Cuba é maior que o socialismo. E que o capitalismo também

O anúncio de que Estados Unidos e Cuba vão reatar laços diplomáticos após 53 anos é um bonus round de excrementos no ventilador em 2014, o ano que colocou o Brasil no divã. Vi pessoas sinceramente possessas com a decisão de Obama de levar adiante este acordo que, com um mínimo de bom senso, é digno de ser comemorado à esquerda e à direita pelo simples fato de que a situação na ilha vai melhorar. Manter tudo como está não fez a ditadura cair e ainda oprime o povo em condições quotidianas básicas.

Incrível que seja preciso declarar: a Cuba socialista não é ótima e não é péssima. Quem trata o assunto de maneira extrema comete a desonestidade intelectual de uma verdade absoluta que não existe. Cuba não é branca nem é preta. É cinza.

Fui a Cuba em novembro de 2012 como turista. O fato de ter ido para lá não faz de mim mais embasado que ninguém para dizer o que acontece na ilha. É minha visão in loco e complementar ao que li desde sempre.

O símbolo máximo de Cuba, pra mim, foi a sorveteria Coppelia, em Havana. Nela pode-se provar um sorvete delicioso e barato até para o padrão local. No entanto, só existem três sabores possíveis. E muitas vezes só há um disponível.

O que pude observar é um povo sofrendo com a escassez de produtos básicos. Várias vezes nas ruas pessoas encostam umas nas outras e trocam rapidamente um pacote por um punhado de dinheiro, e as duas saem andando normalmente como se esse rápido contato nunca tivesse ocorrido. No primeiro momento pensei que pudesse ser drogas. Mas a verdade é que pode ser qualquer coisa que falta. Ovos. Pasta de dente. Café. Tudo no mercado negro.

Cuba também é o país onde vi mais escolas e consultórios médicos. É realmente quase um por esquina. O Banco Mundial atestou o ensino cubano como o melhor da América Latina e Caribe. Os médicos do país são referência internacional pela capacitação e pela maneira como levam a sério seu trabalho, algo mais próximo de um sacerdócio do que de status social — vide os médicos cubanos que foram a África combater o ebola. E as pessoas têm orgulho imenso disso tudo. Orgulho proporcional ao medo de falar de política: se o governo te surpreender falando mal dele, você pode ser preso. Então ninguém fala. Quer encerrar uma conversa? Pergunte: “E o Fidel?”. As pessoas fogem. O simples fato de não haver liberdade básica é suficiente pra nunca querer trocar o Brasil atual por Cuba. Não dá.

Eu poderia gastar mais vinte parágrafos para exemplificar como Cuba tem grandes qualidades e grandes defeitos, tudo ao mesmo tempo agora. E o que mais me incomoda em quem mergulha de cabeça nessa discussão é a definição velada de que Cuba é igual a Socialismo. Cubano virou ofensa. É uma característica tão latente que, quando médicos cubanos chegaram ao Brasil, colegas brasileiros os vaiaram como se fossem páreas. Cubano filhodaputa. Escravo. Uma humilhação canalha, burra, abjeta parcialmente corrigida por colegas que fizeram o oposto na sequência.

Cuba não é o socialismo castrista. Cuba não é o capitalismo de Miami. Cuba é um país formado pelo caldo que saiu do branco hispânico, do negro ex-escravo e até dos chineses — há um bairro chinês em Havana. Cuba é catolicismo, santeria e ateísmo, tudo junto e às vezes na mesma pessoa. Uma cultura desproporcionalmente enorme para um país tão pequeno, um povo musical, cultural e sexual como poucos. Cuba é uma ilha e um mundo.

Os cubanos sobreviveram a Fulgêncio Batista. Os cubanos sobreviveram aos altos e baixos da revolução de Fidel Castro. Os cubanos sobrevivem ao embargo americano. Os cubanos são muito maiores que qualquer sistema político já existiu. 

 

 

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