Da primeira vez em que fui um covarde

Conheci muita gente que tivesse tomado porrada e nem todos os meus conhecidos tentam ser campeões em tudo, felizmente. Sempre tive dificuldades em reconhecer um “vencedor” porque, afinal, nunca entendi a vida como um jogo em que se ganha ou se perde em definitivo. Acho que por centenas de vezes já fui vencedor, já fui perdedor e normalmente sou ambos várias vezes ao dia – não que faça questão de ser só vencedor. Se assim um dia eu agir, por favor, me chute. Isso não é importante.

Há fatos na vida da gente que delimitam o que você vai ser no futuro, e isso você vai descobrir pra valer mais tarde. No meu caso, entre tantos outros fatores, o dia em que fui um covarde mudou minha vida para sempre e, para o bem ou para o mal, está dentro do que sou hoje, aos 29 anos.

Aos 14 anos, minha vida era futebol e revista de mulher pelada. E aos poucos eu tentei ser uma espécie de fodão de turma, constrangedoramente ao pior estilo Kevin Arnold. Sabe-se lá o que colocaram na minha cabeça quando criança, mas eu acreditava que, por ter 1.90 de altura aos 14 anos, eu tinha uma espécie de obrigação masculina, uma missão messiânica de ser um fodão, um líder, um cara que mandava soltar e mandava prender em um grupo de pessoas – no caso, meus amigos de classe de oitava série.

Qualquer psicólogo de botequim sabe que a maneira mais fácil de ser aceito em um grupo é fazendo piadas, e foi mais ou menos isso que eu identifiquei na prática. Éramos uns oito moleques, todos punheteiros que passávamos o dia jogando e discutindo futebol, e eu passei a ter o respeito deles pela quantidade oceânica de piadas e apelidos que eu despejava em seus ouvidos, pelas interpretações cômicas que fazia das pessoas que não gostávamos, pelas macaquices que eu fazia para ser aceito – mas não eu não queria ser aceito apenas. Eu queria ser um líder.

Em determinado momento,  talvez eu tivesse me tornado uma espécie de líder daquele grupo, mas não estou certo. Intermediava briguinhas, promovia festas, incentivava xavecos (mas não pegava ninguém), servia de conselheiro e tinha liberdade para falar verdades.

Até que houve um jogo de futebol.

Na quadra da escola, o melhor time era da sexta série, uma classe que só tinha repetentes. Todos ali tinham uns 15 anos. O fodão deles era o Osmar, o melhor no futebol, mas feio pra caralho. O melhor do meu time era o Marcel, amigo meu baixinho, adorado pelas meninas. O Osmar não gostava do Marcel porque a menina pela qual ele era apaixonado era apaixonada pelo Marcel – enfim, essas miscelâneas hormono-sentimentais que todos temos aos 14 anos.

No jogo, demos um baile naquele time da sexta série. O Marcel marcou uns quatro golaços, e até eu, zagueirão rude que gritava “Tonhão!” quando conseguia chutar a bola, joguei bem e, acho, marquei um gol. O Osmar odiava o Marcel, que começou a provocar o Osmar, e os nossos gols foram saindo, o Osmar putaço da vida até que, claro, os dois partiram pra porrada. A turma do deixa-disso apartou a briga, eu incluso, e o Osmar jurou o Marcel.

No dia seguinte, não se falava de outra coisa na escola: Osmar chamara os amigos dele do morro pra dar uma coça no Marcel. Antes da saída, quem foi confirmar pra ver se tinha gente voltou com os olhões arregalados: tinha, de fato, uns 15 manos na porta da escola juntos do Osmar para pegar o Marcel.

O Marcel, claro, pediu ajuda para os amigos. Três ou quatro de nosso grupo se ofereceram pra sair da escola junto com ele e iriam para o pau, mesmo estando em minoria absoluta.

Eu neguei.

Todos olhavam pra mim e diziam coisas como “porra, você é o maior aqui, caralho, como vai deixar a gente na mão?”.  O fato é que eu silenciei e não fui. Saí correndo na aula anterior, vi a movimentação na frente da escola e fui pra casa.

E em casa, claro, eu desabei. Lembro de sentar no sofá da sala, pegar o fone e ligar pro Marcel pra saber como tinha terminado aquela treta. E ele, seco: “Os caras preensaram a gente na parede, falaram umas merdas, mas não fizeram nada. E você não estava lá”.

Parece que a menina apaixonada pelo Marcel, e pela qual o Osmar era apaixonado, chegou para este último e disse que algo acontecesse ao primeiro, nunca mais ela olharia pra ele. Foi a imunidade do meu amigo.

Já era fim de ano, a oitava série estava por acabar. Eu me isolei do grupo muito mais do que fui isolado – aliás, não fui. O Marcel ficou puto uns dias, depois voltou a falar normalmente, mas, claro, não era a mesma coisa. E nem eu deixei que fosse. Havia um mecanismo auto-punitivo tão forte que eu lembro de noites em claro pensando em quão covarde eu fui naquela oportunidade, que deveria ter dado a cara pra bater, ter ido junto com eles, e ter apanhado horrores se preciso fosse. Era isso que um homem faria, era a hora da hombridade à prova, era o que em inglês eles  identificam como manhood. Mas não, tirei meu corpo de 1.90 de tudo aquilo. Era o touro que, na hora da tourada, se escondia embaixo da arquibancada em vez de tentar chifrar o toureador, por mais difícil que isso fosse.

