SporTV pede desculpas

Fui avisado via Twitter pelo @raphaprado de que o SporTV pediu desculpas ao povo paraguaio pela estupidez do material que foi ao ar durante a Copa (veja no post anterior). Menos mal. Do cacete, nessa história toda, é que o movimento contra a citada “matéria” foi fortíssimo, tanto entre twitteiros quanto em blogs e outros veículos. Confira comigo no replay:

A bobeira virou regra

Algumas das reclamações mais recorrentes dos colegas da imprensa esportiva passam pelo desrespeito que outros jornalistas têm pela área. Jornalista esportivo é, há muito tempo, tratado como profissional de segunda classe, como gente que cobre coisas sem importância e não faria falta no mundo. Há, de fato, quem pense assim nas redações. Pessoas que não entendem, pra começar, que futebol é coisa séria num país onde ele movimenta uma economia à parte e gera movimentos de massa que engarrafam uma cidade inteira ou provoca tragédias monumentais, como as brigas campais ou as quedas de arquibancadas por superlotação.

Mas eis que chega o fim da primeira década dos anos 2000 e (alguns dos) próprios jornalistas esportivos resolvem justificar a desconfiança de certos colegas de profissão. Como? Tratando times, seleções, jogadores e torcedores como piadas – ou como imbecis, ou ambos. Edições engraçadinhas, antes usadas em poucos e seletos momentos do jornalismo esportivo na TV, viraram rotina. Aliás, rotina é pouco. Viraram obrigação. Não há mais UMA mísera matéria que não tenha uma trilha sonora bizarra, efeitos sonoros dignos do seriado antigo do Batman – Pow! Soc! – e intervenções sem sentido de “torcedores-símbolo”, sucessores daquele pobre diabo do Zina, filmado na porta do Pacaembu.

Animados por uma espécie de “zeitgeist do Bozo”, os bravos jornalistas conseguem transformar o estiramento muscular de um lateral do Fluminense de Feira de Santana em uma oportunidade de piada. Amigos, acreditem: não tem graça. Nem o time, nem o lateral, nem o estiramento. Nada disso tem graça, ninguém quer ver piadas de dois minutos a respeito e se vocês não têm informação suficiente para uma matéria decente sobre o assunto, esqueçam. Uma nota coberta de 15 segundos resolve a questão. Parece que não tem nenhum editor-chefe pra chegar no cidadão e falar “não força a barra, isso tá horrível”. Se Tiago Leifert está vivo (e empregado), tudo é permitido.

Como a porteira já está escancarada, passa tudo. Quem vai chamar à atenção um cara que edita uma “matéria” dizendo que o Paraguai só tem uma moeda de merda, mulher peituda e contrabando? Quem vai repreender o autor de um off dizendo que os paraguaios oferecem “paisagens exuberantes” enquanto a imagem mostra um cidadão do país carregando um rifle por uma estrada árida? Não pode. Faz tudo parte do Gran Circo Jornalismo Esportivo 2010. Ou não? Veja aí o SporTV que não me deixa mentir:


Bons tempos em que Engraçadinha era só uma minissérie…

Há alguns anos, Marcio Canuto era tratado como piada. Quem ainda tem um pingo de noção, ainda o trata assim – a propósito disso, consultar Periferia, SORRY (29 de junho de 2010 – 1:58). Aos poucos, vemos que Canuto vai virando mais normal. As entradas ao vivo dele, notoriamente vexatórias, passam a se integrar melhor ao Globo Esporte, ao Central da Copa ou coisa que o valha. Começa a passar batido. Não, não é o Canuto que tá melhorando. São os outros que tão chegando mais perto dele. Isso cresceu de tal forma que até o Cid Moreira – que Deus o tenha – entrou na dança. Virou vinheta engraçadinha pra transmissão ao vivo.

Colocar um sujeito claramente senil para balbuciar “jabulaaaaani”, tal qual um moribundo pede “áááguaaaa” no deserto, é ultrapassar o limite do ridículo. Com um trator. A 120 km/h. O que isso acrescenta jornalisticamente à cobertura – exceto informar que a Globo gosta de tratar como debilóides âncoras que, bem ou mal, são parte de sua história? Nada, zero. É engraçado o suficiente, então, para acrescentar algo em entretenimento? Não, não é. É como dar risada de um idoso levando um tombo. Coisa de moleque tosco ou adulto imbecil. Se esse é o público-alvo, ok, missão cumprida. Pra mim, é só constrangedor.

