André

Ainda lembro do dia em que conheci o André. Tinha só cinco anos, mas juro que me lembro. Eu e minha mãe saímos pra rua e vi o loiro franzino pendurado na mureta da casa dele, de frente pra nossa. Me desvencilhei da minha mãe e corri até onde ele estava. Eu disse que me chamava Fernando, ele disse que éramos quase xarás pois se chamava André Fernando. Minha mãe me chamou, corri pra dentro de casa, acenei pra ele na mureta, ele retribuiu o gesto, e então éramos amigos.

Foi a primeira amizade que fiz na vida.

Ainda lembro do dia em que falei com o André pra valer pela última vez. Era 2001. Como fazíamos sempre, porém cada vez menos, jogávamos Super Trunfo na casa dele. Neide, a mãe dele, nos trouxe algo para beber — tendo a falar que era groselha, pois normalmente era, mas não lembro ao certo. Eu já era da cerveja mas nunca recusaria aquele nosso ritual. Os dois palmeirenses estávamos tensos porque o Corinthians recebia o Grêmio na final da Copa do Brasil, e era quase óbvio que iria ganhar. Não queríamos ver o jogo. Porém, quando um vizinho gritou Gol do Grêmio! pela segunda vez, ligamos a TV e vimos até o fim, sem acreditar muito. Foi 3 a 1 pra gauchada. O André sempre teve simpatia pelo Grêmio, porque era o mesmo nome do clube da cidade onde passamos a pré-adolescência nadando nas férias. Depois de papear sobre a partida por horas, me despedi dele, deixei os meus Super Trunfos juntos dos dele e disse que ligava na próxima vez que voltasse pra Jundiaí — fazia uns seis meses que morava em São Paulo, pra fazer faculdade.

Nunca mais liguei pra ele nem ele a mim.

No ínterim entre os parágrafos acima, 15 anos de uma amizade ora fraterna, ora conflituosa, como costumam ser a amizade entre crianças e adolescentes. Mas o que fica hoje faz bem pra minha cabeça. A maior parte do que havia pra ser vivido na infância eu vivi ao lado do André.

As tardes inteiras jogando Super Trunfo, jogos de tabuleiro ou empurrando nossos caminhões e ônibus de brinquedo pela calçada da rua (de uma esquina a outra, era Jundiaí a São Paulo; de uma esquina até a rua de cima, era Jundiaí a São Sebastião). Os Super Trunfos e os jogos de tabuleiro que inventamos, desenhamos e jogamos. Os três campeonatos de futebol de botão que disputamos na casa do Carlinhos, no qual venci dois, meu único orgulho esportivo na vida. O futebol, o elefante colorido, o esconde-esconde, o pega-pega, o mãe-da-rua,  todos nos quais o André era sempre o mais rápido de nós oito, e eu, o mais lerdo.

As tardes de verão na piscina do Grêmio do centro, seguidas da coxinha de queijo que comíamos na lanchonete do clube, que tinha o glamouroso nome de River Sides Snakes Bar. A aventura que era pegar dois ônibus pra chegar no Grêmio clube de campo nos fins de semana. A paixão pelos ônibus. Sabíamos todas as linhas, todos os modelos e números das quatro viações que atuavam na cidade. Fazíamos passeios de sábado pra pegar os ônibus mais velhos na zona rural, porque logo eles deixariam de existir. Os Marcopolos, os Urbanus, os Thanco, os Mafersa. Éramos amigos dos motoristas e cobradores que faziam o Estação-Bonfiglioli. Os jogos de Atari e Master System na casa do Carlinhos. Aquela vez em que passamos a tarde tentando zerar o Asterix e que acabou a força no chefe final. Os quatro ônibus pra ir e voltar do shopping pra ver filme no cinema e comer no McDonalds. O um CD por mês que comprávamos juntando grana com esforço. As fitas cassetes com música dance que gravávamos na Dumont FM. A fita só com as músicas que eu odiava que o André colocava pra tirar minha concentração quando era minha vez de jogar video game. A evolução na nossa vida que foi quando ele tirou carta e conseguiu juntar grana pra comprar aquele Gol azul 92, e então chegávamos ao shopping em 15 minutos, e não mais em duas horas. 

