Corazza Visita: Axé Music #2
”Hoje eu acordei com uma vontade de sofrer”. O genial verso de “Furo na Testa”, dos Abimonistas, é perfeito para abrir mais este capítulo de nossa série. Acordei com vontade de sofrer e perseverei na tentativa. Um café pra espantar a ressaca e bora para o Ensaio de Verão do Parangolé. Como? Não sabe o que é o Parangolé? Pois, observe:
Sentiu? Então. Dando um passo adiante nestes posts temáticos, resolvo fazer um pouco de reportagem de campo (ui!) e vou para um dos 10 milhões de “ensaios de verão” que acontecem diariamente em Salvador nessa época. Porcaria por porcaria, escolho a que fica mais perto de casa, logicamente. Passo no Speed Burguer (o melhor lanche ruim de Soterópolis) e vou para a tal Área Verde do hotel Othon.
No caminho entre o Speed e o inferno, digo, o show, vou sondando os cambistas. Começa em 50 pratas. Caro demais. Vou chegando perto e o preço vai caindo. Acho um sacripanta que pede 25 numa meia-entrada (preço original: R$ 15). Compro o bilhete e vou à luta.
A fauna que chega ao local é variada. Tem emo, gente bombada, paulistas axezeiros reconhecíveis a quilômetros de distância, mulheres que possivelmente serão estrelas das Brasileirinhas algum dia e um travesti altamente esquisito, com um top branco, short de piriguete e barba por fazer. Encosto numa mureta e fico vendo o zoológico por alguns minutos antes de entrar no ensaio, o que acontece quando interropem o hip-hop que tocava alto e o locutor anuncia o Parangolé.
Meu firme propósito de permanecer sóbrio vai embora logo na primeira, vá lá, música. Uma sucessão de gritos incompreensíveis, misturada aos berros da moçada jovem e sadia que estremece mais que epilético assistindo Pokémon. Sem cerveja é impossível. A gelosa no lugar custa 4 dinheiros e, pra terminar de ferrar, só tem Nova Schin.
Penso em ir embora, mas lembro que o melhor está por vir. Sim, porque “Sacode a Laje”, aquela jóia da cultura universal que você viu ali depois do primeiro parágrafo, não é nada perto do grande sucesso do verão: o “Rebolation”! Não posso deixar o recinto antes de ver isso acontecer ao vivo:
A segunda obra executada também é incompreensível. Não faço ideia do que o cidadão aí, o vocalista Léo Santana, berrou. Pra falar a verdade, tava prestando mais atenção ao pessoal da segurança que, na maior tranquilidade, dançava e fazia fotos com os celulares. De repente, entendo algo que vem do palco: “Essa é a do verão! Essa é a do Carnaval!”. Será? É muita emoção.
Com a certeza de que o Rebolation seria a terceira música do set list e animado pela perspectiva de me mandar logo, deixo a boa gente da segurança em paz e me concentro no show. “Bota a mão na cabeça que vai começar” é o verso que abre os trabalhos. Composto, possivelmente, por algum policial militar, o trecho leva à loucura o pessoal “parangoleiro”, que bota a mão na cabeça e põe-se a rebolar – a primeira reação é recomendável em uma blitz da PM. A segunda, não.
O resto da música é bem minimalista. Resume-se a “rebolation é bom, bom; rebolation é bom, bom, bom” e “alô, minha galera, preste atenção, rebolation é a nova sensação. Menino e menina não fique de fora (sic) que vai começar o pancadão”. Chupa, Puccini. Pra completar, tem um sintetizadorzinho de fundo que fica o tempo inteiro zunindo na cabeça do vivente. Aquilo gruda nas ideias e, certamente, fará a alegria dos psiquiatras e da fábrica de Rivotril depois da Quarta-feira de Cinzas.
Terminados o rebolation e minha latinha da horrível cerveja, avisto logo a faixa: “SAÍDA – SEM RETORNO”. Pode ter certeza, irmãozinho. Como ponto positivo, o povo parecia estar se divertindo de fato, e não só querendo mostrar que tinha dinheiro pra comprar um abadá de mil pratas – como parece acontecer no Carnaval.
Conclusão: O rebolation não é bom, bom, bom. Em comparação com o Vale Night, avaliado em nossa última expedição, tem a vantagem de ser despretensioso e tosco com convicção. Em uma escala de 0 a 10, é melhor ouvir besteira do que ser surdo. Em tempo: o Rebolation não é considerado, exatamente, Axé Music. É o que chamam por aqui de Pagodão. Sinceramente, não vou mudar o título de uma série só pra acomodar uma besteira dessa.
hahahaha adorei. se não valeu pela música, valeu pelo texto. =)
Oi Corazza, tudo bem? É a Raquel Salgado, da Cásper. Menino, vc ta morando na Bahia? Desde quando? Eu morei aí em 2008… e en 1989, rs. Tudo bem com vc?
bjo
Oi, Raquel. Tou morando aqui faz uns 6 meses (deve ser mais, mas deu uma preguiiiiiça de contar….). Bjo
Olhe rapaz, entre todos as “ostas” que ouvi antes de vir para Sampa a uns 4 anos, essa é sem sombra de dúvidas é a menos pior! E tenho a absoluta certeza que encontrarás a derradeira! rsrs Meu irmão ( que Deus é mais) mora aqui a mais de 10 anos, e toda visita feita é uma nova sessão de torturas, a última foi um show com uma sapa semi-nua, que cremdeuspai,kkk.
Olhe não me absorva!
E pensar que a Martina me chamou pra ir no Parangolé.
E me fiz a pergunta “o que o Helio Oiticica tem a ver com o Carnaval de Salvador?”.
Nada, quer dizer, tem a ver com a minha porra.
Se soubesse dessa série de postagens, teria saído menos do seu apê.
Olha o risco que se corre de encontrar um Rebolation pela rua.
De pensar em você nesse ambiente…. dantesco.
Deveríamos ter ido.
Abração.
Felipe, ouvi dizer por uma amiga minha da FAAP que hoje em dia mora em Milão que o som do verão (que ainda não chegou) por lá é aquela Dança do Pimpolho – aquela de mil novecentos e guaraná de rolha – em versão dance.
Faz pensar se é só no verão brasileiro que se tem mau gosto.
Beijos
Flávia