Carlinhos Brown e o imponderável
Há coisas na vida que é melhor dizer logo, na lata, como quem arranca um esparadrapo do braço: Carlinhos Brown é legal. Antes que o distinto leitor saia do blog e o remova impiedosamente da lista de RSS, vamos aos fatos. No curso intensivo de baianidade que tenho feito – vide os posts anteriores sobre axé music -, acabei tendo mais uma aula prática em um ensaio de Margareth Menezes, tendo o supracitado cidadão como convidado. Não sem uma certa confusão mental, cheguei à conclusão já exposta.
Antes que meus pais me deserdem e o Chico Buarque deixe de frequentar este espaço, a história toda começa com a banda Cortejo Afro. Cheguei ao local e esse povo estava fazendo um batuque de lascar em cima do palco (aliás, um palco genial). Depois das últimas batucadas, Margareth sobe e começa o show. Muito bom, muito bem, animado e por aí vai. Mas o melhor vinha depois.
Ali pelos 30 do primeiro tempo, umas cervejas já fazem o digno espectador balançar um pouco a perna ao som dos tambores. Até aí, normal. Eis que, no começo da segunda etapa, o contra-regra leva um timbau para o proscênio (gostaram?) e sobe aquela figura esquisita, de paletó branco, óculos escuros e uma elevação parecida com a corcova de um zebu na cabeça.
Brown anima o lugar como poucas vezes vi alguém fazer. Correndo pelo palco, vai berrando umas coisas desconexas e cantando quando dá. Mas o que interessa mesmo é a batida do tambor ao fundo. Ritmo sensacional. Finda a cerveja, parto para a “caipirinha” de maracujá – caipirinha de verdade é de limão, o resto é batida, aprendi com meu sábio pai. Exatamente entre o terceiro e o quarto goles, vem a iluminação: esse cara não faz a menor questão de ter uma letra boa na música. Senão, vejamos:
Repararam? Brown é meio como Tim Maia em alguns pontos: dane-se o sentido da palavra. Cabe no ritmo? Vamo que vamo. Depois de perceber isso, fui ouvir outras coisas do sujeito e entendi por que os alemães gostam tanto dele. A letra, simplesmente, não importa. O lance é a batucada. Ele e Margareth cantaram Faraó como podiam ter cantado Ciranda, Cirandinha, se encaixasse na percussão. E, falando com total honestidade, o que importa em um Carnaval? A intelectualidade-pensante-fodona-saudosista, por acaso, já parou para analisar o caráter épico da frase “Mamãe, eu quero mamar”? Não, né? Então, meu rei, como dizem por aqui, “me deixe”.
Para quem sentiu falta do tradicional mau-humor deste que vos bloga no presente post, muita calma. O Carnaval está vindo aí e penso, seriamente, em fazer reportagem de campo no “primeiro bloco sertanejo de carnaval do mundo“, cujo release acabo de receber. Como diz @nairbello, vamos acompanhar.