Me isolei de todo mundo da escola à época, e fiz questão de não comentar a respeito com os amigos da minha rua, embora eles tivesse ouvido a história de outras bocas. Aquela turma da oitava série continuou a se ver por mais uns dois, três anos, mas depois, naturalmente, perderam contato. Eu já quis perder o contato de antemão. Ninguém entendia meu sumiço, ninguém passou a me odiar pela minha ( falta de) atitude. Mas era minha auto-punição por ser um covarde. Fui para outra escola e praticamente não fiz amigos. Eu não dava muita confiança e preferia ficar isolado, quieto, com aquela história encrostada na alma.

Demorou uns bons dez anos para que essa história deixasse de contrair a bile do meu superego. Hoje eu a conto no bar como anedota e sempre penso nela quando vejo matérias sobre grandes líderes de corporações, testes ao estilo “saiba se você tem espírito de liderança”, livros sobre tornar-se um vencedor. Quem persegue essas metas não entendeu absolutamente nada dos preceitos dessa vida – não que eu saiba quais são.

16 Comentários

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  • Estamos diante de um clássico. É o melhor texto deste condomínio, de muito longe.

  • Acompanho seu blog há algum tempo já… desde antes da mudança.
    Caro Fernando, posso dizer que manhood reclama balls… e ser líder hoje em dia pouco ou nada tem a ver com isso, o que é um desvio. Por outro lado, ironicamente, é preciso balls para afirmar isso como você fez, e mais uma vez te respeito por isso.
    Abraços

  • ay, bibes!
    concordo com o humberto. demás. lindo lindo lindo.

  • Ac ho que todo moleque de 14 anos já passou por isso.

  • Meu caro Urso,

    Fico feliz que tenha voltado a escrever.
    Como já disse, seus sensos de humor e moral são únicos, o que torna sua narrativa fluida e interessante.
    É ótimo poder ter contato, e refletir, sobre passagens tão vívidas de aprendizado e conflito como as descritas acima.
    Seu texto é humanizante.
    Um forte abraço!

  • Grande texto, e concordo que todo moleque já passou por isso. Ninguém nasce sabendo. E ctrl-Z seria a ferramenta mais importante da vida real.

  • Valeu pelos elogios, caros.
    Igor, pode ser que você esteja certo. Tudo é uma questão de referência.
    Leandro, você é um exagerado, hehe.
    Abrações.

  • Vives,

    Seu texto me fez pensar sobre os meus 14 anos. O que eu fazia na escola? Como eu me comportava?

    Hoje, com alguns livros a mais na cabeça e vários afagos e pancadas da vida no coração, percebo que pode demorar, pode doer, pode soar enigmátivo por muito tempo. Mas a nossa construção de pessoa passa significativamente por esses desafios. Em suma: só se aprende a ser gente dando a cara e o coração a tapa.

    E eu estou certo que essa pedagogia do tempo te fez gente. Te fez esse sujeito capaz de se sensibilizar com o outro, de partilhar a vida. Um grandalhão com coração de criança.

    Belo texto, companheiro!

    Tenho orgulho de gostar de você.

    Abração

  • Por favor, twitem isso.

  • Adorei, colega. E olha, passei por quase isso, mas quem era a vítima do grupelho na porta da escola fui eu. Não acovardei, só saí antes da escola pq não teria a última aula, e escapei de dar de cara com os tipos me aguardando.
    E olha que nem menino eu sou!
    Na beira dos 30, lembrar dos 15, pra mim, é revigorante… embora muito nostálgico.

  • Tem que ter muita coragem pra escrever isso…

  • Nossa, Vives, não lembro de você escrever por aqui algo tão pessoal. E que ótimo que escreveu, lindo texto!

  • Um dia ainda tenho essa moral do Vives para contar como foram meus deprimentes 10 a 14 anos, quando eu não tinha o dente do meio.

  • Vives,

    Por isso, vc é o cara!

    Abraços comovidos (ao melhor estilo Anos Incríveis),
    Daniel

  • Cara que texto! Não tem como não se identificar!
    Abs

  • Comentário um pouco atrasado mas, vá lá… vou alugar seu espaço um pouco.

    Este texto seu despertou saudades dos meus tempos de pré-adolescente, os quais não irei relatar aqui por simplesmente não possuir o dom da escrita como você.

    Porém, uma das coisas que mais me impressionou a ponto de levar-me a comentar foi eu ter percebido o quão diferentes os pré-adolescentes eram há poucos anos atrás.

    Conceitos citados por você como honra, liderança, hombridade, amizade simplesmente não existem mais.

    Essas juras “vou te pegar lá fora”, “vou te encher de porrada”, “vou destruir você”, principalmente, sumiram, desapareceram.

    Não consigo encontrar, em minha rápida análise, o fator responsável por esse desaparecimento de valores mas é assustador entender que esses “pequenos” acontecimentos que foram tão importantes para a formação de nosso caráter, não estão se repetindo na atual geração.

    A sua citada “covardia” hoje é incentivada, com absoluta razão, pois hoje arma é mais fácil de comprar do que pão.

    Provavelmente, nos tempos de hoje, você não teria conseguido falar com Marcel no telefone minuto após o embate pois o mesmo teria levado um tiro de Osmar e falecido.

    Que porcaria de pessoas que estamos criando hein?

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