2012 foi um belo ano

Parece que faz tão pouco tempo, Jorge. Parece que faz um ano e pouco que escrevi sobre você e seu avô. Sobre você, que nem estava aqui ainda, e seu avô, que já tinha ido. Não tinha ido embora, mas tinha ido. Tinha ido pra um pouco mais longe, mas ainda estava aqui bem perto quando você nasceu.

Até parece uma repetição, mas quando a gente só conseguia ouvir teu coração na mesa de exames, já era mais do que isso. Chegar perto com o ouvido pra escutar tua respiração. Uma, duas, dez vezes. Mil vezes. Dez mil vezes. Pra sempre.

O ano passado foi teu, Jorge. Como serão todos os próximos anos da minha vida. Bem vindo. É difícil, mas vale a pena. Você já sabe rir disso tudo. Bem vindo.

Dia quinze do mês quatro

Não lembro exatamente qual idade eu tinha. Meu pai me chamou pra ouvir e começou a tocar essa música. O violão ainda era o velho, o que tinha um desenho esverdeado e uma lasca de madeira mostrando que ele musicava aquela casa quase diariamente. Escutei uma vez, duas, três. Ele me disse que ainda ia se inscrever em um festival com essa música. Gostava mesmo e eu gostei também.

Meu pai cantava bem pacas. Hoje, faz um ano que eu deixei de poder perguntar por que ele gostava tanto dessa música. Eu acho que sei. Acho que ele olhava pra mim e pensava que eu sabia. No fim das contas, todos sabemos tudo o tempo todo. O que não fazemos é falar. Eu entendi, pai. E entendo cada vez mais. Seu neto também vai ouvir e entender.

Primavera Caminhoneira

Deixei isso aqui parado por um tempão e por motivos que não vou explicar – são bons e os poucos assíduos sabem disso. Eis que os distribuidores de combustível paulistas anunciam um locaute e reativo a casa. Este post é só pra compilar os meus tuítes sobre a Primavera Caminhoneira paulistana e juntar os melhores replies que recebi. Apenas curtam, se puderem.

A coisa toda começou com uma constatação óbvia:

São Paulo sem gasolina dava um bom conto

E por aí foi:

“Dia 3 sem gasolina: paulistanos começam a desmaiar pelas ruas. Polícia tenta conter horda vestida de Carmem Miranda na Marginal”

“Dia 4 sem gasolina: vestindo sunga e paletó, homem escala ponte estaiada gritando ‘Salva nós, Marcelo Tas!'”

“Dia 5 sem gasolina: ruas vazias, exceto por yuppies que vagam desorientados. Homem é preso tentando abastecer carro com crack”

Eis que @felipecabeca entrou na jogada com:

Hordas de SUVs dirigidas por mortos-vivos e pilhando os postos de gasolina. Força Nacional nas refinarias e tal.”

Peguei o mote e prossegui:

“Dia 6 sem gasolina: Profetas na Sé garantem que no dia do abastecimento final o Grande SUV Branco descerá do céu trazendo diesel”

“Dia 7 sem gasolina: ‘Tá nota 10’, diz Kassab”

“Dia 8 sem gasolina: paulistanos acendem velas para um grande José Serra feito de garrafas PET orando pela volta do combustível”

Então, o deselegante @elderc decidiu pular a linha do tempo:

Dia 12: motoristas se afogam no rio Tietê. “É um rio de álcool, é um milagre!”, diziam antes de se atirar da ponte das Bandeiras”

Retuitei, mas fiquei firme e mantive a linha:

Dia 9 sem gasolina: Osasco invade”

A putaria de @elderc deu ousadia ao desclassificado do @rapha_prado:

“Dia 15: mais dois ciclistas são espancados na Avenida Paulista, em mais um ataque de ciclofobia”

A essa altura do campeonato, já não tinha forças pra resistir à maré e @charlesnisz completou a parada:

Dia 10: No desespero, pessoas põem cachaça no tanque do carro #spsemgasolina

Como não podia entregar a rapadura assim, como quem entrega um partido político na mão do Kassab, arrematei:

“Ano 273 sem gasolina: espécie mutante sobre rodas domina SP. ONU isola a cidade, que passa a ser chamada apenas de ‘Distrito K'”

Foi isso, senhoras e senhores. No atual estágio de paranóia e vigilantismo dessa cidade, o link deste post já deve ter sido enviado para as autoridades competentes e aguardo visitas de todos ali no Cadeião de Pinheiros (“CDP” é meu ovo!). Levem cigarros.

