Unidos do Caralho a Quatro é “Os Imperdoáveis” do samba-enredo
Os filmes western (ou filmes de farveste, como os denominava o meu avô) ouviram o chamado da História já no fim dos anos 1960 – e por “ouvir o chamado da História” entenda que entraram num processo de decadência que nunca mais foi revertido pelo cinema. Mesmo sem ninguém arriscando o gênero, por longos 20 anos os westerns passaram insepultos, numa espécie de coma cinematográfico, talvez à espera de alguém que os ressuscitasse e voltasse a investir naqueles caras durões que chegavam do nada, resolviam a parada, apaixonavam mocinhas virgens de família, e iam embora para o lugar nenhum, deixando um rastro místico pelas areias do vilarejo que normalmente tinha um nome em espanhol – algo como Los Ratos, Guadalupe Heights ou Puerto Peñasco.
Pois se havia uma perspectiva de ressurgimento do western, ela se dissipou totalmente quando Clint Eastwood dirigiu e atuou em Os Imperdoáveis. O ano era 1992, Clint já não era um mocinho e pegou cada pedaço do quebra-cabeça do western para montá-lo exatamente ao contrário.
Assim, ele é o protagonista do filme no qual, em vez de ser um cara durão, é um ex-bandoleiro regenerado pela mulher. Ele cria porcos (e toma olé deles) no quintal. As mulheres do filme não são as wasp´s loiras exemplares e trabalhadoras, e sim um grupo de prostitutas que tenta contratar o personagem de Clint Eastwood para matar um assassino que retalhou uma amiga delas. E a partir daí a trama se desenrola.
Ou seja, Os Imperdoáveis vira do avesso os pontos primordiais dos filmes de velho oeste. Reconstrói um filme do gênero negando-lhe os pontos pelos quais entrou para a História. O resultado: um clássico que fechou o caixão do western. Filme de bang bang hoje, quando existe, não tem nada a ver com aquilo mais.
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Os sambas-enredo nunca estiveram entre os tipos mais nobres de samba, musicalmente falando. No entanto, existem desde os anos 1940, provavelmente (me corrijam se estiver errado), e acabaram protagonistas do samba de avenida que vem a ser a marca registrada do carnaval brasileiro que, como você sabe, é o maior de todos os carnavais.
Os sambas-enredo tiveram grandes momentos. Cartola chegou a compor alguns deles nos primórdios da Mangueira. A Império Serrano em 1982 fez um desfile bem mais ou menos (dizem), mas o samba-enredo Bumbum Paticumbum Prugurundum levantou as arquibancadas e deu o título pra escola. Cinco anos depois, em 1987, foi uma temporada particularmente feliz para os sambas-enredo (meu pai tem o LP e o escutamos até hoje): a Imperatriz Leopoldinense homenageou Dalva de Oliveira com A Estrela Dalva, lindíssimo. A Mangueira tinha o Jamelão cantando Carlos Drummond de Andrade, e a Estácio de Sá cantava o Sapoti (“Que tititi é esse?”). Enfim, o carnaval era um momento especial para o samba.
Depois, a partir do fim dos anos 1990, toda aquela coisa de carnaval na avenida passou a ser pra gringo ver. É como querer visitar a Alemanha pra conhecer a Oktoberfest e, ao chegar lá, descobrir que a maior parte dos alemães acha aquilo um troço totalmente turístico que eles não curtem mais há gerações. Hoje, aquela história da comunidade empenhada o ano inteiro para um desfile perfeito no Carnaval já é quase parte do passado. Na tevê, tudo é plástico, mas quem manda é a Cacau Show patrocinando o samba-enredo sobre chocolate, Roberto Justus pagando para ser homenageado, essas coisas.
Na esteira disso, os sambas-enredo têm cada vez mais autores (geralmente, uns oito, dez) e estão padronizados, com ausência quase total de espontaneidade. Acho que o último samba-enredo bom pra valer do Rio de Janeiro foi aquele da Salgueiro de 1993. Não por coincidência, o samba minguou a partir dos anos 1980 assim como os filmes western o fizeram duas décadas antes.
Há muito que eu já deixara de apreciar escolas de samba, mas abandonei pra valer os desfiles quando ouvi, lá por 2005, o G. R. E. S. Unidos do Caralho a Quatro, sátira do falecido humorístico Hermes e Renato, da MTV.
A ideia foi genial: pegou-se um samba-enredo igualzinho a todos os outros, com as mesmas estruturas de rima, só que para falar de… caralhos. A canção começa pelo início, literalmente: “Desde os tempos mais primórdios, o caralho está aí”, o puxador grita, depois de soltar um ALÔ, TORCIDA CARALHENSE… CHEGOU A HORA!!!!!!!!!!!!!. E, no fim da primeira estrofe, até uma rima de aí com na Sapucaí desponta, este que é um dos grandes clichês de todos os tempos do samba-enredo.
G.R.E.S. Unidos do Caralho a Quatro é o Os Imperdoáveis do carnaval de avenida. Depois dele, é impossível levar a sério qualquer tipo de samba-enredo nos moldes atuais. O Hermes e Renato foi para a Record, virou Banana Mecânica e diz agora fazer um inexplicável “humor do bem”, mas devemos eternamente a eles pelo esculacho definitivo da expressão popular que se perdeu.
G.R.E.S. Unidos do Caralho a Quatro:
BRAÇO FORTE, MÃO AMIGA
lembro também do grande axé de raiz PIRAPIRAPIRÔ dos mesmos autores
Um grande momento do Axé, Fernanda.