Chico Buarque envelhece bem — os fãs, nem tanto

Vi ontem no cinema o “Chico: Artista Brasileiro”, doc sobre o Chico Buarque, de Miguel Faria Júnior. Sou suspeito pra falar do Chico — não há ninguém que eu goste tanto na música quanto ele. Bom ver que ele segue com a cabeça boa. Não sei se posso dizer o mesmo dos fãs da sua própria geração.

Alguns pontos interessantes:

— O impacto que Chico Buarque causa nos fãs daria um bom estudo de psicologia, se é que já não existe. Fui a um show dele em 2006, As Cidades. O show foi, digamos… ruim. Ele não é um cara de palco, as canções eram inferiores aos grandes sucessos e, a voz que nunca foi grande coisa, já estava uma taquara rachada. Era mais um show “aqui está Francisco Buarque de Hollanda, estamos vendo o mito na nossa frente”. E mesmo assim todo mundo esteve numa catarse coletiva, aos prantos. Ou seja, a ideia de Chico Buarque é muito maior do que ele próprio ao vivo. Lembrei disso no cinema pra ver o documentário. Foi a primeira vez que, ao fim do filme, apenas agradável, o cinema aplaudiu num estouro, como se fosse um teatro e o próprio estivesse ali na frente. Surreal. Mas talvez todo nome gigantesco seja assim: cada um cria o personagem na própria cabeça e ele vira uma coisa gigantesca, muito maior que o ser humano.

— O documentário tem o mérito de mostrar Chico Buarque a envelhecer bem, o que, ao menos pra mim, era uma incógnita. Cena chocante pros fãs xiitas da MPB cânone: o próprio dizendo que a Bossa Nova hoje seria impossível porque foi o retrato de um tempo em que a classe média/alta dominava o discurso do povão. Hoje temos uma música que é mais a cara do Brasil. Isso quer dizer que o Brasil é melhor hoje que há 60 anos (mesmo que a música não seja melhor, mas isso é comentário meu). Ouvi urros de dor nas poltronas ao lado. Poderia ser um rancoroso dizendo “bom mesmo era no meu tempo”, como muita gente da geração dele. Inclusive essa é uma frase que ele odeia. E insiste que o Brasil é melhor hoje. É mesmo. Chico também revelou ter ganho disco de rock progressivo dos anos 70 de seu neto (não revelou a banda), algo que lhe passou batido à época, e achou muito bacana, e que isso de alguma forma pode influenciar como ele faz música hoje.

— A relação de Chico com a Literatura tem um grande mérito que revela um problema, ao meu ver. O mérito: ele diz ter começado a escrever porque gostaria de fazer novas coisas, não ficar parado na música, onde ele já tinha domínio total. Pra um cara do tamanho dele, sair dessa zona de conforto é uma virtude que egos gigantescos não tentariam. O outro lado: li dois livros dele: Estorvo e Leite Derramado. O primeiro, seu livro de estréia, até gostei. O segundo, esquecível, ruim mesmo. Preciso ler Budapeste, que, dizem, é o melhor, mas a impressão de momento é que, se o Chico Buarque da Literatura é o Machado de Assis, Chico escrevendo me parece não ser nem um Ivan Lins. Aí está o preço a pagar: Caetano Veloso prosseguiu na música e segue fazendo os melhores discos brasileiros no século 21. Desde Paratodos (1993), os discos que Chico faz são claramente pra cumprir tabela com as gravadoras.

— Sempre pensei que ter a Ditadura como inimiga foi fundamental pra ter a fase gloriosa da música brasileira nos anos 1970 – pra mim, a mais completa de todas. Chico quebrou esse mito. Ele diz que poderia ter ido mais longe não fossem os militares pra combater e ele pudesse simplesmente pensar em fazer música. Muita coisa ele escreveu com raiva. E, pro que ele se propunha a fazer, raiva não era bom.

— As duas senhoras que sentaram do nosso lado no cinema diziam ou terem lido ou conhecerem alguém que mandou carta pra Folha xingando o filme porque o Chico aparece com um blazer vermelho, o que seria uma referência velada ao PT. “O povo tá maluco, o vermelho existe antes do PT e o tucano existe antes do PSDB. Não sei mais o que acontece com as pessoas, que clima horrível”. Eu e minha mulher quase abraçamos as senhorinhas. O mínimo de bom senso que elas demonstraram já é muito. Nem todo mundo que ouviu Chico Buarque entendeu o que disse.

Essa bronca com quem se diz socialista

Foi em 2013 o primeiro ano em que um grupo de amigos que se conheceu via Twitter se organizou pra fazer um bloco de carnaval que percorresse a distância entre os dois bares em que a turma se formou, o Tubaína, próximo da Paulista, ao Coco, um cai-pra-dentro no Santa Cecília. Como todo mundo era meio-intelectual-meio-de-esquerda (obrigado, Antônio Prata), chegou-se ao nome de Bloco Soviético.