2011

2011 foi de dois corações. O primeiro deles parou de bater no dia 15 de abril. O segundo eu vi, e ouvi, bater pela primeira vez no dia 14 de novembro. Tudo o que eu devo ao primeiro será devidamente entregue ao segundo. O resto, todas as alegrias, brincadeiras, angústias, tristezas, tudo o que seria para este texto, fica guardado pro segundo coração, que vai precisar muito. E tudo o que ele vai receber vem com uma marca indelével do primeiro coração, com o carinho que ele teria para o neto. O que 2011 me cobrou, paguei. O mundo me explicou, da forma mais clara possível, que sou só uma ponte. Vou (vamos?) por ela até onde aguentar um terceiro coração, o deste mero intermediário aqui. Há outros corações – preciosos, enormes – envolvidos na história. Mas este é só um pequeno texto. Feliz ano novo.

Ao meu pai

Pensei em escrever muito mais. É certo que ainda o faça. Também tentei, por um instante, lembrar de tudo ao mesmo tempo. Não. É melhor lembrar aos poucos. Lembrar aos poucos, mas sempre, por toda a vida. A primeira lembrança, esta que me faz escrever, é da última vez em que vi meu pai vivo. Foi há menos de uma semana, em Atibaia, onde ele sempre sonhou viver – e pra onde se mudara havia pouco mais de seis meses.

Almoçamos, conversamos, passeamos um pouco e ele, mais uma vez, mostrou os pés de mexirica que já estavam tão carregados de frutos. Depois, fomos ao escritório, uma parte da casa em eterna e saborosa arrumação. Ele mostrou as novas estantes, o verniz novo no chão de madeira. Depois, começou a separar livros. Não para organizar na estante, mas para dá-los a mim. “Já tem esse?”. O último deles, o último livro que meu pai me deu, foi ‘Confesso que Vivi’. É a obra de memórias de Pablo Neruda.

Antes de sair do escritório para voltar a São Paulo, abracei meu pai e agradeci pelos livros. O nosso último encontro antes do que aconteceu foi assim. Meu pai mostrando em algumas horas que a vida, a vida que ele confessou que viveu, estava finalmente como ele sempre imaginou que fosse ser a essa altura. E eu, que hoje me lembro com um calor imenso no coração de que entre as últimas palavras que pude dizer ao meu pai havia um “obrigado”.

A ele, um Neruda:

Saudade

Saudade – O que será… não sei… procurei sabê-lo
em dicionários antigos e poeirentos
e noutros livros onde não achei o sentido
desta doce palavra de perfis ambíguos.

Dizem que azuis são as montanhas como ela,
que nela se obscurecem os amores longínquos,
e um bom e nobre amigo meu (e das estrelas)
a nomeia num tremor de cabelos e mãos.

Hoje em Eça de Queiroz sem cuidar a descubro,
seu segredo se evade, sua doçura me obceca
como uma mariposa de estranho e fino corpo
sempre longe – tão longe! – de minhas redes tranquilas.

Saudade… Oiça, vizinho, sabe o significado
desta palavra branca que se evade como um peixe?
Não… e me treme na boca seu tremor delicado…
Saudade… .”