Glauco

A pesquisa necessária pra fazer um post decente sobre Glauco me impede de ser pretensioso nesse. Assim, só sei que foi assim: Glauco, junto com Angeli e Laerte, concretizou uma aspiração que Henfil manifestou por muito tempo: o quadrinho brasileiro havia de tomar o lugar das tiras distribuídas por agências de fora. Fez-se isso. Obrigado, Glauco. Não vou escrever mais muita coisa. Vou meter logo é um vídeo do YouTube que eu acho a sua cara:

Johannes Oelsner

Esse post não tem nada engraçadinho, desculpem. Acabo de saber da morte de Johannes Oelsner. Oelsner foi o violista do Quarteto Haydn, embrião do Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo, o primeiro corpo estável do Theatro Mvnicipal paulistano. Oelsner, nascido em Dresden, na Alemanha, foi muito mais do que um músico notável.

Veio da Alemanha para o Brasil em uma turnê da Orquestra Filarmônica de Dresden pouco antes de o Brasil declarar guerra à Alemanha. O país entrou no conflito e Oelsner não pôde embarcar de volta - assim como seus colegas de orquestra. Até quando o entrevistei, em 2005, ele não conseguia pronunciar “Segunda Guerra”. Parava um pouco antes, como se fosse algo triste demais para sair da boca de um músico. Tinha razão.

Quarteto

O primeiro Quarteto: Alfonsi, Schaffman, Corazza e Oelsner

Os músicos, impedidos de voltarem à Alemanha, por outro lado, não podiam ser alemães no Brasil, país inimigo. Solução: abrigo na casa de um industrial alemão em Caieiras, hoje Grande São Paulo. Para sobreviver, Oelsner continuou fazendo apresentações para a alta sociedade paulista da época. Uma das apresentações foi acompanhada atentamente por Mário de Andrade, diretor do Departamento de Cultura do Município. “O senhorrr Márrrio”, como dizia Oelsner sem ter perdido o sotaque, convidou o violista a fazer parte do quarteto que se formava no Mvnicipal. Aceito o convite, Oelsner juntou-se a Gino Alfonsi, 1º violino, Alexandre Schaffman, 2º violino, e Calixto Corazza, meu tio-avô, violoncelo.

“Tente se abrasileirar um pouquinho” foi uma das primeiras frases que Oelsner ouviu de Calixto, como ele próprio disse. E seguiu o conselho. Já casado com uma brasileira, passou a amar o país e foi morar em uma casa perto de onde hoje fica o Jóquei Clube. Ali, depois de deixar o quarteto, dava aulas de música e recebia aspirantes a jornalistas que tentavam extrair dele uma essência que não poderia ser compreendida com palavras.


A formação atual do Quarteto: Stegmann, Rios, Suetholz e Jaffé

Tocou no quarteto por 37 anos e até a sua morte era consultado pelos atuais integrantes do corpo. Viu, emocionado, a primeira execução do Angelus, de André Mehmari, no espaço Promon. A peça foi composta por Mehmari para piano e quarteto. Oelsner foi ao camarim depois da apresentação. E pediu permissão para entrar. Johannes Oelsner morreu aos 94 e foi uma das pessoas mais sublimes que já pisaram nesta terra. Calixto, Alexandre e Gino que o recebam de braços abertos para o primeiro ensaio do Quarteto Haydn, agora completo, em outras plagas. Obrigado, Johannes.

Carlinhos Brown e o imponderável

Há coisas na vida que é melhor dizer logo, na lata, como quem arranca um esparadrapo do braço: Carlinhos Brown é legal. Antes que o distinto leitor saia do blog e o remova impiedosamente da lista de RSS, vamos aos fatos. No curso intensivo de baianidade que tenho feito – vide os posts anteriores sobre axé music -, acabei tendo mais uma aula prática em um ensaio de Margareth Menezes, tendo o supracitado cidadão como convidado. Não sem uma certa confusão mental, cheguei à conclusão já exposta.

Antes que meus pais me deserdem e o Chico Buarque deixe de frequentar este espaço, a história toda começa com a banda Cortejo Afro. Cheguei ao local e esse povo estava fazendo um batuque de lascar em cima do palco (aliás, um palco genial). Depois das últimas batucadas, Margareth sobe e começa o show. Muito bom, muito bem, animado e por aí vai. Mas o melhor vinha depois.