Este ano, na terceira edição, a coisa tomou proporções bem maiores. Foi muita gente que não tinha nada a ver com o grupo inicial, e parece mesmo que se consolidou como um bloco de carnaval paulistano. Mas antes, durante e depois do bloco apareceu uma rapaziada que, com uma empáfia de quem folheia a Veja no dentista e automaticamente vira pós-doutor em História, cismou que o grupo homenageia a União Soviética. Chegaram a usar uma foto da libertação de um campo de concentração em 1945 como se fosse um assassinato em massa causado pelo Exército Vermelho.

Então é triste ter que fazer isso, mas vou explicar a piada. Parece ter ficado claro pra maioria (mas não pra todo mundo) que Bloco Soviético é o trocadilho entre bloco de carnaval e o Pacto de Varsóvia. A coisa pega no ponto a seguir: a maioria ali é de esquerda, alguns se dizem socialistas, outro sociais-democratas, muitos petistas, e praticamente todos chamados de comunistas pela grande média leitora de Veja que acha que Lula, Dilma, Stalin, Marx, Aldo Rebelo, Ho Chi Minh, Boris Yeltsin, Rasputin, Jean Wyllys, Eric Hobsbawn, Sibá Machado e a cadela Laika são tudo a mesma coisa. Daí a “homenagem”. Há também liberais, apolíticos e até tucanos no meio do bloco. É o que acontece quando as pessoas se importam mais com a relação que existe entre elas do que com opções políticas.

Houve gente de direita que zoou o bloco porque a maioria ali é de esquerda. Até aí, tudo bem. Inclusive deveriam organizar um Bloco Viúvas de Roberto Campos pro carnaval seguinte, com todo mundo vestido de rei do camarote. Carnaval é isso aí. Mas também houve um povo que demonstrou um incômodo sincero com o sucesso do Bloco Soviético, dizendo que fazia apologia de ditadura e assassinatos em massa. Outros pegaram fotos dos integrantes pra tirar sarro no Twitter. Piadas com “gorda”, “gente feia” outros recursos da velha misoginia da solidão, que diz muito apenas sobre quem faz a piada. 

Importante frisar o plus a mais do bloco: ao contrário do que normalmente acontece, as mulheres ali estiveram muito mais tranquilas quanto ao assédio masculino do que em outros blocos (os misóginos ficaram em casa xingando muito no Twitter).

Então vamos contextualizar: conheço umas 50 pessoas do bloco. Umas 30 se dizem socialistas. NENHUMA delas quer uma ditadura no Brasil. Nenhuma delas é stalinista ou coisa do tipo. Todas elas estavam tirando um sarro de você que acha isso. 

Não digo que sou socialista porque considero utópico uma condição de igualdade total entre seres humanos. Acho que somos bichos que tendemos a nos organizar em elites, o que me faz ter mais simpatia pela social-democracia — e, mesmo assim, cada vez menos. Mas socialismo não é só a ditadura stalinista soviética. Todos que conheço que se definem comunistas/socialistas acreditam em democracia radical, justiça social, intervenção direta do Estado para diminuição da miséria, reforma agrária, acesso universal a educação e saúde, sociedade menos desigual em raça, gênero, credo e condição social. Não há fantasma nenhum disso. E é incrível que em pleno 2015 ainda se ouça argumentos do tipo “é comunista mas usa iPhone”. Como se comunismo fosse voto de pobreza. 

Então funciona assim: não sei se o socialismo dá certo, mas o aquecimento global já mandou avisar que o capitalismo nos empurra para o abismo. Então temos duas opções: ou a gente pensa numa nova alternativa, porque o que está aí não está rolando, ou fica em casa xingando o carnaval dos outros e esperando o mundo acabar. Literalmente.  

Cuba é maior que o socialismo. E que o capitalismo também

O anúncio de que Estados Unidos e Cuba vão reatar laços diplomáticos após 53 anos é um bonus round de excrementos no ventilador em 2014, o ano que colocou o Brasil no divã. Vi pessoas sinceramente possessas com a decisão de Obama de levar adiante este acordo que, com um mínimo de bom senso, é digno de ser comemorado à esquerda e à direita pelo simples fato de que a situação na ilha vai melhorar. Manter tudo como está não fez a ditadura cair e ainda oprime o povo em condições quotidianas básicas.

Incrível que seja preciso declarar: a Cuba socialista não é ótima e não é péssima. Quem trata o assunto de maneira extrema comete a desonestidade intelectual de uma verdade absoluta que não existe. Cuba não é branca nem é preta. É cinza.