Fomos todos atropelados em Porto Alegre

É difícil até de acreditar na notícia, quanto mais eu leio sobre o que aconteceu em Porto Alegre na noite de ontem, sexta-feira. Um motorista acelerou o carro pra cima dos ciclistas que participavam do passeio da Massa Crítica – a reunião mensal para um passeio noturno de bicicleta que acontece em centenas de cidades do mundo todo.

Sempre gostei de pedalar e comecei a participar da Massa Crítica aqui em São Paulo há três edições, incentivado pelos amigos @fmuriana e @maucantara. Uma das coisas que mais me chamavam a atenção durante as pedaladas era a impaciência absoluta de alguns motoristas pelo caminho. Na bicicletada de dezembro não tivemos grandes problemas, já que o número de pessoas era bem baixo. Em janeiro, a coisa já foi diferente.

Com cerca de 300 pessoas pedalando num trajeto que saía da Praça do Ciclista, ia até o Jabaquara, descia para a Faria Lima e voltava pela Augusta, foram diversos casos de motoristas que não pretendiam esperar nos cruzamentos até que todos passassem – mesmo com um número grande de ciclistas, a coisa toda não demorava mais do que cinco minutos. Chutando alto.

Comentei algumas vezes durante a própria bicicletada com o Maurício: é impressionante você perceber que um cidadão não consegue conceber uma espera de uns míseros minutos até que outros, que estão pedalando, consigam passar. Se fosse, sei lá, uma carreta daquelas superpesadas, com escolta da CET, o sujeito talvez não se importasse, ou até achasse bacana. Como era um bando de ciclistas, não pode, não dá, é um absurdo, atrapalha, eu buzino, eu acelero. Que merda é essa?

Muitos dos participantes da bicicletada são militantes, levantam a bandeira do uso da bicicleta como uma solução para o trânsito e desprezam o uso do carro. Muitos outros não são. Essa não é a questão. Militante ou não, o que o amigo está pedindo é que uma vez ao mês, numa sexta-feira à noite, o motorista que precisar cruzar espere um, dois, três minutos. No máximo, cinco. Por qualquer ângulo que analise, não consigo achar que isso seja pedir demais.

Digamos que um carro esteja numa emergência, levando alguém para o hospital ou algo do tipo. Todas as vezes em que os ciclistas encostam no cruzamento fechando a passagem, vão conversar com os motoristas. Já vi a bicicletada INTEIRA parar antes de uma faixa de pedestres para dar passagem a uma senhora com dificuldade de locomoção. Não seria problema, caso o motorista avisasse, parar os ciclistas e dar passagem para um veículo em situação de emergência.

O resumão do que eu quero dizer com isso é mais ou menos o seguinte: é realmente inadmissível esperar três ou cinco minutos para dar passagem a um passeio ciclístico? Não estou discutindo a militância, a mobilidade, o trânsito… nada disso. Só perguntando: é realmente uma afronta à sua dignidade como motorista alguém pedir para esperar uns minutinhos pra que essas centenas de pessoas que estão se divertindo passem? Se isso é um absurdo, se pessoas saem disparando que os ciclistas “atrapalham o direito de ir e vir” (!?!), se as bicicletas deveriam “andar na calçada” (é, tem razão, bem melhor ferir o código de trânsito e correr o risco de atropelar pedestres do que VOCÊ ter que esperar uns míseros minutos)…

Se o pensamento que vai predominar é esse, “você não tem o direito de passar na rua com nada que não seja um carro”, vamos bem. Porto Alegre prova que vamos muito, muitíssimo bem. Quem sabe ergam-se bustos em homenagem ao assassino que acelerou sobre a massa. Nas portas das concessionárias. Com romarias semanais de motoristas orgulhosos de seus possantes. E lembraremos que ontem, em Porto Alegre, fomos todos, sem exceção, atropelados.

