Corazza Visita: Axé Music #1

Uma das frases que mais ouço na Bahia é “ah, vai fingir que você não conhece?”. Normalmente, isso está associado a algum fenômeno da música carnavalesca local. Tento, em vão, argumentar que não conheço mesmo a figura-banda-ritmo-abadá. Não adianta. Sou tratado como um pedante que não tem coragem de assumir sua paixão por coisas como “rala a tcheca no asfalto” ou “senta, levanta, senta, levanta, senta, levantaaaaah!”. Assim sendo, tal qual um Athayde Patreze musical, começo aqui a série “Corazza Visita: Axé Music”.


Vale Night: minha parte eu quero em blues

Para abrir os trabalhos, algo que vi num outdoor há pouco tempo em uma avenida aqui da capital baiana: o Vale Night. O digno cidadão Duval Lélis, que descubro posteriormente ser vocalista da banda Asa de Águia, aparece apontando pra cima: “Vai rolar o vale night!”. Ok. Como outdoor não tem link pro YouTube, vou atrás da coisa quando chego em casa.

A obra-prima começa com “todo mundo tem direito a pelo menos um dia de folga por semana”. Getúlio Vargas ficaria orgulhoso do Durval Lélis. Mais adiante, ainda em tom de apresentação grandiosa, “peça o seu vale night e caia na folia”. Não, eu também não entendi, mas vamos em frente.

A sequência é “você não se ache, você não me alugue, você não me acabe, não, que daí, não tem quem aguente, sou muito decente…”. Percebam um certo exagero na decência do rapaz. Tirando isso, o verso não tem nada que se aproveite, não, não tem o que atraia, não, não, não… Preciso calcular se essa música tem mais vezes o termo “não” do que uma composição de Caetano. Estou em dúvida.

“Oh, meu bem, é muito trabalho na semana inteira, quero só meu dia de paz”. Muito trabalho? Acho que perdi alguma coisa. Vou ouvir o resto, peraí. “Encontrei a solução pra essa agonia: peça o seu vale night e caia na folia”. Agora, tudo faz sentido. O vale night seria como aquele cartãozinho de “saia da cadeia” do Jogo da Vida (ou seria Banco Imobiliário?). Bem, se o cidadão já está no Carnaval de Salvador, ouvindo esse negócio e suando sob o abadá de mil pratas num sol de 220 graus, não entendo por que pedir algo desse tipo. Enfim, prossigamos…

“Ela me deu um vale night, ô, ô, ôôô…” Que bom: o rapaz, finalmente, conseguiu o vale night. Também, com uma argumentação sólida, estóica e rigorosa como a demonstrada nos versos anteriores, só se a namorada do cidadão fosse uma desumana sem coração para não conceder o benefício, ô, ô, ôôô. Tou quase desistindo de ouvir.

“A gente precisa de uma saída, afinal. A festa com o vale night abalou geral”. Ok, chega. Já conheci, já sei do que se trata e vou responder com a maior elegância quando alguém me falar do vale night: conheço, já ouvi até um minuto e trinta e um segundos.

Conclusão: a qualidade musical de Vale Night, com boa vontade, é ruim. Um erro histórico impede o vivente de entender de cara o que acontece na letra – ninguém usa “vale alguma coisa” há muito tempo. Talvez, se fosse um ‘Tick’ Night ou um VR Night a coisa ficasse mais clara. De qualquer modo, a levada marota e a guitarrinha-moleque têm tudo pra levar à loucura aquela moçada sadia que paga mil dinheiros em um abadá. Em uma escala de zero a dez, prefiro me calar.

6 Comentários

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  • O lulismo chegou no Axé Music.

  • Timbalada é desejo de um novo dia, meu rei

  • fazer o quê, cidadão?

  • Não se sinta diminuído por não ter entendido o vale-night. Acabo de passar o reveillon em Salvador e também não entendi essa “letra” que parece já ter virado um clássico da baianidade. É que os artistas da axe music são muito completos – cantam, dançam, balançam a cabeça e ainda falam “joguem as mãos para o ar”- e, por isso, a musicalidade deles é um tanto complexa. Não se acanhe. E vá descendo a piriquita até o chão!

  • Oxente Felipe, você conseguio a proeza de ir até o um minuto e trinta. Por que será que em quase trinta anos de Salvador, me adaptei tão rápido a São Paulo?!!!

    Olhe meu véio… não me conte seus problemas e se jogue maluco! rsrs

  • Felipe, você conseguiu a proeza de ir até o um minuto e trinta. Por que será me adaptei tão rápido a São Paulo?!!!

    Olhe meu véio… não me conte seus problemas e se jogue maluco! rsrs

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