Fui a Cuba em novembro de 2012 como turista. O fato de ter ido para lá não faz de mim mais embasado que ninguém para dizer o que acontece na ilha. É minha visão in loco e complementar ao que li desde sempre.

O símbolo máximo de Cuba, pra mim, foi a sorveteria Coppelia, em Havana. Nela pode-se provar um sorvete delicioso e barato até para o padrão local. No entanto, só existem três sabores possíveis. E muitas vezes só há um disponível.

O que pude observar é um povo sofrendo com a escassez de produtos básicos. Várias vezes nas ruas pessoas encostam umas nas outras e trocam rapidamente um pacote por um punhado de dinheiro, e as duas saem andando normalmente como se esse rápido contato nunca tivesse ocorrido. No primeiro momento pensei que pudesse ser drogas. Mas a verdade é que pode ser qualquer coisa que falta. Ovos. Pasta de dente. Café. Tudo no mercado negro.

Cuba também é o país onde vi mais escolas e consultórios médicos. É realmente quase um por esquina. O Banco Mundial atestou o ensino cubano como o melhor da América Latina e Caribe. Os médicos do país são referência internacional pela capacitação e pela maneira como levam a sério seu trabalho, algo mais próximo de um sacerdócio do que de status social — vide os médicos cubanos que foram a África combater o ebola. E as pessoas têm orgulho imenso disso tudo. Orgulho proporcional ao medo de falar de política: se o governo te surpreender falando mal dele, você pode ser preso. Então ninguém fala. Quer encerrar uma conversa? Pergunte: “E o Fidel?”. As pessoas fogem. O simples fato de não haver liberdade básica é suficiente pra nunca querer trocar o Brasil atual por Cuba. Não dá.

Eu poderia gastar mais vinte parágrafos para exemplificar como Cuba tem grandes qualidades e grandes defeitos, tudo ao mesmo tempo agora. E o que mais me incomoda em quem mergulha de cabeça nessa discussão é a definição velada de que Cuba é igual a Socialismo. Cubano virou ofensa. É uma característica tão latente que, quando médicos cubanos chegaram ao Brasil, colegas brasileiros os vaiaram como se fossem páreas. Cubano filhodaputa. Escravo. Uma humilhação canalha, burra, abjeta parcialmente corrigida por colegas que fizeram o oposto na sequência.

Cuba não é o socialismo castrista. Cuba não é o capitalismo de Miami. Cuba é um país formado pelo caldo que saiu do branco hispânico, do negro ex-escravo e até dos chineses — há um bairro chinês em Havana. Cuba é catolicismo, santeria e ateísmo, tudo junto e às vezes na mesma pessoa. Uma cultura desproporcionalmente enorme para um país tão pequeno, um povo musical, cultural e sexual como poucos. Cuba é uma ilha e um mundo.

Os cubanos sobreviveram a Fulgêncio Batista. Os cubanos sobreviveram aos altos e baixos da revolução de Fidel Castro. Os cubanos sobrevivem ao embargo americano. Os cubanos são muito maiores que qualquer sistema político já existiu. 

 

 

12 razões que ajudam a explicar o ódio da classe média ao PT

O tempo pode ter embaralhado as coisas na minha cabeça e o Google não me ajudou, mas tenho recordações de que a camada social no qual o PT tinha mais adeptos durante os anos 1990 era… a classe média-alta.

A se confirmar, parece piada hoje.

O fato é que é muito mais fácil encontrar alguém que sonhe com a volta da Ditadura do que um votante no Partido dos Trabalhadores entre vários setores das classes média e alta. Decepção é um sentimento esperado. Bronca e indignação, idem. Já ódio é uma coisa bem mais profunda e indica cadávares apodrecendo debaixo do tapete. Será um fenômeno muito estudado nas próximas décadas, tenho certeza. Uma surra de Lacan e Sergio Buarque de Hollanda ajudariam a entender melhor esse Brasil que surge no século 21.

Enumero aqui 12 fatores que, ao meu ver, culminaram neste ódio cada dia mais ferrenho. Não estão em ordem de importância e certamente há mais:

O PT se fez com um discurso de arauto da moralidade e de oposição às oligarquias políticas e econômicas tradicionais, como José Sarney, Antônio Carlos Magalhães, Renan Calheiros, Paulo Maluf, Fernando Collor, etc., o que não correspondeu à realidade quando governo. Como o PSDB, o PT governou baseando-se em alianças justamente com estes caciques (ACM foi exceção). Quanto a corrupção, houve o ápice do Mensalão. O PT clama perseguição no julgamento e que tudo foi *só* um caixa dois. Ou seja: mesmo dentro de seu argumento, o partido assume uma espécie de estelionato eleitoral em relação ao discurso passado. Muita gente não perdoou.

— Um preconceito natural das classes mais conservadoras contra o partido desde sua fundação, em 1980. 