Atualização: o vídeo do momento do atropelamento (via @dianapellegrini)

Dois abus e uma banana

EXCLUSIVO: Caramelo fala

"Meu nome não é John"
“Meu nome não é John”

Ainda hoje, neste egrégio e impoluto blog, teremos a íntegra da entrevista com Caramelo, o cão. Não gostamos muito de fazer entrevistas por aqui, mas, no momento em que o jornalismo cachorro domina a imprensa, a pauta se impõe. Você, que esculhambou O Globo por abrir uma matéria com aspas do pop-star canino, morda a língua: ele não apenas fala, mas também bebe, joga e mora numa cobertura em Ipanema.

Veja alguns dos melhores trechos da entrevista, cuja íntegra está sob embargo e será publicada assim que a Sociedade Protetora dos Animais e os Alcoólicos Anônimos liberarem:

Infância
“Sabe, eu não nasci assim. Eu era pobre, tinha que passar o dia inteiro na Central do Brasil pra conseguir uns dois ossos e meio copo de Sukita. Um dia, passando em frente à Casa&Video, vi na televisão aquele rapaz, o João Alves, falando de como Deus ajudou ele a ganhar na loteria várias vezes. Aquilo mudou minha cabeça”

Alcoolismo
“Eu não bebo para esquecer. Eu bebo porque o Campari alivia a dor”

Tragédia
“Nunca gostei de Teresópolis. Tava lá a trabalho”

Estrelato
“Tem um monte de cadela agora querendo dizer que é minha amiga. O brasileiro é muito oportunista”

Polêmica com o coveiro

“Meu nome não é John. Desliga o gravador que eu te explico”

Em breve, a entrevista completa com Caramelo, o cão.

Ego sum

Prometi que era assunto pra outro post e aqui vamos nós.

No início, era o Noblat. O mérito: entendeu que “blog” era algo a ser usado como grande mídia comercial. O problema: blog nasceu de web log. Log, um registro do ocorrido. O registro escrito pelo autor e/ou testemunha. Noblat começou a linkar alucinadamente e, por vezes, a reproduzir textos alheios. Pouco a pouco, virou a regra. Mas, deixemos de nostalgia e passemos ao plano seguinte.

O próximo passo: Nassif. Aí, a roda enrosca. A figura, sem dúvida respeitada pelo público leitor, só entendeu o segundo passo de Noblat. Os estilos são diferentes. Nassif fica copiando conteúdo alheio, fingindo fazer jornalismo colaborativo. Já perguntei pra muita gente que não consegue responder: ele divide com os “colaboradores” o lucro dos patrocínios?

O outro passo: Paulo Henrique Amorim. Esse não escreve muito, mas escreve mal quando o faz. Fica soltando frases ao acaso. Houve época em que chamava de “máximas e mínimas” o que fazia. “Máximas e mínimas” era como o Barão de Itararé chamava os aforismos que criava. Em um arroubo de modéstia, PHA parou de usar isso. O que não confere qualquer qualidade maior ou menor ao que ele faz. Pra mim, é merda.

Consequência: Eduardo Guimarães. Esse acha que entendeu tudo, mas não entendeu nada. Diz ser “militante da web”, sem explicar exatamente o que isso significa. Uma pessoa muito querida definiu bem, ao ler o blog: “Esse cara foi diretor de DCE? Porque o discurso é igualzinho”. Sem mais.

O nobre e caro leitor pode perguntar: mas e os de direita? Cito rapidamente: Augusto Nunes é um boçal igual ao Eduardo Guimarães. Diogo Mainardi = Nassif. Reinaldo Azevedo = Noblat da história.

Uma frase de um grande amigo define a porra toda: “Eu não confio na imprensa. Eu confio na rede”

Ósculos e amplexos.

(Tem a babaquice toda dos “progressistas”, mas isso eu nem sei se merece um post)

(Os blogs citados foram linkados, afinal, eles sempre dão link para os que citam, só que ao contrário)

Bombeiros e voluntários

Enquanto o Paulo Henrique Amorim e o Augusto Nunes falam bosta… no Rio de Janeiro:

BombeirosRJ
Foto: Gerson Gonçalo/Agência O Dia

Página 1 de 3612345...102030...Última »