Existem vários motivos pelos quais os amigos se afastam. Às vezes não existe nenhum. Quando mudei pra escola particular no colegial, no centro da cidade, e depois voltei pra outra pública, a minha casa e minha rua que eram toda minha existência passaram a dividir as atenções com outros amigos, com outros cenários, com outros pensamentos. Depois veio o cursinho, e aí veio São Paulo, e tudo aquilo virou, na surdina e sem que nenhum de nós notasse, só um quadro pendurado na parede da memória.

Eu sempre achei que fôssemos um dia nos reencontrar pra valer. Nos vimos de relance algumas vezes, trocamos scraps no Orkut e até  batemos um papo rápido uma vez na frente de casa sobre carro novo dele, mas eu sempre tive certo na minha cabeça que a gente sairia um dia pra comer uma pizza e lembrar dos grandes momentos. E seria na época do Natal, porque é quando eu paro mais em Jundiaí, e é quando eu lembro das coisas de casa, das coisas que ficaram pra trás.

Eu não queria correr o risco de ligar pra ele do nada e forçar uma aproximação e na hora H ficar um de frente pro outro sem muito assunto, evidenciando constrangedoramente nossas diferenças nesse período afastados. Eu queria que o interesse surgisse mutuamente, de um modo sereno e gentil como só a saudade entre velhos amigos consegue ser. Neste ano, a saudade bateu, comprei uns Super Trunfos antigos e escrevi sobre como era nossa vida, e queria mostrar pro André assim que ele entrasse no Facebook.

Mas ele nunca entrou.

Foi duro receber a notícia. Minha mãe ligou pra dizer que ele estava em estado gravíssimo, uma coisa besta que começou do nada. Desdenhei, 34 anos, imagina?, daqui a pouco ele sai, vai ser só um susto. Ao mesmo tempo, minha cabeça explodiu os ficheiros antigos e passei a madrugada insone lembrando de tudo isso, em detalhes. Quatro dias depois, foi meu pai que ligou logo cedo, e eu já sabia o que era antes de atender. “Fernando, o André não aguentou. Você vem?”.

Eu espero que o André tenha partido com a mesma lembrança boa de mim que a dele que hoje levo adiante. Nosso reencontro só ficou mais distante, espero que muito distante. Mas acho que ele estará lá embaralhando as cartas de Super Trunfo e deixando as duas últimas pra mesa, como repescagem pro primeiro que perder todas as cartas, como era a regra que a gente inventou. E jogaremos. E conversaremos. E seremos muito felizes como na infância que ficou. 

13 Comentários

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  • o maior dos meus abraços pra vc agora
    fica bem
    <3

  • Um beijo doce, vives. Que desses momentos tristes, vc continue cultivando poesia, que é pra vida seguir leve.

  • sinto muito, vives, muito triste perder alguém querido, mas acreditar num encontro, mesmo que distante, conforta o coração.

  • meu coração ficou pequeno e grande.

  • Fala ai cara!

    Comovente o seu relato. A vida tem dessas coisas, mas fica aqui registrado o apreço, o amor fraternal pelo André.

    Quem sabe um dia…

    Por mais que sempre tenhamos tempo é importante lembrar que tempo é uma ficção e o melhor tempo pra fazer qualquer coisa é sempre o agora.

    Abraço ai e parabéns pelo belo texto.

  • HOJE ACORDEI PENSANDO EM MEUS AMIGOS DE INFÂNCIA, E ME DEPAREI COM ESTA MENSAGEM NA PAGINA DE UMA AMIGO, NO FACE. AO LER, CHOREI DE SAUDADES DOS MESMOS, E FIQUEI PENSATIVO, E VOU POR EM PRATICA O QUE HAVIA PLANEJADO ONTEM. PROCURAR OS MEUS AMIGOS NO FACE, TANTO OS DA BAHIA, COMO OS DE SÃO PAULO, PRINCIPALMENTE O DIMI.
    ABRIGADO, POR POSTAR ESTE TEXTO.

  • Lindo texto, meu caro. O André, além de seu amigo querido, é sinônimo das nossas idas e vindas, que nos faz prorrogar bons momentos com as pessoas que amamos.

    Espero que o André fique no coração com essas pequenas, porém, valiosas lembranças que relatou.

    Grande abraço.

    Mariel

  • Lindo, cara. Muito tocante. Me emocionou.

  • Foda ficar longe dos amigos de infância… força aí Vives!

  • Maravilhoso! :)

  • emocionante. amizade é um dos mais nobres sentimentos da nossa vidinha aqui…

  • Triste e sensacional. Parabéns, Vives. E força.

  • Porra, Vives. Puta texto bonito, cara!

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