Ali pelos 30 do primeiro tempo, umas cervejas já fazem o digno espectador balançar um pouco a perna ao som dos tambores. Até aí, normal. Eis que, no começo da segunda etapa, o contra-regra leva um timbau para o proscênio (gostaram?) e sobe aquela figura esquisita, de paletó branco, óculos escuros e uma elevação parecida com a corcova de um zebu na cabeça.

Brown anima o lugar como poucas vezes vi alguém fazer. Correndo pelo palco, vai berrando umas coisas desconexas e cantando quando dá. Mas o que interessa mesmo é a batida do tambor ao fundo. Ritmo sensacional. Finda a cerveja, parto para a “caipirinha” de maracujá – caipirinha de verdade é de limão, o resto é batida, aprendi com meu sábio pai. Exatamente entre o terceiro e o quarto goles, vem a iluminação: esse cara não faz a menor questão de ter uma letra boa na música. Senão, vejamos:

Repararam? Brown é meio como Tim Maia em alguns pontos: dane-se o sentido da palavra. Cabe no ritmo? Vamo que vamo. Depois de perceber isso, fui ouvir outras coisas do sujeito e entendi por que os alemães gostam tanto dele. A letra, simplesmente, não importa. O lance é a batucada. Ele e Margareth cantaram Faraó como podiam ter cantado Ciranda, Cirandinha, se encaixasse na percussão. E, falando com total honestidade, o que importa em um Carnaval? A intelectualidade-pensante-fodona-saudosista, por acaso, já parou para analisar o caráter épico da frase “Mamãe, eu quero mamar”? Não, né? Então, meu rei, como dizem por aqui, “me deixe”.

Para quem sentiu falta do tradicional mau-humor deste que vos bloga no presente post, muita calma. O Carnaval está vindo aí e penso, seriamente, em fazer reportagem de campo no “primeiro bloco sertanejo de carnaval do mundo“, cujo release acabo de receber. Como diz @nairbello, vamos acompanhar.

Salvador, uma cidade divertida

Você está andando pela rua, cantarolando baixinho uma do Paulinho da Viola e, de repente, aparece um…

Cachorrao

… cachorro gigante feito de garrafas PET que alguém, sem muito motivo aparente, resolveu construir. Não sei bem a razão, mas sinto um alento quando vejo essas coisas nonsense gratuitamente pelas ruas. Soterópolis tem disso.

Corazza Visita: Axé Music #2

 ”Hoje eu acordei com uma vontade de sofrer”. O genial verso de “Furo na Testa”, dos Abimonistas, é perfeito para abrir mais este capítulo de nossa série. Acordei com vontade de sofrer e perseverei na tentativa. Um café pra espantar a ressaca e bora para o Ensaio de Verão do Parangolé. Como? Não sabe o que é o Parangolé? Pois, observe:

Sentiu? Então. Dando um passo adiante nestes posts temáticos, resolvo fazer um pouco de reportagem de campo (ui!) e vou para um dos 10 milhões de “ensaios de verão” que acontecem diariamente em Salvador nessa época. Porcaria por porcaria, escolho a que fica mais perto de casa, logicamente. Passo no Speed Burguer (o melhor lanche ruim de Soterópolis) e vou para a tal Área Verde do hotel Othon.

No caminho entre o Speed e o inferno, digo, o show, vou sondando os cambistas. Começa em 50 pratas. Caro demais. Vou chegando perto e o preço vai caindo. Acho um sacripanta que pede 25 numa meia-entrada (preço original: R$ 15). Compro o bilhete e vou à luta.

A fauna que chega ao local é variada. Tem emo, gente bombada, paulistas axezeiros reconhecíveis a quilômetros de distância, mulheres que possivelmente serão estrelas das Brasileirinhas algum dia e um travesti altamente esquisito, com um top branco, short de piriguete e barba por fazer. Encosto numa mureta e fico vendo o zoológico por alguns minutos antes de entrar no ensaio, o que acontece quando interropem o hip-hop que tocava alto e o locutor anuncia o Parangolé.

Meu firme propósito de permanecer sóbrio vai embora logo na primeira, vá lá, música. Uma sucessão de gritos incompreensíveis, misturada aos berros da moçada jovem e sadia que estremece mais que epilético assistindo Pokémon. Sem cerveja é impossível. A gelosa no lugar custa 4 dinheiros e, pra terminar de ferrar, só tem Nova Schin.

