e à cadelinha Laika, que realmente não fez nada pra ninguém.
    E viva o Carnaval!

  • * “o brinquedo VIRA arma” (dsclp, meu corretor é reaça)

  • Sou centrista, discordo de várias coisas que foram dita nesse texto, inclusive erros (mas também não vejo o porquê entrar no âmbito da questão) porque vi uma igual “bronca” e generalização com a direita (ou seja, fizeram o mesmo jogo), porém concordo com vários pontos, inclusive sim que ocorreram vários exageros por partes de pessoas de extrema direita preconceituosa e ignorante. O que vejo acontecendo dos DOIS LADOS EXTREMOS: pessoas justificando ataques pessoais com outros ataques. Militância burra essa extrema. Então assim, enquanto os dois lados não pararem com isso, isso tende apenas a piorar. E, sinceramente, cansei de debater política em rede social, mas estou compartilhando esse texto porque acho válido.

  • Parabéns aos criadores do bloco pela criatividade neste lance do nome. Apenas por uma questão de justiça, não foi apenas o capitalismo que causou o aquecimento global. O falecido Bloco Soviético e a China foram (e são, considerando as atitudes dos seus sucessores) grandes contribuintes da lixeira global. No fundo, o aquecimento global avisou que a ganância do gênero humano, chamada por uns de livre iniciativa, por outros de planos quinquenais, que mandou mal. Direita, esquerda ou centro são apenas as direções em que atiramos o nosso lixo.

  • Caro Jorge, sim, você está correto. Eu poderia ter sido mais claro nessa parte: sim, os governos socialistas foram tão ruins quanto os capitalistas, incluindo-se aí a destruição total do Mar de Aral e muitas outras coisas. O que eu poderia ter deixado mais claro é que, não, ninguém quer a volta daquele socialismo stalinista, inclusive por isso.

    Como vivemos em tempos capitalistas, e o capitalismo é um sistema que precisa de utilização de recursos naturais, sem o qual há crise, só falei dele. Abs!

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