O misterioso caso do taxista que lia “lebibô”

*Do enviado especial a Miami

Sempre me orgulhei do meu portunhol vigoroso que, auxiliado pela mímica, torna-se padrequevedisticamente erudito. No entanto, fui testado por uma nova situação de limite linguístico e reprovado.

Miami, 2014 (frequento Miami para fins profissionais, não me julguem). Taxista haitiano puxou conversa em inglês com um sotaque franco-dialetense haitiano. Tentei afundar no celular pra fingir que mandava mensagens (meu celular não funciona lá), mas ele insistia em papear. Perguntou o que eu faço da vida, e eu disse: jornalista. Nunca entendi essa empolgação de taxistas com jornalistas, mas, sim, ele se empolgou com isso. 

Como não conseguia entender bem a conversa, respondia aleatoriamente com um “yes”, “no” ou “oui”. De repente o cara começou a discursar sempre citando um tal LEBIBÔ. Ouvi uns oito LEBIBÔ´s no intervalo de um minuto — eu disse oito, mas pode ter sido mais.

Atônito, indaguei: “What´s LEBIBÔ?”, e talvez não devesse ter perguntado. O cara ergueu as sobrancelhas: “THE BIBÔ… BIBÔ… THE BIBLE, MAN!”. O cara é da Igreja Batista, conhecia de cor todas as principais igrejas evangélicas brasileiras e sabia que tinha um mausoléu da Universal em São Paulo.

Continuei respondendo aleatoriamente as perguntas com “sim” ou “não” sem entendê-las e, quando vi, o rapaz desembestou-se a falar. Pesquei “ecclésiastique” e, efeito retardado, entendi que eu o tinha autorizado a me contar um sermão, e ele então passara a relatar alguma passagem do Livro de Eclesiastes. Foram uns cinco minutos disso.

No fim da corrida, ele ficou emocionado por eu ter ouvido o sermão, do qual não entendi patavina. Ele disse algo que interpretei como “Vocês jornalistas deveriam ler mais LEBIBÔ. Tem muita pauta por lá”.

Paguei, disse “That Dieu bless you” e entrei no aeroporto.  Encarei como um dízimo.

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