Uma perda de certos confortos de classe média por conta da melhora das classes baixas nos anos Lula e Dilma, como a dificuldade em se ter uma faxineira barata (com o pleno emprego, ficou mais fácil encontrar emprego melhor), da locomoção nas grandes e médias cidades (hoje muito mais gente tem carro) e de andar de avião (aeroportos abarrotados de populares). Estes dois últimos também têm relação direta com a questão do status social do automóvel e do viajar de avião: antigamente eram também reafirmação de condição social, o que não faz mais sentido. Há ressentimento da perda disso.

A ausência de sensiblidade social. Programas sociais como o bolsa-família, as cotas para negros e outros programas assistenciais são o alvo favorito. A maioria entende ser absurdo a destinação de verba pública para eliminar a pobreza absoluta. Simplificações ao estilo “Quer dinheiro? Vai para trabalhar” e “Não tem que dar o peixe, tem que ensinar a pescar” são comuns, por mais que a ONU seja elogiosa e por mais que países (desenvolvidos, inclusive) tenham adotado programas similares ou estejam pensando em adotar.

O discurso da meritocracia, por mais falso e/ou deturpado que seja na maioria das vezes (“eu estudei e ganhei meu dinheiro, porque os pobres não fazem o mesmo”), como se todos tivessem oportunidades iguais na vida. Como se o negro da favela de Heliópolis tivesse chances iguais de passar em Medicina na USP que o filho do funcionário público que estuda no colégio de mensalidade a 3 mil reais.

A penetração do PSDB, que conseguiu encampar um discurso de moralidade que a gente sabe ser falso na prática, a exemplo do que houve com o PT, mas que colou especialmente na classe média, turbinada por setores da mídia.

— Uma frustração cada vez maior de quem vai ao exterior e vê que nos EUA e Europa tudo é muito mais fácil que aqui pra se viver (como se tivesse sido diferente em algum momento do passado).

Reações quase fundamentalistas de nomes importantes e de militantes do PT, sobretudo pós-mensalão, como se o partido fosse um eterno injustiçado. Há sim eventuais injustiças cometidas, mas o partido comete falhas graves e não há razão para que seja perdoado por isso. Mais que isso: declarações de nomes importantes do partido praticamente declarando guerra à classe média em vez de tentar compreendê-la e mudá-la, que é prática de boa política.

— Um desgaste natural de um partido que está há 12 anos no poder. 

A incompetência econômica do governo Dilma.

A associação burra que é feita nas classes média e alta entre PT e o comunismo, e a dirigida disseminação de boatos, tais como “o filho do Lula é dono da Friboi” ou “Dilma está instaurando uma ditadura”. Ambos são inacreditavelmente eficazes, o que aponta para o problema crônico da educação no País, inclusive entre os que acreditam serem naturalmente cultos.

A Revista Veja, a Rádio Jovem Pan, o Grupo Bandeirantes e outros veículos de comunicação que fazem oposição automática a qualquer ação petista e que contribuem, entre outras coisas, para a irracional associação do partido ao comunismo.

Dois causos interioranos sobre a Sexta-feira da Paixão

No interior até os anos 1970 era bem comum a existência dos circos mambembes. Aquele filme O Palhaço, do Selton Mello, relata a decadência desses circos com a ascensão da TV naquela época. Hoje os circos ainda resistem, mas aqueles ultra-precários nos quais o palhaço é também o mágico, o domador do leão raquítico e o cobrador de ingresso são quase impossíveis de se achar — talvez uma meia dúzia de três ou quatro deles ainda resista nos grotões profundos.

O fato é que nessa época do ano, no interior paulista, esses circos mambembes trocavam o espetáculo convencional para encenarem a Paixão de Cristo — essas encenações que as senhoras voltavam pra casa dizendo uma pra outra: Ai, esse ano foi tão bonito. Primeiro porque a maioria deles era também religiosa, segundo (e principalmente) porque, em tempos em que a Igreja Católica tinha mais influência do que tem hoje, não fazia sentido encenar um circo na semana da triste data do catolicismo. Ninguém iria. 

Tive na adolescência um professor bem zuão que contou essas duas histórias abaixo em aula. Dizia ele serem verdadeiras, mas vai saber. Retratava um interior paulista que já não existia mais naqueles anos 1990. 

Houve uma vez em que o ator que viveria Jesus Cristo na encenação era um palhaço com sérios problemas com a bebida. Os amigos dele seriam os romanos que o crucificariam. Uma das cenas da crucificação do Cristo era a parte da humilhação, na qual os romanos esfregariam um rolo de feno na cara dele, que responderia: “Perdoai-os, ó Paí, eles não sabem o que fazem” — ou ao menos acho que era essa fala nessa hora, posso estar enganado.