Penso em ir embora, mas lembro que o melhor está por vir. Sim, porque “Sacode a Laje”, aquela jóia da cultura universal que você viu ali depois do primeiro parágrafo, não é nada perto do grande sucesso do verão: o “Rebolation”! Não posso deixar o recinto antes de ver isso acontecer ao vivo:

A segunda obra executada também é incompreensível. Não faço ideia do que o cidadão aí, o vocalista Léo Santana, berrou. Pra falar a verdade, tava prestando mais atenção ao pessoal da segurança que, na maior tranquilidade, dançava e fazia fotos com os celulares. De repente, entendo algo que vem do palco: “Essa é a do verão! Essa é a do Carnaval!”. Será? É muita emoção.

Com a certeza de que o Rebolation seria a terceira música do set list e animado pela perspectiva de me mandar logo, deixo a boa gente da segurança em paz e me concentro no show. “Bota a mão na cabeça que vai começar” é o verso que abre os trabalhos. Composto, possivelmente, por algum policial militar, o trecho leva à loucura o pessoal “parangoleiro”, que bota a mão na cabeça e põe-se a rebolar – a primeira reação é recomendável em uma blitz da PM. A segunda, não.

O resto da música é bem minimalista. Resume-se a “rebolation é bom, bom; rebolation é bom, bom, bom” e “alô, minha galera, preste atenção, rebolation é a nova sensação. Menino e menina não fique de fora (sic) que vai começar o pancadão”. Chupa, Puccini. Pra completar, tem um sintetizadorzinho de fundo que fica o tempo inteiro zunindo na cabeça do vivente. Aquilo gruda nas ideias e, certamente, fará a alegria dos psiquiatras e da fábrica de Rivotril depois da Quarta-feira de Cinzas.

Terminados o rebolation e minha latinha da horrível cerveja, avisto logo a faixa: “SAÍDA – SEM RETORNO”. Pode ter certeza, irmãozinho. Como ponto positivo, o povo parecia estar se divertindo de fato, e não só querendo mostrar que tinha dinheiro pra comprar um abadá de mil pratas – como parece acontecer no Carnaval.

Conclusão: O rebolation não é bom, bom, bom. Em comparação com o Vale Night, avaliado em nossa última expedição, tem a vantagem de ser despretensioso e tosco com convicção. Em uma escala de 0 a 10, é melhor ouvir besteira do que ser surdo. Em tempo: o Rebolation não é considerado, exatamente, Axé Music. É o que chamam por aqui de Pagodão. Sinceramente, não vou mudar o título de uma série só pra acomodar uma besteira dessa.

Corazza Visita: Axé Music #1

Uma das frases que mais ouço na Bahia é “ah, vai fingir que você não conhece?”. Normalmente, isso está associado a algum fenômeno da música carnavalesca local. Tento, em vão, argumentar que não conheço mesmo a figura-banda-ritmo-abadá. Não adianta. Sou tratado como um pedante que não tem coragem de assumir sua paixão por coisas como “rala a tcheca no asfalto” ou “senta, levanta, senta, levanta, senta, levantaaaaah!”. Assim sendo, tal qual um Athayde Patreze musical, começo aqui a série “Corazza Visita: Axé Music”.


Vale Night: minha parte eu quero em blues

Para abrir os trabalhos, algo que vi num outdoor há pouco tempo em uma avenida aqui da capital baiana: o Vale Night. O digno cidadão Duval Lélis, que descubro posteriormente ser vocalista da banda Asa de Águia, aparece apontando pra cima: “Vai rolar o vale night!”. Ok. Como outdoor não tem link pro YouTube, vou atrás da coisa quando chego em casa.

A obra-prima começa com “todo mundo tem direito a pelo menos um dia de folga por semana”. Getúlio Vargas ficaria orgulhoso do Durval Lélis. Mais adiante, ainda em tom de apresentação grandiosa, “peça o seu vale night e caia na folia”. Não, eu também não entendi, mas vamos em frente.

A sequência é “você não se ache, você não me alugue, você não me acabe, não, que daí, não tem quem aguente, sou muito decente…”. Percebam um certo exagero na decência do rapaz. Tirando isso, o verso não tem nada que se aproveite, não, não tem o que atraia, não, não, não… Preciso calcular se essa música tem mais vezes o termo “não” do que uma composição de Caetano. Estou em dúvida.

