Aquarela brasileira

Fui de ônibus para o Rio de Janeiro. Embarquei mais tarde para evitar a hora do rush da manhã em São Paulo, mas peguei a hora do rush da tarde no Rio e lá se foram sete horas para chegar. Na rodoviária, constatei que roubaram minha mochila (com o notebook da empresa) que estava no compartimento acima do assento. 

Delegacia. Policial descansava com uma espécie de metralhadora pendurada no ombro, que, mesmo supondo estar travada, amedrontava quem estava no recinto esperando para fazer um boletim de ocorrência. O escrivão deu uma risadinha quando ouviu meu problema, quase me chamando de trouxa. Reclamou que me mandaram para a DP errada, e que sempre fazem isso. Passou cinco minutos dando porrada na mesa e berrando que o sujeito que fez o novo software de boletim de ocorrência “nunca botou a bunda numa delegacia”. Na mesa ao fundo, outro escrivão dizia pra um sujeito que “a Lei Maria da Penha está aí pra foder os hómi, meu chapa”. Chegam policiais com bandidos algemados e os mantêm junto com os outros policiais e os que esperavam pro B. O. na sala.

Dia seguinte. Chuvas torrenciais alagam metade da cidade e praticamente inviabilizam por dias outras cidades pobres ao redor. O prefeito pede para ninguém sair de casa, porque está o caos. Na TV, a miséria humana do terceiro mundo. A mulher de 50 anos que viu o marido ser levado pela correnteza e morrer. A família que perdeu tudo pela segunda vez — a anterior tinha sido 15 dias antes. A família que saiu correndo da casa pelo buraco do ar condicionado segundos antes de ela desabar no barranco. O choro urrante da mulher que perdeu tudo, inclusive a casa, ser levada barranco abaixo. Desligo a TV, abro a janela e vejo todos os carros praticamente estacionados na rua, competindo pra ver quem buzina mais.

Na rua. Caminho pela calçada de um metro e meio de largura desviando dos postes molhados que colocaram bem no meio delas. Depois de dois banhos de poça d´água consecutivos, entendi que tem motorista que passa de propósito na poça só pra ensopar as pessoas, porque, na dimensão de mundo dele, é engraçado.

No táxi. Reclamo que o taxímetro está em bandeira 2, mas são 11 horas da manhã. O taxista responde que todo táxi no Rio tá com bandeira 2 o tempo inteiro por conta de questões burocráticas com a prefeitura, e então o “prefeito deixou”. Quando o 3G finalmente funciona, o que é raro, constato que é verdade.

Em outro táxi, acho um celular Samsung Galaxy no banco do passageiro e entrego ao motorista. Imediatamente me arrependo. Disse para me devolver, que eu o deixaria no hotel e o dono poderia buscar. O taxista diz que o passageiro anterior era amigo dele, que mora no centro, ele tinha acabado de deixar o cara — estávamos em Copabacana e eu vi ele deixando o passageiro anterior ali. Insisto pra ele devolver, que eu poderia cuidar disso, e ouço que é pra confiar nele. O celular toca, ele desliga o aparelho e joga no cesto ao lado da porta, para eu esquecer o assunto.

Tudo isso foi no Rio, mas poderia facilmente ter ocorrido em São Paulo, em Porto Alegre, em Jundiaí, em Maceió. O Brasil não é para amadores, mas eu não sei se quero ser assim tão profissional.  

 

 

5 Comentários

Assine o feed RSS dos comentários deste post.
  • texto fodido, vives.
    mas que merda né?

  • Parabenizo-o pelo texto e lamento pelo que o levou a escrevê-lo.

  • Tudo dói. O cinismo, falta de caráter, de ética. Você está certo. Quem pensa é um tolo, mas não vamos esquecer – final de ano, festas, estamos no mês da bondade cínica, logo mais, carnaval, mais um pouco adiante, futebol mundial, e tudo segue como dantes no quartel do Abrantes.

    Escrita.

    Somente um homem. Uma raça antiga.Nostalgia.Solidão, imensidão, deserto árido e selvagem. A dor pode estar em qualquer lugar. Aos poucos tudo está se deteriorando. As
    relações humanas tornaram-se um pântano estagnado. Assim como foi seu passado, são
    seus segredos. Já é possível vislumbrar a decadência. O passado arrasta todos para trás.
    Somente um tolo. Hoje faz frio. Estamos de mãos dadas, aprisionados, mesmo assim o frio não vai embora. Entre a solidão e as tragédias, os ferimentos rasgam a carne, mutilam
    a alma, o sangue corre pelo chão.Moacir.

    ” Assim somos nós, joga no cesto ao lado a porta, para esquecer o assunto.”

  • Texto exemplar… A nossa sociedade é feita para que as pessoas pensem em sí mesmo, e não como um todo… Governo apresenta uma falsa democracia e o povo ignorante bate palmas. Isso aqui é uma piada. O país não é sério. Pensem nisso! Abraço!

  • Me deu até desespero!!

Comente

Seu email não será exibido. * Campos obrigatórios

*
*
*