O fato é que os amigos dele embeberam o feno na pinga com o claro intuito de zoá-lo durante a apresentação. Quando esfregaram o maço encachaçado na cara dele, Cristo pensou alguns segundos e respondeu a todos:

— MAIS FENO!!!! TRAGAM MAIS FENO!!!!!! 

Outro caso foi quando amarraram o Cristo na cruz, mas a cruz foi feita com uma madeira seca bem vagabunda. Quando Cristo começou a falar “Pai, perdoai-os…”, ouviu-se um grande “crack” pelo circo. Assustado, o Cristo amarrado recomeçou a fala, e então ouviu-se um segundo “crack”. Tensão no recinto. No terceiro “crack”, já caindo, o ator que fazia o Cristo gritou:

— SEGURA ESSA PORRA! SEGURA ESSA PORRA, CARALHO!!!

E caiu de cara no chão. 

Provavelmente nessa ocasião foram poucas as velhinhas que foram pra casa dizendo “Ai esse ano foi tão bonito“.

O misterioso caso do taxista que lia “lebibô”

*Do enviado especial a Miami

Sempre me orgulhei do meu portunhol vigoroso que, auxiliado pela mímica, torna-se padrequevedisticamente erudito. No entanto, fui testado por uma nova situação de limite linguístico e reprovado.

Miami, 2014 (frequento Miami para fins profissionais, não me julguem). Taxista haitiano puxou conversa em inglês com um sotaque franco-dialetense haitiano. Tentei afundar no celular pra fingir que mandava mensagens (meu celular não funciona lá), mas ele insistia em papear. Perguntou o que eu faço da vida, e eu disse: jornalista. Nunca entendi essa empolgação de taxistas com jornalistas, mas, sim, ele se empolgou com isso. 

Como não conseguia entender bem a conversa, respondia aleatoriamente com um “yes”, “no” ou “oui”. De repente o cara começou a discursar sempre citando um tal LEBIBÔ. Ouvi uns oito LEBIBÔ´s no intervalo de um minuto — eu disse oito, mas pode ter sido mais.

Atônito, indaguei: “What´s LEBIBÔ?”, e talvez não devesse ter perguntado. O cara ergueu as sobrancelhas: “THE BIBÔ… BIBÔ… THE BIBLE, MAN!”. O cara é da Igreja Batista, conhecia de cor todas as principais igrejas evangélicas brasileiras e sabia que tinha um mausoléu da Universal em São Paulo.

Continuei respondendo aleatoriamente as perguntas com “sim” ou “não” sem entendê-las e, quando vi, o rapaz desembestou-se a falar. Pesquei “ecclésiastique” e, efeito retardado, entendi que eu o tinha autorizado a me contar um sermão, e ele então passara a relatar alguma passagem do Livro de Eclesiastes. Foram uns cinco minutos disso.

No fim da corrida, ele ficou emocionado por eu ter ouvido o sermão, do qual não entendi patavina. Ele disse algo que interpretei como “Vocês jornalistas deveriam ler mais LEBIBÔ. Tem muita pauta por lá”.

Paguei, disse “That Dieu bless you” e entrei no aeroporto.  Encarei como um dízimo.

Lula, Dilma e o comunismo no Brasil: apenas parem

Um espectro ronda a discussão política no país: o espectro do comunismo, mesmo que inventado. Parece que a onda sessentaequatrista voltou aos almoços de domingo em família, na conversa de elevador, nos links compartilhados no Facebook. Aquele avô que falava do perigo vermelho e que era motivo de piada de repente virou símbolo de sabedoria, chancelado por uma revista semanal de grande circulação, numa espécie de nova grande patologia coletiva nacional. Cada vez mais, o novo-velho componente: Dilma Rousseff e o PT estão transformando o Brasil numa Cuba. Ou Venezuela. Ou União Soviética. Ou Coréia do Norte.

Então vamos esclarecer o seguinte: é mais fácil a Rússia devolver a Criméia embalada numa caixa de presentes via correio para a Ucrânia do que existir a mínima fagulha comunista no governo desse País.

Eu não deveria estar falando isso, estamos em 2014, mas, cacete, eu não consigo participar de uma festa em família, de um encontro entre amigos, de um oi de elevador sem que um Niágara de estupidez transborde as comportas do mínimo bom senso.

Primeiro, uma pequena c0letânea de coisas que ouvi ou li recentemente de pessoas do mesmo perfil social e etário que o meu (classe média, 30 a 50 anos, ensino superior):

— A insistência de Dilma no comunismo está nos aproximando de uma guerra civil
— Tá foda o poder do MST
— Faixa de ônibus é mania de petistinha comuna de achar que todo mundo tem que ser mulambento
— O jeito é deixar o país, estamos atolando no rochedo cubano
— Eu pago imposto pra Dilma dar dinheiro pra Cuba construir porto

Aos fatos: talvez não tenha havido governo tão capitalista no Brasil quanto os de Lula e Dilma.

