12 razões que ajudam a explicar o ódio da classe média ao PT

O tempo pode ter embaralhado as coisas na minha cabeça e o Google não me ajudou, mas tenho recordações de que a camada social no qual o PT tinha mais adeptos durante os anos 1990 era… a classe média-alta.

A se confirmar, parece piada hoje.

O fato é que é muito mais fácil encontrar alguém que sonhe com a volta da Ditadura do que um votante no Partido dos Trabalhadores entre vários setores das classes média e alta. Decepção é um sentimento esperado. Bronca e indignação, idem. Já ódio é uma coisa bem mais profunda e indica cadávares apodrecendo debaixo do tapete. Será um fenômeno muito estudado nas próximas décadas, tenho certeza. Uma surra de Lacan e Sergio Buarque de Hollanda ajudariam a entender melhor esse Brasil que surge no século 21.

Enumero aqui 12 fatores que, ao meu ver, culminaram neste ódio cada dia mais ferrenho. Não estão em ordem de importância e certamente há mais:

O PT se fez com um discurso de arauto da moralidade e de oposição às oligarquias políticas e econômicas tradicionais, como José Sarney, Antônio Carlos Magalhães, Renan Calheiros, Paulo Maluf, Fernando Collor, etc., o que não correspondeu à realidade quando governo. Como o PSDB, o PT governou baseando-se em alianças justamente com estes caciques (ACM foi exceção). Quanto a corrupção, houve o ápice do Mensalão. O PT clama perseguição no julgamento e que tudo foi *só* um caixa dois. Ou seja: mesmo dentro de seu argumento, o partido assume uma espécie de estelionato eleitoral em relação ao discurso passado. Muita gente não perdoou.

— Um preconceito natural das classes mais conservadoras contra o partido desde sua fundação, em 1980. 

Uma perda de certos confortos de classe média por conta da melhora das classes baixas nos anos Lula e Dilma, como a dificuldade em se ter uma faxineira barata (com o pleno emprego, ficou mais fácil encontrar emprego melhor), da locomoção nas grandes e médias cidades (hoje muito mais gente tem carro) e de andar de avião (aeroportos abarrotados de populares). Estes dois últimos também têm relação direta com a questão do status social do automóvel e do viajar de avião: antigamente eram também reafirmação de condição social, o que não faz mais sentido. Há ressentimento da perda disso.

A ausência de sensiblidade social. Programas sociais como o bolsa-família, as cotas para negros e outros programas assistenciais são o alvo favorito. A maioria entende ser absurdo a destinação de verba pública para eliminar a pobreza absoluta. Simplificações ao estilo “Quer dinheiro? Vai para trabalhar” e “Não tem que dar o peixe, tem que ensinar a pescar” são comuns, por mais que a ONU seja elogiosa e por mais que países (desenvolvidos, inclusive) tenham adotado programas similares ou estejam pensando em adotar.

O discurso da meritocracia, por mais falso e/ou deturpado que seja na maioria das vezes (“eu estudei e ganhei meu dinheiro, porque os pobres não fazem o mesmo”), como se todos tivessem oportunidades iguais na vida. Como se o negro da favela de Heliópolis tivesse chances iguais de passar em Medicina na USP que o filho do funcionário público que estuda no colégio de mensalidade a 3 mil reais.

A penetração do PSDB, que conseguiu encampar um discurso de moralidade que a gente sabe ser falso na prática, a exemplo do que houve com o PT, mas que colou especialmente na classe média, turbinada por setores da mídia.

— Uma frustração cada vez maior de quem vai ao exterior e vê que nos EUA e Europa tudo é muito mais fácil que aqui pra se viver (como se tivesse sido diferente em algum momento do passado).

Reações quase fundamentalistas de nomes importantes e de militantes do PT, sobretudo pós-mensalão, como se o partido fosse um eterno injustiçado. Há sim eventuais injustiças cometidas, mas o partido comete falhas graves e não há razão para que seja perdoado por isso. Mais que isso: declarações de nomes importantes do partido praticamente declarando guerra à classe média em vez de tentar compreendê-la e mudá-la, que é prática de boa política.

— Um desgaste natural de um partido que está há 12 anos no poder. 

A incompetência econômica do governo Dilma.

A associação burra que é feita nas classes média e alta entre PT e o comunismo, e a dirigida disseminação de boatos, tais como “o filho do Lula é dono da Friboi” ou “Dilma está instaurando uma ditadura”. Ambos são inacreditavelmente eficazes, o que aponta para o problema crônico da educação no País, inclusive entre os que acreditam serem naturalmente cultos.

A Revista Veja, a Rádio Jovem Pan, o Grupo Bandeirantes e outros veículos de comunicação que fazem oposição automática a qualquer ação petista e que contribuem, entre outras coisas, para a irracional associação do partido ao comunismo.