Dois causos interioranos sobre a Sexta-feira da Paixão

No interior até os anos 1970 era bem comum a existência dos circos mambembes. Aquele filme O Palhaço, do Selton Mello, relata a decadência desses circos com a ascensão da TV naquela época. Hoje os circos ainda resistem, mas aqueles ultra-precários nos quais o palhaço é também o mágico, o domador do leão raquítico e o cobrador de ingresso são quase impossíveis de se achar — talvez uma meia dúzia de três ou quatro deles ainda resista nos grotões profundos.

O fato é que nessa época do ano, no interior paulista, esses circos mambembes trocavam o espetáculo convencional para encenarem a Paixão de Cristo — essas encenações que as senhoras voltavam pra casa dizendo uma pra outra: Ai, esse ano foi tão bonito. Primeiro porque a maioria deles era também religiosa, segundo (e principalmente) porque, em tempos em que a Igreja Católica tinha mais influência do que tem hoje, não fazia sentido encenar um circo na semana da triste data do catolicismo. Ninguém iria. 

Tive na adolescência um professor bem zuão que contou essas duas histórias abaixo em aula. Dizia ele serem verdadeiras, mas vai saber. Retratava um interior paulista que já não existia mais naqueles anos 1990. 

Houve uma vez em que o ator que viveria Jesus Cristo na encenação era um palhaço com sérios problemas com a bebida. Os amigos dele seriam os romanos que o crucificariam. Uma das cenas da crucificação do Cristo era a parte da humilhação, na qual os romanos esfregariam um rolo de feno na cara dele, que responderia: “Perdoai-os, ó Paí, eles não sabem o que fazem” — ou ao menos acho que era essa fala nessa hora, posso estar enganado.

O fato é que os amigos dele embeberam o feno na pinga com o claro intuito de zoá-lo durante a apresentação. Quando esfregaram o maço encachaçado na cara dele, Cristo pensou alguns segundos e respondeu a todos:

— MAIS FENO!!!! TRAGAM MAIS FENO!!!!!! 

Outro caso foi quando amarraram o Cristo na cruz, mas a cruz foi feita com uma madeira seca bem vagabunda. Quando Cristo começou a falar “Pai, perdoai-os…”, ouviu-se um grande “crack” pelo circo. Assustado, o Cristo amarrado recomeçou a fala, e então ouviu-se um segundo “crack”. Tensão no recinto. No terceiro “crack”, já caindo, o ator que fazia o Cristo gritou:

— SEGURA ESSA PORRA! SEGURA ESSA PORRA, CARALHO!!!

E caiu de cara no chão. 

Provavelmente nessa ocasião foram poucas as velhinhas que foram pra casa dizendo “Ai esse ano foi tão bonito“.

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