O grande legado do governo do PT é a inclusão social. Entre 30 e 40 milhões de pessoas saíram da miséria pra conseguir entrar, atenção, NO MERCADO DE CONSUMO. Ou seja: comprar produtos. Não é por outro motivo que o Abílio Diniz, ex-dono de rede de supermercado e atual picão de fábrica de salsicha e empacotadora de peru de Natal, faz campanha e segue agradecendo incessantemente a Lula e a Dilma. O mesmo vale pra Luíza Trajano, dona das Casas Bahia genérica. Hoje eles têm clientes que antes não existiam. Já vi pessoalmente discurso de ambos que configuram felácios existenciais pouquíssimo discretos nos governos do PT. Devo lembrar que eles não teriam muito simpatia por um governo de viés socialista.

“Dilma deu grana do BNDES pra Cuba”. É verdade, vão reformar um porto lá, o de Mariel. Sabe quem vai fazer o porto? A comunistíssima, a rosaluxemburgueana Odebrecht. Vai faturar 8 bilhões de reais, 12% dos quais são empréstimo do BNDES ao governo cubano — eu disse empréstimo, não doação. O PT é amigo de Cuba, mas existe uma síndrome de vira-lata que acha que somos sempre a parte pior em relações com o estrangeiro. Com Cuba, o Brasil é quem dá as cartas. E o Brasil quer fazer dinheiro lá.

O governo do PT adotou a estratégia de valorizar a grande empresa brasileira. Não que eu considere esta digna de tal distinção, mas é um caminho, e um caminho capitalista.

Bradesco e Itaú batem recordes absolutos de lucro todos os anos. Não tem um banco infeliz no Brasil. O governo apoiou a consolidação da Ambev, Brasil Foods e dá a maior moral para as incompetentes empresas aéreas nacionais que merecem, quando muito, o desprezo. Fez isso porque sonha em ver essas empresas atuando lá fora e trazendo divisas ao País, assim como as multinacionais fazem na mão contrária. O PT no poder constrói a usina de Belo Monte, que é uma atrocidade ecológica, sob pressão das indústrias, e é aliadíssimo dos grandes produtores rurais que, se dependessem só deles, pendurariam cada integrante do MST num poste e passariam fogo. O MST, declaradamente socialista, que considera o governo petista um retrocesso na reforma agrária.

É necessário deixar de ser papagaio dos reinaldos azevedos e outros napoleões de hospício. Então vamos combinar o seguinte: você pode dizer que o governo do PT faz o capitalismo errado. Você pode dizer que o governo do PT faz o capitalismo correto do jeito errado. Mas você não pode dizer que o governo do PT é comunista. Quem diz isso não entendeu nada de PT, de Lula, de comunismo, de Brasil, de História, não entendeu nada de nada.

O legado de nossa miséria III

Tia Neca foi uma pessoa importante na formação da minha família. A derradeira entre um grupo de irmãs de Campinas, tias do meu pai, que o incentivaram na infância a continuar a estudar. Ele desistiu da escola na quarta série, como a grande maioria de seus amigos, num tempo em que o default no país era ser analfabeto. Por incentivo delas, professoras de primário, ele voltou a estudar, terminou o colegial, virou bancário, fez faculdade. Um empurrão que, entre tantas outras coisas, fez toda a diferença para eu estar aqui escrevendo esse texto.

A família da Tia Neca era religiosa, devota de uma igreja evangélica pequena local e cujo nome não faço mais ideia e que, supúnhamos, era séria, nada a ver com as seitas edirmacedianas midiáticas que rolam por aí.

Todo mês, imagino que há muito tempo, ela doava 700 reais pra igreja. O valor da aposentadoria dela não deveria ser cinco vezes maior que isso.

Tia Neca morreu semana passada. Conta-se que alguém ligou para o pastor da igreja para falar da morte dela. O pastor respondeu, depois do silêncio:

— …. alguém da família pretende continuar a pagar o dízimo?

Ninguém da igreja foi ao enterro dela.

Aquarela brasileira

Fui de ônibus para o Rio de Janeiro. Embarquei mais tarde para evitar a hora do rush da manhã em São Paulo, mas peguei a hora do rush da tarde no Rio e lá se foram sete horas para chegar. Na rodoviária, constatei que roubaram minha mochila (com o notebook da empresa) que estava no compartimento acima do assento. 

