Político$

A voz corrente é a de que os deputados norte-americanos temeram aprovar o pacote de resgate a Wall Street com medo da reação dos eleitores enfurecidos. O bilionário Jim Rogers, uma das fontes mais ouvidas quando o assunto é o mercado de commodities, já disse que os contribuintes dos EUA não gostam nada de ver o governo dando seu dinheiro para pagar as Maseratis dos CEOs do mercado financeiro.

Então, por que os dois candidatos à Presidência dos EUA, mesmo pisando em ovos, acabaram pedindo que o Congresso aprovasse o plano? Os dois não entram na conta dos que temem a perda de votos? É claro que sim. E se um deles, de repente, dissesse que é contra e deixasse o outro a ver navios eleitorais indo embora? Não, nenhum deles o faria. Por quê? Fui tentar ver a razão.

O site www.opensecrets.org lista as doações de campanha recebidas pelos dois candidatos à Presidência dos EUA. Barack Obama e John McCain receberam dinheiro de alguns dos grandes do mercado financeiro, assim como no Brasil as doações de campanha incluem os maiores bancos do país.

Ao contrário do Brasil, no entanto, a doação não é feita diretamente pela instituição, ou seja, não há um CNPJ único por trás do dinheiro. As ofertas de dinheiro são feitas por funcionários, familiares de funcionários e pelos PACs (Political Action Committees) das empresas. A doação por meio de PACs é limitada. Há valores determinados que não podem ser ultrapassados.

Uma boa matéria para explicar os métodos e limitações de doação de campanha nos EUA é esta aqui, do amigo Luiz Raatz.

Os quadros de maiores doações de ambos os candidatos são os seguintes:

As cinco maiores doadoras da campanha do republicano são empresas do mercado financeiro listadas no índice Dow Jones do NYSE (New York Stock Exchange). Entre as cinco maiores financiadoras de Obama, três não estão no Dow Jones. Duas delas: as universidades da Califórnia e de Harvard. Esta última é a universidade onde Obama se formou em direito, tendo sido editor da Harvard Law Review. O comentarista político norte-americano Mark Shields, comentando o discurso de Obama na convenção democrata de 2004, chegou a dizer que a Presidência era o segundo cargo mais cobiçado do país, perdendo para o de editor da revista de Harvard. O terceiro doador de Obama que não aparece no Dow Jones é a Google Inc, cujas ações são listadas no índice de tecnologia NASDAQ.

Perdas

Entre as empresas que apoiaram Barack Obama e estão listadas no índice Dow Jones da bolsa de Nova York, a que sofreu as maiores perdas no fechamento da segunda-feira em que a Câmara rejeitou o plano de salvação foi o banco JP Morgan Chase & Co, com uma queda de 15,01% em suas ações.

Na lista de doações para McCain, a perda maior entre as cinco maiores doadoras é do banco de investimentos Merril Lynch, recentemente vendido na bacia das almas para o Bank of America. As ações do banco tiveram uma queda de 19,59%. As outras perdas não são pequenas, considerando-se o tamanho do capital aberto das empresas envolvidas.

O quadro de perdas no “Dia D” foi o seguinte para as cinco maiores financiadoras de cada campanha com capital aberto:

O jóquei clube eleitoral

Fazendo uma menção rápida à forma como o OpenSecrets.org explica o sistema de doações, vale pegar o trecho “These contributions can come from the organization’s members or employees (and their families). The organization may support one candidate, or hedge its bets by supporting multiple candidates”. Alguém no Brasil teria colhão de falar algo assim? Quantas vezes o presidente do Itaú ou o CEO da Odebrecht já declararam que doam para vários candidatos para melhorar as chances de as apostas darem certo? Perguntar não ofende.

Enfim, o componente ideológico ou estrutural de qualquer apoio dos candidatos ao pacote de salvação me parece bem menos importante do que o lobby dos financiadores de campanha. O que isto implica se for verdade? Implica na continuidade desta política de mercado que está levando o dólar à lona – e boa parte do mundo junto -, já que significa que qualquer que seja o vencedor da corrida, a regulamentação do mercado continuará sendo feita de acordo, apenas, com as vontades do mercado. E das Maseratis dos CEOs, é claro.

Em tempo, o domínio do OpenSecrets.org está registrado sob o código D931210-LROR. Quem responde pelo site é o “The Center for Responsive Politics”.

(Agradeço à Ana pela ajuda para este texto. Saudade)

P.S.: Tá, as tabelas ficaram porcas. Culpem a turma do software livre, que me convenceu que não pagar nada pra ter o GIMP era mais vantajoso do que pagar uma pusta grana pra ter o Photoshop ou o Illustrator.

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