“Oh, meu bem, é muito trabalho na semana inteira, quero só meu dia de paz”. Muito trabalho? Acho que perdi alguma coisa. Vou ouvir o resto, peraí. “Encontrei a solução pra essa agonia: peça o seu vale night e caia na folia”. Agora, tudo faz sentido. O vale night seria como aquele cartãozinho de “saia da cadeia” do Jogo da Vida (ou seria Banco Imobiliário?). Bem, se o cidadão já está no Carnaval de Salvador, ouvindo esse negócio e suando sob o abadá de mil pratas num sol de 220 graus, não entendo por que pedir algo desse tipo. Enfim, prossigamos…

“Ela me deu um vale night, ô, ô, ôôô…” Que bom: o rapaz, finalmente, conseguiu o vale night. Também, com uma argumentação sólida, estóica e rigorosa como a demonstrada nos versos anteriores, só se a namorada do cidadão fosse uma desumana sem coração para não conceder o benefício, ô, ô, ôôô. Tou quase desistindo de ouvir.

“A gente precisa de uma saída, afinal. A festa com o vale night abalou geral”. Ok, chega. Já conheci, já sei do que se trata e vou responder com a maior elegância quando alguém me falar do vale night: conheço, já ouvi até um minuto e trinta e um segundos.

Conclusão: a qualidade musical de Vale Night, com boa vontade, é ruim. Um erro histórico impede o vivente de entender de cara o que acontece na letra – ninguém usa “vale alguma coisa” há muito tempo. Talvez, se fosse um ‘Tick’ Night ou um VR Night a coisa ficasse mais clara. De qualquer modo, a levada marota e a guitarrinha-moleque têm tudo pra levar à loucura aquela moçada sadia que paga mil dinheiros em um abadá. Em uma escala de zero a dez, prefiro me calar.

Alborghetti no purgatório

Outro dia, ninguém perguntou pra mim “pô, você ainda mantém aquele blog?”. Putz, o blog. O tempo tá escasso (mentira, eu vou é pro boteco quando devia estar escrevendo) e o ânimo tá complicado (verdade. Você entenderia se estivesse nesse calor senegalês que faz em Salvador, Bahêa). De qualquer modo, abandono mais uma vez a Genivalda – minha rede – e vamo que vamo.

O fim do ano na capital baiana está interessante. A temperatura esquenta a cada minuto que passa. As emissões de gases-estufa, pelo que percebo, são fichinha perto das emissões da fumaça de dendê das barracas de acarajé. O Bahia comemora a permanência na Série B, o Vitória comemora a permanência na zona da Sul-Americana, os motoristas de ônibus comemoram a permanência no lado de fora de um hospício e por aí vai… Mas não era disso que eu ia falar.

Quero fazer, aqui, uma homenagem a Luiz Carlos Alborghetti, morto hoje na bonita e joiada capital paranaense. Enquanto muitos xingam, não sem razão, o grande Dalborga (apelido auto-atribuído, uma mistura de “dom” e “Alborghetti”), parto para a defesa de um dos aspectos fundamentais deste grande comunicador – adoro essa palavra.

Alborghetti era uma das coisas mais engraçadas de toda a baixa mídia brasileira. E da alta também. Era um trapalhão sem igual na categoria “reacionários-que-perdem-a-modéstia”. Se não, vejamos como Dalborga noticiou o surgimento do ET de Varginha, parente do vice-presidente de Juiz de Fora:

Assistiu ao vídeo? Pois bem. Agora, imagine um sujeito do naipe de Diogo Mainardi fazendo isso. Impossível. Falta-lhe a fibra. Aquilo que ele faz em suas – vá lá – colunas é um arremedo de ironia, com traços inconfundíveis de babaquice arrogante. Não chega perto de uma coisa dessas, aqui, ó:

No caso acima, Alborghetti consegue, em uma tacada só, dar mal a notícia, assassinar Ary Barroso e divertir as massas com humor de qualidade duvidosa. O tal CQC não faz nada muito diferente. Em certa altura da carreira, Dal assumiu seu lado Milton Neves e resolveu aceitar uns merchans pra tirar “uns cascaio”, como diria seu discípulo mais famoso, Carlos “Ratinho” Massa:

Para encerrar essa chonga, vamos tentar evitar xingamentos de leitores nos comentários. Dalborga era um reacionário miserável? Sim, claro. Defendia pena de morte e outros absurdos? Sim, defendia. O que pensava Alborghetti não era importante, nunca foi, nunca será. Agora, raciocinem aí: tou errado quando acho mais engraçado ver Alborghetti cantando Aquarela do Brasil do que um episódio de Zorra Total? Eu pergunto, Dalborga responde:

Ah, esses humanos…

Cons.tran.gi.men.to

S.m.

1. ato ou efeito de constranger
2. acanhamento

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