Delegacia. Policial descansava com uma espécie de metralhadora pendurada no ombro, que, mesmo supondo estar travada, amedrontava quem estava no recinto esperando para fazer um boletim de ocorrência. O escrivão deu uma risadinha quando ouviu meu problema, quase me chamando de trouxa. Reclamou que me mandaram para a DP errada, e que sempre fazem isso. Passou cinco minutos dando porrada na mesa e berrando que o sujeito que fez o novo software de boletim de ocorrência “nunca botou a bunda numa delegacia”. Na mesa ao fundo, outro escrivão dizia pra um sujeito que “a Lei Maria da Penha está aí pra foder os hómi, meu chapa”. Chegam policiais com bandidos algemados e os mantêm junto com os outros policiais e os que esperavam pro B. O. na sala.

Dia seguinte. Chuvas torrenciais alagam metade da cidade e praticamente inviabilizam por dias outras cidades pobres ao redor. O prefeito pede para ninguém sair de casa, porque está o caos. Na TV, a miséria humana do terceiro mundo. A mulher de 50 anos que viu o marido ser levado pela correnteza e morrer. A família que perdeu tudo pela segunda vez — a anterior tinha sido 15 dias antes. A família que saiu correndo da casa pelo buraco do ar condicionado segundos antes de ela desabar no barranco. O choro urrante da mulher que perdeu tudo, inclusive a casa, ser levada barranco abaixo. Desligo a TV, abro a janela e vejo todos os carros praticamente estacionados na rua, competindo pra ver quem buzina mais.

Na rua. Caminho pela calçada de um metro e meio de largura desviando dos postes molhados que colocaram bem no meio delas. Depois de dois banhos de poça d´água consecutivos, entendi que tem motorista que passa de propósito na poça só pra ensopar as pessoas, porque, na dimensão de mundo dele, é engraçado.

No táxi. Reclamo que o taxímetro está em bandeira 2, mas são 11 horas da manhã. O taxista responde que todo táxi no Rio tá com bandeira 2 o tempo inteiro por conta de questões burocráticas com a prefeitura, e então o “prefeito deixou”. Quando o 3G finalmente funciona, o que é raro, constato que é verdade.

Em outro táxi, acho um celular Samsung Galaxy no banco do passageiro e entrego ao motorista. Imediatamente me arrependo. Disse para me devolver, que eu o deixaria no hotel e o dono poderia buscar. O taxista diz que o passageiro anterior era amigo dele, que mora no centro, ele tinha acabado de deixar o cara — estávamos em Copabacana e eu vi ele deixando o passageiro anterior ali. Insisto pra ele devolver, que eu poderia cuidar disso, e ouço que é pra confiar nele. O celular toca, ele desliga o aparelho e joga no cesto ao lado da porta, para eu esquecer o assunto.

Tudo isso foi no Rio, mas poderia facilmente ter ocorrido em São Paulo, em Porto Alegre, em Jundiaí, em Maceió. O Brasil não é para amadores, mas eu não sei se quero ser assim tão profissional.  

 

 

André

Ainda lembro do dia em que conheci o André. Tinha só cinco anos, mas juro que me lembro. Eu e minha mãe saímos pra rua e vi o loiro franzino pendurado na mureta da casa dele, de frente pra nossa. Me desvencilhei da minha mãe e corri até onde ele estava. Eu disse que me chamava Fernando, ele disse que éramos quase xarás pois se chamava André Fernando. Minha mãe me chamou, corri pra dentro de casa, acenei pra ele na mureta, ele retribuiu o gesto, e então éramos amigos.

Foi a primeira amizade que fiz na vida.

Ainda lembro do dia em que falei com o André pra valer pela última vez. Era 2001. Como fazíamos sempre, porém cada vez menos, jogávamos Super Trunfo na casa dele. Neide, a mãe dele, nos trouxe algo para beber — tendo a falar que era groselha, pois normalmente era, mas não lembro ao certo. Eu já era da cerveja mas nunca recusaria aquele nosso ritual. Os dois palmeirenses estávamos tensos porque o Corinthians recebia o Grêmio na final da Copa do Brasil, e era quase óbvio que iria ganhar. Não queríamos ver o jogo. Porém, quando um vizinho gritou Gol do Grêmio! pela segunda vez, ligamos a TV e vimos até o fim, sem acreditar muito. Foi 3 a 1 pra gauchada. O André sempre teve simpatia pelo Grêmio, porque era o mesmo nome do clube da cidade onde passamos a pré-adolescência nadando nas férias. Depois de papear sobre a partida por horas, me despedi dele, deixei os meus Super Trunfos juntos dos dele e disse que ligava na próxima vez que voltasse pra Jundiaí — fazia uns seis meses que morava em São Paulo, pra fazer faculdade.

Nunca mais liguei pra ele nem ele a mim.

No ínterim entre os parágrafos acima, 15 anos de uma amizade ora fraterna, ora conflituosa, como costumam ser a amizade entre crianças e adolescentes. Mas o que fica hoje faz bem pra minha cabeça. A maior parte do que havia pra ser vivido na infância eu vivi ao lado do André.

As tardes inteiras jogando Super Trunfo, jogos de tabuleiro ou empurrando nossos caminhões e ônibus de brinquedo pela calçada da rua (de uma esquina a outra, era Jundiaí a São Paulo; de uma esquina até a rua de cima, era Jundiaí a São Sebastião). Os Super Trunfos e os jogos de tabuleiro que inventamos, desenhamos e jogamos. Os três campeonatos de futebol de botão que disputamos na casa do Carlinhos, no qual venci dois, meu único orgulho esportivo na vida. O futebol, o elefante colorido, o esconde-esconde, o pega-pega, o mãe-da-rua,  todos nos quais o André era sempre o mais rápido de nós oito, e eu, o mais lerdo.

As tardes de verão na piscina do Grêmio do centro, seguidas da coxinha de queijo que comíamos na lanchonete do clube, que tinha o glamouroso nome de River Sides Snakes Bar. A aventura que era pegar dois ônibus pra chegar no Grêmio clube de campo nos fins de semana. A paixão pelos ônibus. Sabíamos todas as linhas, todos os modelos e números das quatro viações que atuavam na cidade. Fazíamos passeios de sábado pra pegar os ônibus mais velhos na zona rural, porque logo eles deixariam de existir. Os Marcopolos, os Urbanus, os Thanco, os Mafersa. Éramos amigos dos motoristas e cobradores que faziam o Estação-Bonfiglioli. Os jogos de Atari e Master System na casa do Carlinhos. Aquela vez em que passamos a tarde tentando zerar o Asterix e que acabou a força no chefe final. Os quatro ônibus pra ir e voltar do shopping pra ver filme no cinema e comer no McDonalds. O um CD por mês que comprávamos juntando grana com esforço. As fitas cassetes com música dance que gravávamos na Dumont FM. A fita só com as músicas que eu odiava que o André colocava pra tirar minha concentração quando era minha vez de jogar video game. A evolução na nossa vida que foi quando ele tirou carta e conseguiu juntar grana pra comprar aquele Gol azul 92, e então chegávamos ao shopping em 15 minutos, e não mais em duas horas. 

Existem vários motivos pelos quais os amigos se afastam. Às vezes não existe nenhum. Quando mudei pra escola particular no colegial, no centro da cidade, e depois voltei pra outra pública, a minha casa e minha rua que eram toda minha existência passaram a dividir as atenções com outros amigos, com outros cenários, com outros pensamentos. Depois veio o cursinho, e aí veio São Paulo, e tudo aquilo virou, na surdina e sem que nenhum de nós notasse, só um quadro pendurado na parede da memória.

Eu sempre achei que fôssemos um dia nos reencontrar pra valer. Nos vimos de relance algumas vezes, trocamos scraps no Orkut e até  batemos um papo rápido uma vez na frente de casa sobre carro novo dele, mas eu sempre tive certo na minha cabeça que a gente sairia um dia pra comer uma pizza e lembrar dos grandes momentos. E seria na época do Natal, porque é quando eu paro mais em Jundiaí, e é quando eu lembro das coisas de casa, das coisas que ficaram pra trás.

Eu não queria correr o risco de ligar pra ele do nada e forçar uma aproximação e na hora H ficar um de frente pro outro sem muito assunto, evidenciando constrangedoramente nossas diferenças nesse período afastados. Eu queria que o interesse surgisse mutuamente, de um modo sereno e gentil como só a saudade entre velhos amigos consegue ser. Neste ano, a saudade bateu, comprei uns Super Trunfos antigos e escrevi sobre como era nossa vida, e queria mostrar pro André assim que ele entrasse no Facebook.

Mas ele nunca entrou.

Foi duro receber a notícia. Minha mãe ligou pra dizer que ele estava em estado gravíssimo, uma coisa besta que começou do nada. Desdenhei, 34 anos, imagina?, daqui a pouco ele sai, vai ser só um susto. Ao mesmo tempo, minha cabeça explodiu os ficheiros antigos e passei a madrugada insone lembrando de tudo isso, em detalhes. Quatro dias depois, foi meu pai que ligou logo cedo, e eu já sabia o que era antes de atender. “Fernando, o André não aguentou. Você vem?”.

Eu espero que o André tenha partido com a mesma lembrança boa de mim que a dele que hoje levo adiante. Nosso reencontro só ficou mais distante, espero que muito distante. Mas acho que ele estará lá embaralhando as cartas de Super Trunfo e deixando as duas últimas pra mesa, como repescagem pro primeiro que perder todas as cartas, como era a regra que a gente inventou. E jogaremos. E conversaremos. E seremos muito felizes como na infância que ficou. 

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